Lucia Sá Rebello – UFRGS
A ideia fundadora e o impulso de uma associação nacional
A história da Associação Brasileira de Literatura Comparada, a ABRALIC, começa antes mesmo de sua ata de fundação. Ela se inicia como projeto intelectual, como intuição coletiva e como gesto de coragem acadêmica em um momento em que a Literatura Comparada ainda buscava maior visibilidade institucional no Brasil. A ideia tomou forma em 1985, em Paris, durante o XI Congresso da Associação Internacional de Literatura Comparada, a AILC/ICLA, realizado na Sorbonne Nouvelle. Naquele ambiente internacional, segundo relatos posteriores, Tania Franco Carvalhal percebeu a necessidade de articular, também no Brasil, uma entidade capaz de reunir estudiosos da área, dar organicidade às pesquisas e inserir a produção brasileira no circuito comparatista internacional.
Esse gesto inaugural é decisivo porque revela, desde o princípio, a vocação da ABRALIC: nascer brasileira, mas não provinciana; nascer situada em universidades e grupos de pesquisa do país, mas em diálogo com redes latino-americanas, europeias e norte-americanas. Ao lado de Tania Franco Carvalhal, vários comparatistas participaram desse movimento primeiro, entre eles Eduardo de Faria Coutinho, Idelette Muzart Fonseca dos Santos, Neide de Faria e Antonio Manuel dos Santos Silva[1]. Esses nomes não aparecem apenas como acompanhantes de uma circunstância, mas como integrantes de uma geração que compreendeu que a Literatura Comparada precisava deixar de depender apenas de iniciativas individuais ou isoladas para conquistar um espaço de interlocução sistemático, reconhecido e permanente.
A fundação da ABRALIC, portanto, não foi fruto de improviso nem de vaidade institucional. Ela respondeu a uma necessidade histórica. A Literatura Comparada brasileira já possuía vozes de grande relevância, mas carecia de uma casa comum. O nascimento da associação representou, assim, uma passagem: da energia dispersa para a organização; da prática individual para o projeto coletivo; do entusiasmo de poucos para a construção de uma comunidade científica.
A fundação em Porto Alegre e a primeira Diretoria
De volta ao Brasil, o grupo fundador manteve contatos, ampliou alianças e incorporou outros pesquisadores da área. Em 9 de setembro de 1986, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, durante o 1º Seminário Latino-americano de Literatura Comparada, realizado entre 8 e 10 de setembro, a Associação Brasileira de Literatura Comparada foi oficialmente fundada. A UFRGS, nesse contexto, tornou-se um espaço de convergência e de lançamento de uma etapa decisiva para os estudos comparatistas no país.
A primeira gestão, correspondente ao período de 1986 a 1988, merece ser ressaltada não apenas por ter administrado a associação em seus anos iniciais, mas por ter dado forma prática ao que ainda era uma instituição nascente. A Diretoria era composta por Tania Franco Carvalhal, presidente; Flávio Loureiro Chaves, vice-presidente; Raúl Antelo, secretário; Maria do Carmo Campos, suplente; Lucia Sá Rebello, tesoureira; e José Édil de Lima Alves, suplente. No Conselho estavam Ana Lúcia Almeida Gazzola, Antônio Manoel dos Santos Silva, Eduardo de Faria Coutinho, Idelette Muzart Fonseca dos Santos, João Alexandre Barbosa, Luiz Alberto de Miranda, Neide de Faria e Silviano Santiago, tendo como suplentes Benjamim Abdala Jr. e Lúcia Helena[2].
Citar todos esses nomes é importante. Tania Franco Carvalhal teve papel de liderança inequívoco, e cabe reafirmar que essa liderança organizou uma rede, sustentada por colegas que aceitaram dividir responsabilidades em uma época de recursos limitados. A primeira Diretoria e o Conselho precisaram criar procedimentos, atrair associados, legitimar a instituição, organizar documentos, estabelecer contatos com universidades, dialogar com a AILC/ICLA e planejar um congresso nacional capaz de demonstrar, logo no início, a vitalidade da nova associação.
