COORDENADORES:
Gabriela Silva (FURG)
Jorge Vicente Valentim (UFSCar)

RESUMO: Este ST propõe um espaço de discussão sobre a produção literária portuguesa, surgida e publicada a partir dos anos 2000, ou seja, contextualizada no século XXI. Considerando alguns fatores históricos, políticos e sociais de Portugal, como o momento pós-Revolução dos Cravos (25 de abril de 1974), a deflagração da liberdade de pensamento e expressão artística, os cenários advindos dessas décadas posteriores ao evento demarcador da redemocratização, a crise econômica diante da instituição da troika nas primeiras décadas de 2000 e os novos desafios impostos pelo recente cenário de pandemia e seus efeitos colaterais, importa-nos refletir de que maneira essa produção ficcional vem demandando necessidades éticas, sem abrir mão de um projeto estético efetivo, ainda que multíplice na sua consecução, em que temas, tais como os vários tipos de violência, o medo diante de ameaças terroristas, os direitos humanos e as reivindicações sociais, o consumismo exacerbado no contexto neoliberal, os êxodos migratórios para os territórios europeus, dentre outros, acabam se constituindo uma gama exponencial para refletir e discutir sobre o próprio tempo presente.
Se, como propõe Agamben, a contemporaneidade pode ser entendida como “uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias” (AGAMBEN, 2010, p. 59), interessa-nos pensar como a ficção portuguesa contemporânea escreve o século XXI e como este tempo pode ser lido por nós a partir das propostas artísticas do(a)s autore(a)s, seja num movimento de aproximação, seja no de um anacronismo, propiciando uma espécie de afastamento proposital para conseguir estabelecer uma relação analítica e crítica.
Nesse sentido, aplicado à literatura portuguesa, o conceito em questão remete ao momento crucial e demarcador da saída de Portugal de uma ditadura de mais de 40 anos e da consequente entrada no caminho de um Estado democrático de direito: a Revolução dos Cravos, de 25 de abril de 1974. As mais variadas fontes da fortuna crítica portuguesa apontam exatamente esse momento como um dos eixos temporais paradigmáticos (BARRENTO, 2016; REIS, 2005; SEIXO, 2001). Tal como esclarece João Barrento (2016), o elenco de escritore(a)s surgido(a)s nesse cenário revela já uma multiplicidade de tendências, demonstrando per se a possibilidade de um livre trânsito por diferentes caminhos de consecução na estética romanesca, além de uma demarcação dos seus principais enfoques temáticos.
Ainda que tal designação, muitas vezes, dirija-se para toda essa geração centrada no período 1974-2000, a ideia do simpósio é direcionar os estudos sobre ficção portuguesa a partir dos anos 2000, sublinhando, portanto, a sua distinção pluridimensional, em que determinados projetos estéticos não excluem ou obliteram certos posicionamentos éticos em relação aos desafios e às complexidades do nosso tempo. Nesse sentido, a expressão talhada por Gabriela Silva (2016) – “a novíssima literatura portuguesa” – surge, aqui, retomada, com um direcionamento mais específico, a partir de um recorte temporal pontual, afinal, importa-nos pensar como essas novas e “diferentes identidades de escrita” (SILVA, 2016, p. 6) propiciam caminhos para escrever e ler o século XXI.
Voltado, portanto, para as obras nascidas e publicadas a partir dos anos 2000, o presente ST abriga propostas de comunicação que abordem escritore(a)s portuguese(a)s enquadrado(a)s nesse contexto, seja numa perspectiva mais individualizada, seja numa ênfase comparativista com outros títulos de outros sistemas literários. Se, como aponta Isabel Cristina Rodrigues (2014), a atual ficção portuguesa caminha entre a tradição e a inovação, então, não será possível pensar as formas como o(a)s escritore(a)s portuguese(a)s dessa novíssima geração consolidam uma literatura em que estética, política e resistência constituem palavras-chave para o seu enquadramento e compreensão? Ao escreverem (n)o século XXI, não estarão ele(a)s propondo formas de ler o nosso tempo, o nosso presente?
Ou seja, os desafios éticos emergidos neste contexto, observados nas principais linhas de interesse do(a)s autore(a)s portuguese(a)s mais recentes não parecem estar distanciados de uma práxis estética, cujas consecuções primam pela multiplicidade em suas realizações concretas. Não será isto uma forma bem conseguida de criar uma espécie de unidade na capacidade e na potencialidade dessa ficção em se consolidar pela diversidade?
Neste caminho de leitura, Miguel Real (2012) aposta numa incidência sobre o “cosmopolitismo”, enquanto instrumento de criação estética em que as paisagens, as personagens, as ações e os temas não são mais exclusivamente direcionados ao locus português, mas ampliam o horizonte para outros universos. Também Jorge Vicente Valentim (2024) caminha por esta via ao propor uma “prateleira hipotética”, baseado na metáfora proposta por Ítalo Calvino (2009), “do século XXI português, em que o convívio entre diferenças, disparidades e discordâncias torna-se uma mais-valia enriquecedora” (VALENTIM, 2024, p. 48).
Não podemos deixar, ainda, de sublinhar que toda esta produção da atual ficção portuguesa vem ganhando um significativo espaço e um visível destaque no mercado editorial brasileiro, graças à potencialidade de seu(a)s autore(a)s. Logo, a presente proposta se adequa perfeitamente ao eixo central do XX Congresso Internacional da ABRAPLIP, nos seus 40 anos de existência: “comparatismos, permanências e renovações”.

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COORDENADORES:
Roberto Mibielli (UFRR)
Fernando Simplício dos Santos (Universidade Federal de Rondônia)
FÁBIO ALMEIDA DE CARVALHO (Universidade Federal de Roraima)

RESUMO: Este simpósio Literatura, Cultura e Identidade na/da Amazônia, tem se repetido ao longo dos últimos 17 anos de Abralic, dele, muita discussão produtiva, quatro livros e vários artigos nos anais do evento resultaram. O primeiro livro, Nós da Amazônia: Literatura, Cultura e Identidade na/da Amazônia, foi lançado em 2014. O segundo, Traços e Laços da Amazônia, foi lançado também pela Letra capital em 2016, o terceiro, homônimo ao simpósio, em formato digital, organizado a partir das discussões tanto de 2016 quanto de 2017, foi publicado em 2018. A cada ano temos visto crescer a quantidade de trabalhos sobre a região, ao mesmo tempo em que vemos também crescer a ignorância popular sobre ela.
É bem verdade que boa parte do conhecimento sobre esta Região ainda está por ser construído transdisciplinarmente. A diversidade de fronteiras e de culturas, dentro e fora das comunidades indígenas locais, é um dos elementos que merece destaque. Tanto é que muitas pessoas que imaginam ser este um espaço privilegiado em termos naturais – e mesmo humanos, como as existentes entre as comunidades indígenas, de seringueiros e garimpeiros, por exemplo – não percebem que esta diversidade abrange as culturas urbanas. Não sabem, também, que há universidades, pesquisa, tecnologias em desenvolvimento neste meio/lugar. A imagem que prevalece, via de regra, é a de um “lugar periférico”, subdesenvolvido ao extremo (“primitivo”, para alguns), fechado em seus limites regionais, pobre, tomado pela floresta, em que há grande diversidade de culturas indígenas e pouca intelligentzia.
No Brasil, em especial, este imaginário (a que chamaremos senso comum) construiu e mantém a equivocada ideia de que além de una, enquanto região, a Amazônia é brasileira. Este fenômeno é mais visível quando observamos os spans e fakenews que circulam na internet e que alimentam, à custa de mentes menos esclarecidas, a paranoia de que querem tomar-nos a Amazônia e internacionalizá-la. Mas além de abranger vastas áreas urbanas, como Belém e Manaus (ambas com população acima de um milhão de habitantes cada), a Amazônia já é internacional. Basta verificar a existência das outras amazônias fronteiriças: a venezuelana, a boliviana, a colombiana, a peruana, a equatoriana, as guianenses, a surinamenha, além da brasileira.
O simpósio que propomos não pretende dar conta de toda esta diversidade cultural, mas abrigá-la, pô-la em discussão. Pretende contrastá-la, compará-la, tanto interna, quanto externamente, questionando as fronteiras e limites de sua regionalidade/universalidade, além de mostrar uma fatia desta construção/invenção em seus múltiplos aspectos. Ao abrigarmos trabalhos de temática Amazônica, pretendemos exercer a comparação tanto no que concerne aos objetos abordados em cada trabalho, na sua relação com o cânone central, quanto na relação entre seus centros, como também nas relações constituídas entre centros, margens e periferias, dentro e fora do âmbito amazônico, propondo sempre o necessário debate entre seus autores/áreas do conhecimento/pesquisadores.
Nesse sentido, este simpósio objetiva a discussão acerca dos limites, das confluências linguísticas e culturais da/na Amazônia, nas perspectivas do Comparatismo Literário, da Teoria da Literatura, dos Estudos Culturais e da História (e áreas afins, buscando a transdisciplinarização), deslocando-se o eixo da análise da cultura, desfazendo ideias já constituídas, com vistas a tornar possível o debate em torno das identidades híbridas, de uma compreensão delas frente às estruturas globais e às novas configurações do lugar do periférico, das fronteiras e das culturas, das migrações e a construção diaspórica que se apresenta nesses contextos, bem como, da circulação, tramas e sentidos da Literatura neste universo.
Nosso simpósio pretende privilegiar questões relativas à literatura (sua teorização, suas possibilidades, suas categorias, o modo como se apresentam ao leitor os narradores, o que propõem como narrativa, que tipo de intervenção pedagógica é feita a partir do objeto literário, por exemplo); privilegiar a estética de narrativas ancestrais, artes verbais, contos, fábulas e mitos da literatura latino-americana, de origem oral ou escrita. Também é nosso objeto de investigação a identificação e interpretação de certo discurso identitário, a partir do estudo comparado de textos literários diversos, enfocando questões culturais específicas, quase sempre oriundas ou emanadas, da produção literária/mitológica amazônica, de sua circulação, tramas e sentidos.
Visa-se, deste modo, a compreensão das representações do ser amazônida, quer no habitat, quer longe dele, em seus anseios locais/universais, seja através da leitura das diversas relações de confronto entre a textualidade amazônica e a produção cultural na América Latina, do levantamento crítico da(s) identidade(s) plasmada(s) na produção literária da Região ou dos textos teóricos oriundos das diversas áreas do conhecimento postas em diálogo transdisciplinar. Neste sentido, reunir-se-ão, na coordenação geral do simpósio, professores pesquisadores das IFES de Roraima e de Rondônia, assim como, vêm se somando a esses, nos últimos dezessete anos de reuniões nacionais e internacionais da ABRALIC, pesquisadores dos demais estados amazônicos, bem como de outras paragens, interessados em temas e textos literários oriundos desta, ou sobre a Região.

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COORDENADORES:
Ana Lúcia Liberato Tettamanzy (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Ana Carolina Cernicchiaro (Universidade do Sul de Santa Catarina)
Romulo Monte Alto (Universidade Federal de Minas Gerais)

RESUMO: Considerando a historicidade dos debates do campo dos estudos comparatistas, um eixo que tem se destacado, sobretudo depois das contribuições dos Estudos Culturais, remete a discussões das identidades de raça e gênero e das desigualdades sociais como indicadoras da pluralidade de literaturas que rompem com modelos universalistas e eurocentrados. Sob os impactos de transnacionalização, mundialização ou globalização do capitalismo, procedimentos de hibridização e transculturação tornam-se comuns, tendo em vista que os textos constituem espaço de diálogo e de conflito intratextual e extratextual e “que cabe aos estudos comparados investigar numa perspectiva sistemática de leitura intertextual” (Carvalhal, 2010, p. 83). O entendimento do que se busca nos textos e do que é texto se amplia para a consideração de outras expressões artísticas e para os sistemas das culturas. No contexto das literaturas latino-americanas, desde Cornejo Polar (2003) se impõe a valorização das heterogeneidades culturais internas a elas, manifestas na presença conflituosa de dois ou mais universos socioculturais, no caso, o erudito, o popular e o indígena. No contexto das escritas indígenas no Brasil, elas efetivam uma “rasura” (Queiroz; Almeida, 2004) no sistema literário, posto que são uma constante presença em ausência. Nos termos de Graça Graúna (2013), em face de uma história e de um imaginário que sistematicamente negaram sua existência, a literatura contemporânea indígena promove uma leitura das diferenças no ato de conhecer o outro, o que implica interiorizar a história, a auto-história, as raízes. Na mesma direção, Daniel Munduruku (2017) afirma que sua forma de fazer política tem se dado via literatura, que pode vir a desentortar o pensamento dos que ainda olham para os povos indígenas a partir de estereótipos e com a venda da ignorância. Já Marilia Librandi (2014) aponta como a força poética e política da Carta Guarani Kaiowá, expressão de uma situação limítrofe à morte, constitui uma literatura das terras e das gentes, espaço discursivo de acolhimento e produção de diferenças no escopo de uma teoria literária alterada pelo aporte do até então não literário. Ampliando o debate para o campo das artes, Naine Terena (2022, p.2) prefere chamar de manifestações estéticas indígenas (MEIN) o que o sistema ocidental reconhece como arte: “a arte indígena desde sempre se colocou como produção presente no Brasil, para além de uma arte indígena contemporânea “encontrada” agora”. Nas palavras de Jaider Esbell (2015), se trata de um “exemplo para o mundo da necessidade de se respeitar o que existe desde sempre, antes de qualquer lei moderna, ou seja, as pessoas e suas relações indissociáveis com a terra, com a memória e a ancestralidade”. Assim, este simpósio pretende refletir como as literaturas indígenas – e outras expressões estéticas indígenas - desestabilizam o constructo homogêneo e fechado das literaturas e das artes nacionais em Abya Yala. Busca-se discutir de que forma tais obras e autorias nos fazem rever tanto o que entendemos por literatura e arte - ao inserir cantos e performances que colocam em questão a primazia da escritura sobre a oralidade, da autonomia sobre a inespecificidade das artes e da assinatura individual sobre a autoria coletiva - quanto o que entendemos por nacional - ao questionar os conceitos de povo, língua e cultura enquanto identidades unitárias e excludentes. Afinal, quem são os escritores habilitados a assinar uma literatura vernácula? Como falar em arte nacional quando povos Munduruku, Baniwa, Tukano, Krenak, Huni Kuin, Maxacali, Guarani, Kaingang, Asteca, Mojave, Creek, Quechua, Aymara, Mapuche e tantos outros publicam livros, inserem suas criações e performances nos museus e para além deles, apresentam filmes em festivais? Ao reivindicar o direito à palavra, à imagem, à memória e à reescrita da história e ao deslocar as artes de um espaço autônomo para um modo de vida vinculado à ancestralidade, à coletividade e à comunicação entre espécies, tais produções reconfiguram as relações entre literaturas, artes, políticas e ontologias. Enquanto estratégia de autodeterminação e de retomada simbólica, elas evidenciam a inseparabilidade entre gesto político, rito e poética. Sendo assim, este simpósio convida pesquisadoras e pesquisadores a submeterem trabalhos que reflitam sobre as dimensões política, pedagógica, poética e ontológica da autoria indígena no contexto dos estudos literários e da criação visual – inclusive do ensino de literatura e das artes. A proposta é debater de que forma as literaturas indígenas e as artes operam simultaneamente como práticas estéticas, gesto político e afirmação ontológica, contribuindo para a revisão das bases coloniais das culturas nacionais e para a construção de um campo literário e artístico pluriversal.

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COORDENADORES:
Gabriel Esteves (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
ALCKMAR LUIZ DOS SANTOS (Universidade Federal de Santa Catarina)

RESUMO: Nos últimos anos, os críticos e historiadores da literatura têm contado com o apoio de uma série de ferramentas computacionais que vêm não só transformando profundamente a maneira como textos e acervos são abordados em pesquisas acadêmicas, mas também a maneira como são incorporados às narrativas historiográficas de diferentes países. Essa inserção dos estudos literários naquilo que tem sido chamado há algumas décadas de “humanidades digitais” acaba por colocar em xeque a própria estrutura teleológica da narrativa historiográfica tradicional, favorecendo o desenvolvimento de plataformas ligadas a perspectivas mais “rizomáticas” e descentralizadas (Wikis, catálogos e bibliotecas digitais etc.).
Ao mesmo tempo, essas novas tecnologias têm potencializado a capacidade de processamento de dados semânticos, estilísticos e contextuais em escalas antes inimagináveis, permitindo que os pesquisadores dediquem menos tempo a tarefas mecânicas (contagem de versos e ocorrências de palavras, por exemplo) e possam concentrar seus esforços em atividades propriamente reflexivas como a crítica ou a comparação de textos. Exemplos de algumas dessas ferramentas são o Hyperbase, software de análise estatística e lexicométrica de textos desenvolvido pela Université Côte d'Azur; o DLNotes, plataforma de anotações semânticas em espaço colaborativo desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Linguística (NuPILL) da UFSC; o Aoidos, sistema de escansão automática de versos desenvolvido por Adiel Mittmann; além dos próprios sistemas de busca avançada e metadados de grandes de hemerotecas digitais como os portais da Fundação Biblioteca Nacional ou da Bibliothèque Nationale de France (RetroNews), entre tantos outros recursos que compõem a esfera das humanidades digitais.
Essa evolução ao mesmo tempo técnica e metodológica viabiliza o desenvolvimento de estratégias inteiramente novas de investigação acadêmica que abrangem ao simultaneamente os campos da estilística, da história, da crítica e da literatura comparada. Por um lado, as novas abordagens podem partir do conceito de distant reading (leitura distante) proposto por Franco Moretti (no artigo “Conjectures on World Literature”, publicado em 2000 pela revista New Left Review, mais tarde integrado ao livro Graphs, Maps, Trees, de 2005) a fim de reintroduzir os chamados “forgotten 99 per cent” (Moretti, 2013, p. 67) da história literária nas discussões da área, buscando correlações que incluam obras e autores negligenciados pelos recortes canônicos tradicionais. Por outro lado, essas novas ferramentas digitais abrem caminho para o surgimento de microanálises estilísticas e filológicas a partir de livros raros ou conjuntos de poetas pouco conhecidos, revelando nuances (sintáticas, semânticas, versificatórias etc.) que passariam despercebidas pela leitura humana.
Em alguns casos específicos, tem-se notado que o emprego dessas ferramentas digitais possibilita, através do cotejamento de dados que antes se encontravam dispersos e em quantidade muito superior às capacidades humanas de análise, a revisão/confirmação de hipóteses de leitura até então inverificáveis por falta de amostragem estatística ou argumentação pouco convincente — veja-se, por exemplo, o artigo “Verso romântico? Revisitando o decassílabo sáfico com ferramentas digitais” (2025), de Gabriel Esteves, Leandro Scarabelot e Ana Paula Nunes de Sousa, ou o estudo “The Rhythm of Epic Verse in Portuguese from the 16th to the 21st century” (2018), escrito por Adiel Mittmann e Alckmar Luiz dos Santos —. Em outros cenários, observa-se que essas ferramentas computacionais têm o potencial de aprimorar o olhar comparativo sobre obras e períodos de uma mesma ou várias literaturas, facultando o surgimento de novas interpretações críticas e historiográficas fundamentadas em evidências empíricas — veja-se, por exemplo, o artigo “Generino & Augusto” (2024), de Alckmar Luiz dos Santos e Isabela Melim Borges, que propõe uma divisão cronológica na obra de Generino dos Santos com base na análise e interpretação dos processos de acomodação silábica de seus versos antes e depois da década de 1910, unindo estilística, história e crítica literária.
É precisamente com o intuito de mapear as possibilidades desse novo campo de trabalho e de refletir sobre as transformações teórico-metodológicas em curso que este simpósio temático pretende discutir a relação entre a escrita da(s) história(s) literária(s) e o emprego de ferramentas digitais. Para tanto, são bem-vindas comunicações que discutam os efeitos da inserção dos estudos literários no universo das humanidades digitais e relatos de experiências que apresentem casos bem-sucedidos do uso de ferramentas computacionais em atividades de escrita, pesquisa ou docência relacionadas ao campo da historiografia literária e da literatura comparada. Espera-se, desse modo, reunir pesquisadores interessados em estabelecer uma rede de diálogo e cooperação mútua, transnacional e interdisciplinar, que reconheça o desenvolvimento das ferramentas digitais não como fim em si mesmo, mas como meio de renovação e expansão dos horizontes da historiografia literária.

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COORDENADORES:
Nicia Petreceli Zucolo (Universidade Federal do Amazonas - UFAM)
Luciana Paiva Coronel (FURG)

RESUMO: A partir da ideia de um mundo informatizado e hipermidiatizado, no qual se manipulam as informações no sentido da construção de um imaginário autoritário, marcado por uma dinâmica de dessensibilização e indiferença diante da violência, a sociedade contemporânea depara-se com o desafio de enfrentar as "pós-verdades", conforme afirma Christian Dunker (2017), em Ética e pós-verdade, e construir esferas de resistência capazes de alimentar utopias cidadãs.
Walter Benjamin no ensaio "O narrador" (1936) apontava a emergência da era da informação já no início do século XX, uma era marcada pelo empobrecimento das formas narrativas arcaicas e também da imaginação. Dado que, segundo o crítico alemão, as notícias jornalísticas, que passavam a compor de maneira crescente a rotina dos cidadãos, aspiravam desde então a uma verificação imediata e traziam os fatos acompanhados de explicações, caberia ao leitor a recepção passiva desses dados, os quais lhe chegavam a cada manhã: "a informação só tem valor no momento em que é nova. Ela só vive neste momento, precisa entregar-se inteiramente a ele e sem perda de tempo tem que se explicar nele [...]”. Walter Benjamin não tinha ideia do cenário que se criaria no século XXI, no qual o fenômeno da presentificação se agudizaria devido à hipertrofia das diversas redes sociais na vida social, ocasionando a abolição do passado e o cancelamento das perspectivas de futuro, e as versões falseadas do real se disseminariam como pólvora, embaladas com papéis coloridos e atrativos, convertendo-se em verdades para muitos.
Cinema e literatura podem ser aliados no sentido de recompor a memória que ficou para trás e potencializar a esfera do sensível, pois, de acordo com o que Ettore Finazzi Agró propõe no ensaio "(Des)memória e catástrofe: considerações sobre a literatura pós-golpe de 1964", "é só numa dimensão ficcional, [...] que podemos surpreender o nefas habitando nas dobras da História oficial". Segundo o crítico italiano, documentos e fontes historiográficas sobre a ditadura civil-militar de 1964 não conseguem mostrar "a dor e o sangue, as lágrimas e as feridas que se abriram no corpo da Nação e na lembrança traumática dos sobreviventes. Aquilo que falta, mais uma vez, é a comoção pelos corpos torturados, pelas pessoas massacradas, pela dor dos sobreviventes – aquilo que falta, enfim, é o pathos que sempre acompanha a tragédia e a sua encenação: aquela compaixão ‘sororal’ diante dos mortos, em suma, que, como no drama de Antígona, não consegue ter respostas, não abre para nenhuma kátharsis, apresentando-se, por contra, como o Imprescritível que impossibilita a absolvição e a desculpa [...]" (2014, p. 181-2).
Tanto a literatura quanto o cinema podem, através de sua dimensão ficcional, trazer à tona a memória subterrânea da ditaduras civis-militares da América Latina, a figura dos desaparecidos, sua voz e seus sonhos, componentes de uma memória ainda não devidamente assimilada ou mesmo reconhecida pela memória oficial da Nação, conforme o entendimento da dinâmica social da memória, elaborado por Michael Pollak (1989), em "Memória, esquecimento, silêncio". Ao permitir que elementos circunscritos às memórias individuais ou familiares eclodam no tecido social, as artes ensejam uma disputa no campo simbólico do presente, no qual a violência contra pobres, mulheres, crianças, grupos étnicos ditos minoritários, população LGBTQIAPN+ persiste, como entulho maldito legado pelos tempos tirânicos e autoritários.
O teórico italiano Ítalo Calvino (1990) reitera essa concepção, uma vez que entende o horror como capaz de, pelo estranhamento, afetar as pessoas de forma contundente através do trabalho estético e discursivo encetado, via seleção de imagens e de palavras, causando mais impacto social do que uma notícia veiculada de forma referencial ou mesmo um pequeno vídeo “realista” no youtube ou em redes sociais.
Desse modo, o grupo de pesquisa Relações de gênero, poder e violência em literatura e o grupo Poéticas e políticas da memória na literatura contemporânea esperam receber trabalhos que, ao tomarem a relação entre a literatura e a história, problematizem a violência ligada às questões de gênero, à etnia, à lgbtqiapn+fobia, ao apagamento do passado e a outras formas de opressão e autoritarismo, seja na sua macroestrutura (estatal e/ou institucional), seja na microestrutura (relações entre as pessoas), tomando como base narrativas literárias e cinematográficas, de cunho erudito ou popular, consagradas ou não canônicas, de forma a estabelecer contrapontos possíveis entre produções culturais de diversas mídias.

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COORDENADORES:
Mônica Maria Feitosa Braga Gentil (Universidade Estadual do Piauí)
Raimunda Celestina Mendes da Silva (UESPI)
Maria Luísa de Castro Soares (Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro)

RESUMO: Este simpósio inscreve-se no campo reflexivo do XX Congresso Internacional da ABRALIC – 40 anos depois: comparatismos, permanências e renovações, propondo uma investigação crítica da metaficção historiográfica como forma privilegiada de elaboração estética do passado nas literaturas contemporâneas e em múltiplos sistemas semióticos. Ao situar-se na interface entre história, ficção, memória cultural e regimes de mediação narrativa, a proposta busca problematizar os modos pelos quais o passado é continuamente reconfigurado por práticas discursivas que tensionam os limites entre arquivo, imaginação, testemunho e fabulação. A metaficção historiográfica, entendida aqui em diálogo com Linda Hutcheon, não apenas reinscreve acontecimentos pretéritos no espaço da ficção, mas explicita os próprios mecanismos de produção de sentido que sustentam a escrita da história. Tal gesto desloca a narrativa histórica de um suposto lugar de transparência epistemológica para o terreno da construção discursiva, evidenciando o caráter retórico, seletivo e ideologicamente situado de toda representação do passado. Em um contexto contemporâneo marcado pela crise das metanarrativas, pela proliferação de memórias concorrentes e pela intensificação dos fluxos midiáticos, essa vertente narrativa afirma-se como dispositivo crítico fundamental para compreender a disputa simbólica em torno dos usos do passado. A proposta acolhe trabalhos que examinem a permanência e a renovação dessas estratégias em diferentes tradições literárias e artísticas, com especial atenção para procedimentos como transtextualidade, intertextualidade documental, montagem arquivística, autorreferencialidade, mise en abyme, paródia de gêneros historiográficos e metaficcionalização do testemunho. À luz das contribuições de Gérard Genette e das discussões contemporâneas sobre circulação de formas, interessa observar como tais recursos promovem deslocamentos comparatistas entre textualidades, temporalidades e suportes, instaurando um campo de leitura no qual a história emerge como construção plural, processual e contestável. Nesse horizonte, as formulações de Hayden White acerca da dimensão narrativa da historiografia oferecem base teórica decisiva para pensar as zonas de contato entre escrita histórica e invenção ficcional. Ao reconhecer que a historiografia compartilha com a literatura operações de configuração, emplotment e seleção retórica, a metaficção historiográfica torna visível o estatuto narrativo da história, convertendo a própria escrita do passado em objeto de reflexão estética. O simpósio propõe, assim, discutir não apenas a representação de acontecimentos históricos, mas os modos pelos quais as formas narrativas produzem inteligibilidade histórica, afeto memorial e disputa política. Em consonância com os debates mais recentes do comparatismo expandido, serão particularmente bem-vindas pesquisas que privilegiem a circulação transnacional dessas formas na literatura latino-americana, espaço em que colonialidade, ditaduras, genocídios, racializações e apagamentos sistemáticos convertem a metaficção historiográfica em importante estratégia de reinscrição dos sujeitos subalternizados e dos chamados “esquecidos da história”. Nesse contexto, a reescrita ficcional do passado articula-se às políticas da memória, à crítica das narrativas hegemônicas e à emergência de epistemologias dissidentes, fazendo da literatura um lugar de elaboração simbólica e de resistência. Em diálogo com as renovações metodológicas da ABRALIC, o simpósio amplia o escopo para além do literário, contemplando investigações em cinema, séries, artes visuais, histórias em quadrinhos, performance, videojogos e narrativas digitais, campos em que a metaficção historiográfica se reconfigura por meio de processos de intermidialidade, transposição intersemiótica e transmidialidade. Interessa particularmente compreender como diferentes mídias reelaboram arquivos, documentos, imagens de época e testemunhos, convertendo o passado em experiência estética multissensorial e participativa. Tal perspectiva permite pensar os comparatismos não apenas entre literaturas, mas entre linguagens, suportes, materialidades e regimes perceptivos. Pretende-se acolher também pesquisas que articulem metaficção historiográfica e estudos da memória cultural, sobretudo no que diz respeito à memória traumática, à pós-memória, às poéticas do testemunho e às políticas do luto. Em interlocução com Paul Ricœur, Andreas Huyssen e Marianne Hirsch, interessa investigar de que maneira a ficção e as artes operam como espaços de elaboração do trauma, reparação simbólica e justiça memorial, sobretudo em contextos marcados por violência de Estado, desaparecimento forçado e silenciamento histórico. A discussão estender-se-á, portanto, às implicações éticas, políticas e estéticas da reescrita do passado no presente, enfatizando a responsabilidade crítica do escritor, do artista e do historiador na construção de narrativas mais complexas, plurais e sensíveis às diferenças. Mais do que espelho do passado, a ficção será pensada como instância ativa de mediação, reinscrição e contestação histórica, capaz de produzir novas formas de legibilidade para experiências marginalizadas. O objetivo central deste simpósio consiste em evidenciar como a metaficção historiográfica, em suas manifestações literárias e transmidiais, constitui um dos lugares privilegiados para pensar os comparatismos contemporâneos, as permanências de formas narrativas e as renovações estéticas que atravessam a cultura no presente.

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COORDENADORES:
Márcia Lopes Duarte (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)
Juciane dos Santos Cavalheiro (Universidade do Estado do Amazonas)
Sabrina Vier (Universidade do Vale do Rio dos Sinos)

RESUMO: Este Simpósio propõe uma reflexão sobre a função social e a natureza ontológica da experiência literária na contemporaneidade. Bakhtin (2010) nos aponta como caminho a via da consolidação amorosa ao afirmar que “somente o amor pode ser esteticamente produtivo, somente em correlação com quem se ama é possível a plenitude da diversidade” (p. 129). Sob essa ótica, o fazer literário e o ato de ler não são apenas exercícios intelectuais, mas processos de alteridade em que o "eu" se constitui através do olhar do "outro". Diante da liquidez dos laços sociais, surge a necessidade premente de sermos ouvidos e amparados em nossa diversidade para que nos saibamos sujeitos dignos de amor e reconhecimento (Bauman, 2021). Nesse horizonte, o simpósio ancora-se na premissa de Antonio Candido (2014), que postula a literatura como um direito inalienável do ser humano — uma necessidade que satisfaz a sede de ficção e organiza o nosso caos interior. Para que se possa operar essa compreensão, valemo-nos do método comparatista, cujas bases vêm sendo propostas pela ABRALIC no Brasil desde a década de 80 do século XX. Como ensina a professora Tania Franco Carvalhal (2006), “comparar é um procedimento que faz parte da estrutura de pensamento do homem e da organização da cultura” ( p. 7), sendo um hábito generalizado que permite a transposição de fronteiras disciplinares. Dialogamos também com o escritor Fabio Morabito (2005), para quem, no poema, a palavra sofre uma refutação tamanha que se torna “um único salto de uma margem à outra” ( p. 48). É essa palavra-ponte — que simultaneamente une e desestabiliza — que buscamos investigar/ colocar em cena neste simpósio. Ao aliarmos os estudos de Antonio Candido, Mikhail Bakhtin e Fabio Morabito, pretendemos demonstrar a inexistência de uma fórmula única para a formação de leitores, visto que é no momento em que a leitura se efetiva que podemos observar a interpretação sendo construía. Defendemos que a educação literária deve ser pautada pela pluralidade de vozes e experiências. Buscamos, em diálogo com a poética de Drummond, a chave para desvendar a leitura. Todavia, nossa chave diferencia-se por fundir sonhos, metáforas, símbolos e imaginação, com o objetivo de abrir as portas do inexplicável e do imponderável. O Simpósio intenciona, portanto, acolher trabalhos (concluídos ou em andamento) que articulem os Estudos Literários e a Linguística Aplicada em uma perspectiva trans e indisciplinar, contemplando as seguintes abordagens: (1) Dimensão Institucional e Comunitária: pesquisas e ações de ensino e extensão que buscam a democratização do acesso à literatura; (2) Espaços de Partilha: relatos e análises de mediação de leitura em clubes, rodas e círculos de leitura, tanto na educação formal quanto em ambientes não formais; (3) Escritas da Subjetividade: práticas autobiográficas, diários de leitura e memórias como formas de registro da vivência estética e ética; (4) Metodologias e Letramentos: propostas teóricas e metodológicas para o letramento literário que considerem a análise de experiências reais. Busca-se, assim, consolidar um espaço de interlocução que compreenda a literatura em suas múltiplas potencialidades: como ferramenta de resistência, como exercício de empatia e como território de construção de cidadania. A presente proposta de Simpósio justifica-se, então, pela urgência de se repensar o lugar da literatura na sociedade contemporânea, não apenas como objeto de erudição, mas como uma prática ética, estética e política indispensável para a manutenção dos laços humanos. Em um cenário de crescente fragmentação social e desvalorização das humanidades, retomar a perspectiva de Mikhail Bakhtin e Antonio Candido sobre amorosidade e alteridade permite que o estudo literário recupere sua dimensão humanizadora. A literatura, sob esta ótica, funciona como a "palavra-ponte" mencionada por Fabio Morabito: um espaço de trânsito entre culturas, subjetividades e realidades sociais distintas. Este espaço de troca visa consolidar a literatura como um território de encontro e alteridade, reafirmando o compromisso da Literatura Comparada com a construção de uma sociedade mais empática e consciente de seus direitos estéticos.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável (1920-1924/1986). Trad. Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Trad. Carlos Alberto Medeiros. Rio de. Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2021.

CANDIDO, Antonio. O direito à literatura. In: Vários Escritos. São Paulo: Duas Cidades, 2014.

CARVALHAL, Tânia Franco. Literatura Comparada. 4 ed. rev. e ampliada. São Paulo, Ática, 2006. p.7

MORABITO, Fabio. O idioma materno. Belo Horizonte: Relicário, 2025. p. 48

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COORDENADORES:
Amilton José Freire de Queiroz (Universidade Federal do Acre)
Henrique Silvestre Soares (Universidade Federal do Acre)
Ezilda Maciel da Silva (Universidade Federal do Pará)

RESUMO: O simpósio pretende estabelecer diálogos sobre a literatura comparada como zona de fricção das/nas Américas, Áfricas e Amazônias, mapeando seus mundos rizomáticos e suas circunvizinhas transculturais tanto na produção artística quanto epistemológica de arquipélagos culturais onde se configura a invenção de lugares comuns marcadamente diversos. Parte, assim, das reflexões sobre as “histórias locais, projetos globais (MIGNOLO, 2003), as “rotas, trânsitos, migrações” (HERRERA, HOISEL, TELLES, 2018) e as narrativas impuras (SOUZA, 2021). Mas também procura dialogar com a transversalidade da Teoria Literária, Estudos Culturais e Pós-coloniais, Decoloniais e Geografia Cultural, acolhendo a perspectiva crítico-teórica de Ivete Walty (2012), Homi Bhabha (1998), Edward Said (2005), Stuart Hall (2013), Benjamim Abdala Junior (2012), Tania Carvalhal (2003), Zilá Bernd (2013), Eurídice Figueiredo (2013), Angel Rama (2001), Cornejo Polar (2000), Hugo Achugar (2006), Aníbal Quijano (2000) e Zulma Palermo (2022). O simpósio acolherá trabalhos que enfoquem as interlocuções da literatura com outros saberes, tais como História, Antropologia, Sociologia, Geografia Cultural, Filosofia, Artes Plásticas, Jornalismo, Cinema, Educação, Ensino, Relações Internacionais, Direito e Tecnologias. Estudar, pesquisar e discutir as humanidades é aprofundar, expandir a visão do “fim do império cognitivo”, dimensionar as “epistemologias do Sul” (SANTOS, 2019) e desenvolver hipóteses sobre “Comparar? Aproximar? Dialogar? Friccionar” (CASA NOVA, 2008). O simpósio coloca-se, assim, como parte de um processo, sempre aberto, como é da natureza da literatura comparada. Não à toa, procura elaborar reflexões sobre “raízes e labirinto” (SANTIAGO, 2006), “vestígios memoriais” (BERND, 2014), “Paralelas e tangentes” (SANTILLI, 2003), uma “geocrítica do eurocentrismo” (MATA, 2012), as formulações pós-coloniais (LEITE, 2013) e “os paradigmas críticos e representações em contraponto” (BRUGIONI, 2019) e as pedagogias decoloniais (WALSH, 2013). A diligência crítica proposta aqui quer pensar as obras literárias, em diálogo com outras esferas do conhecimento. Parte, para tanto, das seguintes questões: como os narradores africanos, latino-americanos, brasileiros e amazônicos configuram o diálogo entre culturas, literaturas, linguagens e humanidades nos séculos XX e XXI? Que papel exercem as estéticas do deslocamento nas trocas e transferências culturais, linguísticas, éticas? Como os conhecimentos da teoria, crítica e comparatismo podem ser articulados às correntes teóricas como os estudos culturais, pós-coloniais, decoloniais e geoculturais? Como interpretar textualidades que têm representado alteridades desviantes e suscitado novas formas de compreensão da literatura, sociedade e cultura? Como abordar romances, contos, crônicas, produções cinematográficas, artes plásticas que, em certa medida, vão na contramão da busca da identidade nacional, bem como interpretar textualidades rizomáticas marcadas por nomadismo, errância, diáspora? Ou, ainda, quem são os novos ficcionistas africanos, latino-americanos, brasileiros e amazônicos que estariam promovendo novas leituras dos contatos coloniais, pós-coloniais e decoloniais? Que espaços as textualidades rizomáticas têm ocupado na cena crítico-teórico-comparatista? Que visões do espaço urbano e rural têm sido apresentadas nestas produções artísticas? Como tais ficcionistas, intelectuais e tradutores têm vivido e representado a tensão entre o local e o global e que ocupam a era da globalização? Que posicionamentos a crítica pode adotar diante destes textos que elegem a montagem, o recorte, as imagens e a citação como formas discursivas tão díspares? Silviano Santiago (2002) desenvolve também a linha de raciocínio sobre a relação entre viagem, sociedade e literatura. Para o crítico, “os europeus viajam por que são insensíveis aos seus, porque não tem o alto senso de justiça” (p. 225). A interface entre cultura, sociedade e imaginário está ali, porém não é vista, reconhecida e vivida, sendo negada para dar lugar a construção do espelho da Europa no Novo Mundo, a propagar a fé do Império como instrumento de negação dos valores do outro, indígena, negro, feminino, sequestrar o código linguístico deste último e instituir uma prática etnocêntrica para falar pelo outro e em nome dele. Nesse sentido, pretende-se, neste simpósio, dialogar com a “Literatura brasileira contemporânea” (DALCASTAGNÈ, 2012), estudar “A literatura afro-brasileira: abordagens em sala de aula” (DUARTE, 2019), investigar as “Poéticas indígenas: lugar, identidade e memória” (GRAÚNA, 2015), discutir a leitura da “Literatura como arquivo da ditadura brasileira” (FIGUEIREDO, 2017) e ampliar as lições de “Literatura Comparada e Literatura Brasileira: circulações e representações” (JOBIM, 2020). Eis alguns dos horizontes de interesse que orientam, portanto, a concepção, proposição e concreção deste simpósio, para o qual convidamos pesquisadores e estudantes de pós-graduação a refletir sobre a literatura comparada como zona de fricção das/nas Américas, Amazônias e Áfricas. Assim, o simpósio pretende ser um espaço para reconhecer que “a literatura comparada sempre teve como objeto produtos literários, e por extensão culturais, distintos, caracterizando-se como o estudo dos contatos, trocas, intercâmbios e embates entre tais produtos”, para irmos na direção de Eduardo Coutinho (2006, p. 218). Enfim, esperamos tecer uma rede de reflexão que permita cartografar, topografar e trans-friccionar a sinergia labiríntica, caleidoscópica e rizomática da literatura comparada, adotando, por conseguinte, “miradas estrábicas”, “entre-lugares”, “solidariedades” e “espaços nômades do saber” das/nas Américas, Áfricas e Amazônias neste Congresso da Abralic, sediado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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COORDENADORES:
EMERSON PERETI (Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA))
Antonio Rediver Guizzo (Universidade Federal da Integração Latino-Americana)
Jennifer Paola Umaña Serrato (Universidad Autónoma de Bucaramanga)

RESUMO: Assim como outras expressões totalitaristas e expansionistas do colonialismo, o modelo econômico, posto em curso no século XVI e reformatado ulteriormente mediante a mundialização do capitalismo tecno-extrativista, tem sido responsável pelo contínuo e sistemático extermínio de ambientes naturais, povos e culturas. Juntando a vontade de acumulação, conversão e dominação, particular à lógica cristã-colonial, ele utilizou o excedente sempre para financiar sua própria expansão, criando, ao redor de si, uma teleologia própria, universal e axiomática que hoje força os próprios limites do planeta. Essa Era do Capital, ou Capitaloceno, como alguns estudiosos têm chamado (Moore, 2022), nasce do racismo ontológico, teológico e epistemológico da razão colonial, atravessa oceanos, continentes, florestas, montanhas e corpos humanos por cinco séculos, retroalimentando-se da própria desolação que causa, transformando vida em mercadoria, sofrimento em acumulação de riqueza, florestas e rios em desertos de fuligem e lama tóxica. Achille Mbembe, em seu conhecido ensaio sobre necropolítica (2018, p. 10-11) nos lembra que “a instrumentalização generalizada da existência humana e a destruição de corpos humanos e populações” tem sido uma das constantes da expansão da modernidade ocidental. Daí que qualquer relato histórico do surgimento do terror moderno precisa, segundo o autor, tratar da escravidão. Essa forma de imposição do poder soberano sobre as vidas nuas se tornou a “tradição dos opressores” nos intermináveis ciclos de commodities no subcontinente americano. Dos escravizados das plantações aos trabalhadores em condição de escravidão nas atuais fazendas de cana-de-açúcar, dos indígenas exterminados pela extração do pau-brasil aos trabalhadores modernos do látex, dos condenados às minas coloniais aos mineiros proletários contemporâneos, a exploração predatória de recursos naturais retrata também o consumo desenfreado de vidas humanas. Constituída como um ponto alternativo à chamada história oficial, a literatura latino-americana tem, há muito tempo, denunciado esse contínuo de miséria e destruição. Albergando histórias dissidentes, um grande número de expressões artístico-literárias têm se convertido em uma espécie de contra-arquivo, à medida que fissuram, derroem, anarquizam as estruturas de origem e comando instauradas pelo poder vigente. Esses contra-arquivos literários têm guardado, de alguma maneira, as memórias das vítimas desse sistema econômico pelos expedientes estético-narrativos da ficção, seja pelo romance social, pela literatura de testemunho, pela etnoficção real-maravilhosa, pelo novo romance histórico, pela metaficção historiográfica, até o que, diante da indizibilidade do apagamento, Saidiya Hartman (2020) chamou de fabulação crítica. O inferno verde dos seringais no norte, retratado por José Eustasio Rivera (2006 [1924]) em La vorágine, se reconfigura, no sul, nos campos de erva-mate, por onde penam os mensú de Augusto Roa Bastos (2005 [1960]), nas paisagens tóxicas da soja em um romance de Samanta Schweblin (2014). A prensa de cana-de-açúcar que destroça o braço de Mackandal, em El reino de este mundo, de Alejo Carpentier (2012 [1949]), é a mesma que moe esperanças nos engenhos ruinosos do nordeste brasileiro em José Lins do Rego (1986 [1932]). O salitre, que aduba a morte no corpo dos trabalhadores em Santa María de las Flores Negras, de Hernán Rivera Letelier (2002), é o mesmo que atiça as metralhadoras do exército colombiano contra os trabalhadores da banana em A Casa Grande, de Álvaro Cepeda Samudio (2006 [1962]). Ele sobe, à contrapelo, a ferrovia de Minor Keith até a Guatemala de Miguel Ángel Asturias (1982 [1960]), para alimentar, com sangue indígena e campesino, a ventruda United Fruit Company em mais um romance bananeiro. Quantas vidas humanas o Grupo Hochschild, a Anaconda Company, a Cerro de Pasco Corporation, a Samarco Mineração S.A enterraram para que o cobre, o estanho, o zinco, a prata, o ouro e o minério de ferro pudessem, justamente, emergir da terra? Imaginamos essas existências singulares também em um romance insólito de Manuel Scorza (2002 [1970]), em um poema mineral de Pablo Neruda (2002 [1950]), no Gosto amargo dos metais de Prisca Agustoni (2022), em um conto subterrâneo de Víctor Montoya (2011 [2000]). Elas reaparecem na literatura como imagem pulsante, ausepresencias encobertas que ressurgem em personagens ficcionais, em tramas ardilosas, em espaços contestados, em silêncios perturbadores, em ofensas inenarráveis, na mortalha do arquivo, no mundo dos vivos, em constante estado de latência em direção à justiça. Como tentativa de trazer tais questões à baila – em tempos de necroliberalismo, hiper-realismo capitalista, crise climática e sexta extinção em massa – este simpósio, sob a abordagem comparatista, propõe a partilha de conhecimentos sobre as representações artístico-literárias desse “ciclo” imparável de commodities que liga a expansão colonial do século XVI a nosso presente como uma corrente de ferro. Isso também porque, como afirma Paul Ricoeur (2010, p. 129), “as vidas humanas precisam e merecem ser contadas”, principalmente “quando evocamos a necessidade de salvar a história dos vencidos e dos perdedores. Toda a história do sofrimento clama por vingança e pede narração”.

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COORDENADORES:
ERNANI MÜGGE (Universidade Feevale)
Cláudia Bechara Fröhlich (Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS))

RESUMO: Nos últimos tempos, estamos vivendo a chamada crise ecológica, que está devastando a vida e causando graves alterações no mundo e no nosso modo de viver. As catástrofes climáticas e suas consequências, as quais resultam de sucessivas interferências das pessoas na lógica da natureza, têm desafiado autoridades e pesquisadores a encontrarem alternativas viáveis para, pelo menos, amenizar o quadro. Como disse Bruno Latour (2020), “ou mantemos as condições que tornam a vida habitável para todos os que chamo de terrestres, ou então não merecemos continuar vivendo”. É também nessa direção que lemos os diários de Maria Gabriela Llansol, escritora portuguesa, quando anota, em outubro de 1975, uma observação atenta que chega quase como um aviso: “Jade engana-se quando deseja, quase com exclusivismo, a companhia dos humanos. Jade é um cachorro que nos foi dado. É preciso escrever a todos os seres”. Por meio desta ideia, de "escrever a todos os seres" que Llansol nos convida a habitar um espaço que é horizontal, uma comunidade de singularidades, em “que as diferentes formas de vida tentem uma outra ocupação da terra” (LLANSOL, 2001, p.123). É também nos diários que a autora vai escrever que “[…] encaramos o nosso futuro com uma frugalidade sempre maior de meios, no sentido de uma harmonia e estabelecimento de laços recíprocos entre seres humanos, plantas, animais, e tudo o que eu, em síntese, não sei dizer” (2005, 182-183).
Além de diários, textos literários e outras produções escritas, como cartas, memórias e relatos de viagem também podem ser fontes reveladoras dos nossos pensamentos e ações, constituindo-se em corpus de pesquisa para rever e re-inaugurar uma outra forma de pensar, que possa ampliar nossa relação com a natureza. Ao fazê-lo, é possível apostar na formação de uma comunidade de pensantes que não destitua a natureza da sua condição fundamental – de ser a fonte da vida –, mas que a conceba na sua completude, sem separar seres humanos das plantas e dos animais, propondo uma co-existência, sem hierarquizar o vivo. A ideia vai ao encontro de Agamben (2013) que, na tese do livro O Aberto: homem e animal, compreende o ser humano enquanto conceito de categoria aberta, cuja definição acontece por uma decisão política, logo, passível de deslocamentos; uma forma de reconciliação do ser humano com sua natureza animal, em que a vida pós-histórica do homem “implica necessariamente a reatualização do limiar pré-histórico” (AGAMBEN, 2013, p. 42), no qual a fronteira entre o ser humano e o animal se esvanece.
Dessa forma, em tempos de devastação climática, em que a apropriação da natureza pelo capital fez do humano, desumano, as questões que decantam, portanto, são: Como a escrita pode participar da habitação de um mundo em ruínas? O que a literatura, as ficções e as produções textuais dizem sobre nosso passado natural? Ao revisitar as memórias de outros tempos, os testemunhos de escritas singulares, como podemos empreender uma concepção mais sustentável, coletiva e ecológica para o futuro?
A proposta se sustenta nos estudos da ecocrítica, que busca, a partir da literatura, compreender como o ser humano se relaciona com a natureza (VIGAL, 2010), bem como das perspectivas da história, da educação, da arte e da psicanálise, como uma forma de expandir possibilidades de escrita-leitura a fim de desdobrar, revisitar e reconfigurar as práticas do existir neste planeta. A concepção transcende a ideia de verificar o comprometimento do produtor do discurso com o meio ambiente: entende-se que a materialidade discursiva, ainda que não engajada, revela como determinado ator social ou determinada comunidade efetiva sua relação com o entorno não-humano, ou seja, permite visualizar como a cultura de determinada população afeta o ambiente. Concordamos, assim, com Scott Slovic que, em entrevista a Diana Villanueva Romero, afirma que, a partir do alargamento das discussões, atingindo variado público, “se produzca un efecto em cadena no solo dentro de la comunidade académica sino, de manera más amplia, em la sociedade mundial contemporânea” (Junquera, Henríquez, Vigal, 2010), de modo a ampliar a consciência ambiental com vistas a um comportamento pessoal e social mais responsável.
A seção acolhe, portanto, estudos que se atenham à análise, em perspectiva comparada, das produções e materialidades escritas e que tentem, de alguma forma, responder às questões que se coloca, de modo a projetar novas maneiras de pensar, que possam apontar para a integração do ser humano à natureza. Assim, desloca-se a ideia de antropocentrismo para a de biocentrismo.

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COORDENADORES:
VALDINEY VALENTE LOBATO DE CASTRO (UERJ (PPLIN))
Carlos Antônio Magalhães Guedelha (Universidade Federal do Amazonas)
Fabrício Magalhães de Souza (SEDUC-AM)

RESUMO: Desde o início do século XIX, quando a imprensa foi autorizada no Brasil, a Amazônia Brasileira mostrou seu interesse pela leitura. Nas páginas dos jornais das principais províncias desfilavam prosas de ficção, poesias, críticas literárias, crônicas, peças teatrais e debates literários produzidos copiosamente por homens da Amazônia. Esses periódicos circulavam em todo o território brasileiro, graças ao intenso movimento dos navios a vapor, alcançando as províncias e comarcas mais distantes. Além dos escritos publicados nas outras regiões, na segunda metade do século XIX, Belém e Manaus começaram a publicar jornais e livros, o que, com o progresso proveniente da extração da borracha, impulsionou ainda mais a expansão de autores e obras. Com a implantação do regime republicano e a demarcação dos estados da região norte, os impressos passam a ser produzidos por todas as capitais do pais e rapidamente a literatura começa a ganhar mais espaço tanto nas páginas impressas, quanto nos espaços de leitura que cresciam significativamente. Assim, a leitura desde muito cedo, apesar de estar distante do polo econômico e letrado do país, fez sucesso na Amazônia Brasileira, garantindo vasta produção literária e angariando um número expressivo de leitores. No entanto, por mais que as discussões sobre a literatura desse espaço tenham se ampliado nas últimas décadas, a imagem de exotismo e atraso ainda caracteriza a representação nacional que se construiu sobre a região, ainda que estudos sobre a literatura da Amazônia Brasileira tenham merecido destaque nas últimas décadas e se tornado objeto de estudo dos mais diversos pesquisadores de diferentes áreas em inúmeras instituições de pesquisas, nacionais e internacionais. Essa proeminência no cenário nacional e na crítica internacional deve-se, em parte, na harmonia da discussão sobre a Amazônia com os Estudos Culturais, as teorias Pós-coloniais, assim como os Estudos comparados, o que possibilita um olhar que começa a deixar, aos poucos de ser apenas de deslumbramento e de estranhamento. As diversidades culturais, fruto dos diferentes tipos de imigrantes; as relações sociais impactadas pela rica e singular fisiografia; e o imaginário construído por meio de crenças e lendas possibilitam a produção de composições literárias múltiplas, marcadas por traços sociais e culturais que, simultaneamente, revelam e contribuem para a construção da(s) identidade(s) do homem da Amazônia Brasileira. Considerando essa diversidade, utiliza-se a expressão "literaturas amazônicas" no plural para capturar a ampla variedade, complexidade e heterogeneidade das criações literárias que se originam na região amazônica ou que tratam dela. Essa opção de terminologia reconhece que não há uma única "Amazônia" ou uma só maneira de descrevê-la, mas sim um conjunto de vozes, identidades e manifestações culturais. Diante dessa riqueza, se entrechocam e se entrecruzam, no processo de produção e recepção, a opulência dessa literatura múltipla e o complexo cenário por ela retratado e por onde ela circula. Desse modo, essa diversidade fisiográfica, cultural e social, permite compreender as manifestações da/na Amazônia Brasileira como uma pluralidade de culturas hibridamente entrelaçadas – razão pela qual a relação do homem com o texto é permeada por relações muito diversas, o que provoca uma necessidade de discutir questões relativas à literatura (como leitura, produção, recepção e circulação do texto literário), bem como a construção de identidades da Amazônia Brasileira (baseada tanto nas relações entre centros, margens e periferias quanto no papel de livreiros, escritores e leitores, que compõem o mercado editorial). Nessa seara revela-se o caráter transnacional da Amazônia Literária a partir da capacidade das obras literárias, autores e temas atravessarem fronteiras nacionais, conectando diferentes culturas, territórios e identidades, indo além da ideia de que a literatura pertence exclusivamente a uma nação. Na Literatura contemporânea é possível tomar como exemplo de transnacionalidade os problemas amazônicos comuns a diferentes países, como o desmatamento para o avanço do agronegócio, o garimpo e a mineração de um modo geral, além da rota amazônica do tráfico de mulheres, comum a diferentes localidades da Amazônia. Diante da riqueza identitária e cosmológica, do deslumbramento fisiográfico, dos desafios pós-coloniais e dos problemas sociais o intuito principal deste simpósio repousa exatamente nessa necessidade: proporcionar a visibilidade a essas obras literárias, frequentemente percebidas às margens do cânone; portanto serão acolhidos trabalhos na seara da literatura comparada, da teoria da literatura, da história da literatura, dos estudos culturais, das relações entre literatura e outras artes, desde que relacionados ao contexto da Amazônia Brasileira, nas suas literaturas escritas, orais, indígenas e ribeirinhas, isso porque as Amazônias Literárias englobam narrativas, mitopoéticas e histórias de vida da diversidade que compõe o espaço, refletindo o imaginário da região.

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COORDENADORES:
José Ailson Lemos de Souza (Universidade Estadual do Maranhão)
Silvana Maria Pantoja dos Santos (Universidade Estadual do Piauí/Universidade Estadual do Maranhão)

RESUMO: Dos temas mais célebres da literatura ocidental, a viagem codificou-se como meio pelo qual os meandros da narrativa, da escrita e da diferença de gênero transmutam a experiência, da Odisseia, de Homero, à obra de romancistas influentes do século XX como James Joyce, Virginia Woolf, W. G. Sebald, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. O deslocamento entre terras e mares desconhecidos fomenta, desde os primórdios, formas narrativas em que o reconhecimento, o confronto e as disputas entre diferenças abrem possibilidades para uma compreensão mais profunda sobre o ser e estar no mundo, e os desdobramentos de expedientes como a colonização nas modalidades de representar si mesmo e o Outro. Observa-se em obras de diversos escritores da literatura brasileira e estrangeira explorações atravessadas por jornadas espaciais ou interiores que se comunicam por meio do dialogismo cultural e polifonia, termos com que Bakhtin (2003) concebe a literatura de modo a questionar concepções como originalidade, fontes e influência. Há, no entanto, de se considerar assimetrias que afetam esses termos. Mary Louise Pratt (1991) concebe como zonas de contato os espaços em que diferentes culturas se encontram e se enfrentam em conflituosos contextos, geralmente permeados por relações de poder assimétricas. Romances como As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, No Coração das Trevas, de Joseph Conrad, e Uma Passagem para a Índia, de E. M. Forster, exigem leituras como a que Sandra Vasconcelos sugere para a obra de Conrad: o recurso à crítica temática, a dados biográficos pertinentes, à visão ideológica do escritor e ao exame atento que Antonio Candido (1971) divisa como precipitação do conteúdo em forma. Nessa perspectiva crítica, pressupõe-se que esses romances encenam uma ampliação da própria forma narrativa, elaborando ao mesmo tempo espaços de alteridade com as implicações do colonialismo. Se pensarmos no encontro entre textos, leituras e autores nos termos de outro tipo de alteridade, a literária, faz-se necessário repensar, como sugere Sandra Nitrini (2010), a análise comparatista a partir de um olhar voltado para o plural. Afinal, pensamos aqui em discutir como tais narrativas exigem novos modos de ler, diferentes daqueles exigidos por obras da tradição realista. Novos olhares para novos tipos de representação, muitas vezes propícios para aproximações com aspectos obscuros, imprecisos e oblíquos da experiência narrada. Em acordo com a ideia de Donaldo Schüler (2021) sobre a potencialidade de leituras fomentadas por nossa posição às margens do discurso eurocêntrico, ressalta-se aqui certa vantagem para perceber os novos territórios abertos pela Odisseia de Homero para a literatura, bem como por obras de diversas tradições literárias. Territórios feitos de incursões por mundos fantásticos e oníricos que contrariam o pacto realista. Viagens, deslocamentos e alteridades evidenciam imaginários de grande potencial de invenção linguística e formal (Collot, 2012). Pode-se observar esse potencial também em viagens interplanetárias, de narrativas como a de Lily Brooks-Dalton ou lunares como a de Arthur C. Clarke, dentre outros, de modo a obter efeitos ainda pouco explorados na escrita, bem como imaginar alargamentos dos limites do próprio humano, seja esse um encaminhamento projetado a partir de escalas naturais ou a partir da fantasia. O presente simpósio acolhe trabalhos que examinem a representação de viagens, deslocamentos e encontros nas literaturas de língua portuguesa e estrangeira, sejam estas jornadas realizações ambientadas no presente, no passado, em futuros possíveis ou distópicos. É de interesse os registros físicos, simbólicos ou imaginários de mobilizações, fluxos e redes, múltiplas travessias possíveis de expressar diferentes formas de experiência, pautadas por manifestações de reconhecimento ou suas falhas. Também serão bem-vindos a comunicação de trabalhos cujos temas se relacionem a travessias interiores enquanto dispositivo de autoficção e memória; a viagens como metáfora do processo criativo; jornadas interiores como dispositivos de rupturas formais; a imagens da cidade moderna como representação de identidades em trânsito; a viagem e desterro como modos de ler as alteridades na ficção; a formas híbridas na representação literária de viagens; a jornadas interestelares como possibilidade de expansão da presença humana no cosmos; viagens como metáfora de libertação interior, emotiva ou sexual; travessias como forma de refletir sobre a história, o tempo e a própria literatura; o deslocamento como chave de exploração do corpo, do gênero e da escrita, dentre outras discussões pertinentes ao tema central. A viagem e suas representações na literatura colocam em evidência o confronto entre culturas, espaços em disputa, formas de ser e dramatiza a escrita propriamente dita, revelando uma miríade de possibilidades para a ficção.

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COORDENADORES:
Luciana Boose Pinheiro (UFCSPA - Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre)
Ana Boff de Godoy (UFCSPA - Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre)
Rodrigo de Oliveira Lemos (UFF - Universidade Federal Fluminense)

RESUMO: A relação entre literatura e saúde constitui um campo interdisciplinar fértil, frequentemente denominado “humanidades médicas”, “literatura e medicina”, ou "medicina narrativa". As representações da saúde na literatura não se restringem à descrição de doenças ou práticas clínicas, mas abrangem a complexidade da experiência humana diante do sofrimento, do cuidado, da vulnerabilidade e da finitude. A literatura, enquanto forma simbólica e estética, oferece um espaço privilegiado para compreender as dimensões subjetivas da saúde, frequentemente negligenciadas por abordagens estritamente biomédicas, porém sempre presentes na fruição estética.
Saúde, enfermidade, ferimentos, convalescença, cura, contaminação - os diversos aspectos dos processos de saúde e de doença frequentemente têm papel central nas representações literárias, o mesmo se dando quanto aos agentes desse processo (doentes, médicos, curandeiros, psicólogos, enfermeiros, entre outros personagens). Esse fenômeno pode ser observado desde os primeiros textos que temos nas literaturas ocidentais, como as epopéias e as tragédias, em que pestes, ferimentos e acessos de loucura desempenham um papel importante tanto no desenvolvimento dos personagens quanto no encadeamento das ações, seja na literatura grega ou latina. O mesmo se pode afirmar, por certo, de épocas posteriores, como a Idade Média e Moderna, além, bem entendido, da época contemporânea. É por tais representações, cobrindo um arco temporal amplo e diversas áreas geográficas, que o presente seminário temático interessar-se-á.
O objetivo desta proposta de Seminário Temático é discutir a amplitude da relação entre Literatura e Saúde e suas representações.
Historicamente, a literatura tem sido um espelho das concepções sociais de saúde e doença como um conceito relacional, profundamente atravessado por fatores sociais, políticos e morais.

O bem-estar e a Saúde Coletiva são elementos importantes e determinantes da condição humana. Representar suas peripécias no meio literário constitui não só fonte de matéria verossímil, como de conexão com as profundidades essencialmente humanas.

Sob uma perspectiva teórica, autores como Rita Charon (2006) defendem a “medicina narrativa” como abordagem que integra competências literárias à prática clínica. Segundo Charon, a capacidade de escuta, interpretação e empatia — desenvolvidas pela leitura de narrativas — permite ao profissional de saúde compreender melhor as histórias dos pacientes. Essa perspectiva dialoga com a ideia de que a literatura amplia a compreensão da experiência da doença, deslocando o foco do diagnóstico para o sujeito.
A teoria da recepção literária, proposta por Hans Robert Jauss (1994), permite analisar como diferentes contextos históricos influenciam a interpretação das representações de saúde na literatura. O horizonte de expectativas do leitor molda a forma como a doença e o cuidado são percebidos, revelando que tais conceitos não são fixos, mas culturalmente construídos. Dessa forma, a literatura não apenas reflete, mas também produz significados sobre saúde, influenciando práticas sociais e discursos médicos.

No campo comparativo, a análise de obras de diferentes tradições literárias evidencia como as representações da saúde variam conforme contextos culturais. Enquanto na literatura europeia do século XIX, como em A Montanha Mágica, de Thomas Mann, a doença é associada à introspecção e à decadência burguesa, em narrativas latino-americanas contemporâneas, observa-se uma ênfase nas desigualdades sociais e no acesso precário aos serviços de saúde. Essa comparação revela que a literatura atua como um espaço de crítica social, denunciando as iniquidades que atravessam também o campo da saúde.

Outro aspecto relevante é a representação das “peripécias” humanas — entendidas aqui como os eventos inesperados e transformadores que marcam a trajetória dos personagens. Na literatura, a doença frequentemente atua como catalisador dessas peripécias, provocando rupturas que levam à reflexão sobre identidade, sentido da vida e relações interpessoais. Em O Alienista, de Machado de Assis, por exemplo, a fronteira entre sanidade e loucura é questionada, revelando a arbitrariedade dos discursos científicos e a fragilidade das instituições. A saúde mental, nesse caso, é problematizada a partir de uma perspectiva crítica e irônica, evidenciando o papel da literatura na desconstrução de saberes hegemônicos.

As humanidades, nesse contexto, são representadas como um campo de tensão entre razão e emoção, ciência e arte, objetividade e subjetividade. A literatura, ao explorar essas tensões, contribui para uma compreensão mais ampla da saúde, incorporando dimensões éticas, estéticas e políticas. Conforme aponta Susan Sontag (1978), as metáforas associadas à doença influenciam profundamente a forma como os indivíduos vivenciam e interpretam suas condições, podendo tanto estigmatizar quanto empoderar. A análise literária dessas metáforas permite desnaturalizar discursos e promover uma abordagem mais crítica e sensível da saúde.

Em síntese, as representações da saúde na literatura constituem um campo de investigação que articula teoria literária, crítica cultural e práticas de cuidado. Ao evidenciar as experiências humanas em sua complexidade, os textos literários ampliam o entendimento da saúde para além do corpo biológico, incorporando dimensões simbólicas e sociais. A literatura não apenas representa a saúde, mas participa ativamente da construção de seus significados, oferecendo subsídios fundamentais para uma abordagem mais humanizada e interdisciplinar.

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COORDENADORES:
PAULO CÉSAR RIBEIRO FILHO (Universidade de são Paulo)
Lígia Regina Máximo Cavalari Menna (Universidade Presbiteriana Mackenzie)
RITA DE CÁSSIA SILVA DIONÍSIO SANTOS (Universidade Estadual de Montes Claros)

RESUMO: O simpósio propõe-se a reunir pesquisadoras(es) interessadas(os) em refletir sobre a presença, a circulação, a recepção e a crítica de obras produzidas por mulheres ou com protagonismo feminino no campo da literatura infantil e juvenil em perspectiva comparatista. Pretendemos acolher, sob diferentes enfoques teóricos e metodológicos, investigações que versem sobre as formas pelas quais autoras e personagens femininas de distintos tempos, espaços e tradições literárias têm participado da constituição desse campo, bem como os modos pelos quais tais produções foram legitimadas, silenciadas, redescobertas ou ressignificadas ao longo do tempo.
Ao propor a articulação entre “heranças e reinvenções”, o recorte busca enfatizar tanto as permanências quanto as renovações que atravessam a literatura para crianças e jovens de autoria ou protagonismo feminino. De um lado, interessa-nos revisitar escritoras, ilustradoras, editoras, tradutoras, mediadoras e demais agentes culturais cujas contribuições foram, em muitos casos, secundarizadas pelas historiografias literárias tradicionais, apesar de sua relevância estética, social e cultural. De outro, importa-nos examinar a produção contemporânea, marcada por novos protagonismos, por disputas em torno da representatividade e por formas renovadas de narrar infâncias, juventudes, identidades, afetos, corpos e experiências sociais. Nesse movimento, o simpósio procura favorecer leituras que estabeleçam diálogos entre obras, autoras, épocas, gêneros, suportes e contextos de circulação, evidenciando continuidades, deslocamentos e rupturas.
A proposta parte do entendimento de que é preciso revisitar, reconhecer e valorizar a arte produzida e protagonizada por mulheres de todos os tempos, especialmente no âmbito da literatura infantil e juvenil, área que ocupa posição estratégica na formação de leitoras e leitores e na construção de imaginários sociais. Considerando a força da literatura e de outras produções culturais destinadas à infância e à juventude na mediação de mundividências e modos de subjetivação, torna-se urgente ampliar o acesso das novas gerações a repertórios mais diversos e inclusivos, nos quais a autoria e o protagonismo feminino apareçam não como exceção, mas como dimensão constitutiva da história literária e cultural.
O simpósio também se justifica pela necessidade de responder criticamente a demandas contemporâneas por igualdade de gênero em diferentes esferas da vida social. Na interface entre literatura, cultura e educação, os debates sobre autoria e protagonismo feminino na literatura infantil e juvenil mostram-se particularmente relevantes, uma vez que a escola, a formação docente e as práticas de mediação de leitura constituem espaços decisivos para a valorização de trajetórias de mulheres que fizeram história, bem como para o enfrentamento de desigualdades persistentes. Ademais, assumimos esta proposição como atitude em prol do atendimento a demandas contemporâneas pela igualdade de gênero em todas as esferas da sociedade; cita-se a Lei nº 14.986/2024, que estabelece a obrigatoriedade de incluir abordagens femininas nos currículos do Ensino Fundamental e Médio em todo o país, a partir de 2025. Por conta da interface da área de Literatura Infantil e Juvenil com as demandas da educação, torna-se possível colaborar ativamente com tal iniciativa.
Além disso, a redescoberta e a dignificação da arte literária de autoria feminina respondem de modo consistente a desafios éticos, políticos e culturais do presente, dialogando com princípios amplamente reconhecidos no debate internacional sobre direitos, educação e justiça social. Nessa direção, a proposta converge para pelo menos quatro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU: o ODS 5, ao promover a igualdade de gênero e o empoderamento de mulheres e meninas; o ODS 4, ao defender uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade; o ODS 10, ao incentivar a redução das desigualdades mediante a valorização de sujeitos e experiências historicamente invisibilizados; e o ODS 16, ao reforçar a importância de práticas e políticas não discriminatórias. Desse modo, o simpósio inscreve a crítica literária e os estudos comparados em um horizonte de responsabilidade social, sem abrir mão do rigor analítico e da atenção à especificidade estética das obras.
Serão bem-vindos trabalhos que contemplem, entre outras possibilidades: comparações entre autoras de diferentes períodos e sistemas literários; estudos sobre escritoras, ilustradoras e tradutoras na história da literatura infantil e juvenil; investigações sobre protagonismos femininos nas obras para crianças e jovens; debates sobre memória, arquivo, circulação e recepção; análises das relações entre literatura, escola e formação de leitoras(es); e reflexões sobre interseccionalidades, considerando gênero em articulação com raça, classe, territorialidade e outras categorias. Espera-se, com isso, criar um espaço de interlocução capaz de iluminar a riqueza e a complexidade de produções literárias e culturais de autoria e/ou protagonismo feminino para crianças e jovens, contribuindo para a renovação dos estudos comparatistas e para a ampliação do repertório crítico sobre o tema.

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COORDENADORES:
Rodrigo Corrêa Martins Machado (Universidade Federal de Ouro Preto)
LUIZ LOPES (POSLING/CEFET-MG)

RESUMO: O simpósio propõe discutir as literaturas LGBT+ a partir da noção de cartografia, entendida não como representação estática ou descritiva, mas como prática crítica de mapeamento de experiências dissidentes, fluxos de desejo, regimes de visibilidade e formas de produção de subjetividade. Inspirada em perspectivas contemporâneas da teoria literária e dos estudos queer, a cartografia permite abordar a literatura como um espaço dinâmico de deslocamento, invenção e reconfiguração de territórios simbólicos, nos quais se inscrevem corpos, afetos e narrativas historicamente marginalizados. Trata-se, portanto, de pensar a escrita literária não apenas como reflexo de realidades sociais, mas como um campo ativo de experimentação e criação de mundos possíveis.

No campo da Literatura Comparada, interessa-nos investigar como diferentes tradições, línguas e contextos culturais produzem, tensionam e reinventam formas de representação das dissidências sexuais e de gênero. Ao privilegiar uma abordagem comparativa, o simpósio busca reunir trabalhos que analisem tanto convergências quanto singularidades nas literaturas LGBT+, considerando suas dimensões estéticas, políticas e históricas. Nesse sentido, torna-se fundamental observar não apenas os conteúdos temáticos dessas obras, mas também seus modos de construção formal, suas estratégias narrativas e suas condições de circulação e recepção em diferentes contextos socioculturais.

A noção de cartografia, tal como mobilizada por Gilles Deleuze e Félix Guattari, permite compreender os textos literários como dispositivos que não apenas representam o mundo, mas produzem linhas de fuga, conexões inesperadas e modos alternativos de existência. Essa perspectiva desloca a análise literária de uma lógica interpretativa centrada na representação para uma abordagem que privilegia processos, relações e movimentos. Assim, as literaturas LGBT+ podem ser pensadas como práticas de desestabilização de regimes normativos de gênero e sexualidade, abrindo espaço para a emergência de novas formas de sensibilidade, linguagem e comunidade. Ao mesmo tempo, a cartografia articula-se à ideia de arquivo, possibilitando revisitar criticamente tradições literárias e recuperar vozes silenciadas ou apagadas pelos cânones hegemônicos, em um gesto que é ao mesmo tempo analítico e político.