Organizar um congresso nos anos 80
A realização do 1º Congresso da ABRALIC, entre 1º e 4 de junho de 1988, em Porto Alegre, na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, deve ser compreendida à luz das condições materiais de seu tempo. Hoje, a organização de um congresso acadêmico costuma depender de e-mails, plataformas digitais, formulários eletrônicos, mensagens instantâneas, reuniões virtuais, arquivos compartilhados e sistemas de inscrição on-line. Nos anos 80, nada disso estava disponível para a Diretoria da ABRALIC. O contato com pesquisadores brasileiros e estrangeiros exigia telefone, cartas, telegramas, envio postal de convites, confirmação por correspondência, espera prolongada por respostas e uma atenção constante a prazos que não podiam ser controlados por cliques.
Por isso, o esforço da primeira Diretoria pode ser chamado, sem exagero, de hercúleo. Convidar participantes, confirmar presenças, montar mesas-redondas, receber propostas de comunicação, organizar hospedagens, articular deslocamentos, preparar a programação, imprimir materiais, garantir espaços físicos, acompanhar correspondências e manter comunicação com instituições nacionais e estrangeiras eram tarefas que demandavam tempo, paciência e uma disciplina quase artesanal. Cada nome confirmado representava uma vitória logística. Cada carta enviada precisava atravessar distâncias. Cada telefonema dependia de disponibilidade, custo e oportunidade. Cada resposta demorava o tempo do correio, não o tempo imediato das telas.
É necessário imaginar a cena concreta: pilhas de envelopes, listas de endereços, telefonemas interurbanos, confirmações datilografadas, programas revisados manualmente, dúvidas resolvidas por correspondência e uma equipe permanentemente atenta para que nada se perdesse. A organização de um evento desse porte, sem e-mail e sem tecnologia digital, exigiu da Diretoria uma combinação de visão intelectual e resistência operacional, todos precisaram atuar como gestores, mediadores, anfitriões e construtores de uma rede que ainda estava se formando.
Intertextualidade, interdisciplinaridade e afirmação da área
O tema escolhido para o 1º Congresso da ABRALIC — Intertextualidade e Interdisciplinaridade — não poderia ser mais significativo para uma associação de Literatura Comparada. A intertextualidade apontava para os modos como obras, discursos, tradições e sistemas culturais se atravessam; a interdisciplinaridade indicava a abertura da área para outras formas de conhecimento. Ao reunir essas duas palavras no centro do congresso, a ABRALIC afirmava uma concepção de literatura que ultrapassava fronteiras nacionais rígidas, gêneros estanques e divisões disciplinares fechadas. Era uma maneira de dizer que a Literatura Comparada brasileira queria dialogar com a teoria, com a história, com a tradução, com a cultura, com a crítica e com outras artes.
A programação foi extensa e intensa: três dias de atividades, doze mesas-redondas e diferentes sessões de comunicações. Esse conjunto revela que o congresso não foi uma celebração protocolar da entidade recém-criada, mas um espaço efetivo de produção e circulação de pensamento. A presença de pesquisadores brasileiros e estrangeiros conferiu ao evento uma dimensão internacional rara para uma associação em seus primeiros anos. A ABRALIC demonstrou que, embora fundada pouco tempo antes, já era capaz de convocar uma comunidade ampla e qualificada.
O homenageado de honra, Antonio Candido de Mello e Souza, representava de modo exemplar a maturidade crítica que a Literatura Comparada brasileira buscava consolidar. Sua saudação ao surgimento da associação reconhecia que a organização dos especialistas era sinal de amadurecimento e que a ABRALIC poderia conduzir a disciplina a uma fase de funcionamento mais sistemático. Ao afirmar que a associação encerrava um ciclo iniciado por manifestações espontâneas, passando por práticas individualizadas até chegar ao reconhecimento institucional, Antonio Candido ofereceu uma leitura precisa do momento histórico. A ABRALIC aparecia como instrumento de passagem para uma nova etapa[3].
A amplitude dos participantes e a força da rede construída
Um dos aspectos mais impressionantes do 1º Congresso da ABRALIC foi a lista de participantes. Ela evidencia a capacidade de articulação da primeira gestão e confirma que o evento se tornou ponto de encontro de pesquisadores de diferentes tradições críticas, universidades e países. Estiveram presentes Douwe Fokkema, presidente da AILC/ICLA e professor da Universidade de Utrecht, na Holanda; Vitor Manuel Aguiar e Silva, ligado às universidades de Coimbra e do Minho, em Portugal; Ana Lucia Gazzola, da UFMG; João Alexandre Barbosa, da USP; Francisco Rodríguez Adrados, da Universidade de Madri; Maria de Lourdes Martini, da UFRJ; Raúl Antelo, da UFSC; e Leticia Malard, da UFMG.