O simpósio acolhe propostas que abordem, em perspectiva comparada, temas como: dissidência sexual e de gênero;homoerotismo; representações do corpo e da corporalidade; políticas do desejo e dos afetos; memória, testemunho e arquivo queer; processos de canonização, legitimação e exclusão; interseccionalidades entre gênero, sexualidade, raça e classe; performatividade e linguagem; bem como as relações entre literatura e outras formas artísticas, como cinema, teatro e artes visuais. Interessa-nos também refletir sobre os modos pelos quais essas produções dialogam com discursos científicos, jurídicos e midiáticos, contribuindo para a constituição de saberes sobre sexualidade e identidade. São igualmente bem-vindos trabalhos que proponham releituras críticas de autores e obras já consagrados, evidenciando dimensões dissidentes frequentemente negligenciadas pela crítica tradicional.

Além disso, o simpósio busca contemplar tanto produções contemporâneas quanto investigações que se debrucem sobre períodos anteriores, contribuindo para a construção de uma perspectiva histórica das literaturas LGBT+. Interessa-nos pensar como diferentes temporalidades e contextos socioculturais impactam a produção, circulação e recepção dessas obras, bem como os modos pelos quais elas dialogam entre si, configurando redes transnacionais e translinguísticas. Nesse sentido, a cartografia também pode ser entendida como uma ferramenta para mapear deslocamentos, influências e trocas culturais que atravessam fronteiras geográficas e linguísticas.

Ao propor uma abordagem que articula cartografia, dissidência e literatura, este simpósio pretende contribuir para o fortalecimento dos estudos comparados no campo das literaturas LGBT+, ampliando o debate crítico e fomentando a circulação de pesquisas que problematizam os limites do cânone, os regimes de visibilidade e as formas de produção de conhecimento. Trata-se, assim, de criar um espaço de interlocução que valorize a diversidade de perspectivas teóricas e metodológicas, promovendo o encontro entre pesquisadoras e pesquisadores interessados na investigação das múltiplas formas de expressão literária das dissidências sexuais e de gênero. Espera-se, desse modo, estimular diálogos interdisciplinares e consolidar redes de pesquisa comprometidas com a análise crítica e a valorização dessas produções.
Por fim, o simpósio também se propõe a refletir sobre os próprios modos de produção do conhecimento no campo dos estudos literários, interrogando seus pressupostos epistemológicos, seus critérios de validação e suas práticas institucionais. Nesse sentido, pensar as literaturas LGBT+ a partir da cartografia implica não apenas ampliar objetos e corpus, mas também deslocar metodologias, desestabilizar hierarquias disciplinares e experimentar formas de escrita crítica mais abertas à multiplicidade, à incompletude e ao dissenso. Trata-se, assim, de afirmar a crítica literária como um campo em constante transformação, capaz de acolher a diferença não como exceção, mas como princípio constitutivo, contribuindo para a construção de um saber mais inclusivo, situado e sensível às complexidades das experiências dissidentes.

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COORDENADORES:
DANIELA MOUNTIAN (UFRGS)
PRISCILA NASCIMENTO MARQUES (UFRJ)

RESUMO: Os 40 anos de Abralic marcam também os 20 anos da presença do campo da russística na associação. Por meio dos simpósios temáticos, desde 2006 a área tem sido acolhida pela Abralic, que se configura como um lócus para a consolidação de uma rede de pesquisadoras e pesquisadores em âmbito nacional e transnacional.
A presença da literatura e cultura de expressão russa no contexto brasileiro constitui uma tradição já longeva e profundamente marcada por uma interface entre tradução e crítica, dois pilares fundamentais para sua difusão, já que se trata de dois espaços tão distantes cultural e geograficamente, Rússia e Brasil.
Outro traço importante dessa recepção é a produção acadêmica, isto é, a atuação da universidade como espaço de formação de especialistas em crítica e tradução que, posteriormente, passam a atuar na esfera pública na condição de intérpretes da literatura e da cultura de expressão russa para um público não necessariamente especializado.
Verifica-se ainda a presença de emigradas/os do Leste Europeu, de suas diversas regiões e culturas (eslavas, bálticas, latinas e magiares), que se misturou com um corpo de estudiosas/os locais, fazendo surgir perspectivas, abordagens e produções originais sobre esse campo de estudos. Um exemplo emblemático é o de Boris Schnaiderman, natural da Ucrânia, que se tornou o primeiro professor do curso de russo da Universidade de São Paulo no início dos anos 1960.
Ao longo das últimas duas décadas, tem-se visto a ampliação dos focos dos estudos russos e eslavos no Brasil, numa progressiva e muito desejável descentralização temática e metodológica, que cada vez mais se direciona para a criação de uma rede de pesquisadoras/es e tradutoras/es de diferentes instituições (Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade de Brasília, entre outras) que se articulam com investigadoras/es de diversas áreas, como a literatura, a história, o cinema, o teatro, as ciências sociais, o design, a arquitetura, o jornalismo, entre outras.
O estudo da língua russa (e de outras eslavas) é um fator decisivo para incrementar a qualidade dessas pesquisas. Combinada com o acesso a outras tradições de recepção, como a europeia e a norte-americana, a pesquisa baseada em fontes primárias, com análise de arquivos e intercâmbio com estudiosas/os russa/os, fez com que a russística brasileira ganhasse contornos próprios. Algumas vertentes e campos de investigação têm se destacado, tais como: a) dos estudos de recepção e de circulação transnacional da literatura e cultura russa e do Leste Europeu; b) das diferentes escolas tradutórias, com destaque para a abordagem da transcriação na tradução poética, introduzida pelos poeta Haroldo de Campos e Augusto de Campos e pelo tradutor Boris Schnaiderman, além de novas perspectivas; c) do amplo corpus de pesquisas monográficas (de mestrado, doutorado e pós-doutorado) com tradução e comentário sobre autoras e autores específicos e cada vez mais variados; d) dos estudos no campo da história, sociologia e ciência política, que têm produzido análises e investigações decolonias, a partir da chave “centro-periferia”; e) da apropriação das dramaturgias russófonas nos palcos nacionais; f) da investigação de textos de autoria feminina de diferentes épocas; g) do estabelecimento de diálogos interculturas da Rússia – com diferentes países eslavos (Ucrânia, Belarus, Croácia, entre outros), com diferentes etnias (povos originários) encontradas em seu território e com outras culturas; h) de questões de ensino da língua russa e produção de materiais didáticos específicos para estudantes no Brasil.
No espírito da tradição interdisciplinar e pluricultural das outras edições deste ST na Abralic, convidamos a enviarem suas contribuições nas seguintes áreas:
1) Teoria da literatura e crítica literária de expressão russa, bem como seus possíveis diálogos com outras tradições teóricas;
2) Interfaces e debates entre processos históricos e a literatura russófona e do Leste Europeu;
3) Discussões sobre as especificidades da tradução de textos literários e teóricos russos para o português na chave comparatista, incluindo questões teóricas e linguísticas;
4) Expressões artísticas de expressão russa, como teatro, cinema, pintura e outras modalidades de produção audiovisual e seus processos de tradução intersemiótica (como a transposição da literatura para outros meios);
5) Estudos comparatistas histórico-literários sobre questões geopolíticas relativas à Rússia e ao Leste Europeu segundo uma perspectiva do Sul Global, incluindo a emergência de novos conflitos identitários no contexto pós-soviético;
7) O problema da literatura documental, ou “literatura do fato”, em autores de expressão russa pela perspectiva comparatista;
8) Estudo e tradução da poesia em língua russa e investigações comparatistas;
9) Pesquisas comparatistas sobre questões ligadas a autoras e autores de expressão russa na emigração, seja ao longo da história ou na contemporaneidade;
10) Debates de questões de gênero, feminismos e textos de autoria feminina;
11) Leituras comparadas entre textos infantojuvenis russos e de outras tradições.

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COORDENADORES:
KATIA AILY FRANCO DE CAMARGO (UFRN)
MARTA PRAGANA DANTAS (Universidade Federal da Paraíba)
Wiebke Röben de Alencar Xavier (Universidade Federal do Rio Grande Do Norte)

RESUMO: A Literatura Comparada contemporânea tem se distanciado das análises puramente estéticas ou binárias para se debruçar sobre a complexidade dos fluxos globais, transatlânticos e regionais de ideias. Este Simpósio Temático propõe uma reflexão crítica sobre os processos de transferência cultural e de tradução de conceitos, tomando como eixo central a circulação e transformação de modelos teórico-metodológicos no campo intelectual brasileiro. A partir da premissa de Michel Espagne e dos múltiplos estudos de dinâmicas de transferts culturels desde os meados dos anos 1980, compreendemos que o transporte de um objeto cultural (ou conceito) de um contexto para outro implica não apenas uma mudança de geografia, mas uma re-sementização profunda, onde o contexto de recepção cria construções e conexões novas e também ressignifica o ponto de partida.

O eixo busca investigar como teorias e obras literárias atravessam fronteiras, focando nos agentes dessa translação. Para tanto, ancoramo-nos na Sociologia da Tradução e dos Intelectuais, conforme delineado por Gisèle Sapiro, Johan Heilbron e Pierre Bourdieu. Interessa-nos discutir as condições sociais de circulação internacional das ideias: quem são os mediadores? Quais são as instituições (editoras, universidades, suplementos literários, crítica) que legitimam a entrada de um conceito estrangeiro no Brasil? Como a “República Mundial das Letras”, discutida por Pascale Casanova, reflete assimetrias de poder entre centros produtores e periferias receptoras nessas transferências?

Igualmente relevante é questionar as divergências entre conceitos e teorias que circulam no Brasil. A noção de “periferias” receptoras já não se sustenta de forma binária; trata-se, antes, de compreender como o Brasil participa ativamente da reconfiguração de paradigmas teóricos, nem sempre em posição subordinada. Essa perspectiva nos permite superar dicotomias simplificadoras e reconhecer a agência criativa dos intelectuais brasileiros na apropriação e transformação de conceitos importados.

A proposta também se abre à materialidade desses processos. Através da História da Cultura Escrita de Roger Chartier, pretendemos analisar o livro e os impressos como suportes físicos que condicionam a recepção. A circulação não ocorre no vácuo; ela é mediada pelo mercado editorial, pelas políticas de tradução e pelas transformações materiais que um texto sofre ao ser editado em solo brasileiro. Essas dimensões materiais são fundamentais para compreender como a forma física de um livro - sua tipografia, encadernação, paratextos - influencia sua leitura e apropriação pelo público brasileiro.

Diálogos com as pesquisas de Márcia Abreu, Tânia de Luca, Marta Pragana Dantas, Wiebke Röben de Alencar Xavier e Valéria Guimarães são essenciais para situar essa discussão no panorama específico da crítica e da história literária nacional. Esses trabalhos nos permitem observar como o Brasil se posiciona frente aos modelos europeus e latino-americanos, não como mero receptor, mas como espaço de negociação, resistência e inovação teórica.

O objetivo central deste Simpósio Temático é reunir pesquisas que analisem a literatura e a teoria sob a ótica do movimento e da transformação. Queremos entender as “conexões” (as redes de solidariedade intelectual e comercial) e as “divergência” (os ruídos, as resistências e as adaptações criativas) que ocorrem quando conceitos como “romantismo”, “realismo”, “modernidade” ou categorias sociológicas são importados e aclimatados pela crítica brasileira. Essas dinâmicas revelam não apenas como o Brasil absorve influências externas, mas como as ressignifica e as devolve ao circuito internacional transformadas.

Para garantir a coerência teórica e evitar propostas que fujam ao escopo, este simpósio priorizará trabalhos que se enquadrem em quatro eixos temáticos fundamentais. O primeiro eixo concentra-se na Sociologia da Tradução, investigando o papel crucial de tradutores e editores como agentes de transferência cultural. Neste contexto, interessa-nos a análise de catálogos editoriais como documentos que revelam políticas de seleção, circulação e legitimação de obras estrangeiras no mercado brasileiro. Compreender essas dinâmicas permite identificar quais autores, correntes teóricas e perspectivas foram privilegiados em determinados períodos históricos.

O segundo eixo aborda a História dos Conceitos, dedicando-se à trajetória de termos teórico-metodológicos e sua transformação ao serem traduzidos ou aplicados à Literatura Comparada no Brasil. Trata-se de rastrear como conceitos europeus - frequentemente forjados em contextos específicos - sofrem re-semantizações quando incorporados ao pensamento crítico brasileiro, gerando novas interpretações e aplicações que retroalimentam o debate internacional.

O terceiro eixo enfatiza a Materialidade e Circulação, através do estudo de coleções, revistas literárias e suportes impressos na difusão de ideias transnacionais. As revistas literárias, em particular, funcionam como espaços privilegiados de mediação, onde tradutores, críticos e editores negociam a entrada de novos conceitos e obras no campo intelectual brasileiro, deixando rastros materiais dessa negociação.

O quarto e último eixo dedica-se às Assimetrias e Poder, promovendo discussões sobre a posição e a participação atual do Brasil no mercado global de tradução. Interessa-nos examinar os novos impactos do eixo Norte-Sul e Sul-Norte na reconfiguração de perspectivas teórico-metodológicas, transatlânticas e regionais, da e na Literatura Comparada Brasileira, reconhecendo que essas dinâmicas não são estáticas, mas continuamente renegociadas.

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COORDENADORES:
Maria de Fatima do Nascimento (Universidade Federal do Pará (UFPA))
Hugo Lenes Menezes (IFPI)
MARCELA FERREIRA MATOS (IFG/UFG)

RESUMO: Maria de Fatima do Nascimento (UFPA)
E-mail: mafana@ufpa.br
Hugo Lenes Menezes (IFPI)
E-mail: hugomenezes@ifpi.edu.br
Profa. Dra. Marcela Ferreira Matos (IFG)
E-mail: marcela.ferreira@ifg.edu.br
Em 2026, a Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) completa 40 anos, conforme “site” da entidade. Juntamo-nos então a outros estudiosos, no Simpósio Temático “Confluências Narrativas: O Relacionamento Interpersonagem na Literatura do Brasil e de Portugal”, para celebrar tão importante momento da pesquisa acadêmica daqui e do país de Camões. A Literatura Comparada consolida-se enquanto campo dinâmico e interdisciplinar, que transcende fronteiras nacionais e linguísticas na investigação de diálogos e tensões em sistemas estético-verbais diversos. Semelhante prática encontra o principal fórum de debate e articulação no Congresso Internacional da ABRALIC, marco da sistematização teórica e difusão de trabalhos. Ao reunir pesquisadores em torno de eixos temáticos, o evento impulsiona novas perspectivas que reafirmam a literatura como espaço de resistência e encontros culturais, a partir da construção de diferentes processos discursivos. Haja vista o título/tema do Simpósio, cumpre-nos registrar que a unidade linguística “personagem” (do latim “persona”: máscara de ator) denomina, em formas dos gêneros narrativo (epopeia, conto, novela, romance) e dramático (tragédia, comédia, drama), seres fictícios à similitude dos humanos. Esses são pessoas que vivem no meio físico. Já as personagens são criaturas de um universo engendrado, onde se interrelacionam. A arte da palavra segue a evolução do pensamento mundial, ao mostrar, pela dinâmica dos papéis e máscaras sociais, que a vida privada e a pública se modificam com o tempo. O convívio interpersonagem é basilar para a compreensão da existência em comum e da empatia. O mesmo tema permeia ambiências axiológicas, com críticas costumbristas e conflitos que chegam à moderna complexidade psicossocial: desde o medievo cavaleiresco, a narrativa épica renascentista, como “Os lusíadas” (1574), de Luís de Camões, em Portugal, e no Brasil desde a epopeia intitulada “Prosopopeia” (1601), de Bento Teixeira, na virada do Renascimento para o Barroco. Aos Setecentos, surge o romance, estimulado pela imprensa. No século XIX, durante o Romantismo, temos também Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Júlio Dinis, no país camoniano, e em terras brasílicas, Joaquim M. de Macedo, José de Alencar e Bernardo Guimarães. No Realismo-Naturalismo, contamos entre nós com Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Inglês de Sousa e Raul Pompeia, e em Portugal, com Eça de Queirós, Abel Botelho e Fialho de Almeida. As narrativas exploram ao extremo relacionamentos amorosos/passionais, sensuais e familiares, para entender fatores gregários. Ademais, o convívio das personagens entra na construção de um “retrato socionacional”. No Pré-Modernismo do Brasil (1902-1922), Lima Barreto e Monteiro Lobato trazem relacionamentos calcados no coloquialismo e em questões mais políticas, com retrato do poder e das classes. Da “Semana” a 1930, primeira fase do nosso Modernismo, Mário e Oswald de Andrade ironizam contatos referentes à busca de identidade dos indivíduos e da coletividade brasileira. Na fase regionalista do Nordeste, em “Vidas secas” (1938), de Graciliano Ramos, o vínculo familiar de Fabiano, Sinha Vitória e rebentos é marcado pela dificuldade de comunicação, em face da desumanização imposta. Os laços sanguíneos são refúgios frágeis perante a necessidade de sobrevivência, consoante José Lins do Rego e Jorge Amado. As personagens são marginalizadas, em relações de opressão e mais-valia. A terceira fase, a pós-moderna, de 1945 em diante, centra-se em dramas vivenciais, sob foco linguístico-filosófico, a exemplo do que empreendem Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Dela, em particular, destacamos os tópicos: busca de identidade e alteridade, amor ambíguo/contraditório (êxitos e erros), solidão a dois, instinto materno, relações pais e filhos, enfraquecimento dos laços de família, velhice e morte, pré-fala ou insuficiência da linguagem (o indizível) e interação com o não-humano (animais e objetos). A temática de Clarice Lispector é retomada também pelas compatriotas Lygia Fagundes Telles, Nélida Piñon, Lya Luft e Maria Lúcia Medeiros, bem como pela literatura brasileira contemporânea. Em terras lusas, influenciados por vanguardas e por Freud, sobretudo no Presencismo (1927-1940) com José Régio, autores das narrativas modernistas exploram o relacionamento interpersonagem marcado por fragmentação do “eu” e incomunicabilidade no acelerado mundo tecnológico. De 1940 a 1974, representado por Alves Redol, Fernando Namora e outros, o Neorrealismo analisa as relações numa estrutura de embates ideológico-classistas. Nas décadas de 1970 e 1980, desponta e se mantém na ativa, até 2010, José Saramago. Nele, o relacionamento interpersonagem é fio condutor ético, de profundo humanismo, não raro em cenário alegórico ou historiográfico. Igualmente, nos decênios de 1970 e 1980, surge Lobo Antunes, em cuja obra a ideia de convívios felizes é descontruída mediante foco na imperfeição humana e na falência das conexões afetivas. O autor de “Fado alexandrino” (1987) tem no livro “As outras crônicas” (2024), a derradeira publicação antes de seu falecimento em 2026. Na arte verbal lusa contemporânea, também Lídia Jorge, Valter Hugo Mãe discutem o relacionamento entre indivíduos. Assim, com o simpósio proposto, objetivamos acolher diversos trabalhos em consonância com o tema/título e a ementa.

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COORDENADORES:
THIAGO MARCEL MOYANO (Universidade de Brasília)
Flávio Adriano Nantes (UFMS)
Cláudia Nigro (UNESP)

RESUMO: Este simpósio propõe reunir investigações que explorem múltiplas formas de deslocamentos — geográficos, subjetivos, linguísticos, corpóreos, afetivos. Interessa-nos, particularmente, pensar a figura do sujeito deslocado, fora do lugar, ex-cêntrico, como aquela que encarna não apenas a travessia entre territórios, mas também aquele que é subalternizado em relação ao gênero, à raça, à classe e à sexualidade, tornando visível a condição de corpos cuja legibilidade é constantemente posta em questão. A noção de deslocamento aqui mobilizada não se restringe à migração como movimento entre nações, mas se estende a experiências de desencaixe, de desidentificação, de excentricidade e/ou de trânsitos subjetivos, ainda não legitimadas socialmente. Nesse sentido, dialogamos com formulações de Judith Butler (1990; 2004) sobre performatividade e precariedade, compreendendo o gênero como um campo regulado por normas reiterativas que produzem tanto reconhecimento quanto exclusão. Corpos que não se alinham a essas normas — especialmente quando atravessados por marcadores de raça, classe, gênero, sexualidade — tornam-se alvos de formas sistêmicas de violência, assédio, injúria, suspeição, enraizados nos limites socais. A suspeição, como outras modalizações de violência, pode ser pensada como uma tecnologia de poder que incide sobre corpos migrantes, queer, pretos, indígenas, empobrecidos, LGBTQIA+, etc., exigindo deles uma inteligibilidade que frequentemente lhes é negada. Nesse ponto, a reflexão de Jasbir Puar (2007) sobre homonacionalismos é particularmente produtiva ao evidenciar como certos sujeitos LGBTQIA+ podem ser incorporados a projetos nacionais normativos, enquanto outros — frequentemente racializados e migrantes — permanecem marcados pela exclusão, vigilância e precarização. No campo literário, obras de Ocean Vuong, Shani Mootoo, Conceição Evaristo, Natalia Borges Polesso, Micheliny Verunschk, Marcelino Freire, Dolores Reyes, Dhalia de la Cerda, Patrícia Melo, Camila Sosa Villada, Claudia Piñeiro, e um grande etcetera, oferecem exemplos potentes de como deslocamentos, excentricidades, desidentificações, desencaixes, se entrelaçam à constituição do sujeito e como ele não passa incólume ao olhar social. Estas escritoras e escritores trazem à discussão “os sujeitos inconvenientes” e o modo como são vistos, percebidos e pensados por uma sociedade cujo modus operandi é racista, classista, sexista, xenófobo, lesbo-gay-bi-transfóbico. Neste sentido, a escrita literária, bem como outras artes num sentido mais amplo, emerge como espaço de reinscrição e realocamentos, mas também como evidência de fraturas: aquilo que não se traduz, que não se diz, que escapa. Ao mesmo tempo, as obras dos autores anteditos sugerem que a dificuldade de legibilidade não deve ser entendida apenas como déficit ou exclusão, e que mesmo sob as mais violentas condições, sujeitos seguem forjando novas formas de agenciamento e existência. Aqui, a proposta de Eve Kosofsky Sedgwick (2003) sobre leituras reparativas pode oferecer uma chave interpretativa relevante: em vez de apenas denunciar os mecanismos de suspeição, subalternização, racialização, empobrecimento, sexismo, seria possível também atentar para os modos pelos quais sujeitos e textos constroem vínculos, afetos e estratégias de sobrevivência que não se deixam capturar integralmente por lógicas violentas de invisibilização, rechaços, injurias e/ou práticas letais. Ademais, Jack Halberstam (2011) também enriquece essas leituras em suas proposições sobre como a experiência queer e/ou outras monstruosidades (Preciado, 2020) frequentemente desestabilizam narrativas lineares de progresso, sucesso ou integração, abrindo espaço para temporalidades desviantes, marcadas por interrupções, retornos e descontinuidades. Se Calvino (2006) tem razão ao afirmar acerca dos usos que se fazem da literatura — usos políticos certos e errados —, é possível implementar, por intermédio da crítica literária ou das artes em geral, um discurso que tensione e vá na contramão do discurso social vigente. Neste sentido, a escrita literária a qual pensamos busca identificar os sujeitos inconvenientes, inadequados, descentrados, alocados para além da fronteira das subjetividades hegemônicas, perceber como se movem socialmente e quais são as sanções empreendidas por essa mesma sociedade. Como certos corpos se tornam “difíceis de ler”? Quais são as consequências políticas e afetivas dessa dificuldade? De que maneira a literatura, o cinema, as artes visuais e outras formas culturais elaboram essas experiências? E, ainda, como pensar corpos historicamente (repetidamente) subalternizados, inviabilizados, empobrecidos, vilipendiados, eliminados, em última esfera letalmente, não apenas em termos de mecanismo de controle, mas também como ponto de partida para práticas críticas e criativas? Convidamos, então, pesquisadoras e pesquisadores que abordem questões concernentes entre o texto literário, bem como de outras artes, e corpos deslocados do território, da raça, da classe, do gênero e da sexualidade, atentando para as estruturas sociais empíricas representadas pelo/no discurso artístico. A partir de abordagens interdisciplinares, buscamos abrir um espaço de diálogo que acolha diferentes objetos, contextos e perspectivas teóricas.

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COORDENADORES:
Wagner Monteiro Pereira (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)
Andréa Cesco (Universidade Federal de Santa Catarina)
Luciana Ferrari Montemezzo (Universidade Federal de Santa Maria)

RESUMO: O aparecimento de A tarefa do tradutor, de Walter Benjamin, se configura como um marco para a história da tradução literária. O ensaio de 1923 reverberaria de maneira “messiânica” nos estudos literários por apresentar o texto traduzido como uma possibilidade inventiva de sobrevivência do texto original. O texto de Benjamin mantém um papel central no século XX por verificar na obra traduzida a missão de reviver a obra original, em outro tempo e espaço, com a idiossincrasia da língua e cultura do texto de chegada. Nas últimas décadas, esse pensamento foi fundamental para forjar conceitos como o de intraduzibilidade. Se admitimos, como Haroldo de Campos (2011), a intraduzibilidade da poesia, tomaremos como ponto central e de partida a recriação do texto poético e sublinharemos uma ruptura na hierarquia entre texto original e traduzido. Deste modo, não se busca reconstituir a mensagem que o texto quer transmitir, antes recriar a informação estética que o texto apresenta. Portanto, para Haroldo, a tradução de um texto poético sempre será recriadora, autônoma, mas também recíproca. Neste caminho de recriação do texto literário, a questão da tradução cultural (Pym, 2016) é também precípua para analisarmos o processo de tradução de uma obra literária. De acordo com os postulados de Bhabha (2019), o tradutor mantém uma posição de agente propagador de “hibridismo cultural”. Isso significa que o tradutor, por conhecer as duas culturas — do texto a ser traduzido e da língua-alvo —, produz um discurso, consequentemente, híbrido. Para Berman (1984), no processo de tradução cultural, o tradutor deve optar por manter aspectos da cultura estrangeira, o que se opõe, em outras palavras, a um projeto cuja base seja a tentativa de simplificação do texto e do consequentemente apagamento de aspectos da outra cultura para tornar o texto mais aprazível ao leitor. Do mesmo modo, Lawrence Venuti, em Escândalos da tradução (2019), afirma que a boa tradução é aquela que não domestica textos estrangeiros, que não os insere dentro de um sistema literário da literatura nacional do tradutor, cujos estilos, muitas vezes, diferem dos da língua traduzida. “Uma ética da tradução que privilegia a diferença reforma identidades culturais que ocupam posições dominantes na cultura doméstica” (Venuti, 2019, p. 169). No século XXI, surgem propostas metodológicas que relacionam tradução e problematização do cânone literário estabelecido, a exemplo da obra As sinsombrero – sem elas a história não está completa, da escritora espanhola Tània Balló, publicada em 2016 (Espasa Libros) e traduzida no Brasil em 2022 (Relicário), que recupera a memória de várias mulheres da Geração de 27 (escritoras, artistas plásticas, dramaturgas e pensadoras), cujo legado se mostra decisivo para a história da Espanha. Destacamos que essas intelectuais participaram da vida cultural espanhola entre os anos 1920 e 1930 e se destacaram no cenário cultural da época, apesar do papel restrito que a elas era incumbido naquela época e naquela sociedade e apesar do impacto da Guerra Civil, que acabou com tantos sonhos de liberdade e igualdade. Propostas de tradução como a levada ao cabo com as Sinsombrero fogem de uma representação aparentemente inclusiva dos textos selecionados, que ao fim e ao cabo acabam por anular a complexidade dessas produções e termina por objetificar as “culturas supostamente homenageadas” (Seligmann-Silva, 2020, p. 26). Sob outra perspectiva, não se ignora a memória histórica que estes textos possuem, destacando como o “presente” é penetrado pela memória histórica de tentativa de apagamentos. Do mesmo modo, a prática de tradução alinha as teorias da área ao cotejo entre os diferentes contextos. Isto é, como traduzir ao leitor brasileiro do século XXI questões fundamentais do século XIX, por exemplo? Ao inserir o leitor brasileiro, ou seja, o ato da leitura dentro de seu contexto, é relevante trazermos a discussão o conceito de “horizonte”, apresentado por Antoine Berman, em Pour uma critique des traductions: John Donne (1995). Para o teórico francês, o horizonte se configura como um conjunto de parâmetros literários, culturais e históricos que determinam o pensamento e as ações do tradutor. Quer dizer, o tradutor se insere em um determinado éthos e locus, que afetam sua produção. Isso significa que é relevante apontar para o fato de que as traduções produzidas dentro desse projeto de pesquisa serão feitas por pesquisadores brasileiros e, portanto, latino-americanos. Com efeito, com a prática de tradução, poderemos estabelecer uma recontextualização dos textos lidos e discorrer sobre as perspectivas éticas e sócio-históricas das traduções realizadas. Portanto, este simpósio acolherá as propostas que dialoguem com os desafios teórico-metodológicos na tradução literária e/ou que reflitam sobre o papel ativo do tradutor na formação de cânones.

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COORDENADORES:
PRISCILA NOGUEIRA DA ROCHA (UFRJ)
SONIA CRISTINA REIS (Letras- UFRJ)
MARINÊS LIMA CARDOSO (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

RESUMO: Este Simpósio Temático propõe uma investigação crítica e comparatista sobre as dinâmicas de invisibilização e as potências de insurgência da autoria feminina em diversas geografias literárias. A proposta parte de uma provocação teórica contemporânea na obra L'ha scritto lei, ma... (2026), de Johnny L. Bertolio. Ao dialogar com as reflexões pioneiras de Joanna Russ, Bertolio mapeia as persistentes estratégias retóricas de desqualificação da escrita produzida por mulheres, mecanismos que operam desde a negação direta da autoria até a redução do valor estético da obra ao âmbito do "doméstico", do "confessional" ou do "puramente sentimental". Este simpósio busca expandir esse debate, conferindo-lhe uma dimensão transnacional, essencial para compreender como o fenômeno do apagamento atravessa fronteiras linguísticas e se manifesta de formas distintas em diferentes contextos culturais e historiográficos. O objetivo central é discutir o cânone literário não como uma lista neutra de excelência, mas como um dispositivo sistêmico de seleção, exclusão e manutenção de poder. Historicamente, esse dispositivo relegou a produção feminina a zonas de "menoridade" ou "exceção", tratando a escritora como um fenômeno isolado e raramente como parte integrante de uma tradição intelectual sólida e contínua. Sob o pilar metodológico da Literatura Comparada, acolhemos trabalhos que analisem como o sistema literário compreendido em sua totalidade, desde os manuais didáticos que formam o imaginário coletivo até as premiações de prestígio, como o Nobel, consolida hegemonias que silenciam a alteridade e ratificam uma visão de mundo eurocêntrica e androcêntrica.
Nesta perspectiva, o simpósio reconhece a heterogeneidade que constitui o conceito de "autoria feminina" e a necessidade de uma abordagem interseccional. Compreendemos que o desafio ao cânone se enriquece ao observar como diferentes marcadores sociais como raça, etnia e classe, atravessam a produção literária e as suas dinâmicas de recepção crítica. Interessa-nos acolher estudos que contemplem a multiplicidade dessa escrita em suas diversas variantes étnico-raciais e sociais. Longe de dispersar o debate, essa abertura permite um olhar comparatista mais agudo sobre as engrenagens de exclusão: trata-se de investigar como a subjetividade feminina se reconstrói em diferentes contextos de alteridade, utilizando a linguagem como ferramenta para reaver espaços de enunciação e desafiar silenciamentos historiográficos que operam há séculos na formação das identidades nacionais.
A fundamentação metodológica desta proposta ancora-se na "Arqueologia Literária", conforme concebida por Zahidé Muzart (2011). Tal perspectiva propõe um gesto de escavação nos arquivos, bibliotecas e periódicos, resgatando escritoras que, embora tenham sido figuras centrais em salões e publicações de sua época, foram deliberadamente obliteradas das cronologias oficiais sob o pretexto de um "valor estético" pretensamente neutro e universal. Esse apagamento revela-se, sob análise crítica, como um filtro que desconsidera as inovações formais e as temáticas propostas por mulheres. Ao trazer essas vozes à superfície, o simpósio articula a recuperação histórica às linhagens de pensamento de Virginia Woolf e Simone de Beauvoir, cruzando-as com a teoria contemporânea para investigar como a estrutura narrativa feminina da construção da voz narrante à elaboração de subjetividades complexas atua na desconstrução de discursos hegemônicos. Sob a ótica de Walter Benjamin (1994), compreendemos que cada obra resgatada funciona como um "documento de cultura" que, ao ser lido na contemporaneidade, atua como um manifesto de resistência contra a barbárie do esquecimento. Ademais, amparados pelas reflexões de Michelle Perrot (2015) sobre a história das mulheres e a conquista da privacidade, este espaço dedica atenção especial aos suportes considerados marginais ou "menores". Diários, correspondências, memórias e cadernos de anotações são lidos aqui como espaços fundamentais de insurgência contra a domesticidade imposta e como laboratórios de experimentação estética. Nessas escritas do eu, o "sujeito feminino múltiplo", teorizado por Teresa de Lauretis (1994), ganha corpo e voz, elaborando traumas, exílios e as fragilidades da condição humana em diversos contextos históricos. Tal perspectiva permite vislumbrar uma "escrita de si" que transborda para o coletivo, transformando a vivência íntima em matéria de reflexão política e crítica.
Dessa forma, o simpósio convida à submissão de comunicações que dialoguem com a autoria feminina em uma dimensão comparativista e interdisciplinar, estruturando-se em torno de quatro eixos fundamentais que orientarão os debates:1) pesquisas de arquivo e historiografia voltadas ao resgate de obras e trajetórias invisibilizadas; 2) discussões teóricas sobre gênero, poder e os mecanismos de premiação e consagração; 3) análises de poéticas de resistência que articulem corpo, memória e subjetividade em gêneros diversos; e 4) investigações sobre suportes digitais e perspectivas interseccionais (raça, classe, etnia e sexualidade). Ao cruzar a provocação de Bertolio com o arcabouço da teoria feminista e da literatura comparada, esta proposta afirma-se como um espaço de urgência crítica e rigor acadêmico. O propósito final é compreender as engrenagens de exclusão que ainda operam no sistema literário e, simultaneamente, visibilizar a produção daquelas que, para além das fronteiras oficiais e dos silêncios impostos, reescrevem permanentemente a pluralidade da experiência humana.

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COORDENADORES:
Cristiane Brasileiro Mazocoli Silva (UERJ)
Marcel Alvaro de Amorim (UFRJ)
Mônica de Menezes Santos (UFBA)

RESUMO: Este simpósio se destina a retomar criticamente e a desdobrar as ações que têm reunido nos últimos anos um grupo de pesquisadores interessados em analisar o ensino de literatura em espaços institucionais e as práticas de leitura literária nos âmbitos da Educação Básica e do Ensino Superior. Tendo como principais diferenciais um esforço em desenvolver um olhar sistêmico sobre a atual crise no ensino da Literatura e uma relação direta com ações de formação continuada de professores em larga escala, priorizamos para isso um olhar capaz de articular as principais variáveis que incidem sobre esse cenário. Nesse sentido, também buscamos com a proposta atual dar continuidade e aprofundamento ao trabalho intensivo realizado nos simpósios “Ensino de Literatura: abordagens sistêmicas” e “Ensino de Literatura em crise: diagnósticos & propostas”, coordenado por esta mesma equipe em dois dos últimos congressos da ABRALIC, e também ao grupo reunido em torno do e-book organizado a pedido da Direção da ABRALIC, em 2025, que foi intitulado “Literatura e ensino: reflexões, experiências e leituras” (ainda no prelo).

Consideramos, como contexto concreto em que essa crise do ensino de literatura se dá, duas ordens de fatores. Por um lado, temos o acirramento de problemas de ordem mais geral como o desprestígio crescente das licenciaturas, o agravamento das condições socioeconômicas dos professores, o impacto de um período recente de forte retração dos investimentos públicos na educação e, por fim, alguns dos velhos desafios para articulação entre teoria e prática docente trazidos à tona de forma mais visível e problemática pelas últimas orientações para o estágio curricular das licenciaturas publicadas na Resolução CNE/CP nº 4 de 2024. Por outro lado, percebemos como têm emergido questões mais específicas ligadas ao ensino da literatura no Brasil, como as propostas fixadas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e a participação relativamente baixa dos profissionais da área de Literatura em setores estratégicos que definem políticas públicas para a disciplina de Língua Portuguesa na Escola Básica (como os programas responsáveis pela avaliação e indicação de livros para constituição dos acervos escolares como o PNLD e o PNLD Literário, ou ainda aqueles responsáveis pela elaboração das avaliações de larga escala que moldam mais de perto os focos centrais de atenção dos currículos escolares e dos livros didáticos, como o ENEM).

Partimos de uma base de trabalho ligada aos coordenadores do simpósio com longa e estreita relação com projetos sistemáticos de formação continuada de professores da Escola Básica e ampla experiência de imersão nas salas de aula em diversos níveis e segmentos - por vezes, inclusive, já reunidos em projetos públicos ligados ao ensino de literatura nas escolas federais, estaduais e municipais, em coordenação de propostas curriculares já implementadas nas escolas públicas e também em cursos e publicações acadêmicas e didáticas. Pretendemos, em relação a esse histórico de efetivo trabalho conjunto dos proponentes e do grupo que vem sendo reunido em torno das questões que nos interessam, não só desenvolvermos ações de balanço e elaboração avançada das experiências já ocorridas e ainda em curso, mas ainda elaborarmos propostas concretas e planos de ação mais robustos que possam continuar a impactar todo o sistema que abrange a educação literária na Escola Básica e no Ensino Superior.

Em termos teóricos, vamos seguir privilegiando no simpósio perspectivas teóricas de caráter sistêmico que se afinem com o olhar já clássico de Antonio Candido sobre o “sistema literário” e também as contribuições centrais de expoentes da ciência da literatura empírica, reunidos no Brasil principalmente em torno de coletâneas e estímulos teóricos trazidos ou organizados por Heidrun Krieger. Nesse sentido, buscamos dialogar com trabalhos que levem em conta não apenas os desafios metodológicos ligados à própria natureza da literatura e da leitura literária de um modo geral, em termos próximos aos de autores como Rildo Cosson e Cyana Leahy-Dios, mas que também sejam capazes de articular a essa análise uma observação mais detida sobre a multiplicidade de fatores que condicionam muito concretamente a experiência de leitura literária no ambiente escolar, tais como os documentos norteadores do MEC que se projetam a nível nacional, os currículos estaduais e municipais, as políticas públicas de aquisição e constituição de acervos escolares implementados nos últimos anos (como o PNBE, o PNLD e o PNLD Literário), a fontes de acesso aos livros didáticos e paradidáticos e aos demais materiais de apoio, o próprio panorama da produção contemporânea de literatura para crianças e jovens, o efetivo trabalho mais pontual de mediação realizado pelos professores em torno das obras literárias em sala de aula, o funcionamento das avaliações de largo espectro e ainda as condições estruturais e políticas em que têm se dado a formação e a prática docente nos espaços institucionais.

Com isso, esperamos dar mais um passo no sentido de avaliação dos modelos teóricos que temos incorporado e também do planejamento das ações político-pedagógicas efetivas que temos assumido.

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COORDENADORES:
Cláudia Tavares Alves (Unesp)
Aline Fogaça dos Santos Reis e Silva (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Gisele de Oliveira Bosquesi (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

RESUMO: Ainda que as origens da língua e da literatura italiana sejam geralmente associadas a obras literárias que começaram a circular em meados dos séculos XIII e XIV, ganhando espaço com os escritos de Dante Alighieri, Francesco Petrarca e Giovanni Boccaccio, os fundamentos de tais obras estabelecem diálogos explícitos com tantas outras obras em circulação naquele contexto, provenientes por sua vez de outras origens, tradições e línguas. Podemos partir, portanto, do princípio de que uma produção literária, mesmo quando reconhecida em si mesma como uma origem, é ainda um objeto intrinsecamente intertextual. Na tentativa de aprofundar esse debate sobre relações intertextuais no âmbito da literatura italiana, podemos fazer eco às palavras de Giorgio Agamben, em seu livro Profanações: “em um sentido particular, toda a tradição italiana cai sob o signo da paródia” (2007, p. 43). Ao discorrer sobre a paródia em tais termos, o filósofo aponta para a relação, na literatura italiana, entre objeto e representação, a qual passa necessariamente pela intangibilidade desse mesmo objeto e pela consciência dos limites da palavra. Dito de outro modo, a paródia “expressa a impossibilidade da língua de alcançar a coisa, e da coisa de encontrar o seu nome” (2007, p. 47), já que a origem é sempre uma projeção, nunca um momento em si. Assim, sob o signo da paródia, ainda segundo Agamben, é possível criar conexões entre autorias que vão desde os primeiros trovadores, passando pelos estilonovistas, Dante e Petrarca, até chegar à literatura mais recente, citando como exemplo escritores como Pier Paolo Pasolini e Elsa Morante, entre outros.
Ainda a respeito da relação entre as obras literárias e a tradição literária italiana, e dos movimentos de ruptura e continuidade operados por cada uma dessas obras em particular, vale ressaltar que o próprio Dante Alighieri, em seu tratado sobre a língua De Vulgari Eloquentia, aconselha a leitura (e, consequentemente, a imitação) dos ditos poetas regulares, tais como Ovídio, Virgílio etc. Porém, conforme observa Ernst Robert Curtius (1996), o sumo poeta modaliza essa exigência com um “talvez” e não aprofunda em termos teóricos o tema. Demonstra, contudo, o seu ponto de outra forma: buscando a superação dos modelos latinos em sua grande obra, A Divina Comédia. Dante, então, é quem polemiza com a tradição literária, ora citando diretamente autores da tradição, ora reelaborando modelos. Ao darmos um salto temporal através dos séculos, será o próprio Dante quem assumirá o papel de modelo para diversos escritores e escritoras, chegando aos séculos XX e XXI como uma presença incontornável na produção literária em língua italiana. Desde nomes consagrados como Eugenio Montale e Giorgio Caproni, até os mais contemporâneos, como Valerio Magrelli e Giulia Martini, a obra dantesca segue figurando como uma tradição que, à semelhança da operação que realizou no século XIV, tanto é reverenciada e reconhecida como um exemplo a ser seguido, quanto é emulada em novas criações literárias.
Não por acaso, os paradoxos dessas movimentações entre a tradição e a criação literária se encontram nas bases da Literatura Comparada. Na tentativa de delinear os conceitos fundamentais da área, Sandra Nitrini encontra na definição de “influência” um de seus pilares mais sólidos, o qual pode nos ajudar a refletir sobre as redes que vão se estabelecendo especificamente no âmbito da literatura italiana. Segundo Nitrini, baseando-se nos estudos de Alejandro Cionarescu, a influência é responsável por produzir um “resultado artístico autônomo” a partir das relações de contato, diretas ou indiretas, de uma autoria com outra ou outras autorias e fontes (2021, p. 127). Ou seja, ainda que a obra literária seja direta ou indiretamente influenciada por uma criação precedente, é fundamental resguardar sua autonomia enquanto objeto a ser interpretado e avaliado por seus próprios atributos.
Levando em consideração tais discussões, este simpósio busca explorar intersecções entre a ideia de intertextualidade e a literatura italiana, considerando tanto textos escritos originalmente em língua italiana, incluindo todos os territórios italófonos, quanto a literatura italiana traduzida, em especial aquela publicada em contexto brasileiro. Neste último caso, entende-se a intertextualidade como um elemento que apresenta novas complexidades tanto para a análise de textos já traduzidos e em circulação, quanto para reflexões que se dediquem a pensar o processo de tradução em si. Também serão bem-vindos trabalhos que explorem relações intertextuais com a própria literatura italiana. Espera-se, assim, reunir comunicações que discutam a relação entre a literatura italiana e as vozes com as quais ela dialoga, podendo se estender a temáticas relacionadas à memória literária, a diálogos e rupturas com a tradição, à tradução e à adaptação de textos, às interpretações e releituras, aos estudos sobre recepção e circulação literária, entre outras.

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COORDENADORES:
André Rodrigues da Silva (Universidade Federal de Pelotas - UFPel)
Daniela Schwarcke do Canto (Universidade Federal de Santa Maria - UFSM)
RODRIGO DA ROSA PEREIRA (Universidade Federal do Rio Grande - FURG)

RESUMO: A literatura comparada, desde os seus primórdios, ocupa-se dos trânsitos, das travessias e da recepção de formas, gêneros, obras e personagens para além das fronteiras nacionais em que foram produzidos. Nesse campo, a atenção volta-se para os modos como os textos circulam, são apropriados e ressignificados em diferentes tempos, lugares, contextos, evidenciando a dimensão relacional da literatura. A tradução, como forma privilegiada de travessia, tem ocupado lugar central nessas discussões, ao possibilitar a circulação de obras entre línguas e culturas e ao instaurar zonas de contato, negociação e transformação de sentidos. Traduzir, afinal, é dialogar, hibridizar, empreender trocas que revelam o que é próprio e o que é alheio, para evocar Tania Carvalhal. Ou ainda, como propõe Antoine Berman, é confrontar-se com o provincianismo da língua materna — e, ampliando essa perspectiva, também com os limites de nossa cultura de origem, de nossas formas de dizer, significar, simbolizar e estar no mundo. A tradução literária, com sua multiplicidade de chaves interpretativas, seus intertextos e seus diferentes horizontes de expectativa em (polis)sistemas literários que se diferenciam no espaço e no tempo, constitui, assim, um campo privilegiado para a investigação comparatista. Nesse sentido, os estudos da tradução têm ampliado seu escopo, incorporando perspectivas que a compreendem como prática de mediação cultural — mais do que meramente linguística — e como instância de (re)constituição de repertórios. Tal ampliação dialoga com abordagens sistêmicas, como a teoria dos polissistemas (Even-Zohar, 1990), bem como com perspectivas descritivas e sociológicas da tradução (Toury, 1995), que permitem compreender a tradução como prática situada, atravessada por normas, instituições e relações de poder. Desse modo, a análise tradutória passa a articular dimensões textuais, históricas, culturais e editoriais, evidenciando os múltiplos agentes e instâncias envolvidos na circulação literária. É necessário compreender também as contribuições da História da Tradução e da História Cultural, especialmente a partir de D’Hulst (2021), que propõe a investigação das práticas tradutórias a partir de questões como quem traduz, o que se traduz, por que, como e com quais mediações essas práticas se realizam. Soma-se a isso a perspectiva de Chartier (1988), que permite compreender os impressos como práticas culturais e como formas de representação que constroem sentidos no interior de relações sociais, bem como a abordagem de Chesterman (2014), que enfatiza o tradutor como agente central nos processos de mediação cultural. Diante desse quadro, este simpósio propõe reunir pesquisas que investiguem a tradução como prática cultural, discursiva e histórica no âmbito da literatura comparada, privilegiando abordagens que considerem os deslocamentos de sentidos entre línguas, culturas e temporalidades distintas. Além disso, interessa a este simpósio discutir a materialidade da tradução e suas condições de produção e circulação, considerando os suportes, os circuitos editoriais e os espaços de difusão que tornam possíveis os deslocamentos de obras entre diferentes contextos. Nessa direção, ganham relevo as práticas de edição, reedição, circulação em periódicos, antologias e coleções, bem como os papéis desempenhados por editoras, revistas, agentes culturais e instituições na legitimação de determinadas traduções e repertórios. Ao deslocar o olhar para esses elementos, tem-se a tradução como parte integrante de uma rede mais ampla de mediações, na qual se articulam interesses estéticos, políticos, econômicos e culturais. Busca-se, assim, promover o diálogo entre pesquisadores(as) interessados(as) nas dinâmicas de circulação literária, nos processos de mediação cultural e nos modos pelos quais a tradução participa da constituição e reconfiguração de sistemas literários em diferentes contextos. Serão acolhidas comunicações que abordem trânsitos e travessias literárias e culturais em sentido amplo, bem como reflexões comparatistas sobre processos e projetos tradutórios envolvendo diferentes gêneros e modalidades de tradução. Incentiva-se o envio de propostas que contemplem: traduções comentadas; análises textuais e estudos descritivos; investigações sobre ética e abordagens engajadas, como traduções feministas e decoloniais, que evidenciem relações de poder; pesquisas históricas e sociológicas em tradução; estudos sobre tradutores e tradutoras; processos editoriais, práticas de antologização, transmidiação, adaptação, transcriação e localização; bem como discussões sobre o mercado editorial, a gestão de projetos, o uso de ferramentas de apoio à tradução, a tradução automática, a pós-edição e a criação mediada por inteligência artificial. Também são bem-vindas reflexões sobre metodologias, competências, avaliação e formação de tradutores e tradutoras de literatura, além de debates teóricos que incidam sobre a prática tradutória no campo literário, contribuindo para o fortalecimento do diálogo entre os estudos tradutórios e comparatistas.

Proponentes do simpósio:

André Rodrigues da Silva
Universidade Federal de Pelotas - UFPel
Daniela Schwarcke do Canto
Universidade Federal de Santa Maria - UFSM
Rodrigo da Rosa Pereira
Universidade Federal do Rio Grande - FURG

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COORDENADORES:
Leni Nobre de Oliveira (Centro Federal Tecnológico de Minas Gerais (CEFET – MG))
Evaldo Balbino da Silva (Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG))

RESUMO: A Literatura Comparada, ao longo de sua trajetória institucional — consolidada no Brasil por meio das quatro décadas de atuação da Associação Brasileira de Literatura Comparada (ABRALIC) —, tem se caracterizado por uma notável plasticidade metodológica e um constante movimento de autorreflexão. Este simpósio propõe uma discussão aprofundada sob o lema "Comparatismo, permanências e renovações", compreendendo a disciplina não apenas como um exercício de justaposição de textos, mas como um campo de forças em que o diálogo inter e transdisciplinar atua como motor de preservação da memória e inovação hermenêutica. Conforme apontam Amodeo e Barberena (2021), os percursos e diálogos da interdisciplinaridade são essenciais para compreender a literatura em sua pluralidade, exigindo que o pesquisador investigue como o método comparatista opera na tensão entre a tradição teórica e as exigências de novas leituras. O comparatismo nos estudos literários pode ser explorado como eixo inter e transdisciplinar na contemporaneidade e a Literatura Comparada permite as diversas fundamentações teóricas que surgem como contribuição para a compreensão do objeto literário. Esse trânsito fortalece análises do texto literário e lhe dá maior alcance e vitalidade, possibilidade de permanência para gerações vindouras em novas ressignificações. A Literatura por ser arte, pode lidar com o saber em rede como hoje ele se processa, oferecendo-se como fronteira transmigratória de saberes e de cultura, ponte transgressora dessas mesmas fronteiras. Por isso, é proveitoso pensar a Literatura como operador reticular do conhecimento, da memória e da cultura, inestimável instrumento de reflexão sobre a prática dos saberes diversos e que, além disso, funciona como arquivo de dados sobre a alma humana: suas angústias, obsessões, sofrimentos, dores, prazeres e comportamentos. Historicamente, o comparatismo evoluiu de uma busca por influências para uma abordagem dialógica. Como postula Carvalhal (2022), a literatura comparada utiliza a estratégia da intertextualidade para funcionar como uma instância de mediação que se expande para as fronteiras do conhecimento. Nesse sentido, a "permanência" referida neste simpósio não deve ser entendida como estagnação, mas como a vitalidade de conceitos operacionais clássicos que resistem ao tempo por meio de constantes releituras. Wellek (2019) fundamenta essa perspectiva ao discutir a Literatura como um sistema de signos e valores e ao propor o "perspectivismo" — a ideia de que a obra de arte possui um significado que se desdobra historicamente. Hyden White (1994), por exemplo, nos oferece um suporte produtivo a respeito do texto histórico como um artefato literário e defende que a construção de narrativas são forma de apresentação de fatos e da ficcionalidade da sua construção em si. Para ele, as ficções verbais cujos conteúdos são tanto inventados quanto descobertos têm mais em comum com seus equivalentes na Literatura do que com os seus correspondentes nas ciências. Isso reforça que também o texto literário tem forte relação com a História, com as memórias dos lugares. Ao dialogar com a História ou a Sociologia, a Literatura permite que o passado seja reencenado sob novas lentes, garantindo que a memória de um povo permaneça como um organismo vivo. Por outro lado, as "renovações" teóricas evidenciam a abertura da disciplina para o que Diniz e Oliveira (2023) classificam como intermidialidade e hibridismo. A transdisciplinaridade surge aqui como um imperativo quando se cruza a literatura com áreas como a Matemática, as Ciências Biológicas ou as Artes Visuais. Esse movimento promove uma "desterritorialização" do saber literário, processo em que o discurso ficcional atua como resistência nas malhas estético-políticas da pós-modernidade. Tal renovação permite que objetos antes marginalizados ganhem centralidade analítica, dialogando com a perspectiva de Santiago (2020) sobre o cosmopolitismo do pobre e as representações das subalternidades, que desafiam as hierarquias tradicionais da crítica cultural.
A relevância desta proposta reside na compreensão de que o comparatismo é o método que melhor responde à complexidade do mundo contemporâneo. Segundo Nunes (2022), os comparatismos no século XXI exigem novos diálogos e perspectivas para dar conta de fenômenos como a literatura digital. Além disso, a inserção da obra em uma escala global, tal qual discutido por Damrosch (2020) ao definir a literatura mundial como um modo de circulação e tradução, obriga a uma renovação dos conceitos operacionais para compreender como os textos se transformam fora de suas culturas de origem. Este simpósio acolherá comunicações que se debrucem sobre essas conexões, priorizando análises literárias que demonstrem como o diálogo com outros saberes amplia a compreensão do fenômeno literário. Em suma, pretende-se criar um espaço acadêmico de discussão em que a tradição se encontra com a inovação de novas abordagens. Ao focar nas permanências e renovações, buscamos consolidar a ideia de que o comparatismo é um exercício de compartilhamento. É através desse intercâmbio que a literatura se afirma como campo de resistência e invenção, capaz de conectar tempos distintos e disciplinas diversas para oferecer respostas mais densas aos desafios culturais do presente.

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COORDENADORES:
Natasha Centenaro (IFRN)
Diego Grando (PUCRS)
Moema Vilela Pereira (PUCRS)

RESUMO: O simpósio propõe reunir investigações que compreendam a Escrita Criativa como campo de conhecimento e prática de pesquisa situados na intersecção entre criação artística, processos de criação, teoria, crítica literária e ensino. Tendo em vista que “(...) histórias só existem quando são contadas” (Brasil, 2019, p. 22), entende-se que investigar esses itinerários, bem como as dinâmicas de produção, as influências e suas fontes constitui um caminho em ascensão no país. Recorda-se do direito à literatura como fator de humanização e a capacidade de organização do caos como propriedade inerente: “A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante.” (Candido, 2004, p. 180). A criação literária como fazer artístico, criativo e pedagógico, passível de reflexão e teorização, propicia a compreensão do que e como a nossa espécie fabuladora (Huston, 2012) é capaz de produzir e seus diálogos com as mais diversas áreas, desde as Artes, Letras, Educação, Psicologia, Filosofia, Comunicação e outras Ciências Humanas.
Para Fayga Ostrower (1986, p. 165): “(...) a criação é um perene desdobramento e uma perene reestruturação”; desse modo, perceber seus desdobramentos e atravessamentos é parte dessa proposta que converge para ampliar e discutir as perspectivas dos estudos em Escrita Criativa, conforme a produção recente demonstra (Brasil, 2019; Centenaro et al, 2025; Grando, 2021; Vilela et al, 2024; Magalhães et al, 2023, Tenório, 2023; Angelini et al, 2021 etc.). Pensar e analisar os procedimentos que levam à construção literária, portanto, contribuem para o entendimento desse campo expandido e transdisciplinar, assim como também é possível atribuir ao processo criador certas regularidades coletivas, tal como se apresenta sob a perspectiva da crítica genética e das teorias dos processos de criação (Salles, 2008).
Apesar de a Escrita Criativa ser considerada uma área relativamente nova e, conforme Harper e Kroll (2012), existir pouco registro documental, em formatos teóricos e também de maneira experimental, o oferecimento de oficinas e ateliês de criação artística e literária, nos mais diversos formatos e gêneros, já apresenta uma constância há décadas. Nesse sentido, coaduna-se ao pensamento do professor e escritor Luiz Antonio de Assis Brasil acerca da possibilidade efetiva de elaboração e desenvolvimento de metodologias a partir do binômio teoria-prática, bem como da relação indissociável escrita-leitura, o que em nada corrobora a simplista ideia de transmissão e repetição de fórmulas prontas (Brasil, 2019). Muito pelo contrário, compreende-se o potencial da Escrita Criativa como aliada não apenas na formação e aperfeiçoamento de artistas, escritores e escritoras, mas também no ensino de Língua portuguesa e Literatura, desde a formação de professores e professoras.
Verifica-se, assim, como a Escrita Criativa pode dialogar com as metodologias ativas, as práticas de letramento literário, multiletramentos e multimodalidades na rede básica de ensino, por exemplo, e como as e os docentes podem estar alinhados a essa realidade. Para Graça Paulino e Rildo Cosson, o letramento literário funciona como um processo de apropriação da literatura enquanto construção literária de sentidos, deve ser entendido no plural e como um estado permanente de transformação: “Trata-se não da aquisição da habilidade de ler e escrever, como concebemos usualmente a alfabetização, mas sim da apropriação da escrita e das práticas sociais que estão a elas relacionadas.” (Cosson, 2009, p. 11). Rildo Cosson tem um capítulo de seu livro sobre Letramento literário intitulado “Oficinas”, enfocando, justamente, seu caráter prático, com sugestões e exemplos de atividades e exercícios interativos, de escrita criativa e criação literária, para turmas de ensino fundamental e médio, pensando as propostas de sequência básica ou expandida.
Parte-se do reconhecimento de que a escrita literária e seus processos integram um campo de elaboração conceitual próprio, configurando um espaço privilegiado para o estudo da literatura, em seus processos, práticas, pesquisas e formas de inscrição no sistema literário. Serão acolhidos trabalhos que investigam processos e práticas de escrita, analisando obras ou criações em processo, abrangendo a ficção e a não-ficção, além de diferentes gêneros literários – narrativos, dramáticos, poéticos, gêneros híbridos (em diálogo com artes visuais, fotografia, teatro, cinema, histórias em quadrinhos etc.), interartes e escrita performativa. Interessa-nos examinar os modos de produção e circulação dos textos, bem como as estratégias formais e conceituais que os constituem, enfatizando sua dimensão comparatista. Serão considerados também materiais em processo e registros das práticas artísticas. Diálogos teóricos e exposição de perspectivas metodológicas são particularmente bem-vindos, e também a exploração da pedagogia da Escrita Criativa, na busca de contribuir para o debate atual da área sobre modos de fazer, ler, ensinar e pensar a literatura.

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COORDENADORES:
André Cechinel (Universidade Federal de Santa Catarina)
Antonio Barros de Brito Junior (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
João Guilherme Dayrell de Magalhães Santos (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

RESUMO: Em um contexto de guerras, genocídios, neoextrativismo e colapso ambiental, emergem formas de se pensar o mundo e as relações sociais que são baseadas em cosmologias ancestrais que, direta ou indiretamente, se opõem ao capitalismo enquanto um sistema que torna homogêneos os espaços, as culturas e as paisagens. No bojo desse novo colonialismo – que escancara a dinâmica neoliberal geontológica (Povinelli, 2016) que opõe Vida e Não Vida, sustentando formas de exploração social, racial e natural –, são cada vez mais comuns abordagens teórico-literárias que privilegiam, na chave da virada ontológica e do multinaturalismo (Viveiros de Castro, 2015), relações sociais lastreadas em metafísicas não-ocidentais como um modo de perceber a multiplicidade de mundos alternativos existentes e por vir (Rivera Cusicanqui, 2018; Santos, 2023). Porém, como uma tradição sociológica mais antiga tem insistido em nos lembrar, embora sejam possíveis muitas formas de se produzir mundos através das relações entre a sociedade e a natureza, existe apenas um mundo (isto é, apenas um planeta), economicamente integrado pelas forças históricas e materiais do capitalismo hegemônico, da globalização e de seu modo de produção e reprodução da vida. Na história do acúmulo dos processos sociais engendrados pelo capitalismo – o capital fóssil, que substituiu a energia hídrica na fabricação têxtil na Inglaterra do século XVIII (Malm, 2016), a sociedade do portifólio, que basicamente tornou-se hegemônica a partir da mentalidade financeira que decompõe o valor das mercadorias em partes a serem negociadas em bolsas de valores (Ascher, 2016), o fascismo tardio, que radicaliza a faceta neoliberal, associando-se às formas de exploração tecnológica dos espaços periféricos (Toscano, 2023), e o capitalismo canibal, que devora tudo à sua frente, transformando qualquer pessoa ou objeto em mercadoria, comprometendo o futuro ecológico do planeta (Fraser, 2024), para citar apenas um punhado deles –, formata-se um mundo no qual as distopias sociais e climáticas assumem o lugar das utopias políticas, como um sintoma, entre outras coisas, das ruínas deixadas pelo capitalismo. Mais recentemente, acirrou-se um processo sem precedentes de acumulação de capital, de exploração de recursos e de subsunção do trabalho ao modo de produção promovido e acelerado pelas Big Techs e pelo capitalismo de plataforma (Srnicek, 2018), o que levou alguns teóricos a crer que entramos em uma fase neofeudal ou tecnofeudal do capitalismo (Durand, 2021; Dean, 2025). Trata-se, portanto, de um período no qual a propriedade dos meios de produção é profundamente monopolizada por um grupo de capitalistas abertamente fisiológicos, que negociam com os trabalhadores e consumidores algumas formas de usufruto de tecnologias e propriedade intelectual, assemelhando-se à fase rentista medieval que deu origem ao capitalismo. No plano da cultura, esses processos todos parecem engendrar, acima de tudo, uma mentalidade financeirista, que trata a produção cultural como derivativos (DeWaard, 2024) ou como mercadorias criadas e impulsionadas por uma engenharia de algoritmos entranhada na lógica do varejo virtual (McGurl, 2021), culminando, no âmbito da produção literária, na homogeneização da literatura por força do capital conglomerado (Sinykin, 2023) e em um estilo dominante que privilegia a imediaticidade e as intensidades urgentes da expressividade em detrimento das modalidades de escrita que fazem a mediação entre a consciência e a realidade social (Kornbluh, 2023). Presa dessa dinâmica econômica, a literatura e outros produtos culturais, mesmo quando refletem sobre a precariedade da vida no capitalismo e as possíveis consequências de seu acirramento no plano social e ecológico, parecem não se alçar mais à condição outrora determinante de uma racionalidade estética capaz de, primeiramente, organizar a sensibilidade e o pensamento sobre o presente, e, posteriormente, engendrar processos, ainda que tímidos, de retardamento da degradação climática, material e social por parte do capitalismo. Neste contexto, não nos cabe mais perguntar o que a literatura pode fazer, mas, sim, analisar de que modo a literatura – o texto, os estilos, os gêneros e principalmente os modos de produção literária, como o mercado editorial, as oficinas de escrita criativa, os cursos de formação, a atuação dos escritores nos espaços virtuais, os prêmios literários, as listas de leituras obrigatórias do vestibular etc. – se entrelaça com o capitalismo nas ruínas que ele deixa pelo mundo. Este simpósio, portanto, acolhe pesquisadores cujo trabalho reflete sobre os vínculos entre a literatura e o capitalismo na sua fase contemporânea, em especial àquelas pesquisas dedicadas ao estudo das formas literárias no que tangem ao colapso climático, à deterioração do mercado de trabalho, à precarização das formas de vida urbana e rural, às distopias sociais e ambientais, entre outros temas afins.

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COORDENADORES:
Adriana dos Santos Sales (Centro Federal de Educação Tecnológica de Mins Gerais)
Sandra Sirangelo Maggio (UFRGS)
Bianca Deon Rossato (IFSul-Gravataí)

RESUMO: Este simpósio temático propõe reunir pesquisas dedicadas ao estudo da produção literária de escritoras inglesas do século XIX, a partir de perspectivas da crítica feminista e da Literatura Comparada. A proposta parte do reconhecimento de que a literatura escrita por mulheres nesse período constitui um campo privilegiado para investigar as formas pelas quais as autoras negociaram as restrições impostas pela cultura patriarcal e, ao mesmo tempo, desenvolveram estratégias narrativas e discursivas capazes de inscrever novas representações da subjetividade feminina. Nesse contexto, o simpósio busca articular análises de obras de escritoras como Jane Austen, Mary Shelley, Charlotte Brontë, Emily Brontë, Anne Brontë, George Eliot, Elizabeth Gaskell, entre outras, dialogando com aportes teóricos fundamentais da crítica feminista, especialmente os de Hélène Cixous, Luce Irigaray, Elaine Showalter e de Sandra Gilbert e Susan Gubar.

A produção literária inglesa do século XIX emerge em um contexto histórico marcado por profundas transformações sociais e culturais, no qual a ampliação do público leitor e a consolidação do romance como forma literária central criaram possibilidades para a participação feminina no campo literário. Entretanto, essa presença foi frequentemente atravessada por tensões relacionadas às expectativas sociais impostas às mulheres, particularmente no que diz respeito à domesticidade, à moralidade e à legitimidade da autoria feminina. Muitas escritoras publicaram sob pseudônimos masculinos ou enfrentaram críticas que associavam a produção literária feminina à inadequação social ou à transgressão moral. Nesse cenário, a literatura configura-se um espaço de negociação simbólica no qual as autoras elaboram narrativas que tensionam os discursos dominantes sobre gênero, identidade e poder.

A crítica feminista tem sido fundamental para revelar essas dinâmicas. O trabalho de Gilbert e Gubar (2000) constitui um marco nesse campo ao analisar a literatura escrita por mulheres no século XIX a partir da tensão entre os arquétipos da “mulher-anjo”, idealizada como modelo de submissão e pureza, e da “mulher-monstro” ou “louca”, figura associada à rebeldia e à transgressão.
De maneira complementar, a perspectiva histórica proposta por Elaine Showalter (2014) oferece importantes instrumentos para compreender a evolução da escrita feminina na tradição literária inglesa. Em sua análise da literatura produzida por mulheres, ela identifica diferentes fases do desenvolvimento da autoria feminina, que vão desde um momento inicial de imitação dos modelos literários dominantes até a emergência de uma tradição literária própria, na qual as escritoras passam a explorar de maneira mais direta temas relacionados à experiência das mulheres. Essa abordagem permite compreender as obras do século XIX como parte de um processo mais amplo de construção de uma genealogia literária feminina, na qual autoras dialogam entre si e com tradições culturais diversas.
A proposta do simpósio também dialoga com a teoria feminista francesa, particularmente com as reflexões de Cixous e Irigaray. Cixous (2025a, 2025b) defende a necessidade de que as mulheres escrevam a partir de suas próprias experiências corporais e subjetivas, rompendo com estruturas discursivas historicamente moldadas por uma lógica patriarcal. A chamada écriture féminine não corresponde a um estilo homogêneo, mas a um gesto de deslocamento das formas tradicionais de linguagem, abrindo espaço para novas possibilidades de expressão e para a emergência de subjetividades femininas múltiplas e heterogêneas. Já Irigaray (2017) questiona a centralidade do discurso falogocêntrico a partir do qual o feminino é sempre “o outro", o que significa que as representações da mulher e de seus desejos são mediadas por uma linguagem masculina.
Nesse sentido, a literatura produzida por escritoras do século XIX pode ser relida à luz dessas teorias como um campo de experimentação estética e simbólica no qual diferentes estratégias narrativas são mobilizadas para questionar normas sociais, explorar conflitos de gênero e representar experiências femininas frequentemente silenciadas na tradição literária dominante. Obras desse período frequentemente articulam temas como confinamento doméstico, loucura, desejo, rebeldia e autonomia, construindo personagens femininas complexas que desafiam as expectativas sociais de seu tempo.
Ao reunir pesquisas que dialoguem com essas perspectivas teóricas, este simpósio busca promover uma reflexão crítica sobre a escrita feminina no século XIX, explorando tanto suas dimensões históricas quanto suas ressonâncias contemporâneas. Interessa-nos, particularmente, trabalhos que proponham abordagens comparativas entre autoras, obras, contextos culturais ou tradições teóricas, contribuindo para ampliar a compreensão da literatura escrita por mulheres em diferentes perspectivas críticas.
Serão especialmente bem-vindas comunicações que abordem temas como: protagonismo feminino na ficção regencial e/ou vitoriana; representações da subjetividade feminina; metáforas da loucura e da transgressão; relações entre corpo, linguagem e identidade; bem como estudos sobre recepção crítica, circulação e reinterpretações contemporâneas dessas obras. Ao articular literatura comparada e crítica feminista, o simpósio pretende contribuir para o aprofundamento das discussões sobre autoria feminina, teoria literária e história cultural, destacando a relevância das escritoras inglesas do século XIX para a compreensão das transformações do pensamento literário e das representações do feminino na modernidade.

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COORDENADORES:
Adeítalo Manoel Pinho (Universidade Estadual de Feira de Santana)
MARIA DE FÁTIMA GONÇALVES LIMA (PUC-Goiás)
Denise Dias (IF Goiano/Amazonas)

RESUMO: Esta proposta é a continuação de simpósio realizado nos Congressos Abralic de 2015, Belém- PA, a 2025, em Manaus. Dado o êxito das apresentações e discussões naquelas oportunidades e por ser do âmbito do Projeto Procad/Capes PUC-Rio/UNEB/Salvador/UEFS-Bahia/PUC-Goiás, consideramos a continuação da proposta e realização do simpósio para a consolidação de um grupo de trabalho multi-institucional e em instância nacional. Para delinear os desafios presentes no título deste Simpósio, e aqui propostos para seguir como um convite instigador a pesquisadores interessados na atualidade das práticas culturais, artísticas, ecocríticas e teórico-críticas, elegemos, no pequeno e exitoso ensaio de Giorgio Agamben, uma das postulações a O que é o contemporâneo: "Contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro." A imagem potente de um "escuro" do tempo delineia metaforicamente a problemática a ser compartilhada pelos pesquisadores, em vertentes ou perspectivas compatíveis com seus objetos de investigação. Tal imagem se impõe quando se constata que, nas últimas décadas, na área dos estudos literários como nas ciências humanas, ocorreram alterações que reconfiguraram os pilares do território disciplinar, abalando o domínio de objetos previstos, o elenco de instrumentos, métodos e o corpo das proposições aceitas como horizonte teórico dos estudos de literatura, outras artes e da cultura. E em vista das últimas decisões sanitárias, políticas, ideológicas e tecnológicas, em escala mundial, tudo pode estar prestes a mudar novamente. Tais alterações repercutiram predominantemente na diluição de fronteiras entre as disciplinas, na multiplicação inovadora das questões e temas de investigação plausíveis para cada uma delas e na ampliação dos instrumentos conceituais e técnicas que as singularizam. Em paralelo às alterações no plano epistemológico, são expressivas também, nas últimas décadas, as alterações que ocorrem no âmbito da cultura e no campo artístico, especialmente no domínio do literário. No primeiro caso, a noção de "cultura" alargou-se, extrapolando a legitimidade que lhe atribuíram – igualmente, mas em circunstâncias diversas – o empreendimento civilizacional iluminista, o Estado nacional moderno e as elites cultas na alta modernidade estética, tornando a cultura e, principalmente, o valor cultural focos de instabilidade, conflito e disputa, por forças que saíram dos bastidores e passaram a disputar a significação cultural. Os dois eixos da significação e valor que atravessaram a área de Letras, afetando o âmbito dos estudos comparados: por um lado, problematiza-se a ligação mutuamente legitimadora entre literatura e nacionalidade, parte do processo de constituição dos estados modernos e matriz de toda a historiografia que por um século pautou os estudos da literatura; por outro, dá-se a contestação ao confinamento do valor cultural à esfera erudita, às artes canônicas e, consequentemente, à separação entre arte, cultura e o que pensadores como Edward Said e Stuart Hall designaram como a "mundanidade".Em grande parte, emanam deste cenário de mudanças epistemológicas e culturais o "escuro do tempo" ou os desafios do contemporâneo, que constituem o campo temático do debate aqui proposto, que deverá confrontar-se com o caráter intempestivo, insurgente da contemporaneidade, sistematizando e provendo instrumental teórico e crítico para lidar com as suas diversas dimensões ou concreções. O deslocamento ou a recusa de hierarquias instituídas geram a oportunidade para que estejam sob o foco deste Simpósio – como desafios que emergem das zonas de sombras do contemporâneo – as formas, expressões e domínios de experiência resistentes, tais como: (a) o corpo, em sua materialidade e enquanto superfície de inscrição e energia ético-estética; (b) os afetos, enquanto força disruptora a dar ensejo a outras formas de representação das vivências; (c) o comum e o cotidiano enquanto categorias transversais da cultura, a mobilizar uma rede de significados que remetem a espaços periféricos, tanto no cenário político e sociocultural quanto nos cenários textuais e artísticos; (d) a violência, a exclusão e a cidade como figurações do presente que convulsionam os limites da representação ao instaurarem, em diversas linguagens artísticas; (e) a lógica do testemunho, do biográfico e do documental, em flagrante desafio à compreensão estabilizada do que seria próprio do domínio ficcional. Ao acolher as perspectivas dos estudos de literatura e de outras linguagens artísticas, bem como dos estudos de produções, práticas e políticas da cultura, incorporando as dimensões de materialidade, de performatividade e de insurgência, próprias das estratégias criativas da atualidade, este Simpósio ambiciona empreender não apenas uma discussão estética e política que possibilite a acolhida analítica das forças e das formas artísticas e culturais do presente, mas – e principalmente – acentuar uma potência inovadora e transformadora que possa afetar práticas investigativas, formativas e educacionais na sociedade brasileira contemporânea, que tanto carece combater as forças de desinformação e políticas de ódio.