Também integraram a programação George Yúdice, do Hunter College, Universidade de Nova Iorque; Kenneth David Jackson, da Universidade do Texas, em Austin; Luiz Costa Lima, da UERJ; Nádia Gotlib, da UFMG; Vilma Arêas, da UNICAMP; Silviano Santiago, da PUC-RJ; Flávio Loureiro Chaves, da UFRGS; Salvato Trigo, da Universidade do Porto; Eneida Maria de Souza, da UFMG; Domício Proença Filho, da UFF; Vânia da Barros Falcão, da UFRGS; e Kathrin Rosenfield, da UFRGS. A presença desses nomes mostra a pluralidade de enfoques que atravessava o congresso e a diversidade de instituições envolvidas.
A presença de quase todos os principais integrantes da diretoria da AILC/ICLA reforçou ainda mais a importância do evento. Para uma associação recém-fundada, receber dirigentes e pesquisadores de tal envergadura significava conquistar reconhecimento imediato. Era como se a ABRALIC se apresentasse oficialmente ao mundo comparatista e, ao mesmo tempo, afirmasse que o Brasil tinha uma contribuição própria a oferecer. O congresso não apenas aproximou o país da AILC/ICLA; ele inseriu a produção brasileira em uma rede de diálogo transnacional.
Um feito hercúleo e um sucesso memorável
A primeira gestão organizou o primeiro grande encontro da ABRALIC enquanto ainda consolidava a própria ABRALIC. Esse dado é fundamental: não havia tradição interna pronta a ser repetida. Era preciso criar o modelo inaugural.
A importância desse congresso aumenta quando se considera que ele ocorreu em um Brasil ainda marcado pela reorganização institucional dos anos 80. O país vivia um período de abertura democrática e reconstrução de espaços coletivos. Nesse contexto, criar uma associação acadêmica, articular uma comunidade de especialistas e promover um congresso internacionalizado era também um gesto de confiança na universidade, na cultura e na vida intelectual. A ABRALIC nascia em sintonia com um tempo de reconstrução, propondo uma forma de convivência acadêmica baseada no diálogo, na troca e na circulação de ideias.
A primeira gestão legou, portanto, mais do que um congresso bem-sucedido. Legou um exemplo de compromisso institucional. Mostrou que uma associação se faz com ideias, mas também com trabalho; com prestígio intelectual, mas também com envelopes enviados, telefonemas feitos, listas revisadas e respostas aguardadas. Mostrou que o comparatismo, por sua própria natureza, depende de pontes: entre línguas, literaturas, culturas, disciplinas, países e pessoas. A Diretoria de 1986-1988 construiu essas pontes com os recursos de seu tempo e com uma determinação que merece ser lembrada.
O 1º Congresso da ABRALIC permanece como um acontecimento fundador porque reuniu, em poucos dias, a memória da criação da associação, a força da primeira gestão e o horizonte futuro da Literatura Comparada no Brasil. A partir da ideia lançada por Tania Franco Carvalhal em Paris, da fundação realizada em Porto Alegre e do trabalho conjunto de sua Diretoria e de seu Conselho, a ABRALIC alcançou em 1988 uma afirmação pública decisiva. O congresso mostrou que havia uma comunidade comparatista pronta para se reconhecer, dialogar e crescer.
A lembrança desse primeiro congresso deve, assim, ser celebrada como memória de trabalho e de visão. Trabalho de uma Diretoria que enfrentou dificuldades materiais enormes; visão de uma geração que compreendeu a importância de institucionalizar a área; coragem de pesquisadores que apostaram na força do coletivo.
O 1º Congresso da ABRALIC não foi apenas o primeiro de uma série. Foi o ato inaugural que provou a viabilidade, a relevância e a grandeza de uma Associação que hoje marca a história dos estudos literários no Brasil.
[1] Os dados desse primeiro movimento constam em relatos posteriores dos professores Gilda Neves Bittencourt e Eduardo Coutinho In: COUTINHO, E. F.; BEHAR, L. B. de; RODRIGUES, S. V. Elogio da lucidez: a comparação literária em âmbito universal; textos em homenagem a Tania Franco Carvalhal. Porto Alegre: Evangraf, 2004.
[2] Dados constam em Anais. Intertextualidade e interdisciplinaridade. v. I. Porto Alegre, UFRGS, 1988.
[3] Candido, Antonio. Anais. Intertextualidade e interdisciplinaridade. v. I. Porto Alegre, UFRGS, 1988.