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COORDENADORES:
André Pinheiro (Universidade Federal do Piauí)
Ozíris Borges Filho (Universidade Federal do Triângulo Mineiro)
Rosária Cristina Costa Ribeiro (Universidade Federal de Alagoas)

RESUMO: O XX Congresso Internacional da ABRALIC, ao celebrar quatro décadas de trajetória sob o mote “Comparatismos, permanências e inovações”, configura-se como um espaço privilegiado para investigar as fronteiras entre a tradição literária e as rupturas tecnológicas contemporâneas. Nesse contexto, o presente simpósio tem como objetivo central fomentar uma reflexão crítica e comparatista acerca das transformações das categorias fundamentais de espaço e tempo diante da emergência e consolidação das Inteligências Artificiais (IA) na literatura e nas demais manifestações artísticas. A proposta busca compreender de que modo a mediação algorítmica reconfigura a percepção estética e a construção de mundos possíveis, promovendo um diálogo necessário entre permanências teóricas e inovações que vêm redefinindo o fazer artístico no século XXI. O pilar teórico deste simpósio ancora-se no conceito de cronotopo, desenvolvido por Mikhail Bakhtin (2018). Ao compreender o cronotopo como a indissociabilidade entre as coordenadas temporais e espaciais que materializam o acontecimento artístico e o tornam apreensível na narrativa, formula-se a seguinte questão: de que modo essa categoria se reconfigura quando o processo criativo passa a ser mediado por redes neurais que operam segundo uma temporalidade não humana? A “cronotopanálise” aqui proposta não se limita ao texto impresso, expandindo-se para o estudo do modo como o tempo do processamento algorítmico e o espaço do código interagem com a sensibilidade humana. Interessa observar como a “materialização” bakhtiniana do tempo no espaço se realiza em territórios virtuais e desterritorializados, nos quais a IA atua como um agente de coautoria que problematiza as noções tradicionais de gênio criador e originalidade. A perspectiva comparativista constitui o eixo que sustenta e fundamenta este simpósio. A Literatura Comparada, especialmente em sua dimensão interartes e intermidiática (CLÜVER, 2011), oferece instrumentos teóricos adequados para analisar a IA como uma interface capaz de traduzir e transmutar conceitos entre diferentes sistemas de signos. Nesse contexto, propõe-se a investigação do hibridismo nas produções contemporâneas, considerando os diálogos estabelecidos entre poemas gerados por grandes modelos de linguagem, imagens produzidas por algoritmos de difusão e sonoridades sintéticas. Um dos eixos fundamentais do simpósio dedica-se à representação da tecnologia, sobretudo da Inteligência Artificial, na produção ficcional. Com efeito, a ficção científica é compreendida como um laboratório estético privilegiado para o estudo comparado, uma vez que nela destacam-se temas e construções narrativas vinculadas a seres artificiais, redes conscientes e realidades simuladas. Mais do que elementos temáticos, tais repertórios tecnológicos estruturam as próprias obras, gerando, inclusive, novos suportes para o fenômeno da criação literária e configurando-se como dispositivo capaz de reconfigurar o tempo histórico e o espaço social. Seguindo as reflexões de N. Katherine Hayles (2005), investiga-se o modo pelo qual a literatura eletrônica e os processos de tecnogênese redefinem o que significa ler e escrever em um ambiente saturado por protagonistas inteligentes não humanos. O comparatismo permite observar como diferentes tradições nacionais projetam no “outro” artificial seus medos e utopias, revelando tensões éticas e estéticas que antecipam os dilemas inerentes à convivência contemporânea com algoritmos. Para conferir densidade historiográfica, o simpósio propõe um arco temporal que remete à evolução do conceito de espaço na teoria literária, partindo da Antiguidade Clássica, atravessando o realismo do século XIX e culminando nas espacialidades digitais contemporâneas. Trata-se de um exercício de comparatismo diacrônico: o espaço geográfico e social, que servia de alicerce para a narrativa clássica e moderna, é confrontado com o que pode ser chamado de “geografia do imaterial”. Nesse contexto, é pertinente considerar se as estruturas espaciais construídas por IA ainda guardam resquícios das topologias clássicas ou se instauram uma percepção de espaço fragmentada, onde o “aqui” e o “agora” são substituídos por simultaneidades algorítmicas e fluxos constantes de informação. Por fim, o debate se estende às políticas do algoritmo e às relações de poder. Sob uma ótica política e comparada, considerando-se de que modo a IA reconfigura a circulação das artes no espaço global. O poder curatorial dos algoritmos e os sistemas de recomendação automatizados criam novos cânones e exercem um controle sobre o "espaço de visibilidade" literária e artística. Discutir o espaço e o tempo na era da IA é, portanto, discutir quem detém o código e como a Literatura Comparada pode atuar como uma resistência crítica que garante a multiplicidade de vozes. Este simpósio busca consolidar um espaço de diálogo interdisciplinar que reafirme o compromisso da ABRALIC com o fortalecimento da rede acadêmica, conectando a tradição teórica às urgências do presente tecnológico.

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COORDENADORES:
Leonardo Antunes (UFRGS)
José Carlos Baracat Júnior (UFRGS)
Christian Werner (USP)

RESUMO: Os Estudos Clássicos, desde sua concepção, possuem uma natureza intrinsecamente transdisciplinar, articulando ideias provenientes de diversos campos das Ciências Humanas, como as Letras, a História, a Antropologia, a Filosofia e a Sociologia. Essa característica não é meramente metodológica, mas ontológica, proveniente de seus próprios objetos de estudo: obras que poderíamos descrever como algumas das manifestações mais embrionárias das áreas que futuramente viriam a ser definidas como Ciências Humanas. Tais produções foram compostas em um período em que as divisões acadêmicas modernas sequer eram imaginadas; nelas, o mito, o rito, a política e a poesia coexistiam em um estado de simbiose. Assim, os limites entre os campos de saber eram fluidos, e as fronteiras, quando existentes, eram extremamente tênues. Essa natureza transdisciplinar — tanto da disciplina quanto de seus objetos — exige um modo de trabalho afeito aos procedimentos da Literatura Comparada. O pesquisador do mundo clássico é impelido a desenvolver um olhar que é, simultaneamente, analítico e holístico. Trata-se de um esforço intelectual que busca compreender o objeto em sua especificidade filológica e estética, mas que não abre mão de apreender o contexto amplo desse objeto: seu lugar na cronologia humana, sua inserção na história das ideias e o longo (e muitas vezes turbulento) percurso de sua recepção. Esse olhar opera em uma intersecção necessária entre o sincrônico e o diacrônico, observando o texto tanto em seu "agora" histórico quanto em sua longa duração através dos séculos, no seu uso e desuso, nas suas relações com outros textos. Por esse e outros motivos, a Antiguidade configura-se como uma espécie de pedra de toque — um padrão de referência a partir do qual outros tempos e espaços podem ser tensionados e compreendidos. No entanto, é fundamental reconhecer que esse diálogo não se estabelece em uma via de mão única. A compreensão que detemos dos antigos é constantemente modulada pela recepção que deles fazemos dentro de nossas próprias coordenadas geográficas e temporais. Estamos, a todo momento, projetando nossas angústias, valores e preconceitos sobre o mármore e o papiro, transformando o passado em um campo de batalha hermenêutico. Da mesma forma, a compreensão que temos das obras do passado é constantemente também reorganizada a partir das obras do presente, e de tudo que conseguimos enxergar e mobilizar entre um lá e um aqui. Historicamente, a Antiguidade foi muitas vezes instrumentalizada para validar agendas políticas, estéticas e ideológicas. Da construção de impérios modernos à legitimação de sistemas educacionais excludentes, essas apropriações geraram distorções que ainda hoje reverberam na imagem popular e acadêmica que se faz desse período. Como bem sabemos, cada época busca e encontra na Antiguidade uma imagem de si mesma, seja como um ideal de perfeição a ser mimetizado ou como um "outro" bárbaro e distante a ser superado. Esse fenômeno revela que o estudo dos clássicos é, em última análise, um estudo sobre a nossa própria identidade e as contingências que nos moldam. É precisamente nesse cenário de trocas constantes que o Seminário Temático “Estudos Clássicos Hoje” se estabelece. O ST propõe um espaço de debate crítico voltado a repensar o presente a partir dos dilemas do passado, e o passado a partir das urgências do presente. O objetivo não é o resgate de uma pureza histórica inalcançável, mas sim a promoção de uma verdadeira fusão de horizontes. Ao convocar pesquisadores de diferentes horizontes teóricos, buscamos investigar como os textos e a cultura material do mundo antigo continuam a interpelar a contemporaneidade. Queremos entender como a Antiguidade pode nos ajudar a ler as crises políticas, as tensões éticas e as inovações artísticas de 2026, ao mesmo tempo em que permitimos que as novas sensibilidades — decoloniais, de gênero e de classe, entre outras — lancem novas luzes sobre os textos milenares. Trata-se de um convite para habitar a fronteira viva entre o antigo e o novo. Além disso, urge reconhecer que a permanência dos Estudos Clássicos no currículo e no imaginário contemporâneo não deve servir como um monumento estático de autoridade, mas como um laboratório de alteridade. Ao encararmos os textos antigos não como dogmas, mas como interlocutores, exercitamos a capacidade de ouvir vozes que, embora distantes no tempo, enfrentaram dilemas sobre justiça, cidadania e a própria condição humana que ainda nos são caros. Assim, o ST “Estudos Clássicos Hoje” reafirma o compromisso com uma prática científica que seja também um ato de resistência cultural: ao democratizar o acesso e diversificar as chaves de leitura desse legado, garantimos que o passado clássico deixe de ser um privilégio de poucos para se tornar um espelho crítico e plural, capaz de refletir as múltiplas faces da sociedade em que vivemos.

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COORDENADORES:
Marisa Martins Gama-Khalil (UNEMAT; UFU; CNPq)
Sonia Maria Gomes Sampaio (UNIR)
EULISSON NOGUEIRA DE SOUSA (Afya Centro Universitário São Lucas)

RESUMO: O simpósio abrigará trabalhos que se proponham a realizar reflexões sobre manifestações de encantarias e/ou de seres encantados na literatura. Entendemos as encantarias como uma paisagem imaginária através da qual os seres encantados podem desvelar-se por meio de ficções. O poeta e teórico João de Jesus Paes Loureiro define as encantarias a partir do espaço mítico e poético constituído pela mata, pelos rios e também pelo sfumato ou devaneio, “onde habitam os encantados, os deuses da cultura amazônica” (Paes Loureiro, 2008, p. 7). Configura-se também como encantaria a linguagem que poetiza e/ou narra acontecimentos desse espaço encantado. Para Paes Loureiro, a conversão semiótica faz a função prática da linguagem ceder lugar à função poética, desautomatizando as palavras, reinventando-as. Ao falar de encantarias, naturalmente as palavras perdem o uso automatizado e buscam novos horizontes sígnicos. A irrupção “da função poética das abismais encantarias da linguagem ocorre no processo de re-hierarquização dos signos com a inversão da dominante que passa a ser exercida pela estética” (Loureiro, 2008, p. 16). A imaginação e o devaneio tomam conta dessa linguagem ressignificada. Para tratar do devaneio, Paes Loureiro vale-se de uma noção da pintura, sfumato (esfumado), que é o efeito provocado pelo uso da estopa em vez do pincel, fazendo com que o desenho fique com as sombras esbatidas. esfumaçadas. É a natureza fugaz e imprecisa do sfumato que permite a passagem da experiência cotidiana para a experiência poética, da natureza humana para a natureza cósmica. O sfumato é o devaneio e este é “uma atitude sem repouso, mas tranquila do imaginário” (Paes Loureiro, 2015, p. 60). Esse imaginário é incessantemente instigado a manifestar-se num espaço repleto de florestas de árvores, águas e símbolos. O espaço por excelência das encantarias é a natureza e esta encontra-se entranhada de mitos, mistérios, revelações. No caso da Amazônia, trata-se da floresta aquosa, penetrada por águas reais e simbólicas, misteriosas. Os povos originários e as comunidades beiradeiras traduzem suas experiências na floresta através de histórias, faladas ou cantadas, repletas de encantarias. Os botos, curupiras, mapinguaris, iaras ou guayaras, matintas pereiras, kãweras, ypurés, assombrações, miragens e visagens são nalguns desses seres encantados que habitam as experiências diárias e imaginárias do povo amazônida. Encantados podem ser também os seres que desaparecem nas matas e águas, em função de ali permanecerem encantando as paragens, nas quais o sobrenatural é sempre natural. Os encantados estão espalhados pelas paisagens imaginárias de todas as regiões do Brasil, como o saci-pererê, o lobisomem, a curacanga, a mula-sem-cabeça, o bradador. Muitas experiências encantadas originam-se da relação íntima e simbiótica dos humanos com os animais, uma relação que, vista pelos olhos da razão ocidental, seria insólita. Contudo, os ameríndios têm uma visão animista da existência. O animismo manifesta uma equivalência autêntica e multinatural entre as relações que humanos e não-humanos cultivam consigo mesmos, por isso podemos dizer que os animais veem os animais como os humanos veem os humanos: como humanos (Viveiros de Castro, 2017). Assim, os sistemas animistas se caracterizam pela continuidade das relações entre humanos e não humanos; nesses sistemas, as interioridades e subjetividades comuns superam as descontinuidades representadas pelas diferenças corporais, físicas. Philippe Descola defende que o animismo consiste no melhor antídoto contra o solipsismo, pois em vez de um mundo centrado no eu, onde cada forma de existência existe confinada em função de características físicas específicas, existe o mundo animista, “gigantesco espaço de troca transespecífica”, no qual “as interioridades que habitam tipos de corpos distintos começam a se comunicar numa linguagem comum” (Descola, 2023, p. 84). Relacionada ao animismo, a noção de perspectivismo ajuda a explicar algumas encantarias. Eduardo Viveiros de Castro aponta que tanto humanos como não-humanos apreendem o mundo através de perspectivas distintas. O perspectivismo encontra-se frequentemente relacionado “à ideia de que a forma manifesta de cada espécie é um mero envelope (uma ‘roupa’) a esconder uma forma interna humana, normalmente visível apenas aos olhos da própria espécie ou de certos comutadores perspectivos transespecíficos, como os xamãs” (Viveiros de Castro, 2018, p. 57). O olhar animista e perspectivista abarca um sentido descolonizador, assim como também as encantarias, porque em todos esses casos se opera a possibilidade de discursos transgressores e desautomatizadores. As narrativas ficcionais que trazem as encantarias em suas tramas desvelam sempre a transgressão, porque desautomatizam o olhar sobre as normas, sobre as verdades absolutas; sobre os discursos de dominação e de repressão. As encantarias funcionam como espaços de leveza e de fluidez, que podem nos fazer mudar a nossa percepção sobre o mundo que nos rodeia.

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COORDENADORES:
PAULO HENRIQUE DE SA JUNIOR (Universidade do Estado do Rio de Janeiro / University of Alberta / Deutsche Schule RJ)
LUIZ MANOEL DA SILVA OLIVEIRA (Universidade Federal de São João del-Rei)

RESUMO: Este Simpósio Temático propõe uma leitura comparada crítica e meticulosa do Bildungsroman pós-colonial, focalizada nas temporalidades queer que subvertem as narrativas convencionais de formação em literaturas do Caribe, África e Lusofonia. Partindo do modelo europeu formulado por Franco Moretti em The Way of the World: The Bildungsroman in European Culture (2000), que entende o gênero como um percurso linear de maturação individual, reconciliação interior e integração à sociedade burguesa, o ST examina como romances diaspóricos rompem essa estrutura teleológica e deslocam seus pressupostos históricos e formais. Em lugar de uma progressão ordenada e resolutiva, emergem temporalidades não normativas: suspensões que interrompem o devir subjetivo, circularidades que prolongam o exílio sem promessa de retorno, falhas que transformam o fracasso em gesto de resistência, precariedades que revelam a vulnerabilidade constitutiva da experiência colonial e recusas radicais à heteronormatividade racializada. Interseções de gênero, raça, sexualidade e migração diaspórica operam como forças de desestabilização da narrativa formativa clássica, convertendo a Bildung em itinerários de crise intersubjetiva, pertencimento instável e imaginação de futuros desviantes. Nesse horizonte, o “queer art of failure” de Jack Halberstam em The Queer Art of Failure (2011) permite ler o insucesso como estratégia crítica contra regimes temporais normativos, enquanto a “poética da relação” de Édouard Glissant em Poetics of Relation (1997) oferece um glossário para pensar relações opacas, rizomáticas e transnacionais como alternativa às identidades totalizantes.
No panorama caribenho, as narrativas de formação dialogam com a memória fragmentada e marítima evocada por Derek Walcott em “The Sea is History” (1979), em que o mar funciona como arquivo de violência, dispersão e sobrevivência. Essa imagem marítima encontra ressonância na noção de “slow violence” formulada por Rob Nixon em Slow Violence and the Environmentalism of the Poor (2011), pois a colonialidade aparece menos como evento pontual do que como duração desigual, difusa e acumulativa. Nesse registro, o Bildungsroman deixa de organizar uma trajetória de ascensão e passa a encenar temporalidades dilatadas, interrompidas e espectrais. As “territories of the soul” discutidas por Nadia Ellis em Territories of the Soul: Queered Belonging in the Black Diaspora (2015) ajudam a compreender como sujeitos negros e diaspóricos elaboram formas de pertencimento que não dependem da fixidez territorial, mas de vínculos afetivos, sexuais e políticos provisórios. A formação, assim, não culmina em síntese, mas em negociação contínua entre deslocamento, memória e reinvenção do self.
Na África e na Lusofonia, o ST observa como masculinidades hegemônicas, tal como redefinidas por Raewyn Connell e James W. Messerschmidt em “Hegemonic Masculinity: Rethinking the Concept” (2005), se tornam instáveis quando atravessadas por migração, racialização e desejo dissidente. Dominic Pasura e Anastasia Christou, em “Men and Masculinities in Migration” (2018), mostram que a mobilidade internacional não apenas altera repertórios identitários, mas também evidencia fraturas no ideal de masculinidade autônoma, produtiva e disciplinada. Em narrativas pós-coloniais, essas fraturas aparecem como crises de autoridade, vulnerabilidade emocional, recusa da virilidade normativa e abertura a formas relacionais de subjetividade. A antologia Black Queer Studies: A Critical Anthology, organizada por E. Patrick Johnson e Mae G. Henderson (2005), fornece um ponto de apoio decisivo para pensar essas subjetivações a partir da interseção entre raça, gênero e sexualidade, enfatizando como sujeitos negros queer produzem modos de existência que escapam às cronologias binárias do progresso, da maturação e da adequação social.
As inovações formais mobilizadas por essas narrativas são centrais para o argumento do simpósio. Elipses temporais, polifonias, fragmentação enunciativa, circularidades narrativas e interrupções rítmicas deslocam a centralidade do indivíduo autônomo e reorganizam o romance em torno de subjetividades interdependentes, coletivas e transnacionais. Assim, a formação deixa de ser um processo de interiorização de normas e passa a ser um campo de disputa entre memória, corpo, comunidade e história. O simpósio busca reunir pesquisas que analisem como o Bildungsroman pós-colonial reescreve a formação sob o signo da diáspora, da dissidência sexual e da opacidade relacional. Pretende-se, com isso, ampliar o debate comparatista ao examinar obras e corpus diversos sem perder o foco conceitual, articulando literatura, teoria crítica e história cultural.
Ao delimitar seu escopo nas temporalidades queer, o ST reafirma sua pertinência para a literatura comparada e para os debates contemporâneos sobre forma romanesca, colonialidade e transnacionalismo. A proposta contribui para o fortalecimento de uma leitura sul-global das literaturas pós-coloniais, capaz de interrogar o universalismo implícito do modelo europeu de formação e de evidenciar outras lógicas temporais, afetivas e políticas. Em consonância com os 40 anos da ABRALIC, o simpósio valoriza a bibliografia crítica aqui mobilizada e convida trabalhos que explorem, em chave original, as relações entre formação, deslocamento e dissidência, reafirmando a centralidade da comparação como método e como gesto intelectual.

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COORDENADORES:
Elaine Barros Indrusiak (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Ana Cláudia Munari Domingos (Universidade de Santa Cruz do Sul)
Thaïs Flores Nogueira Diniz (Universidade Federal de Minas Gerais)

RESUMO: Este simpósio temático propõe reunir pesquisas que investiguem as relações entre intermidialidade e leitura, com ênfase na reconfiguração do campo literário em contextos de convergência midiática. Parte-se do entendimento de que a literatura, longe de constituir um domínio autônomo e isolado, insere-se em redes complexas de produção, circulação e recepção de sentidos, nas quais interage continuamente com outras mídias, linguagens e práticas culturais.
Nesse cenário, a leitura literária deve ser compreendida como uma prática situada, atravessada por materialidades diversas e por formas múltiplas de textualidade, que vão do impresso aos ambientes digitais. Tal perspectiva implica deslocar concepções tradicionais de leitura centradas exclusivamente no texto verbal, reconhecendo que a construção de sentido, na contemporaneidade, se dá em contextos intermidiais, nos quais diferentes sistemas semióticos se articulam.
A intermidialidade, conforme desenvolvida por autores como Claus Clüver (2006; 2011), Irina Rajewsky (2005) e Lars Elleström (2017; 2021), oferece um quadro teórico fundamental para a análise dessas relações. Em diálogo com a tradição da Literatura Comparada e com o conceito de transtextualidade de Gérard Genette (2006), esse campo permite compreender as interações entre textos e mídias como parte de um mesmo horizonte de investigação, no qual se articulam processos de adaptação, remediação, transposição e circulação transmidial.
Ao mesmo tempo, o campo enfrenta desafios teóricos importantes, especialmente no que diz respeito à instabilidade terminológica e à sobreposição de categorias como multimodalidade, transmidialidade e remediação. Essa dispersão conceitual não apenas dificulta o diálogo entre áreas, mas também compromete a aplicação desses conceitos em contextos de ensino e formação de leitores. Nesse sentido, torna-se central o esforço de articulação entre diferentes tradições teóricas, especialmente entre os Estudos de Intermidialidade e a Teoria da Literatura, de modo a consolidar um vocabulário crítico mais consistente e operacional.
É nesse ponto que a noção de multiletramentos, tal como desenvolvida por Gunther Kress (2010), adquire relevância particular. Ao ampliar o conceito de leitura para abarcar múltiplas linguagens, mídias e modos de significação, essa perspectiva permite compreender a formação do leitor como um processo que envolve competências diversas, necessárias à interpretação de textos híbridos e multimodais. Nos Estudos de Intermidialidade, Elleström revistou o conceito de multimodalidade a partir da descrição das modalidades das mídias, que o complexifica mas, ao mesmo tempo, estabelece parâmetros para a análise de como os textos constroem sentido. Articulada ao conceito de letramento literário (COSSON, 2019), essa abordagem possibilita repensar o lugar da literatura na formação cultural contemporânea, não como prática isolada, mas como parte de um sistema mais amplo de práticas discursivas.
Do ponto de vista da Literatura Comparada, tal deslocamento implica reconhecer que as relações entre textos e mídias não constituem um fenômeno periférico, mas um eixo estruturante das formas culturais contemporâneas. A circulação de narrativas entre diferentes mídias, a emergência de práticas de leitura em ambientes digitais e a crescente hibridização das formas expressivas demandam abordagens que ultrapassem fronteiras disciplinares rígidas, sem, contudo, abdicar do rigor conceitual característico dos estudos literários.
No âmbito do ensino, esse cenário evidencia a necessidade de repensar a formação de leitores à luz dessas transformações. Embora documentos como a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018) incorporem noções como multimodalidade e cultura digital, sua operacionalização ainda encontra obstáculos, sobretudo pela ausência de modelos teóricos integrados que articulem tais conceitos às práticas pedagógicas. A leitura, nesse contexto, deve ser concebida como prática intermidial, capaz de articular diferentes linguagens e de promover uma compreensão crítica das formas culturais contemporâneas. Nesse sentido, tantos os conceitos de letramento e de competência leitora quanto as práticas de formação e qualificação de leitores, que, por certo, não se limitam ao contexto da educação básica, devem ser, também, intermidiais.
Este simpósio convida, portanto, trabalhos que explorem, entre outros, os seguintes eixos: (1) intermidialidade e Literatura Comparada; (2) leitura literária em contextos midiáticos expandidos; (3) multiletramentos e formação do leitor; (4) relações entre literatura e outras mídias; (5) circulação transmidial de narrativas; (6) ensino de literatura em perspectiva intermidial.
Ao propor este espaço de interlocução, busca-se contribuir para o fortalecimento da Literatura Comparada no cenário mais amplo das Estudos de Mídia e das Humanidades, reafirmando sua capacidade de dialogar criticamente com as transformações culturais contemporâneas. Ao mesmo tempo, pretende-se destacar a centralidade da leitura — entendida em sua dimensão ampliada — como prática fundamental para a formação crítica dos sujeitos em uma sociedade marcada pela multiplicidade de linguagens e mídias.

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COORDENADORES:
ALVARO JOÃO MAGALHÃES DE QUEIROZ (UFJF)
KARL ERIK SCHOLLHAMMER (PUC-Rio)
Bruno Guimarães Martins (UFMG)

RESUMO: “Intermidialidade” designa, ao mesmo tempo, um fenômeno e uma área de pesquisa. Esse caráter duplo tem gerado enorme imprecisão nas abordagens. Para Clüver (2011; 2007), intermidialidade é “um termo relativamente recente para um fenômeno que pode ser encontrado em todas as culturas e épocas, tanto na vida cotidiana como em todas as atividades culturais que chamamos de ‘arte’”. Segundo Wolf (1999), ele é “capaz de designar qualquer fenômeno envolvendo mais de uma mídia”. O termo refere-se a fenômenos nos quais duas ou mais mídias, fenômenos ou processos de linguagem se encontram acoplados ou combinados – “a intermidialidade pode servir, principalmente, como um termo genérico para todos os fenômenos que (como indicado pelo prefixo -inter) de alguma forma ocorrem entre mídias” (Rajewsky 2005). Num sentido mais geral, designa “todos os tipos de inter-relação e interação entre mídias” (Clüver 2007). Para Rajewsky (2010; 2005), “desde o início, ‘intermidialidade’ serviu como um termo guarda-chuva”, sendo “mais amplamente aplicável do que conceitos usados ​​anteriormente, [porque] abre possibilidades para relacionar as mais variadas disciplinas e para o desenvolvimento de teorias [mais] gerais”, além de “[permitir] fazer distinções fundamentais, nomeadamente entre fenômenos -intra, -inter e transmídias”. Para Müller (2012; 2010), são relações que ocorrem entre sistemas fluidos, como “fusão e interação de processos e procedimentos midiáticos distintos”. Já para Elleström (2010), “toda relação intermidiática parece ser mais ou menos uma anomalia onde se presume que as diferenças essenciais que caracterizam determinada mídia são transformadas, combinadas ou misturadas de maneira particular”. Para os principais autores da área, trata-se de um fenômeno ubíquo, dotado de ampla variação morfológica – “em geral, intermidialidade é, em primeiro lugar, um termo flexível e genérico” –, caracterizado, ao mesmo tempo, “por uma variedade de abordagens heterogêneas, abarcando uma extensa rede de temas e perspectivas analíticas”.

Em uma rápida revisão terminológica, o termo “intermídia” aparece em um texto de Dick Higgins, de 1966, para definir "obras que se enquadram conceitualmente entre mídias já conhecidas". Higgins sugere um possível marco para o surgimento do termo na obra de Samuel Taylor Coleridge, poeta e crítico, um dos fundadores do romantismo na Inglaterra – “O veículo que escolhi, a palavra ‘intermídia’, aparece nos escritos de Samuel Taylor Coleridge em 1812, exatamente em seu sentido contemporâneo: para definir obras que estão conceitualmente entre mídias que já são conhecidas, e eu vinha usando o termo por vários anos em palestras e discussões antes de meu pequeno ensaio ser escrito (Higgins, 1984).

Como uma área (Intermedial Studies), a intermidialidade concentra-se tanto na análise das relações entre mídias quanto no exame das próprias mídias, uma vez que “os estudos de inter e transmidialidade, mediação, remediação e adaptação, apenas para citar alguns exemplos, tem em comum o interesse em estudar diferentes mídias e sua relação com novas formas de criação de sentido nas sociedades contemporâneas”. O que os Estudos da Intermidialidade nos permitem supostamente fazer é, ao classificar relações concebíveis entre mídias (referências intermidiáticas, transposição midiática, combinação de mídias) e especificar suas subclasses e inter-relações (mixmídia, multimídia, intermídia), obter um padrão de análise para comparar processos, obras e seus correlatos, além de criar um horizonte teórico-conceitual relativamente estável para investigação.

O fato é que, nas últimas décadas, a intermidialidade consolidou-se como um campo empírico-teórico particularmente relevante para a análise de práticas artísticas e literárias contemporâneas. No contexto latino-americano, essa relevância parece-nos ainda mais evidente, uma vez que as relações entre palavra, imagem, oralidade (improvisação verbo-musical), arquivo, e tecnologias analógicas, afroindígenas, e digitais assumem configurações frequentemente marcadas por interações e acoplamentos entre suportes, linguagens, artefatos e práticas culturais, incluindo práticas vinculadas aos povos originários. Nessa perspectiva, o simpósio toma como eixo central o reposicionamento do que usualmente se designa como “literário” no interior de configurações intermidiáticas, com atenção às repercussões desse fenômeno sobre as categorias, recortes analíticos e procedimentos metodológicos mais conhecidos.

Parte-se, assim, do diagnóstico de que, ao longo das últimas décadas, as teorias da literatura perderam progressivamente sua pretensão de autonomia disciplinar e abandonaram, em grande medida, projetos unificadores e totalizantes voltados à formulação de uma teoria geral do fenômeno literário. Em seu lugar, multiplicaram-se abordagens heterogêneas, metodologicamente diversas e historicamente situadas, que reformulam categorias tradicionais como história literária, retórica, teoria dos gêneros, crítica genética e biográfica, estudos de recepção, crítica textual, e literatura comparada, em resposta a novas condições de produção, circulação, inscrição material e recepção dos textos.

O simpósio articula reflexão conceitual e análise de fenômenos particulares, aproximando perspectivas teóricas, analíticas e empíricas. Ao privilegiar o contexto latino-americano, pretende-se também discutir a circulação e a adaptação de modelos teóricos produzidos em diversos contextos, problematizando sua pertinência e propondo ajustes e deslocamentos epistêmicos e metodológicos.

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COORDENADORES:
EDGAR CÉZAR NOLASCO (NECC-PPGEL-FAALC/UFMS)
CARLOS VINÍCIUS DA SILVA FIGUEIREDO (IFMS/CAMPUS DOURADOS)

RESUMO: A ideia central da proposição deste Simpósio nasce do desejo de prestar uma homenagem à disciplina de Literatura Comparada que — desde quando se fundou a Associação Brasileira de Literatura Comparada/ ABRALIC (1986) — vem formando pesquisadores e fomentado o debate crítico de forma ampla e irrestrita, tanto nos encontros da própria Associação quanto na Pós-graduação de todo o país. Considerando que o vigésimo encontro da ABRALIC visa homenagear seus 40 anos de existência no Brasil, e tendo por temática “Comparatismos, Permanências e Renovações”, nada mais justo e oportuno do que propor um debate crítico que contemple a prática metodológica da disciplina hoje, com o propósito maior de fazer uma reverificação acerca do que deve permanecer no âmbito do campo comparatista e o que deve sofrer alterações críticas e metodológicas, inclusive como forma da sobrevivência da própria disciplina nos meios acadêmicos e institucionais. Assim, embasada nessa discussão, esta proposta, tanto de base comparatista pós-colonial quanto descolonial, volta-se para uma teorização assentada na política de uma des-formação conceitual como forma de re-pensar metodológica e epistemologicamente a disciplina de Literatura Comparada. Convém chamar a atenção aqui para dois comparatistas brasileiros — sendo eles Silviano Santiago e Eduardo F. Coutinho — como forma de destacar a importância de se re-pensar nos dias atuais acerca da metodologia epistemológica da Literatura Comparada no Brasil e em toda a América Latina. De Silviano Santiago, arrolamos os livros atuais Fisiologia da composição (2020) e O grande relógio (2024). Do primeiro livro, destacamos tão somente duas passagens que são mais do que suficientes para ilustrar tal revisão de fundo metodológico da disciplina. Leiamos a primeira passagem de Silviano:
A endossar o paradigma da formação, cronológico por natureza, temos produzido cópia singular e sentimental do inatingível original europeu que, em termos da metodologia então vigente em literatura comparada, seria logo rebaixada criticamente pela condição de inferioridade nacional e periférica. (SANTIAGO, 2020, p. 34).

Como se pode depreender da passagem, fica evidente o fato de que o autor chama a atenção para uma rediscussão assentada na metodologia da Literatura Comparada, bem como também, e por conseguinte, não deixa de propor uma discussão que passe diretamente pela formação, cujo paradigma, segundo o autor, deve ser tomado como uma leitura da escrita, da cultura e da literatura brasileira pelo viés pós-colonial (p..32). A segunda passagem seria esta:
Uma nova metodologia de leitura da literatura brasileira teria necessariamente de desconstruir a metodologia de leitura dominante na literatura comparada a fim de dar conta dos valores de cópia e de contribuição, reconhecendo, ainda, os princípios de originalidade em cópia inevitável. (SANTIAGO, 2020, p. 35)
Esta passagem reforça o que diz a anterior e de forma mais incisiva, quando reitera que a metodologia dominante da Literatura comparada deve ser desconstruída. Também fica implícito na passagem a questão da revisada crítica da formação, haja vista os valores nela implicados como o de cópia e originalidade. Já do segundo livro de Silviano, ilustra nossa proposta de des-formação esta passagem: “O grande relógio visa a abalar três dos pressupostos clássicos da literatura comparada — influência, cópia e originalidade — que se ergueram, em aparente neutralidade, como uma das mais violentas, sutis e populares forças de convencimento do imperativo eurocêntrico a dominar o planeta.” (SANTIAGO, 2024, p. 14). A passagem deixa entrever que somente uma metodologia outra, de caráter não etnocêntrico, poderia dar conta de desbaratar tais forças de convencimento que regeram a formação do paradigma comparatista até bem pouco tempo. Eduardo F. Coutinho, por sua vez, vem, de forma crescente e insistentemente, dialogando comparativamente no sentido de propor, inclusive, uma nova metodologia para a Literatura Comparada na América Latina. São exemplos dessa preocupação metodológica os livros Literatura Comparada na América Latina (2003), Literatura Comparada (2013) e Diálogos interculturais (2024). Considerando que os livros dialogam entre eles, merece destaque esta passagem:
Trata-se, em última instância, de um comparatismo, situado no contexto de onde olhamos, que, ao contrastar as produções locais com as provenientes de outros lugares, instaure uma reciprocidade cultural, uma interação plural, que induz conhecimento a partir do contato com outras culturas. (COUTINHO, 2024, p. 61).

Essa busca por um “novo tipo de comparatismo” se faz presente ao longo dos três livros do autor aqui mencionados, e cuja preocupação se assenta em uma nova metodologia comparatista, como também se faz presente em Silviano Santiago. Por fim, queremos concluir dizendo que des-formação ganha a rubrica de um conceito descolonial quando o inserimos na clave de leitura teórica que se inscreve a partir da expressão “aprender a desaprender para poder, assim, re-aprender”, conforme empregada por Walter Mignolo em seu livro Desobediencia epistémica (2010, p. 98).

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COORDENADORES:
Ricardo Postal (UFPE)
CARLA LUCIANE KLOS SCHÖNINGER (IFFar)
Fernanda Boarin Boechat (UFPA)

RESUMO: Os circuitos, as relações e a recepção da literatura contemporânea na sua movimentação pela travessia de territórios (seja como tema, como enunciação ou como análise das culturas apresentadas) é o que move as discussões acolhidas nesse Simpósio Temático. Portanto, estamos propondo uma discussão ampla sobre os saberes interdependentes e em constante negociação que todo processo de escritura mantém com a alteridade, seja na tradução, recepção e recriação que ocorre pela convivialidade dos textos em interação. Dessa forma, grupos culturais em movência e os aportes que consigo espalham promovem entrelaçamentos de múltiplas linguagens e lógicas dentro das literaturas em que são acolhidos. É o que aqui estamos tomando por (co)movência, visto que essa fricção produtiva de novas percepções, de sínteses culturais (no hibridismo, crioulização, transculturação) e de cosmovisões são promotoras de alterações significativas no imaginário do território que passa a ser comumente ocupado. Esse “mover com” em que a co-participação de escritores, críticos, tradutores, pesquisadores é fundamental, ocorre por meio de disputa, diálogo, tensão e aclimatação que também comovem - em diversos níveis e em várias formas de resolução em que a materialidade do texto literário surge mais rica em formas e conteúdos, linguagens e lógicas. Isto “[p]orque a época atual é uma época da rede. Ela demanda concepções de ciência móveis e relacionais, transdisciplinares e transareais e uma terminologia orientada pelo movimento. (ETTE , apud CAPAVERDE, 2021, p. 299). Nossa proposta, portanto, parte do princípio de que as “Literaturas do mundo”, conforme Ette (2022, p. 11), são um vasto campo a ser investigado nas suas correlações, em que se “mostra que as formas de produção, de recepção e de distribuição da literatura, em escala planetária, não se alimentam de uma única ‘fonte’, não são reduzíveis a uma única linha de tradição como à tradição ocidental, por exemplo", como elaborado pelo teórico romanista e comparatista alemão Ottmar Ette (2016, p. 13). São esperadas, assim, neste Simpósio Temático, pesquisas alinhadas às perspectivas decoloniais que, a partir das ressonâncias teóricas do Grupo Modernidade/Colonialidade, afirmem um reposicionamento epistemológico em que “[a] crítica à modernidade, da perspectiva decolonial, concebe que a emancipação [...] só será possível uma vez que a subalternização de experiências e de epistemologias instituídas pela modernidade seja suplantada" (BALTAR, 2020, p. 38), o que só é possível acontecer através de “um outro estatuto de alteridade, estabelecido pela transmodernidade” (Idem), conceito este desenvolvido por Mignolo e Walsh (2018) e por Enrique Dussel, que o define como: “todos os aspectos que se situam ‘além’ (e [...] ‘anteriores’) das estruturas valorizadas pela cultura euro-americana moderna, e que atualmente estão em vigor nas grandes culturas universais não europeias e foram se movendo em direção a uma utopia pluriversal” (DUSSEL, 2016, p. 63).
Tais (co)movências propiciam a percepção e a discussão sobre o (con)viver e o bem viver nos territórios atravessados por populações em (des)locamento, em obras cuja temática, perspectivas narrativas e linguagem elaboram a migração, a viagem, o exílio e o refúgio, a exclusão, segregação ou a convivência. Nessa encruzilhada de povos, culturas, línguas e lógicas diversas, interessa a esse Simpósio observar a participação social e o direito à voz das pessoas migradas por meio de sua produção literária, a saber, considerando-as tradutoras culturais por meio da autoria literária. Tal escrita, dessa forma, é também um medium privilegiado de integração, que mobiliza a articulação entre a cultura de origem e a de acolhida, que nos comove, ou seja, que nos faz querer discutir e repensar as condições em que esse imaginário se estabelece e se amplia. Escritas deslocadas podem sinalizar para conexões interculturais e de convivência que ultrapassam a noção limitada a aspectos históricos, político-econômicos ou territoriais, como é o caso de sujeitos indígenas do Brasil e que migram para outras Regiões e Municípios do mesmo país por razões diversas. A autoria literária, nesse sentido, abre-se como um caminho de inserção intercultural que tanto promove a integração dos sujeitos migrantes na lógica do sistema cultural de permanência, como pode ser denúncia das reações de tal cultura à sua presença, instigadora que é de alterações no status quo vigente a partir do que contribuem com sua bagagem cultural (Walsh, 2009). Por meio de narrativas e poéticas de sujeitos (des)locados é possível vislumbrar uma dimensão da transculturalidade que impulsione a chegada a universos culturais ricos em processos de alteridade e que sejam capazes de ressignificar o olhar sobre os migrantes, exilados, refugiados, e povos em movência bem como sobre a cultura de acolhida. Portanto, são convidados a enviarem comunicações pesquisadores e pesquisadoras que promovam discussões teóricas sobre os conceitos previamente elencados, bem como análises de obras literárias articuladas comparativamente no âmbito das “Literaturas do mundo”, das perspectivas decoloniais e dos deslocamentos culturais .

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COORDENADORES:
André Dias (Universidade Federal Fluminense - UFF)
Felipe Gonçalves Figueira (Instituto Nacional de Educação de Surdos - INES)
Rauer Ribeiro Rodrigues (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS)

RESUMO: A proposta do simpósio é examinar a manifestação da dissonância em diferentes obras literárias das mais variadas nacionalidades, com vistas a compreender o modo pelo qual alguns autores se constituíram, através dos discursos literários, como vozes questionadoras de seus tempos, sociedades e condições existenciais. A ideia central é abrir espaço para o diálogo entre pesquisadores que investigam variados autores, cujas obras expressam inquietações e questionamentos, tanto na esfera sociopolítica quanto na ideológica, na estética ou na existencial. O que se espera é que os trabalhos apresentados no âmbito do Simpósio Literatura e Dissonância discutam, entre outras questões, o problema teórico do intelectual frente às variadas ideologias, quer sejam elas hegemônicas ou não, e o problema histórico dos escritores diante do status quo, manifestado na esfera da política, dos costumes, da economia, da cultura, da tecnologia etc. Mikhail Bakhtin, falando sobre o grande tempo histórico e o trabalho dos escritores, chama atenção para o seguinte fato: “o próprio autor e os seus contemporâneos veem, conscientizam e avaliam antes de tudo aquilo que está mais próximo do seu dia de hoje. O autor é um prisioneiro de sua época, de sua atualidade. Os tempos posteriores o libertam dessa prisão, e os estudos literários têm a incumbência de ajudá-lo nessa libertação.” (BAKHTIN, 2003, p. 364). Sendo assim, ao abordarmos a temática Literatura e Dissonância, temos clareza de que todo autor, para o bem e para o mal, é antes de tudo um homem de seu tempo. Desse modo, aos que se ocupam da investigação literária cabe a tarefa de, dialogicamente, atualizarem os diversos discursos literários produzidos nos mais variados tempos e espaços históricos. Agindo assim, os estudiosos da literatura contribuirão para manter a vivacidade de distintos autores e obras. Sobre a criação romanesca, o pensador russo adverte que “o autor-artista pré-encontra a personagem já dada independentemente do seu ato puramente artístico, não pode gerar de si mesmo a personagem – esta não seria convincente” (BAKHTIN, 2003, 183-184). Em outras palavras, nenhuma personagem é fruto do gênio criador de um autor adâmico, pois a matéria de memória da literatura está no mundo social, local de onde os escritores extraem os motivos para criar. Dessa forma, as premissas bakhtinianas apresentadas aqui fundamentam o desenvolvimento das nossas reflexões e ajudam a ampliar os sentidos das análises. O fórum, observada a perspectiva da dissonância no campo dos estudos literários e do comparativismo, acata propostas que vão desde o enfoque do ensino da literatura, passando pela questão do trabalho crítico, até chegar à discussão teórica das experiências literárias e dos diálogos transdisciplinares. Seja no espaço das territorialidades, cujos limites se esvaem diante da instantaneidade das comunicações globais, seja no âmbito do regional esvaziado no mesmo diapasão, procura-se o dissonante na antiga ordem hierarquizada, no finado mundo bipolar ou no universo multilateral que se instaura. Há que se considerar, ainda, estudos comparativos entre autores que, mesmo distantes no tempo e no espaço, fixam a seu modo o questionamento de valores hegemônicos e não hegemônicos. Tais autores, independente se no âmbito da prosa ou da poesia, acabam por constituir uma aproximação literária mediada pelo estado de permanente inquietação. Entretanto, dialeticamente, a literatura, ao mesmo tempo que compartilha inquietações, estilhaça certezas e provoca os leitores. Nas palavras de Antoine Compagnon: “A literatura desconcerta, incomoda, desorienta, desnorteia, mais que os discursos filosófico, sociológico ou psicológico porque ela faz apelo às emoções e à empatia. Assim, ela percorre regiões da experiência que os outros discursos negligenciam, mas que a ficção reconhece em seus detalhes” (COMPAGNON, 2009, p.50). Nesse sentido, o discurso literário potencializa as noções de resistência, de estética e de política, na medida em que tais conceitos, mediados pelo trabalho literário, terão suas perspectivas matizadas por diversas concepções de mundo, abrindo possibilidades dialógicas infinitas a todos que se ocupam da experiência literária. Do ponto de vista da historiografia literária, qualquer que seja o modo analítico proposto, os problemas se sucedem, pois os últimos anos têm sido de deslocamentos incessantes dos postulados teóricos. Tais deslocamentos transformaram em cada vez mais inglórios os embates com o mundo concreto, considerando a acelerada mutabilidade das circunstâncias sociais, políticas, históricas e das representações simbólicas, no âmbito das artes em geral e da literatura em particular. Assim sendo, no estudo da circulação e dos sentidos construídos a partir da literatura cabe, inclusive, questionar as significações do conceito de literariedade. Tal questionamento pode incorporar novas e dissonantes acepções ao termo, tanto na perspectiva dos cânones consagrados, quanto dos cânones emergentes. Levantar questionamentos, de preferência contundentes, e produzir conclusões, ainda que provisórias, é o que se espera com o presente Simpósio Temático, que em 2026 completa catorze anos ininterruptos de participações na ABRALIC, sempre com intensa adesão de pesquisadoras e pesquisadores dos mais diferentes níveis.

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COORDENADORES:
Priscila Oliveira Monteiro Moreira (Universidade de São Paulo)
Denis Moura de Quadros (Universidade Federal do Pampa- UNIPAMPA)

RESUMO: O paradigma hegemônico da escrita pouco valoriza manifestações literárias de outras naturezas e pouco contribui para compreender a complexidade entre textos e seus meios de circulação. A dissociação entre livros e textos é construída em um elo entre leitores, editores e autores, mas o seu oposto também é verdadeiro: esse resgate pode ser feito justamente por qualquer um dos três agentes dentro dessa cadeia. Encontrar equilíbrio entre a ausência da materialidade e a presença supervalorizada da fetichização dos livros como objetos de consumo é um passo fundamental para abrir esse diálogo a caminho de um materialismo hermenêutico, possível de ser alcançado mediante o reconhecimento da condição material de circulação de textos literários. Considerar livros como principais veículos de circulação de textos literários sustenta uma suposta naturalização de um bem cultural que não é essencialmente comum: o livro impresso. Um dos caminhos para resgatar a subjetividade de artefatos impressos como veículos ativos na significação dos textos literários é observá-los em sua lógica individual – dentro de cada uma das suas edições ou republicações.
D. F. McKenzie (1999; 2002) dialoga com esse lugar que vê o livro antes de o livro existir e consegue equilibrar, com qualidade, um tripé estético, político e material, ao valorizar o texto em seu suporte em sua materialização. Nesse lugar está a inseparatividade das formas e dos discursos, por isso o autor pede que o livro seja percebido como uma conquista simbólica. Sua perspectiva abre portas para um debate que procura colocar em pé de igualdade a importância de outras áreas envolvidas para a manifestação literária, razão pelas quais historiadores contemporâneos como Roger Chartier (2014) e Robert Darnton (2007) referenciam seu trabalho. Teóricos da literatura como Hans Ulrich Gumbrecht (2003) e Johanna Drucker (1994), devido ao vínculo com as Materialidades da Comunicação, no caso do primeiro, e com as Artes Gráficas, no caso da segunda, dialogam com essas proposições, assim como Jerome McGann (1991; 1993; 2007), quem atualiza e amplia os pressupostos de McKenzie. Assim, embora linguisticamente um texto possa ser o mesmo em edições distintas, para a Sociologia dos Textos é importante ter em conta que o suporte que o veicula faz diferença. Aquilo que McKenzie demanda é o preço político a ser incluído como efeito de nossas metodologias analíticas. O que essa perspectiva pede, no conjunto de sua obra, é que utilizemos ferramentas interpretativas em prol de uma textualidade inter-relacionada entre sistemas de codificações linguísticas, estéticas, historiográficas e bibliográficas a fim de minimizarmos danos interpretativos excludentes.
Nesse sentido, é relevante entender o papel dos intelectuais mediadores e agentes culturais como um dos diálogos possíveis para a Literatura Comparada contemporânea, seja na reconstituição de suas contribuições seja na republicação de obras. No que diz respeito a livros publicados por editores-autores no Brasil, isso ainda é mais incipiente: há poucos estudos realizados que se pretendem como um panorama dos editores artesanais brasileiros, mas ainda são bastante enciclopédicos. Projetos editoriais espontâneos e de curta duração também ofereceram à literatura nacional grandes textos, mas livros impressos com parâmetros demasiadamente amadores. Esse é um ponto relevante para esta discussão: algumas das edições feitas de modo autônomo, apesar de sua boa vontade em popularizar obras, tendem a produzir livros com projetos editoriais toscos, dado que são “enjambres” feitos por intelectuais que, temporariamente, atuam como editores, mas não são necessariamente conhecedores técnicos do mundo dos impressos. Sobretudo livros de poesia sofrem desse mal, como também aponta levantamento feito por Gisela Creni em Editores artesanais brasileiros (2013).
A partir desse quadro, torna-se possível compreender que produções como, por exemplo, as de Helena do Sul, de João Carlos de Odé e de outras obras de autoria de mulheres e/ou negros não devem ser lidas sob o signo da precariedade editorial, mas como manifestações inscritas em regimes próprios de materialidade e circulação, nos quais o gesto de escrever se estende ao de editar, imprimir e distribuir. Nesse sentido, a autopublicação, longe de configurar apenas uma limitação de acesso ao mercado editorial hegemônico, constitui-se como prática estética e política que reconfigura as relações entre autoria, suporte e leitura, razão pela qual merece ser vista como parte relevante da equação que permite que os textos literários existam materialmente.
Serão aceitos trabalhos que proponham reflexões teórico-críticas e analíticas acerca das relações entre literatura, materialidade e circulação, com especial interesse em produções marcadas por regimes alternativos de publicação, como a autopublicação, as edições artesanais e os circuitos independentes. Serão bem-vindas comunicações que abordem autoria negra, periférica e dissidente, bem como investigações que articulem literatura e práticas culturais contra-hegemônicas, considerando aspectos como suporte, edição, mediação e recepção. Também se inserem no escopo do simpósio estudos que mobilizem perspectivas da Literatura Comparada, dos Estudos do Livro e da Edição, das materialidades da comunicação e de epistemologias negras e decoloniais, contemplando autores, obras e contextos que tensionem os limites do campo literário tradicional.

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COORDENADORES:
Sérgio Fabiano Annibal (FCL UNESP Assis)
MARIA COELHO ARARIPE DE PAULA GOMES (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Rita Jover-Faleiros (Universidade Federal de São Paulo)

RESUMO: Nos anos de 1980, Antonio Candido (1987) propunha que ensinar literatura é, em alguma medida, ensinar literatura comparada, uma vez que toda leitura implica relações, aproximações, tensionamentos e deslocamentos entre textos, contextos e tradições. Em sintonia com a ideia do crítico literário, o simpósio proposto neste ano pelo Grupo de Trabalho de Literatura e Ensino da Anpoll para a Abralic tem por objetivo refletir sobre as contribuições dos estudos comparados para as pesquisas desenvolvidas no âmbito da área de literatura e ensino, bem como dessas contribuições enquanto método para se ensinar literatura. No que diz respeito ao método, sabemos que tanto as bases teóricas da literatura comparada quanto o seu uso didático constituem interessantes estratégias de ensino, pois disponibilizam aos estudantes de Letras, por exemplo, ampliação de acesso a outras literaturas e críticas literárias, que levam, por sua vez, à uma mobilização de capital cultural objetivado e incorporado diverso e abrangente. Logo, pretendemos, por meio deste simpósio, reunir as seguintes propostas: a) tratar do ensino de literaturas,; b) da leitura literária; c) da formação do professor de literaturas em língua portuguesa e/ou estrangeiras e, além disso, que investiguem as interfaces entre literatura comparada e seu ensino, considerando tanto o espaço da educação básica quanto o ensino superior em Letras. Interessa-nos, sobretudo, refletir de que modo o gesto comparatista pode contribuir para a construção de repertórios leitores mais amplos, críticos e sensíveis à diversidade estética, sociocultural e linguística. Justificamos, inclusive, a proposta de um simpósio com esta natureza, uma vez que observamos um cenário educacional brasileiro em que a formação do leitor literário, na educação básica e até no ensino superior em Letras, parece permanecer orientada por seleções restritas a determinadas obras e autores hegemônicos e por abordagens historicistas homogeneizantes. Nesse espaço social e cultural em que a leitura de literatura é abordada desta forma, certamente, os estudos comparados oferecem possibilidades para a ampliação dos limites ou dos horizontes dessa leitura no contato com obras de diferentes temporalidades, geografias e matrizes culturais nos ensinos fundamental e médio e nas licenciaturas em Letras. A relação entre a formação de professores de literatura, que ocorre nos cursos de Letras, e a formação de leitores na educação básica ainda carece de muito debate e proposições, uma vez que é nesta relação que as representações sociais sobre o ensino de literatura, a leitura literária e a formação do leitor se forjam e se materializam em discursos e currículos que orientam as mentalidades e as práticas às quais o cabedal teórico e metodológico dos estudos comparados podem contribuir sobremaneira para o debate que aqui se propõe. Nesse sentido, pretendemos também, pelo simpósio, levantar um panorama do que vem sendo realizado no âmbito da pesquisa em literatura e ensino no Brasil, principalmente, nos diálogos possíveis do ensino da literatura com os estudos comparados. Objetivamos, dessa forma, que este panorama possibilite perceber por meio das diferentes investigações as (im)permanências teóricas e metodológicas da área de literatura e ensino. Conforme o panorama for se constituindo pela apresentação dos pesquisadores desta área, o acesso a uma amostragem teórica e metodológica configura-se . Com isso, se pode situar uma tipologia de investigação e de entendimento das balizas desta área e, assim, compreender, de forma mais sistemática, de que maneira o ensino e a aprendizagem do objeto literário encontram-se no cenário brasileiro e levantar as contribuições e dificuldades de operar com os estudos comparados enquanto método para ler e ensinar literaturas. Para tanto, o acesso a este panorama dar-se-á, neste simpósio, por meio das contribuições desses investigadores da área de literatura e ensino. Como, na maioria dos casos, se trata de parte de um mapeamento que os pesquisadores, sistematicamente, vêm fazendo, como decorrência de suas pesquisas, esperamos como resultado reunir um conjunto de trabalhos que gere um debate profícuo sobre a literatura e seu ensino, com o viés dos estudos comparados, constituindo-se, por fim, como um espaço de interlocução crítica e interdisciplinar. Trata-se de uma oportunidade de reunir pesquisas que, a partir de diferentes enfoques teóricos e metodológicos, explorem as contribuições desses estudos para o ensino de literaturas. Ao fazê-lo, buscamos não apenas aprofundar a discussão acadêmica, mas também colaborar para a construção de práticas pedagógicas mais situadas politicamente, plurais, inclusivas e comprometidas com a formação de leitores críticos e sensíveis à diversidade cultural.

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COORDENADORES:
Rafael Eisinger Guimarães (Universidade de Santa Cruz do Sul)
Roniere Silva Menezes (CEFET MG)
Gérson Luís Werlang (Universidade Federal de Santa Maria)

RESUMO: Em diálogo com a temática do congresso da ABRALIC de 2026, “Comparatismos, permanências e renovações”, o simpósio temático “Literatura e música: renovações artísticas e críticas desde a redemocratização” almeja investigar produções no campo da literatura em interface com a canção popular e a música erudita no Brasil nos últimos 40 anos. Além de obras literárias e musicais produzidas nas últimas décadas, podemos pensar em perspectivas críticas contemporâneas que trazem singulares percepções sobre criações novas ou mais antigas. No campo musical popular, desde o início da “Nova República”, houve no país uma miríade de acontecimentos como a eclosão do rock brasileiro dos anos 1980, do pagode e da música sertaneja dos anos 1990 – e depois sertaneja universitária –, o rap, o funk, o samba, o pop, a nova música baiana, o carimbó chamegado do Pará e mesmo a retomada, sob novos ângulos, de criações da mpb, etc. Por sua vez, no âmbito dos estudos comparatistas relacionados à literatura, música, performance, tecnologia, relações interartes, literatura em campo expandido, estudos decoloniais, por exemplo, contribuíram para as pesquisas obras como as de José Miguel Wisnik (2025), Santuza Cambraia Naves (2010), Leonardo Davino de Oliveira (2023), Marcos Napolitano (2007), Luiz Tatit (2002), Walter Garcia (2013), Lorenzo Mammì (2017), Arthur Nestrovski (2007), Sérgio Bairon (2005), Lélia Gonzalez (2024), Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira Gomes (2003), Cássia Lopes (2012). Destacam-se também traduções de obras de Murray Schafer (2011), Adriana Cavarero (2011), Paul Zumthor (2010), Ruth Finnegan (2008), Enzo Minarelli (2010), entre outros. Paralelamente a isso, um ramo de publicações que se desenvolveu de maneira considerável nos últimos anos é o ligado a biografias e a estudos de memória e história de determinado autor, compositor, cantor ou gênero literário ou musical. Como exemplos de produção, podemos citar os estudos Cantos de Rainhas: o poder das mulheres que escreveram a história do samba, de Leonardo Bruno, It’s a long way: o exílio em Caetano Veloso, de Márcia Fráguas, as coletâneas de ensaios O alcance da canção, organizada por Luís Augusto Fischer e Carlos Augusto Bonifácio Leite, e Objeto não identificado: Caetano Veloso 80 anos, organizada por Pedro Duarte, além das biografias Elza, escrita por Zeca Camargo, e Lupicíno e Elis, essas últimas publicadas por Arthur de Faria, bem como as duas autobiografias escritas por Rita Lee antes de seu falecimento: Rita Lee: Uma autobiografia e Rita Lee: Outra autobiografia. Devemos ressaltar que, nas últimas décadas, houve a consolidação de estudos sobre canção em disciplinas universitárias e a criação de grupos de pesquisa que tratam da temática, como ocorre com o Laboratório de Estudos de Poesia e Vocoperformance, sediado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro e coordenado pelos professores Leonardo Davino e André Luiz de Freitas Dias, bem como o Núcleo de Estudos da Canção da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, só para citar alguns exemplos. Na esteira desse movimento, começaram a surgir, no Brasil, em maior número, publicações de livros e revistas acadêmicas que trazem ensaios críticos de caráter interdisciplinar sobre contatos entre literatura, música, performance, tecnologia, história, cultura, etc. Vestibulares começaram a cobrar leitura de álbuns e canções, como são os casos do disco Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC’S, e canções de Cartola, na Universidade Estadual de Campinas, o álbum Construção, de Chico Buarque, e canções de Lupicínio Rodrigues, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, os discos Tropicália ou Panis et Circenses, e Secos & Molhados, na Universidade Federal de Santa Catarina, e o long play Txai, de Milton Nascimento, na Universidade Federal de Minas Gerais. A ABRALIC vem fomentando, desde o seu surgimento, há 40 anos, publicações em anais, revistas e livros da associação sobre esse campo investigativo. Nos simpósios sobre literatura e música que vimos organizando nos congressos da Associação Brasileira de Literatura Comparada desde 2020, temos tido contato com ricas pesquisas de amplo aspecto sobre literatura e música. Organizamos publicações de alguns desses trabalhos em revistas e livros. No congresso da ABRALIC de 2026, daremos continuidade ao propósito de acolher estudos sobre literatura e música e fortalecer os laços entre estudiosos da questão em diversos estados e instituições de ensino do Brasil. O simpósio está aberto a trabalhos que tragam objetos ou posicionamentos crítico-teóricos inovadores e contemporâneos e favoreçam o desenvolvimento dos estudos comparativos sobre literatura e música no Brasil.

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COORDENADORES:
João Pedro Wizniewsky Amaral (Universidade Federal de Santa Maria)
Carolina Filipaki de Carvalho (Universidade Estadual do Paraná)
Kleber Kurowsky (Universidade Estadual do Paraná)

RESUMO: A literatura sempre foi considerada uma coisa estranha. A estranheza da criação, sobretudo de mundos possíveis e denunciados; a estranheza da transgressão da linguagem (PAZ, 1982); a estranheza com representações que podem nos levar a reflexões sobre modos de vida. Hoje em dia, numa sociedade marcada pela velocidade e estímulos instantâneos, a atenção que a literatura exige é naturalmente estranha. E por que a literatura, esta coisa estranha, nos fascina tanto? Talvez porque ela nunca foi uma ilha. Desde seus primórdios, ela se constitui como uma modalidade artística de confluência e diálogo permanente com outras formas de expressão e diferentes áreas. Como bem demonstra Kristeva (1984), os textos literários operam em redes complexas de significação, entrelaçando-se em múltiplos sistemas semióticos. Essa natureza relacional manifestava-se já na Antiguidade. Por exemplo, Homero não cantava seus versos sozinho: a voz do aedo era acompanhada da lira e da performance dramática. Séculos depois, Shakespeare se valia de folclore e crônicas históricas para suas peças; poetas românticos, como William Blake, mesclavam palavras com imagens. Inclusive, áreas do saber nascem a partir da literatura. É o caso da psicanálise (Andrade et al., 2021; Dacorso, 2010; Freud, 2018), cujo desenvolvimento se deve tanto à Édipo Rei quanto a Hamlet. Esse cruzamento ilustra o que Derrida (1992) chama de contaminação inevitável entre linguagens. A literatura não apenas influencia (ou é influenciada por) outras áreas, mas também transforma e é por elas transformada em processos dialéticos de ressignificação.
No contexto contemporâneo, multiplicidades de formas de expressões originadas pela revolução digital complexificam essa dinâmica. Estudos de adaptações e intermidialidade (Cartmell, 2012, Elleström, 2010; Hutcheon, 2006, Sanders, 2005;) visam entender as transposições midiáticas e criações palimpsésticas. Video Games narrativos em distópicos, séries de streaming inspiradas em romances vitorianos, e fanfictions colaborativos demonstram como a literatura se apropria de plataformas digitais, evidenciando sua potência simbólica. Igualmente, esses novos espaços literários aproximam processos artísticos e críticos (Leitch, 2014). Nesse sentido, a literatura - e a teoria literária - representa um espaço de profanação (Agamben, 2008) de certos conhecimentos e do fazer artístico, no sentido de retirar esses lugares da esfera do sagrado e devolvê-los ao uso comum.
Consequentemente, essas transformações exigem novas abordagens para o ensino da literatura. Como argumenta Candido (2011), o direito à literatura deve incluir o acesso a múltiplas manifestações, não apenas as canônicas. Posto que muitas vezes o ensino de literatura centra-se mais no contexto de produção e não no texto literário, urge uma proposta didática de letramento literário (Cosson, 2015) que foque na experiência estética. Partindo destes princípios, o ensino deve estar atento às novas relações que estudantes têm com a tecnologia para, então, entender as novas relações possíveis com a literatura, uma vez que arte e tecnologia sempre tiveram uma relação próxima, senão incontornável (Dally, 2004).
Afinal, as manifestações literárias contemporâneas demonstram que a experiência estética continua a florescer fora dos espaços tradicionalmente reconhecidos como literários. Cabe à educação formal acolhê-las sem abandonar o rigor crítico, mas antes ampliando os horizontes de compreensão do fenômeno literário.
Nesse sentido, considerando a literatura contemporânea, torna-se imprescindível ainda considerar suas relações histórico-político-sócio-culturais, particularmente no contexto (pós)colonial (Fanon, 2001; Said, 1978; Spivak, 2023; Thiong’o, 1981). Muitos textos literários operam em um espaço de hibridismo cultural (Bhabha, 2004) onde identidades, memórias e tradições são constantemente negociadas e ressignificadas. Tal perspectiva crítica nos permite compreender como essa produção (des)constrói discursos transculturais, desafiando narrativas hegemônicas, reinventando formas de representação.
Assim, em termos teóricos, este simpósio ancora-se neste vasto balaio que chamamos pós-estruturalismo, a fim de analisar como produções literárias se inter-relacionam com outras artes e saberes. Estudos pós-estruturalistas indicam a ligação inconstante do significante, complementada por Deleuze e Guattari (1996) quando propõem o conceito de rizoma. Tanto o rizoma quanto a literatura podem ser estruturas não-hierárquicas que se expandem em múltiplas direções, sem eixo central fixo, adaptando-se a diferentes contextos. Como os próprios autores afirmam: “um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas, inter-ser, intermezzo” (Deleuze; Guattari, 1996, p. 48).
Este simpósio, portanto, propõe o desafio de (re)pensar as literaturas como campo estranho e dinâmico, uma teia de significados circulantes que constitui nossa experiência do mundo. O simpósio tem como objetivo discutir, de modo amplo, as inter-relações e intersecções entre literatura e diversos saberes, conhecimentos e áreas, sobretudo que nos causam inquietações. Como o protagonista de “A Mais Recôndita Memória dos Homens” afirma, para a literatura, talento, ambição, vontade, leitura, cultura, sabedoria, engajamento, isolamento, paciência, estratégia, comunicação, não bastam “visto que escrever exige sempre outra coisa, outra coisa, outra coisa. Então a voz se cala e te deixa na solidão, na estrada, com o eco de outra coisa, outra coisa que gira e foge, outra coisa diante de você, escrever exige sempre outra coisa nessa noite de aurora incerta” (Sarr, 2024, p. 48).

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COORDENADORES:
Alexandre Simões Pilati (Universidade de Brasília)
Homero Vizeu Araújo (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
BEATRIZ MOREIRA DA GAMA MALCHER (Universidade Federal do Rio de Janeiro / Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro)

RESUMO: É evidente que, ao propormos um simpósio cujo título é “Literatura e Sociedade”, a primeira figura que pode vir à mente é a de Antonio Candido, autor do já canônico livro homônimo, de 1965. E, certamente, a tradição nacional baseada no método de redução estrutural de sua crítica integradora, é, aqui, uma espécie de eixo central. Afinal, é justamente em Candido que se apresenta, de forma mais sistemática dentro do contexto da Teoria Literária brasileira, o pressuposto de que conteúdo temático, forma literária e contexto social são inseparáveis em uma obra e, portanto, precisam ser estudados como uma unidade. Tal estudo deve ser realizado a partir de uma metodologia capaz de extrair da dinâmica interna do texto as suas principais questões, compreendendo-o como algo relativamente autônomo (Candido 2010; 2010b).

No entanto, não limitamos nosso interesse, no presente simpósio, a pesquisas que trabalhem apenas o contexto nacional, ou apenas a partir do método proposto por Candido: o interesse primordial deste simpósio consiste em reunir pesquisadores que busquem pensar a relação dinâmica entre forma literária e processo social, levando em conta, especialmente, a mobilização de uma tradição crítica materialista. Tal tradição, remonta à perspectiva dos escritos estéticos de Marx e Engels, e desenvolve-se, por exemplo, nas abordagens de Walter Benjamin, György Lukács, Theodor Adorno, Fredric Jameson entre outros. Em perspectiva brasileira, além do já mencionado Antonio Candido, vale ressaltar a centralidade dos trabalhos de Roberto Schwarz, compondo esse quadro de referências incontornáveis com as quais nos interessa dialogar. Dessa forma, o esforço do Simpósio está centrado em, numa época na qual a dialética parece estar em baixa, congregar pesquisadores, de diferentes instituições e interesses, que pensem com/a favor/a partir da dialética, buscando como, em uma obra, “as questões estéticas e sociológicas […] acham-se indissolúvel e constitutivamente mescladas entre si” (Adorno, 2011, p.366), de forma a se verificar o modo específico segundo o qual o “todo de uma sociedade, como uma unidade em si mesma contraditória, aparece na obra de arte” (Adorno, 2003, p.67).

Pensando, especialmente – mas não exclusivamente – nos contextos de periferia do capitalismo, a violência aparece enquanto elemento de obliteração destas contradições, enquanto as diferentes formas de conciliação produzem uma espécie de síntese negativa ou inconclusa. O processo de formação da literatura brasileira, por exemplo, é representativo dessa ordem de problemas estéticos e sociais. Basta lembrar a força da obra de Machado de Assis e os ângulos problemáticos que ela propõe como formas de "crítica e descoberta da vida" em sua dinâmica em si mesma contraditória. Reiteradamente, na mesma narrativa ou poema – às vezes na mesma página –, surgem oscilações mais ou menos bem sucedidas entre um polo e outro, o que nos leva a um conjunto de questões que estão longe de terem sido devidamente enunciadas. Neste âmbito de debate, o ensaísmo de Antonio Candido permanece sendo modelo instigante para a discussão de formas literárias do passado e do presente.

Considerando tais pressupostos, neste simpósio acolheremos comunicações que pensem as configurações estéticas a partir de um ou mais dos seguintes eixos:

- A relação entre forma literária e processo social: implicações do contexto sobre os elementos da composição da obra literária, pensando: a relação de tensão e acomodação entre forma literária e processos históricos e sociais, as formulações estéticas do realismo artístico e a relação entre arte e vida cotidiana (Lukács, 2013).
Literatura e outras formas artísticas e culturais em chave dialética: abordagens que contemplem outras formas de expressão da cultura – como o cinema, a música, a fotografia, dentre outros – sempre considerando as implicações sociais de/em suas diferentes configurações.

- Perspectivas críticas sobre literatura e sociedade de consumo: discussão das relações entre a literatura e/ou outras artes e a sociedade, considerando, entre outros aspectos: o contexto de produção da obra literária; a circulação da obra e o “mercado literário”; ensino, crítica e recepção da obra literária.

- Tensões entre Teoria Literária, crítica sociológica e abordagens contemporâneas: discussão teórica das principais correntes de pensamento crítico voltadas à explicação do fenômeno literário e artístico em relação ao contexto social e histórico contemporâneo.

- Ensino, escola e crítica literária dialética: questões e condições para o debate de literatura em sala de aula; a garantia da leitura que permita avaliar a complexidade e o impacto das obras; a pressão do mercado e do alcance das políticas públicas na tarefa do professor, visando a literatura como um direito humano fundamental para a formação humana.

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COORDENADORES:
Rejane Cristina Rocha (Universidade Federal de São Carlos)
Vinícius Carvalho Pereira (Universidade Federal de Mato Grosso)
Andréa Catrópa da Silva (Universidade Anhembi Morumbi)

RESUMO: As discussões sobre literatura e tecnologia têm crescido em todo o mundo, ainda que mais lentamente no Brasil do que no Hemisfério Norte ou em outros países latino-americanos. A longa história da aproximação entre esses dois campos do saber já foi retraçada em publicações acadêmicas sobre o tema, as quais retomam a ambiguidade do termo tékhne no pensamento aristotélico, que designa o artificial ou técnico em oposição à physis. É comum que os primeiros gêneros elencados como significativos dessa ambiguidade sejam as narrativas utópicas ou distópicas sobre a relação homem-máquina, produzidas desde o Renascimento. Posteriormente a ficção científica passa a se destacar nesse âmbito, especialmente nos sistemas literários inglês e estadunidense a partir do século XIX. A discussão das imbricações entre literatura e tecnologia pode também – entre tantos outros percursos distintos – partir dessa literatura sobre a máquina para uma análise da literatura como máquina, no que ganham destaque os movimentos de vanguarda e neovanguarda do século XX, como a escrita automática surrealista, os jogos tipográficos concretistas, ou a linguagem como potência algorítmica do grupo Oulipo. Sob a superfície variada desses experimentalismos, observa-se um vetor comum que aproxima a arte verbal de uma certa engenharia da palavra, em associação ou não com a imagem, favorecendo projetos artísticos de rigor formalista ou algebrismos insuspeitos. Também as relações entre a literatura e a tecnologia podem ser mapeadas a partir dos suportes em que os signos são produzidos, circulados ou consumidos. Nesse âmbito, observa-se a evolução das materialidades da literatura – com destaque para a invenção do livro – para os processos de escritura com ou para os aparatos eletroeletrônicos, nos séculos XX e XXI, sejam as máquinas de escrever elétricas, os softwares editores de texto, ou os dispositivos digitais de
leitura (e-readers), entre tantos outros que vêm se multiplicando nos últimos anos. Ainda nesse contexto, cumpre destacar o espaço crescente da “literatura eletrônica”, “literatura cibernética/ciberliteratura” ou “literatura digital”. Muito embora se reconheça que cada um desses adjetivos atrelados ao substantivo “literatura” denota a especificidade do campo por uma associação particular (respectivamente, ao eletrônico, em oposição ao elétrico; ao cibernético, por referência à comunicação entre máquinas; e ao digital, em oposição ao analógico), o conjunto de obras recobertas pelos três termos é praticamente o mesmo, o que justifica seu uso intercambiável neste contexto. Para fins de clareza, pode-se utilizar, porém, a definição produzida em contexto nacional: “A literatura digital/eletrônica envolve experimentação com programação e meios digitais, criando textos não lineares e multimídia. Nos EUA, usa-se “literatura eletrônica”; no Brasil, “literatura digital”. A definição é debatida, especialmente em países com acesso desigual à tecnologia, onde novas produções, não pautadas na experimentação com o código, exigem revisão constante das terminologias” (Catrópa, Pereira, Rocha, 2025). No entanto, essa definição recobre um universo demasiado vasto de formas artísticas. Assim, para torná-la mais específica, muitos
pesquisadores levam em consideração o grau em que as potencialidades da mídia digital são exploradas em cada obra para classificá-las em subgêneros da e-lit; é o caso, por exemplo, de autores como Hayles (2009), Kozak (2017) e Gainza (2018). Discussões mais recentes sobre o tema chamam a atenção, ainda, para a maneira como as onipresentes plataformas digitais têm reconfigurado a compreensão a respeito da literatura eletrônica, como é o caso da proposta de Leonardo Flores (2021) sobre o surgimento de uma 3a Geração da e-lit e de Andréa Catrópa (2025), que discute a emergência de “escritas digitais” no atual contexto da onipresença da digitalidade (Salazar, Rocha, 2025). Há que se destacar, por fim, que nenhum dos eventos que pontuam a história das associações entre literatura e tecnologia pode ser compreendido de forma dissociada dos fenômenos sociais, políticos e econômicos da modernidade e da contemporaneidade. Devem, pois, ser entendidos como parte de um processo maior de mudança social, e não como produto de um determinismo tecnológico ou estético, o qual alienaria o código de sua função precípua: a expressão humana. Nesse contexto, propomos o presente simpósio, já em sua 5a. edição, com vistas a congregar estudos sobre as relações que podem ser estabelecidas entre os campos da literatura e da tecnologia, atentando para os pontos mencionados ao longo deste resumo, ou para outros que possam se mostrar pertinentes à temática. Nosso objetivo é fomentar discussões sobre esse campo, relevante não só pelo rendimento estético dos produtos literários que o integram, mas também pelas provocações que ele coloca, sobretudo no que diz respeito às definições de escrita, texto, autoria, leitura – isto é, alguns dos pilares sobre os quais se assenta o entendimento do fenômeno literário.

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COORDENADORES:
Marcelo Ferraz de Paula (UFG/CNPq)
Marcelo Paiva de Souza (UFPR)
Wilberth Claython Ferreira Salgueiro (UFES/CNPq)

RESUMO: Contemporaneamente, a noção de testemunho vincula-se à chamada “literatura do Holocausto”, como a narrativa de Primo Levi e a poesia de Paul Celan, por exemplo, mas também à literatura eslava – polonesa e russa, em especial – sobre o Gulag, como as obras de Gustaw Herling-Grudziński e Varlam Chalámov, entre outros (cujo antecedente histórico mais próximo é constituído pelas obras literárias oitocentistas versando sobre as penas dos condenados à Sibéria). Na América Latina, destaca-se um amplo e variado conjunto de textos voltados à memória e à denúncia de fatos reveladores do viés autoritário, discriminatório e excludente de nossas sociedades, abrangendo desde Graciliano Ramos e Rigoberta Menchú a Ferréz, desde Miguel Barnet e Lara de Lemos aos Racionais MC’s. A proposta do simpósio é estudar as relações entre literatura e testemunho, a partir de alguns traços e textos que caracterizam este “gênero”, como, por exemplo: registro em primeira pessoa; compromisso com a verdade e a lembrança; desejo de justiça; vontade de resistência; valor ético sobre o valor estético; representação de um evento coletivo; forte presença do trauma; vínculo estreito com a história; etc. A ideia é, portanto, “manter um conceito aberto da noção de testemunha: não só aquele que viveu um ‘martírio’ pode testemunhar” (Seligmann-Silva, 2003, p. 48), entendendo, assim, que “testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do outro e que aceita que suas palavras levem adiante, como num revezamento, a história do outro” (Gagnebin, 2006, p. 57). Pensar o que há de testemunho na literatura significa, a um só tempo, pensar as intrincadíssimas teias entre verdade e ficção, entre ética e estética, entre história e forma. Percebe-se que a existência da “literatura de testemunho”, na sua salutar diversidade conceitual, promove um inevitável abalo na noção de cânone e de valor literário, além de alterar o quadro dos agentes ou produtores de literatura: textos e registros de presos, torturados, crianças de rua, favelados, empregados domésticos, prostitutas, sem-teto, povos tradicionais, enfim, todo um grupo “subalternizado” depõe e se expõe não só em nome próprio, mas também em nome de muitos. Nesse sentido, é preciso destacar que “o estudo do testemunho articula estética e ética como campos indissociáveis de pensamento. O problema do valor do texto, da relevância da escrita, não se insere em um campo de autonomia da arte, mas é lançado no âmbito abrangente da discussão de direitos civis, em que a escrita é vista como enunciação posicionada em um campo social marcado por conflitos, em que a imagem da alteridade pode ser constantemente colocada em questão” (Ginzburg, 2012, p. 52). O Simpósio pretende reunir, em suma, pesquisadores e pesquisadoras interessados na problemática do testemunho e suas relações com o literário, apresentando [a] estudos teóricos que discutam os limites e as confluências entre estes discursos (o literário, tradicionalmente ligado à estética; e o testemunho, produzido a partir de um propósito primordialmente ético) e mormente [b] estudos que analisem obras específicas que exemplifiquem ou provoquem tais relações – quer obras já consagradas nesta perspectiva do testemunho, quer obras menos conhecidas ou mesmo não analisadas à luz do paradigma testemunhal. No XII Congresso Internacional da Abralic, ocorrido em 2011, em Curitiba, este Simpósio teve a sua primeira edição. Desde então mantém sua regularidade nos congressos da Abralic, chegando agora à sua décima segunda edição. Nestes encontros, além de questões eminentemente teóricas, o debate envolveu nomes como Alan Pauls, Aleksander Henryk Laks & Tova Sender, Alex Polari, Ana Maria Gonçalves, Art Spiegelman, Ayaan Hirsi Ali, Bernardo Élis, Bernardo Kucinski, Boris Schnaiderman, Cacaso, Caio Fernando Abreu, Carlo Levi, Carlos Drummond de Andrade, Carolina Maria de Jesus, Clarice Lispector, Conceição Evaristo, Charlotte Delbo, Chico Buarque, Czesław Miłosz, Davi Kopenawa & Bruce Albert, Eduardo Galeano, Ferréz, Eliane Potiguara, Elie Wiesel, Elisa Lucinda, Ferréz, Franz Kafka, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, João Antônio, Kaka Werá Jecupé, Lara de Lemos, Lídia Tchukóvskaia, Lima Barreto, Luis Fernando Verissimo, Luiz Alberto Mendes, Manuel Alegre, Mario Benedetti, Miron Białoszewski, Noemi Jaffe, Paulo Ferraz, Paulo Leminski, Paulo Lins, Pedro Tierra, Pierre Seel, Primo Levi, Racionais MC’s, Reinaldo Arenas, Renato Tapajós, Ricardo Aleixo, Ricardo Piglia, Roberto Bolaño, Ruth Klüger, Sérgio Sampaio, Sérgio Vaz, Stefan Otwinowski, Svetlana Aleksiévitch, Tadeus Róźewicz, Tereza Albues, Ungulani Ba Ka, Władysław Szlengel e W. G. Sebald. A ideia é estender o debate, seja em relação a estes nomes, como, naturalmente, incorporar outros artistas e textos em que o problema da literatura e do testemunho se deixe perquirir.

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COORDENADORES:
Maria Elisa Rodrigues Moreira (Universidade Presbiteriana Mackenzie)
Bruna Fontes Ferraz (CEFET MG)

RESUMO: As reflexões contemporâneas sobre a literatura têm aberto espaço para uma série de discussões pautadas em uma ideia que a ela associa a noção de “expansão”, estabelecendo assim um diálogo transversal com outros campos do conhecimento e, em especial, com outros campos artísticos, em perspectiva que dialoga de perto com o escopo da Literatura Comparada. Essas discussões começam a ser desenvolvidas em 1970, quando o pesquisador de mídias audiovisuais Gene Youngblood publica o livro Expanded cinema, no qual identifica que ocorria, naquele momento, uma espécie de “alargamento” da concepção mais tradicional de cinema e da própria consciência humana no diálogo com as novas tecnologias. Em 1979, a noção ganha reforço com a publicação de “A escultura no campo ampliado”, artigo no qual Rosalind Krauss discute questões similares a partir do campo escultórico: em uma análise de caráter estruturalista, afirma que a diversidade de obras que, desde os anos 1960, passaram a ser identificadas como escultura demandavam que a própria categoria se transformasse em algo “infinitamente maleável” (Krauss, 1984, p. 129). Já no século XXI, a discussão chega mais especificamente aos Estudos Literários, com a publicação, em 2003, de “Meanwhile: Literature in an Expanded Field”, pela pesquisadora holandesa Mieke Bal, texto no qual a questão da fronteira é debatida juntamente aos temas da nacionalidade, da interculturalidade e da interdisciplinaridade, uma vez mais ecoando temas caros à Literatura Comparada.
Desde então, com o desenvolvimento tecnológico acelerado e o crescimento vertiginoso de novas possibilidades de criação artística, pode-se dizer que o próprio termo tem se expandido. Nos estudos mais específicos da literatura, é possível encontrarmos menções tanto à “literatura em campo expandido”, em movimento similar ao de Krauss e recuperado por Bal, quanto à “literatura expandida”, dessa vez em diálogo com a terminologia de Youngblood, mas também expressões distintas que, com nuances discretas, apontam para um mesmo cenário, tais como “pós-poesia” (Fernández Mallo, 2009), “literaturas pós-autônomas” (Ludmer, 2010), “literatura fora de si” (Kiffer, 2014) ou “pós-institucionalidade” (Góis; Oliveira, 2025), para citarmos alguns exemplos. Se ampliamos o escopo da reflexão para a produção estética contemporânea, agregam-se ainda expressões como “arte fora de si” (Escobar, 2004), “pós-produção” (Bourriaud, 2009), “formas mutantes” (Miranda, 2014), “inespecificidade” e “impertinência” (Garramuño, 2014). Todas essas expressões assentam-se sobre a dificuldade de inserção de certas criações artísticas contemporâneas dentro dos limites de um determinado campo artístico, como destacam Moreira e Ferraz (2025, p. 21), ao afirmar que “essas obras têm em comum o fato de que provocam um transbordamento dos limites que se associam às categorias nas quais se inserem (talvez seja mais apropriado falar sobre categorias das quais se aproximam, não mais tomando-as como relação de pertencimento)”.
Ainda que a “expansão” não constitua um conceito unívoco, acreditamos que a ideia de se pensar a literatura como um “campo expandido” seja um caminho profícuo para que consigamos refletir sobre toda a diversidade de formas pelas quais o literário é hoje criado, posto em circulação e recepcionado pelos leitores, assim como sobre os problemas que essa diversidade coloca à teoria literária, à crítica e, mais especificamente, à literatura comparada, uma vez que, diante desse campo literário que não se limita a si mesmo, leitores e pesquisadores necessitam muitas vezes abandonar um espaço de estabilidade teórica para se lançar em movimentos críticos frágeis, efêmeros e múltiplos.
Nesse campo expandido, mostra-se cada vez mais relevante atentar à materialidade do objeto literário, inclusive quando este assume suas formas menos convencionais e mais problematizadoras das diferenciações entre campos artísticos, entre mídias, entre realidade e ficção. Afinal, se o texto impresso em formato de códex continua a ser o modelo predominante de circulação da literatura escrita desde o século III, ele hoje convive com obras que assumem outras formas, impressas e digitais, verbais e imagéticas, criativas ou “não criativas” (Goldsmith, 2011). O espaço literário abriga, pois, uma potencialidade infinita de desdobramentos e cruzamentos que apontam para a pluralidade e inespecificidade do objeto de arte, que ultrapassa fronteiras ao combinar uma série de elementos diversos.
Este simpósio acolherá, nesse quadro, comunicações que reflitam sobre a expansão das linguagens artísticas e dos seus meios de produção, em abordagens comparatistas que contemplem, dentre outras possibilidades:
1) aspectos teóricos e metodológicos associados à noção de “literatura em campo expandido”;
2) relações entre a literatura e outras artes e mídias;
3) as materialidades do livro, em suas mais diversas perspectivas;
4) as reconfigurações dos processos de escrita e leitura literárias;
5) a literatura digital e suas múltiplas manifestações.

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COORDENADORES:
Naiara Sales Araújo (Universidade Federal do Maranhão)
FERNANDA ALENCAR PEREIRA (Universidade de Brasília)

RESUMO: Este simpósio temático convida pesquisadoras e pesquisadores a submeterem trabalhos que investiguem a literatura especulativa em perspectiva comparada, considerando suas múltiplas manifestações em diferentes tradições culturais, linguísticas e midiáticas. Compreendida em sentido amplo, incluindo ficção científica, fantasia, horror, realismo mágico, entre outras vertentes, a literatura especulativa projeta realidades e mundos possíveis, constituindo-se como um espaço de reflexão crítica sobre o presente a partir da fabulação do possível, do alternativo e do ainda não realizado. Interessa-nos refletir sobre como essas narrativas, em distintos contextos geopolíticos, dialogam com questões contemporâneas, tais como colonialidade/decolonialidade, crise ambiental, transformações tecnocientíficas, deslocamentos culturais e reconfigurações do humano. A literatura especulativa, nesse quadro, pode ser compreendida como uma forma de pensamento crítico que, ao imaginar outros mundos, revisita e reconfigura os modos de existência no mundo atual aproximando-se da noção de “antropologia especulativa”, conforme proposta por Alexandre Nodari (2015), para o qual a literatura pode representar realidades, mas também experimentar formas de vida, expandindo o campo do possível e interrogando as bases epistemológicas humanas. A partir de uma abordagem comparatista, buscamos trabalhos que explorem aproximações, contrastes e circulações entre obras, autores, tradições e suportes, investigando tanto convergências temáticas quanto especificidades estéticas e epistemológicas. Nesse contexto, torna-se relevante considerar como diferentes matrizes culturais produzem respostas singulares às mesmas inquietações globais. Tal abordagem permite compreender a literatura especulativa como um campo plural e dinâmico, atravessado por disputas e diferentes regimes de imaginação. Serão bem-vindas propostas que articulem literatura e outras mídias, como quadrinhos, cinema, séries e jogos digitais, bem como aquelas que abordem produções periféricas, contra-hegemônicas ou não canônicas, contribuindo para a ampliação do campo dos estudos literários. Aqui, a intermidialidade pode apresentar-se como uma ferramenta da literatura especulativa contemporânea, especialmente em um cenário marcado pela convergência de mídias e pela expansão das narrativas em ambientes digitais. Ao mesmo tempo, tais produções questionam estruturas normativas, abrindo espaço para vozes dissidentes e para a construção de imaginários alternativos. Dentre os eixos sugeridos estão: ficção científica, fantasia e horror em contextos globais; perspectivas decoloniais e pós-coloniais; natureza, ecologia e antropoceno; tecnologia, corpo e pós-humanismo; adaptação, intermidialidade e cultura digital, entre outros. Destaca-se, ainda, o interesse por abordagens que considerem as relações entre literatura especulativa e debates contemporâneos como o ecofeminismo, as políticas do corpo e as violências estruturais bem como o resgate de obras de ficção especulativa escritas por mulheres como é o caso de Julia Lopes de Almeida. Sua escrita antecipa, em certa medida, estratégias que seriam posteriormente mobilizadas pela ficção especulativa feminista, construindo personagens femininas que desafiam papéis de gênero e sugerindo possibilidades alternativas de organização social, como aponta Carneiro (2026). Escritos como os de Almeida podem ser compreendidos como um ponto de inflexão na tradição literária brasileira, pois articulam crítica social e imaginação transformadora, contribuindo para a consolidação de um campo que, hoje, reconhece na especulação um instrumento de contestação e reinvenção das experiências de gênero. Trabalhos como o de Moreira e Vieira (2022) e Araújo (2025, 2021) demonstram o potencial da ficção especulativa feminista para denunciar e reconfigurar narrativas de violência, especialmente no que diz respeito às experiências de gênero. Do mesmo modo, estudos como os de María Laura Pérez Gras (2023; 2024) mostram como a literatura especulativa recente tem incorporado discussões sobre pós-humanismo, pandemia e crise ecológica, propondo novas formas de pensar as relações entre humanos, tecnologias e meio ambiente. O simpósio busca fomentar o diálogo entre diferentes abordagens teóricas e metodológicas, contribuindo para o fortalecimento dos estudos comparatistas e para a consolidação da literatura especulativa como campo crítico relevante na contemporaneidade. Ao reunir pesquisas que atravessam fronteiras disciplinares, culturais e midiáticas, pretende-se promover um espaço de interlocução capaz de reforçar o papel da imaginação especulativa na leitura das crises e transformações do mundo atual. Como considerações finais, destaca-se que a literatura especulativa é uma via de mão dupla pois reflete o presente e pode intervir criticamente nele, configurando-se como um espaço para a produção de conhecimento e para a elaboração de futuros possíveis. Nesse sentido, este simpósio pretende contribuir para a ampliação e o aprofundamento das discussões no âmbito da Literatura Comparada, incentivando investigações que reconheçam o valor estético, político e epistemológico da literatura especulativa em suas diversas formas de expressão, no Brasil e no mundo.

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COORDENADORES:
Gustavo Silveira Ribeiro (Universidade Federal de Minas Gerais)
Lucia Liberato Evangelista (Universidade do Porto)

RESUMO: Este simpósio temático parte da hipótese de que a poesia brasileira e portuguesa mantém forte diálogo no campo experimental, o que se deve não apenas no que diz respeito à partilha da língua ou de influências artísticas em comum, ou mesmo da manifestação de afinidades formais quaisquer, mas principalmente pelo caráter político que a poesia e arte de invenção desempenhou em cada país e cada contexto. Sob a perspectiva da experiência estético-política de países que ocupam, cada um a seu modo e no seu espectro, um lugar periférico no desenho geopolítico do capitalismo tardio, a poesia e a arte experimental surgiram em ambos os lados do Atlântico como expressão do inconformismo e de uma urgência rebelionária que se expressava com igual força tanto no plano estético quanto no plano político. Arte e vida, no âmbito da poesia experimental e de vanguarda, não se separavam. O contexto imediato da eclosão do experimentalismo, ou de sua complexificação e crescimento, se dá em meio ao cerceamento de liberdades dos períodos ditatoriais, mas se extende também ao período do que poderíamos chamar de um 'autoritarismo financeiro', segundo o qual o cerceamento de palavras e ações se dá de forma mais difusa e tentacular, mais invisível e naturalizada. De meados dos anos 1950 à atualidade, pode-se notar um ponto comum entre as duas tradições literárias nacionais: observar como se dá e configura a resistência à poesia (e pela poesia, paradoxalmente) em ambos os países. Um sentido de descompostura diante das formas literárias ditas “sérias” surge e se afirma, junto a um impulso racional e construtivo, impulso que chama à ordem e à forma rigorosa, mas que já se dá sem a grandiloquência das formas estabelecidas do passado. Algo que se possa denominar “desautoritarismo” está na base de tal processo. Tal “desautoritarismo” é a recusa às normas literárias rígidas da tradição classicizante da poesia e da arte, assim como é a recusa terminal em aceitar qualquer forma de controle e regulação estatal ou institucional. Esse fenômeno, o desautoritarismo, pode ser expresso seja através do extravasamento da noção de poético, que passa a nomear expressões não-linguísticas ou não-verbais (a arte da performance, as artes plásticas, o audiovisual); seja através do desvio, apagamento ou sabotagem das formas tradicionais da autoria; seja, ainda, através de uma derrisão da própria noção do que quer que seja poesia ou arte, palavras cujo sentido fechado perde relevância ou significado profundo; seja, por fim, através da convocação e paródia dos próprios discursos de legitimação cultural produzidos nos espaços hegemônicos (museus, universidades etc.). Tudo isso, como se vê, configura a base das operações poético-culturais que vieram a formar grupos de vanguarda e de pesquisa estética como, entre outros, a Poesia Concreta, o Neoconcretismo e o Poema/Processo, no Brasil, e as sucessivas gerações da PO.EX em Portugal.
Nesse sentido, este simpósio busca reunir trabalhos e pesquisadores interessados em discutir os laços entre experimentação formal e compromisso político anti-autoritário, abrangendo as múltiplas formas do experimentalismo e das práticas a um só tempo críticas e propositivas das vanguardas no Brasil e em Portugal, desde meados do século XX até aos nossos dias, já transcorrido 25 anos do novo século. As poéticas que interessam a este simpósio procuram abranger a descompostura, o “impróprio” ou a “impropriedade” da forma artística. Desafiando fronteiras de mídias, meios e gêneros artísticos, brincando com as leis da autoria e com as práticas hegemônicas nas instituições culturais, essas poéticas da radicalidade expandem as interseções das esferas pública/privada e dos corpos individuais/políticos. Através delas, propomos trabalhar com as seguintes hipóteses: o campo experimental estende-se para além das neovanguardas, representando uma noção expandida de poesia que subverte convenções e instituições; os discursos autoritários são moldados por "pactos" relacionais dentro de cada ato de comunicação; o “desautoritarismo”, entendido como a quebra discursiva desses pactos, serve como força motriz dentro do campo experimental. Posicionado na interseção da performatividade e da intermidialidade, muitos trabalhos do campo experimental propõe um conceito expandido e intervencionista tanto do poeta quanto do poema. As perspectivas de trabalho abrangem diversas mídias, analisando sua circulação e materialidade. Através de uma abordagem fundamentalmente comparativa, centrada na aproximação e fricção de tradições nacionais distintas, gostaríamos de convidar à reflexão sobre o substrato em comum das experiências poéticas de vanguarda nos dois países, procurando desenvolver, na esteira de pesquisas em andamento dos dois lados do mar, novos referenciais para analisar as dinâmicas políticas nos campos literários experimentais do Brasil e de Portugal - países em que recentemente ressurgiu o lema fascista fascista “Deus, Pátria, Família”. Segundo nos parece decisivo, a poesia e a arte experimental ergueram-se e erguem, ainda hoje, contra esse pano de fundo comum de conformismo, obediência e violência conservadora.

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COORDENADORES:
Ana Carolina Miguel Costa (Prefeitura Municipal de Itápolis)
Gabriela Bruschini Grecca (Universidade do Estado de Minas Gerais)

RESUMO: O ensino de literatura nas escolas, particularmente no contexto brasileiro contemporâneo, encontra-se atravessado por tensões constitutivas que envolvem, entre outros aspectos, a relação entre tradição e inovação, cânone e diversidade, fruição estética e instrumentalização pedagógica. Tais tensões revelam não apenas disputas teóricas e metodológicas, mas também diferentes concepções acerca do papel da literatura na formação dos sujeitos. Nesse cenário multifacetado e, por vezes, contraditório, a escola permanece como um dos principais espaços de iniciação ao universo literário, sendo, para muitos estudantes, o primeiro e, em alguns casos, o único ambiente de contato sistemático com obras literárias. Conforme assinala Teresa Colomer (2024), constitui tarefa social da escola garantir o acesso à literatura ao longo de toda a infância, promovendo experiências de leitura que ultrapassem a mera decodificação e favoreçam a construção de sentidos. Em consonância com essa perspectiva, Marisa Lajolo (1993) destaca que o processo de formação do leitor se inicia na sala de aula, especialmente nos primeiros anos de escolarização, quando se estabelecem as bases para a constituição de práticas leitoras significativas. Nesse sentido, pensar o ensino de literatura implica reconhecer sua dimensão formativa, estética e ética, bem como problematizar as condições concretas em que esse ensino se realiza, uma vez que se, por um lado, o ensino de literatura pode atuar como prática de resistência frente a processos de homogeneização cultural, por outro, também pode, quando reduzido a abordagens normativas, contribuir para a reprodução de hierarquias e exclusões no campo literário Diante desse quadro, o presente simpósio propõe reunir pesquisadores, professores e estudantes de pós-graduação interessados em refletir criticamente sobre o lugar da literatura na sala de aula articulando práticas pedagógicas, teoria literária e contribuições da Literatura Comparada. Entre esses diferentes eixos, torna-se fundamental considerar os modos de mediação que configuram o ensino de literatura, bem como os critérios que orientam a seleção e abordagem dos próprios textos, atentando-se para o papel dos agentes envolvidos nesse processo, isto é, para além dos professores, também há os materiais didáticos e políticas as curriculares, que incidem diretamente sobre as formas de acesso, interpretação e circulação das obras. Tal campo, conforme desenvolvido por estudiosos como Tania Franco Carvalhal (2003), Sandra Nitrini (2010) e Antonio Candido (1995), oferece instrumentos teóricos fundamentais para compreender a literatura como fenômeno histórico, social e estético, intrinsecamente vinculado aos contextos de produção, circulação e recepção. Nesse contexto, ganha relevância a compreensão das dinâmicas que regulam a visibilidade de determinados textos em detrimento de outros, assim como os efeitos dessas escolhas na constituição dos repertórios leitores e nas possibilidades de engajamento dos estudantes com a literatura. Além disso, a perspectiva comparatista possibilita ampliar o horizonte de leitura, promovendo diálogos entre diferentes tradições literárias, linguagens artísticas e matrizes culturais. Ao mobilizar os aportes da Literatura Comparada, busca-se tensionar práticas pedagógicas cristalizadas, frequentemente centradas em abordagens formalistas, historicistas ou excessivamente conteudistas, e fomentar experiências de leitura que valorizem a interpretação, a intertextualidade e a diversidade cultural. Nessa direção, o ensino de literatura pode configurar-se como espaço privilegiado para o desenvolvimento do pensamento crítico, da sensibilidade estética e da imaginação, contribuindo para a formação de leitores capazes de estabelecer relações entre textos, contextos e diferentes formas de expressão artística. O simpósio convida, portanto, à submissão de comunicações que problematizem o ensino de literatura em suas múltiplas dimensões, com especial atenção às contribuições da Literatura Comparada. Serão bem-vindos trabalhos que abordem, entre outros temas: práticas pedagógicas no ensino de literatura; relações entre literatura e outras artes; leitura comparativa na escola; formação de leitores; revisões e deslocamentos do cânone literário; políticas públicas de leitura; e articulações entre teoria literária e prática docente. Incentivam-se, ainda, investigações que considerem contextos educativos diversos, bem como experiências que dialoguem com perspectivas críticas contemporâneas. Ao promover este espaço de reflexão, debate e intercâmbio acadêmico, espera-se contribuir para o fortalecimento de uma concepção de ensino de literatura que ultrapasse a lógica da mera transmissão de conteúdos e se afirme como prática crítica, dialógica e socialmente situada. Mais do que formar leitores competentes do ponto de vista técnico, trata-se de formar sujeitos capazes de interpretar o mundo em sua complexidade, reconhecendo na literatura um espaço privilegiado de construção de sentidos, de questionamento das realidades instituídas e de abertura para outras possibilidades de existência.

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COORDENADORES:
ALDINIDA DE MEDEIROS SOUZA (UEPB)
Cíntia Acosta Kütter (Universidade Federal Rural da Amazônia)
Sávio Roberto Fonseca de Freitas (Universidade Federal da Paraíba)

RESUMO: Este simpósio tem por objetivo refletir como, por meio de suas obras, escritoras africanas e afro-brasileiras constroem uma linguagem literária singular, vetor de memória ancestral e plataforma para a projeção de futuros alternativos. Busca-se compreender como a escrita literária de autoria feminina se torna espaço de poder de fala (Ribeiro, 2017), de reconfiguração histórica, resistência cultural e afirmação das subjetividades negras e/ou afrodiaspóricas.  Priorizando um aporte teórico interdisciplinar, que articula os feminismos decoloniais (com destaque para Lélia Gonzalez e Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí), o conceito de Escrevivência (Conceição Evaristo) e a crítica pós-colonial (Achille Mbembe). este espaço de debate visa investigar os modos como essas autoras elaboram narrativas que corporificam, de forma interseccional, as experiências de raça, gênero e colonialidade. Sobre as possibilidades de discussão com as literaturas africanas e afro-diapóricas, Lélia Gonzalez e Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí possibilitam análises que desconstroem a dominância epistêmica do Ocidente, reposicionando o racismo e o sexismo como elementos centrais para entender a produção literária e cultural de mulheres africanas e em diáspora. Ambas as autoras, apesar de suas origens distintas (o Brasil da Amefricanidade e a Nigéria Iorubá), convergem em uma crítica contundente ao eurocentrismo e ao colonialismo, disponibilizando ferramentas para analisar a resistência e a autonomia nas narrativas afro-diaspóricas. Nesse contexto, suas contribuições conjuntas para a literatura podem originar reflexões que incluem a interseccionalidade e o conceito de "Amefricanidade" (Gonzalez). Gonzalez propõe uma leitura da literatura negro-brasileira como um instrumento de denúncia contra a tripla opressão (raça, classe, sexo) e como uma valorização do "pretuguês" e das influências culturais africanas na América, sugerindo um feminismo afro-latino-americano. Já a desconstrução do gênero colonial (Oyěwùmí) é realizada pela socióloga nigeriana, que questiona a categoria "gênero" na análise de sociedades africanas pré-coloniais (iorubás), evidenciando que o gênero é uma concepção ocidental imposta pela colonização. As análises de Gonzalez e Oyěwùmí possibilitam que se interpretem as literaturas africanas e afro-diaspóricas como produções de contra-narrativa, que desafiam o apagamento histórico e reafirmam a subjetividade e a resistência de corpos negros africanos e afrodiaspóricos. A escrevivência, um conceito desenvolvido por Conceição Evaristo, é uma ferramenta essencial para realizar uma análise crítica de obras escritas por mulheres, em especial as negras. Essa abordagem propõe uma escrita que se origina do corpo, da memória e da experiência compartilhada. Com ela, é possível desconstruir narrativas dominantes, enfatizando a resistência, a ancestralidade e a denúncia das desigualdades relacionadas a raça, classe e gênero. A relevância da escrevivência na crítica literária feminina pode ser compreendida através de alguns aspectos: a validação das experiências vividas como forma de conhecimento, onde se legitima as histórias e memórias de mulheres marginalizadas como um espaço de produção de saberes; a "Escrita de Nós", que transforma experiências individuais em resistência, mostrando que a trajetória de uma personagem, como em Ponciá Vicêncio ou Olhos d'Água, representa a dor e a força de muitas; a crítica ao "Brutalismo Poético", em que Evaristo aborda temas severos — como racismo, violência doméstica e pobreza — com uma linguagem poética e delicada. Isso permite que a crítica analise como as obras de mulheres retratam a dor sem desumanizar as personagens, inserindo-as em uma tradição de resistência; a descolonização do olhar e do gênero, rompendo com a representação estereotipada da mulher negra que prevalece na literatura brasileira tradicional, conferindo-lhes subjetividade e complexidade. Essa abordagem possibilita uma análise que enfoca o feminismo negro, considerando a intersecção entre racismo e sexismo; a subversão da oralidade, ao incluir expressões populares e a voz de mães e avós, Evaristo valoriza formas de conhecimento que não se submeteram à escrita oficial, oferecendo novos parâmetros para a crítica literária. As concepções de Achille Mbembe enriquecem os estudos literários ao fornecerem ferramentas teóricas e críticas—em especial a necropolítica e a análise da razão negra—que possibilitam examinar de que maneira as narrativas literárias abordam questões como a violência colonial, a administração da morte, o racismo estrutural e a desumanização. A obra de Mbembe é fundamental para a compreensão da literatura contemporânea e pós-colonial, em particular das produções africanas e diaspóricas, que se configuram como espaços de resistência e reinterpretação da história, abordando temas como sobrevivência, memória e o "devir negro" do mundo.
(O simpósio visa evidenciar, coletivamente, que essa escrita não se limita à abordagem de temáticas específicas, mas se constitui como um contundente ato de reexistência.)
Nesse sentido, acolhemos abordagens que contemplem cartografias de escritas literárias de autoria feminina dos países africanos e do contexto afro-brasileiro.

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COORDENADORES:
ALEXANDRE ANDRÉ NODARI (Universidade Federal de Santa Catarina)
PEDRO MANDAGARÁ (Universidade de Brasília)
Marina Santos Ferreira (Universidade Federal de Santa Catarina)

RESUMO: A expressão “literatura indígena” tem sido usada para designar seja, em um sentido estrito, 1) a produção poética e ficcional (o que se costuma institucionalmente categorizar como “literatura” na acepção moderna) de autores indígenas, tais como Daniel Munduruku ou Graça Graúna (entre tantos outros); seja, em um sentido amplo que engloba o primeiro, 2) o conjunto dos textos escritos em escrita alfabética pelos povos originários (de teses a romances, de relatos a poemas) – nessa última acepção, a mais utilizada (e que remete ao sentido de “literatura” como o conjunto de escritos), entram não só A queda do céu, de Davi Kopenawa e Bruce Albert e os livros de Ailton Krenak, por exemplo, mas também teses e dissertações escritas por pesquisadores indígenas, e os livros escolares nativos; seja, por fim, em um sentido ainda mais amplo, 3) a totalidade da discursividade indígena, englobando o conjunto referido pela segunda acepção bem como as artes verbais nativas chamadas de orais (cosmologias, cantos rituais, narrativas tradicionais, etc.), publicadas ou não, e mesmo os grafismos e petróglifos indígenas, os quais provam que os povos originários jamais foram ágrafos. Mas, ainda que se possa distinguir tecnicamente os três usos do termo, a bem da verdade, pragmaticamente, eles fazem parte de um contínuo, pois em todos trata-se de nomear discursos nos quais os indígenas são os sujeitos. Afinal, mesmo que tenha havido aqui e ali momentos na história da literatura brasileira de reivindicações (tímidas) do lugar da autoria indígena na literatura, distinguindo a literatura indígena da indianista (em que os indígenas são assunto – objeto – e não sujeitos), esse gesto quase sempre esteve acompanhado do nefasto procedimento que Ytanajé Cardoso chamou de “lendarização” das poéticas e narrativas indígenas, que reduz ao estatuto de lendas os mitos cosmogônicos, hoje chamados pelos indígenas de “história viva” ou “histórias de origem”.

Desse modo, dando prosseguimento a Simpósios Temáticos anteriores em eventos da ABRALIC (“A fronteira é dentro: ontocosmologias indígenas e afro-diaspóricas no Brasil”, em 2024; “Ontocosmologias indígenas e estudos literários”, em 2025) e a colóquios do grupo de pesquisa, registrado no CNPq e homônimo ao título do ST ora proposto (“colóquio
literatura, território indígena”, na UFC em 2024, e “II Colóquio Literatura: Território Indígena”, a ser realizado no final do primeiro semestre de 2026 na UnB), pretendemos refletir sobre as transformações produzidas no campo literário quando ele é pensado e praticado como um território indígena, como um território de agência indígena. Afinal, a literatura indígena coloca uma série de problemas inéditos para os leitores (leigos ou especializados) não-indígenas: convenções e protocolos de leituras tradicionais são tensionados por dicções e recursos os mais diversos, dando a ver que a tradução à instituição literária de outras concepções da palavra, da escrita, da história, torna necessário, como aponta Ana Carolina Cernicchiaro, repensar conceitos e categorias da teoria literária, incluindo “o conceito homogêneo de literatura brasileira”, e, mais em geral, “o que entendemos por literatura”. Assim, ao assumirmos a literatura como território indígena, mais do que só considerar o histórico silenciamento de vozes, perspectivas e cosmologias originárias, propomos uma escuta ativa dos saberes comunitários e ancestrais, sobretudo dos povos de Abya Yala, como alternativa aos limites inequívocos do pensamento moderno ocidental.

Para tanto, propomos três eixos de reflexão, articulados entre si: 1) a investigação de textos de autoria individual ou coletiva indígena, orais ou escritos alfabeticamente; 2) a revisão histórica da literatura brasileira atenta não só aos mecanismos de exclusão, invisibilização e deturpação da agência e autoria indígenas, mas também à reabilitação, a contrapelo da historiografia e mesmo da intencionalidade autoral, de vozes indígenas inscritas em textos de autoria não-indígena; 3) a reflexão teórico-conceitual sobre o impacto no campo literário da insurgência da literatura indígena.

Nosso simpósio convida, portanto, pesquisadoras e pesquisadores indígenas e não indígenas à inscrição de comunicações que tenham por horizonte o diálogo com os saberes e as literaturas indígenas, relacionadas a um ou mais desses eixos, ou à proposta geral do Simpósio. Na escolha das comunicações, teremos como princípio basilar a de que o nosso objetivo primeiro é a de constituir um diálogo horizontal entre pesquisadores indígenas e não indígenas, reconhecendo a produção intelectual indígena não apenas como objeto de estudo, mas como fonte legítima de conhecimento e reflexão crítica e integrando, para tanto, diferentes áreas do conhecimento — como Literatura, Antropologia, Artes, História e Ciências Sociais.

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COORDENADORES:
Klaus Friedrich Wilhelm Eggensperger (Universidade Federal do Paraná)
MARCUS VINÍCIUS MAZZARI (USP)
Fernando Baião Viotti (USP)

RESUMO: O neologismo ‘antropoceno’, originalmente cunhado nos anos oitenta do século passado, surgiu como conceito ambíguo e controverso para iniciar um debate dentro das ciências geológicas. Logo na primeira década do século, este termo fez rápida carreira nas humanidades e depois na mídia em geral, mostrando ter vindo para ficar. No nosso entendimento, se refere ao papel devastador do capitalismo global na história mais recente e contemporânea do planeta, causando efeitos destrutivos que continuam a ultrapassar todas as escalas temporais e locais válidas até então. Não se trata simplesmente de uma questão quantitativa: entramos em uma nova era, com consequências materiais de longo alcance, e, simultaneamente em uma nova constelação ontológica e epistemológica. Neste sentido, o termo antropoceno não pode ignorar as enormes disparidades sociais dentro da espécie humana (antropos) e é incompatível com qualquer modalidade de antropocentrismo.
Literatura antropocênica tematiza as interações entre coletivos ou indivíduos humanos e não humanos no contexto de uma nova realidade planetária (para uma descrição mais elaborada do termo v. PROBST et.al. 2022). Obviamente, o modo literário figurativo não pode se esgotar em reflexões de cunho sociológico ou filosófico, exigindo também figurações concretas de seres vivos e não vivos como parte do processo de formalização ficcional ou poética que lhe é peculiar. Ainda que a investigação de figurações literárias do mundo natural seja um dos focos do simpósio, é preciso investigar também os paralelismos formais que vão além da afinidade temática, aparecendo a partir de uma visada comparatista capaz de surpreender interseções entre os discursos ecológicos e literários. Na literatura como na ecologia, “tudo está ligado a todo o resto”; a exemplo dos combustíveis fósseis, um poema também é energia armazenada que, no entanto, não se exaure, na medida em que cada leitor e cada leitura a coloca novamente em modo cinético (RUECKERT, 1978). Em geral, o conceito de literatura como força ecológica (ZAPF 2016) adquire sua potência artística por meio da tradução imaginativa das energias naturais em energias culturais, projetando as forças elementares da vida no espaço comunicacional e autorreflexivo da linguagem e da estética (Zapf 2016, p. 29).
O nosso simpósio acolhe leituras de textos literários e/ou visuais, ficcionais e não ficcionais, que se relacionam – das mais variadas formas e maneiras – com aspectos específicos do sistema terrestre; acolhe obras que lidam com a exploração de humanos, animais e meio ambiente na nossa era a partir da chamada “grande aceleração” que se inicia após a Segunda Guerra Mundial. No antropoceno literário assistimos à ascensão de gêneros literários novos, como a climate fiction (cli-fi), que lida com as recentes mudanças climáticas. Seja uma novela cli-fi, um eco thriller empolgante ou uma obra poética que questiona – sem ignorar as peculiaridades de cada campo e suas interpenetrações (DESCOLA, 2006) – a tradicional divisão Cultura/Natureza: a literatura que nos interessa no simpósio pode e deve articular os mais diversos gêneros literários e aportes teóricos, compondo um olhar crítico diante da ameaça humana ao meio ambiente natural e da alienação do homem em relação aos outros habitantes do nosso planeta.
Salta à vista que as literaturas antropocênicas e ecocríticas sempre implicam uma dimensão global, pois a agentividade geofísica de coletivos humanos está necessariamente ligada ao uso de combustíveis fósseis e a práticas físico-químicas do capitalismo industrial e das altas tecnologias (PROBST et.al. 2022, p. 19). Na sua influente monografia Sense of Place – Sense of Planet: The Environmental Imagination of the Global, Ursula K. Heise aborda a ideia de um eco-cosmopolitismo, uma consciência ambiental que conecta os problemas locais com aqueles do sistema terra. Heise defende um apego afetivo e ao mesmo tempo crítico à dimensão global (HEISE 2008), uma perspectiva desenvolvida por diversas obras literárias não somente das últimas décadas. A pesquisadora teuto-americana tem sido a voz mais insistente em defesa de uma “environmental world literature” (HEISE 2023; HEISE 2014). Suas análises comparatistas são referência para todo(a) pesquisador(a) que trabalha sob uma perspectiva ecocrítica, embora a ideia de world literature não tenha passado incólume a contestações, principalmente por parte de uma ecocrítica de posicionamento pós ou decolonial, preocupada com a desigualdade global extrema e questões de justiça (HEISE 2023).
Assim, o simpósio aqui proposto faz também o convite para se debaterem em seu âmbito dicotomias como global vs. local, universal vs. particular, antropoceno vs. capitaloceno, ação humana vs. agentividade não humana, entre outras, conforme se manifestam na literatura. Global literature pode ser definida como “um conjunto de obras que é simultaneamente produzido por, e crítico das, desigualdades estruturais engendradas pela disseminação do capitalismo global, que tornou possíveis a globalização, a mercantilização e o neoliberalismo” (WHITTLE/ONG 2024, Kindle edition, pos. 132, tradução nossa). Dessa forma, o termo global literature está em consonância com as características de uma literatura antropocênica e ecocrítica contemporânea.

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COORDENADORES:
Maria Aparecida Oliveira de Carvalho (Universidade Estadual de Montes Claros)
Adolfo Cifuentes (UFMG)
LUIZ HENRIQUE CARVALHO PENIDO (Unimontes)

RESUMO: Afinal, o que é literatura experimental? Em que se pressente a experimentalidade do experimental? Ainda é possível e relevante, encerrado o primeiro quarto do séc. XXI, falar em experimental e experimentação? De fato, sob esse nome presumivelmente auto evidente de “literatura experimental” se reuniu, ao longo do tempo e com critérios relativamente vagos e flexíveis, um conjunto variado de textos heterodoxos, prototípicos, não-convencionais ou inclassificáveis. A chamada literatura experimental ora acenava para determinadas características inusuais de textos, autores ou grupos – na literatura brasileira o experimentalismo em Oswald de Andrade, Flávio de Carvalho, Osman Lins, Clarice Lispector, Guimarães Rosa etc. – ora conectava aspectos programáticos frequentes nas vanguardas do séc. XX ou em autores contemporâneos – a exemplo das sucessivas explorações da linguagem propostas pelos manifestos futurista, dadaísta, surrealista; as práticas experimentais em torno da revista Noigrandes dos irmãos Campos e Décio Pignatari, ou, por fim, daqueles escritores contemporâneos tributários da autoconsciência “pós-moderna” – ora, ainda, designava determinado processo de escrita que, ao submeter-se a restrições e rigores formais dos mais variados tipos, reorganizava o campo do possível em literatura. Empurrar a fronteira, solapar o campo, inventar um rigor que não totaliza, aspectos tanto da iconoclastia das vanguardas quanto da mania pós-moderna. Há muitas tentativas de definir esse conjunto de práticas literárias heterogêneas e todas parecem insuficientes diante da diversidade vertiginosa de seus objetos. A crítica tem oscilado entre, de um lado, dar ao experimental um lugar de existência bem determinado, uma tradição e uma cronologia, marcada sobretudo por um desejo transgressor e uma potência destrutiva advinda de suas origens em torno de uma estética do novo. De outro, uma outra crítica parece inclinada a abandonar o termo argumentando que o experimental é um tipo de ilusão criadora que cedo ou tarde é reapropriada pela instituição literária – impasse que estaria, de fato, na origem da modernidade. A literatura experimental põe a prova de fato, a sua própria possibilidade de conceitualização, pois, independente de sua vinculação a uma cronologia radical da transgressão ou uma tradição da ruptura e todos seus impasses, permanece uma força de fratura para além de toda periodização interrogando os modelos temporais de inteligibilidade histórico-literária. Permanece, ainda, frente às instituições literárias e suas pretensas características instáveis, uma margem ou exterioridade solicitando os fundamentos e fragmentando qualquer totalidade. A literatura experimental coloca a prova os limites do legível, não por virtuosismo formal, mas para inventar novos regimes de sensibilidade, novas partilhas do sensível, novas habitações na materialidade. De fato, a definição de John Cage, a mais precisamente experimental, parece recolocar a questão em um equilíbrio frágil e necessário: o experimental “é um ato cujo resultado é desconhecido”. A partir disso, convidamos pesquisadores a compartilharem seus trabalhos sobre a literatura dita experimental em suas variadas manifestações e procedimentos. Interessam-nos os processos de fragmentação, montagem, colagem, os procedimentos constritivos e construtivos, a metaficção e a autorreflexividade, os jogos de desagregação sintática e semântica, a escrita automática, a convocação do acaso ou o rigor matemático, a intertextualidade em suas formas radicais e outras apropriações, a serialidade, a permutação, a combinação, a espacialização, os efeitos de arquivo, a performatividade e intermidialidade, a escrita algorítmica, os hibridismos e tantos outros caminhos tomados por uma literatura que convoca a incerteza, a fratura, o erro, mas, principalmente, a ação.
Nesse regime de comunhão de bens, de perdas e desconstruções, buscaremos neste simpósio investigar a (con)tradição literária experimental, para evidenciar sua potência e vivacidade histórica desde a ars latina, ou mesmo antes, com o poema visual o OVO, de Símias de Rodes, feito no ano 325 a. C., até o Ovo novelo de Augusto de Campos, por exemplo, para apreciar tipologias que encerram a ideia de poética experimental, pois a "poesia é risco", perigo, fracasso que remonta a Mallarmé: "Toute l'âme resumée" em confronto com variadas diretrizes literárias observadas ao longo do curso histórico da Literatura ocidental e também oriental. Pensando no contraste entre estéticas dominantes e a experimental, para pôr em relevo a permanência resistente e vigorosa que foram e ainda podem ser alvo de relativa marginalização e a absoluta performance transformadora e revificante. A rasura, enquanto instrumento de transformação dos textos em Despoesia, em arte assimétrica, em "pintura com sombras", que é o trabalho experimental poético de Augusto de Campos, em experimentos em que o poeta não mais se reconhece através do seu discurso, cuja especificidade põe em questão por intermédio do paralelo entre a despintura e a despoesia modernas, em relação com a técnica e os meios de comunicação de massa, entre outras experimentações e viagens galácticas pelo universo da língua e da literatura em fragmentos.

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COORDENADORES:
Fernanda Vieira de Sant' Anna (Universidade do Estado de Minas Gerais - Unidade de Divinópolis)
Randra Kevelyn Barbosa Barros (Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC))
Edimara Ferreira Santos (Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará)

RESUMO: No horizonte da palavra e nas tessituras do tempo, ressoam, insubmissos e indisciplinados, corpos, vozes e saberes fluindo nas canoas da ancestralidade nos rios das memórias. As literaturas indígenas, de África e afrodiaspóricas, em sua dimensão de vanguarda ancestral, tensionam a ruptura histórica imposta pela colonização, que tentou silenciar o genocídio dos povos indígenas (ainda em curso) e o tráfico de escravizados africanos, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 25 de março de 2026, como o crime mais grave contra a humanidade. São vanguardas ancestrais que (re/ins)escrevem, na tessitura da linguagem, memórias que confrontam os registros históricos considerados oficiais. Ao fazer da palavra (falada, escrita, desenhada, tecida, cantada, performada) um território de retomada, as literaturas indígenas, de África e afrodiaspóricas produzem modos de (re)lembrar, de (re)conhecer e de (re)desenhar futuros, enraizados em cosmopercepções ancestrais orientadas ao futuro. Nesse contexto, a literatura não se limita à autoexpressão, mas se constitui como território de (re)construção de memória cultural, como gesto de (re)existência e como prática de preenchimento das lacunas históricas. Debruçar-se sobre um conceito de Literatura significa compreender suas limitações e possibilidades, especialmente considerando que o termo não inventa a substância. As literaturas de vozes historicamente marginalizadas/subalternizadas sempre ressoaram para além do código do alfabeto latino e para além do início e dos confins de um cânone literário ocidentalizado. Os gêneros textuais e literários identificados e classificados pela monocultura do pensamento eurocentrado, ignoraram, por séculos, as formas de fazer literário e epistemológico de povos indígenas de Abya Yala (continente americano), de África e afro-diaspóricos. Nesse sentido, uma Teoria Indígena da Literatura, (Sant’ Anna, 2025) e uma Teoria Afro-brasileira da Literatura nascem impulsionadas pela própria materialidade literária, que demanda a construção de teorias que contemplem o que foi sufocado pelos conhecimentos ocidentais e ocidentalizados, considerando suas especificidades e projetos estéticos e políticos. Como o conceito de escrevivência, de Conceição Evaristo (1996), chave estético-teórica para o estudo da literatura afro-brasileira. Ao abordarmos literaturas indígenas e afrodiaspóricas é imprescindível ter o cuidado com conceitos que devem ser acionados fundamentados em uma construção epistemológica séria e não como um jogo de palavras esvaziadas de sentido em um movimento de um multiculturalismo estéril. Em um mundo febril de urgências, como os desdobramentos da crise climática em desastres, as injustiças social e ambiental, o genocídios de povos ditos “minorizados”, o epistemicídio de saberes ancestrais insubmissos, é inadiável que nos voltemos para epistemologias plurais e indisciplinadas (dentro e fora da academia), que desmantelem não apenas a hierarquia ocidental de saberes, mas os sistemas de opressão semeados na colonização e perpetuados na colonialidade. Epistemologias plurais indisciplinadas e insubmissas que possibilitem a emergência de alianças de saberes para a construção de soluções para as questões que atravessam a contemporaneidade, compreendendo que nenhum saber sozinho é capaz de desfazer as quelóides coloniais. Para tal, o campo da Literatura Comparada, enquanto conceito ampliado, não limitado à comparação de literaturas nacionais, mas que abraça em si multiplicidades textuais que interagem como uma variedade de suportes carregada de uma diversidade de significados e temáticas que não se restringem às linhas territoriais imaginárias. Nessa perspectiva, há uma transformação no objeto de estudo da estética contemporânea, visto que analisar a arte deixou de significar apenas o exame das obras em si, passando a envolver também as condições textuais e extratextuais, bem como os contextos estéticos e sociais, nos quais a interação entre os agentes do campo artístico produz e ressignifica sentidos (Canclini, 2000). Neste Simpósio Temático, propomos reunir trabalhos de diferentes áreas do conhecimento, em perspectiva comparada, para a partilha e construção de uma rede de saberes (in)comuns, que possam fluir e transbordar as linhas das disciplinas. Nesse sentido, este Simpósio Temático acolhe trabalhos e se volta para as Literaturas Indígenas, Afro-brasileiras, para os Feminismos não-civilizatórios, como o feminismo comunitário de Abya Yala (Carvajal, 2020), decolonial (Vergès, 2020) e camponês, dos Futurismos Afro e Indígena, das Epistemologias Ancestrais, dos Saberes Indisciplinados e Insubmissos, para Pedagogias Decoloniais, Literatura e educação, Literaturas e outras artes (artes visuais, cinema, slam, performance) e para processos de (re)apropriação e (re)invenção de línguas e conhecimentos na criação de artes e imaginários transgressores capazes de articular uma confluência de saberes (Santos, 2023). Nosso aporte teórico inclui, Carvajal (2020), Evaristo (2020), Graúna (2013), Justice (2018), Ailton Krenak (2019), Márcia Kambeba (2020), Mignolo (2011), Quijano (2010), Rosa (2019), Santos (2023), Tuhiwai Smith (2012) e Vergès (2020).

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COORDENADORES:
Juracy Ignez Assmann Saraiva (Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Federal do Ceará)
Atilio Bergamini Junior (Universidade Federal do Ceará)
William Moreno Boenavides (Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), câmpus Araranguá)

RESUMO: Machado de Assis, poeta, dramaturgo, romancista, contista e crítico, revela, em suas produções, reflexões sobre o fazer artístico, permitindo pressupor que a literatura, em suas variadas formas de expressão, constitui um espaço de validação de suas convicções estéticas. Elas estão presentes em seus primeiros ensaios críticos, publicados em A Marmota, em 1856, “Ideias Vagas: a Poesia”; “Ideias Vagas: a Comédia Moderna” e “Ideias Vagas: os Contemporâneos - Mont’Alverne”, que apresentam posicionamentos sobre poesia e teatro (Massa, 1971). Também em suas avalições como censor do Conservatório Dramático, publicadas originalmente entre 1856 e 1879, Machado expõe opiniões, pautando-as em convicções estéticas. Ele se fundamenta no pressuposto de que a arte dramática e, por extensão, a arte literária, deve traduzir o âmbito social; apresentar ações sequencialmente articuladas, privilegiando a concisão nas situações; compor caracteres consistentes e verossímeis; explorar a potencialidade da linguagem verbal, que deve ser eloquente, mas nunca desmedida; atender a uma finalidade moralizadora; promover a adesão do espectador por meio da exposição de minúcias da vida. Em seus julgamentos, Machado demonstra, pois, um "conhecimento profundo da matéria", procede a uma "análise refletida dos aspectos formais" e expõe uma "interpretação arguta das ideias" (Faria, 2004, p. 326), organizando uma espécie de programa, cujos princípios contribuem para sua formação como escritor e se mostram no processo de criação de sua literatura.
No ensaio Notícia da Atual Literatura Brasileira: Instinto de Nacionalidade, publicado em O Novo Mundo, em março de 1873, Machado apresentava possíveis caminhos para a consolidação de uma literatura brasileira, autônoma, independente da valorização da “cor local”, em que se articulassem “independência estética, consciência histórica e profundidade ética” (Soares, 2025, p. 493). Ele refere que os dotes de observação do escritor devem possibilitar a pintura dos costumes, a análise das paixões, dos sentimentos e dos caracteres e a exposição de quadros sucintos da natureza. Defende, igualmente, a propriedade das imagens verbais, a clareza de pensamento e a simplicidade.
Em abril 16 de abril de 1878, Machado de Assis publicou, na revista O Cruzeiro, sob o pseudônimo de Eleazar, o artigo intitulado “Eça de Queirós: O primo Basílio”, artigo que ele viria a complementar em 30 de abril. Segundo Machado, o escritor português assume, com O crime do Padre Amaro, um realismo sem disfarces, voltando-se para a “reprodução fotográfica e servil das coisas mínimas e ignóbeis” (Assis, 1986, p. 904). Esse argumento baseia a rejeição ao romance O primo Basílio e se estende aos preceitos do Realismo, os quais contesta no ensaio “A nova geração”, publicado originalmente na Revista Brasileira, em dezembro de 1879. Visualizando o conjunto das produções literárias brasileiras e a influência da escola realista sobre muitas delas, ele afirma que é a “mais frágil de todas, porque é a negação mesma do princípio da arte” (Assis, 1986, p. 813). Rejeitando a escola realista, o autor de Memórias póstumas recusa, igualmente, a reprodução fotográfica e detalhada da realidade, a representação de comportamentos repulsivos, aspectos enfatizados na narrativa de Eça, em que acusa, também, a falta de unidade dramática e a “concepção inconsistente das personagens” (Assis, 1986, p. 905). Neste mesmo ensaio, Machado refuta a aliança entre o ideal poético e o ideal político e expõe a necessidade da renovação artística, pois a poesia busca quebrar padrões e substituí-los, e valoriza o fingimento poético que deve estabelecer o “contraste de efeitos entre a realidade e a ficção poética” (Assis, 1994, s/p.).
Segundo afirma José Luís Jobim, é importante “acompanhar a evolução do pensamento crítico de Machado, talvez menos para chegar a conclusões sobre a justeza ou não de suas opiniões do que para entender como se foram estruturando as opções do escritor em sua própria obra, no diálogo com seu pensamento crítico” (Jobim, 2010, p. 75). Este é o foco do presente simpósio que visa estabelecer correlações entre o posicionamento estético de Machado em seus ensaios e críticas com suas produções literárias, bem como abrir espaço para a discussão da recepção de suas obras. Sob esse ângulo, o simpósio acolhe comunicações que enfocam a relação da crítica machadiana com seu processo criativo e com o contexto histórico da produção e da recepção de suas obras. Assim, as comunicações podem tratar da reflexão poética que se inscreve nos textos, a partir da qual Machado compõe a ficcionalização de uma teoria do fazer poético, das remissões autorreferencias, do restabelecimento do diálogo de textos machadianos com outros, da fortuna crítica endereçada à produção do escritor, dos vínculos entre Machado e o público leitor no Rio de Janeiro do século XIX e XX e da transferência de estudos ao sistema educacional. Com esta proposta, o simpósio contribui para a divulgação de pesquisas que adotam o enfoque comparatista e valoriza a obra de Machado de Assis, vinculando-a ao momento sócio-histórico-cultural de sua produção e de sua recepção.

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COORDENADORES:
GABRIELLA KELMER DE MENEZES SILVA (IFRN)
SÉRGIO LINARD NEIVA PIMENTA (UFPI)
Tiago Barbosa Souza (UFPI)

RESUMO: Partindo do pressuposto bakhtiniano (2017) de que as manifestações literárias são partes integrantes da cultura de uma sociedade e que, sob uma perspectiva comparatista, a apreensão do diálogo entre essas produções configura-se como um caminho profícuo para o aprofundamento crítico do texto, propomos, neste simpósio temático, uma discussão acerca de obras em línguas portuguesa e francesa cujos corpora ensejem a presença — conjunta ou isolada — de manifestações da melancolia e de distintas formas de violência. Entendemos a melancolia não apenas como afeto, mas como uma resposta estética à perda e ao luto não elaborados, recorrendo, principalmente, a uma leitura de base psicanalista. Quanto à violência, compreendem-se as ações propositadas que geram danos físicos e psíquicos à integridade física e mental dos seres ficcionais, destacando-se, dentro desse contexto, a própria aparição da melancolia como eventual consequência da subjugação corporal ou simbólica. Nesses termos, interessam à proposta articulações possíveis entre literatura e sociedade, no que compete à aparição de elementos históricos e sociais a configurarem as aparições da violência e da melancolia nas obras literárias. Para tanto, perseguimos, especialmente, mas não de forma exclusiva, contribuições teóricas da manifestação da melancolia no texto literário provenientes de postulados de Lima (2016), Freud (2013), Kehl (2009), Scliar (2003), Lages (2007) e outros. Sendo compreendida a violência como uma força motriz que estrutura relações históricas e subjetivas no texto literário, pautamos discussões no âmbito de áreas contíguas acerca da temática, considerando teóricos tais quais Hannah Arendt (2011), Byung-Chul Han (2017) e Marilena Chaui (2017), e, no âmbito das discussões literárias, de considerações como as propostas por autores tais quais Karl Schollhammer (2013) e Jaime Ginzburg (2012, 2017). Por lentes diferentes, esses estudiosos constituem a problemática da violência tendo em vista sua aparição em ambientes políticos, contemporâneos ou nacionais. A respeito do vínculo entre as temáticas, observa Jaime Ginzburg (2012, p. 72), em Literatura, violência, melancolia, que “Uma das principais linhas de configuração da violência na literatura consiste em articular a vivência de episódios de destruição a uma condição precária do sujeito”. Esse entendimento propõe, a partir da fragilização subjetiva, que a intensidade do vivido pode gerar dificuldades nas “condições de assimilar ou superar o passado”, de maneira que “o sujeito expõe de modo problemático, fragmentário ou incerto o que ocorreu” (Ginzburg, 2012, p. 73). O diálogo entre essas categorias permite investigar como as literaturas lusófonas e/ou francófonas, bem como de outras culturas, processam traumas históricos — como a herança colonial, as ditaduras militares e as fraturas sociais contemporâneas —, transformando as formas de um “malestar” em matéria literária. Consoante os objetivos da literatura comparada, este simpósio busca transcender, pois, as fronteiras nacionais para identificar convergências temáticas, hibridismos de gênero e dissidências formais, articulando conteúdo, material e forma, em prol de verticalização de conhecimentos acerca do objeto literário. Interessa-nos, dessa feita, analisar como o texto artístico, criação que reflete ou refrata em alguma medida a vida social, oferece chaves de leitura para a condição humana e para a resistência política a partir das manifestações da melancolia e/ou da violência. Dessa forma, acolhemos comunicações que explorem o potencial cruzamento de obras, de autores e de contextos distintos, privilegiando abordagens que discutam a figuração do corpo, do espaço e da memória sob a égide dessas tensões estéticas, privilegiando, mas não se limitando, obras lusófonas e/ou francófonas. Também serão preferenciais propostas que trabalhem com textos literários do período contemporâneo, aqui contemplado nas produções publicadas entre 1970 e os dias atuais, com base nos recortes de Agamben (2003) e de Dalcastagnè (2026), com estudos que se debrucem sobre o texto em prosa ou em verso. Assim, ao articular os conceitos de contemporaneidade e representação social, pretendemos fomentar uma reflexão que não apenas examine as propriedades estéticas das obras, mas que também questione seu papel na construção de novos imaginários coletivos e éticos. Espera-se, portanto, que as discussões transcendam o âmbito estritamente acadêmico, contribuindo para uma compreensão mais densa das tensões que definem o ser e o estar no mundo atual. O cruzamento dialógico proposto a partir de obras em prosa e em verso tem potencial para servir de base para identificar as estratégias formais que conferem visibilidade a sujeitos e a espaços historicamente marginalizados, consolidando a pesquisa literária em torno da temática. Tendo em vista tais discussões, interessam à proposta articulações possíveis entre literatura e sociedade no que tange a contextos violentos, as relações entre violência e melancolia; violência e trauma; melancolia e história; e as aparições de diferentes matizes de experiências melancólicas, vinculadas a catástrofes históricas, à contemporaneidade ou à linguagem dos sujeitos ficcionais.

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COORDENADORES:
Lis Yana de Lima Martinez (Universidade Federal do Rio Grande (FURG))
ALISSON PRETO SOUZA (Universidade Federal de Pelotas (UFPEL))
Fabian Quevedo da Rocha (Colégio de Aplicação UFRGS)

RESUMO: O simpósio propõe reunir pesquisas que investiguem as dinâmicas contemporâneas das narrativas e das formas culturais em múltiplos sistemas midiáticos, com ênfase nos processos de circulação, adaptação e expansão entre diferentes linguagens. Partindo da compreensão de que a midialidade constitui o conjunto de condições materiais, técnicas e semióticas que configuram os meios de expressão, o simpósio busca explorar de que maneira tais condições não apenas sustentam, mas também transformam a produção, a recepção e a ressignificação das narrativas na contemporaneidade. Nesse sentido, a midialidade deixa de ser entendida como um mero suporte e passa a ser concebida como elemento ativo na construção de sentidos, interferindo diretamente na forma como histórias são estruturadas, experienciadas e compartilhadas.
No campo da intermidialidade, mobilizam-se especialmente as contribuições de Claus Clüver e Irina Rajewsky, que oferecem ferramentas conceituais fundamentais para compreender as relações entre diferentes mídias. Clüver (2006) propõe uma abordagem que articula intertextualidade, interartes e intermedia, destacando que os fenômenos culturais contemporâneos frequentemente se constituem em zonas de contato entre linguagens diversas, como literatura, música, cinema e artes visuais. Para o autor, tais interações não são meramente ilustrativas, mas estruturais, configurando novas formas de expressão que emergem justamente do entrecruzamento midiático. Já Rajewsky (2005) sistematiza a intermidialidade em três categorias principais: a transposição midiática, que envolve a adaptação de uma obra de um meio para outro; a combinação de mídias, em que diferentes sistemas semióticos coexistem em uma mesma obra; e a referência intermidiática, quando um meio evoca outro de maneira indireta. Essas categorias permitem compreender a complexidade das formas híbridas contemporâneas e evidenciam a constante travessia de fronteiras entre sistemas semióticos.
Ademais, a noção de remidiação, desenvolvida por Bolter e Grusin (1999), contribui significativamente para o debate ao enfatizar que os novos meios não substituem os anteriores, mas os reconfiguram, incorporando e transformando suas lógicas. A partir dessa perspectiva, pode-se compreender que a intermidialidade não é um fenômeno recente, mas adquire novas configurações no contexto das tecnologias digitais, intensificando os processos de hibridização e circulação cultural. A remidiação, portanto, evidencia a dinâmica de reinscrição dos meios, na qual cada nova mídia se constrói em diálogo com formas anteriores, ao mesmo tempo em que redefine seus modos de presença e de mediação.
No que se refere à transmidialidade, o simpósio dialoga com autores como Henry Jenkins, Werner Wolf e Marie-Laure Ryan, que permitem pensar narrativas que se expandem por múltiplas plataformas, configurando ecossistemas narrativos complexos e distribuídos. Jenkins (2003; 2009) define o storytelling transmídia como um processo no qual elementos de uma narrativa são dispersos sistematicamente por diferentes mídias, de modo que cada uma contribua de forma singular para a construção do universo ficcional. Essa perspectiva é ampliada em trabalhos posteriores, como Cultura da conexão (Jenkins, 2014), que introduz o conceito de mídia propagável, enfatizando o papel ativo dos públicos na circulação e ressignificação dos conteúdos.
A transmidialidade não se restringe à expansão narrativa, mas envolve também práticas participativas, colaborativas e, muitas vezes, descentralizadas, nas quais os consumidores tornam-se também produtores de conteúdo. Essa dimensão participativa é fundamental para compreender as dinâmicas contemporâneas da cultura digital, nas quais as fronteiras entre produção e recepção se tornam cada vez mais fluidas. Ryan (2004), ao discutir a narrativa através das mídias, reforça a ideia de que cada mídia possui suas potencialidades específicas para contar histórias, o que implica que a transposição ou expansão de uma narrativa exige adaptações que considerem tais especificidades.
Wolf (1999; 2002), por sua vez, contribui para o campo ao investigar as relações entre literatura e música, propondo o conceito de “musicalização da ficção” como um caso específico de intermidialidade. Suas reflexões permitem ampliar a compreensão das interações entre diferentes formas artísticas, evidenciando como elementos estruturais de uma mídia podem ser incorporados por outra, gerando efeitos estéticos singulares e novas possibilidades de significação. Ainda, para Murray (2003), as tecnologias digitais possibilitam formas de imersão, agência e transformação que redefinem a experiência narrativa, abrindo espaço para ficções interativas e mundos virtuais complexos, em que o usuário assume um papel ativo na construção do sentido.
Diante desse panorama teórico, o simpósio pretende acolher trabalhos que abordem, entre outros temas, storytelling transmídia, adaptações interartes, processos de remidiação, ficções interativas, cultura digital e franquias narrativas. Busca-se, assim, fomentar o debate crítico sobre as reconfigurações da narrativa na contemporaneidade, destacando o papel das interações midiáticas na produção de sentidos e na expansão das formas literárias e culturais. Ao reunir diferentes perspectivas teóricas e objetos de análise, o simpósio pretende contribuir para o aprofundamento das discussões sobre as dinâmicas intermidiáticas e transmidiáticas, reconhecendo sua centralidade na compreensão das práticas culturais atuais. Trata-se, portanto, de um convite à investigação das múltiplas formas pelas quais as histórias circulam, se transformam e se expandem no mundo contemporâneo, evidenciando a complexidade e a riqueza dos ecossistemas narrativos atuais.

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COORDENADORES:
Diego Genu Klautau (Centro Universitário FEI)
Carlos Ribeiro Caldas Filho (PUC Minas)
Cássio Selaimen Dalpiaz (UNB)

RESUMO: A μυθοποιία (mithopoiia) ou μυθοποίησις (mitopoíesis), literalmente, “criação de mitos” é uma das atividades literárias mais antigas que se tem notícia, além de desfrutar de grande apelo popular. Como a própria palavra indica, trata-se de um esforço para criar narrativas míticas, ou seja, uma tentativa de explicar a origem do mundo – cosmogonia (no rastro de Mircea Eliade) mas também questões existenciais, como o sentido da vida, comportamentos, ações e reações humanas, além de questões éticas (Tzvetan Todorov). A criação de mitos, tal como acima afirmado, tem uma popularidade constante ao longo da história humana, pois trabalha com arquétipos aos quais todos somos sensíveis. Em outras palavras, os mitos tocam no imaginário por meio da metáfora (Paul Ricoeur), o que nos ajuda a entender por que são tão atraentes. Isto porque somos homo sapiens, seres racionais, mas não deixamos de ser homo religiosus, pois buscamos algo acima e além da natureza material que nos cerca. O transcendente, o mistério – numen, mysterium tremendum et fascinans – exposto por Rudolf Otto continua a nos assustar e a nos atrair.
Em Platão (A República), a dimensão mitopoética aparece na relação entre o mundo sensível e o mundo das ideias, sendo o mito um recurso para expressar verdades que ultrapassam o discurso puramente racional. Já em Aristóteles (De Anima; Poética), a imaginação (phantasia) assume papel central como mediação entre percepção e intelecto, permitindo a elaboração de imagens que fundamentam tanto o conhecimento quanto a criação poética. Assim, a fantasia se vincula diretamente aos processos cognitivos.
Na tradição cristã, Agostinho (A Trindade) compreende o imaginário como espaço interior onde a alma se orienta em direção a Deus, sendo a verdade iluminada por uma fonte transcendente. Em Tomás de Aquino (Suma Teológica), essa perspectiva se sistematiza: a imaginação participa do conhecimento e a arte é entendida como uma virtude intelectual produtiva (recta ratio factibilium), orientada à realização do belo como uma atividade racional que reflete, de modo analógico, a ordem divina. Desse modo, a mitopoética articula filosofia e teologia, revelando a fantasia como um campo onde o imaginário humano se conecta à busca pelo divino e pela verdade última.
Na contemporaneidade, quando se fala em criação de mitos é comum lembrar-se de nomes como J. R. R. Tolkien, que deu justamente o título Mythopoeia, de 1931, publicado em Tree and Leaf, em 1964. De fato, Tolkien ajudou a popularizar o conceito, que lhe era anterior (conforme o dicionário Merriam-Webster, a primeira referência à palavra mythopoeia em inglês é datada de 1864 ). Tolkien popularizou o conceito em termos teóricos e “práticos”, por assim dizer, com seu legendarium (composto principalmente por O Silmarillion, O Hobbit, a trilogia d’O Senhor dos Aneis, e obras complementares como Contos inacabados, A queda de Númenor e a História da Terra-média), sua obra literária na qual criou toda uma mitologia. Outros autores sempre lembrados quando se fala em mitopoética são C. S. Lewis (especialmente por suas Crônicas de Nárnia) e Robert Howard (criador de personagens como o Rei Kull e Conan, o Bárbaro). A mitopoética é por demais “polivalente” e multifacetada, abrangendo possibilidades estéticas e narrativas tão diversas uma da outra como literatura de fantasia (Tolkien e Lewis), o gênero Sword and Sorcery (“espada e feitiçaria”, Howard), literatura fantástica (conforme a descrição de Tzvetan Todorov) e ficção científica.
Partindo deste pressuposto, propõe-se para o XX Congresso Internacional da ABRALIC o simpósio MITOPOÉTICA - INTERFACES ENTRE LITERATURA, TEOLOGIA E RELIGIÃO. A ideia é estabelecer um “triálogo” entre estes três saberes, quais sejam, a literatura (através da teoria literária e/ou da literatura comparada), a reflexão teológica e os estudos de (ou ciência[s] da) religião (ou das religiões). Considerando que na sociedade contemporânea a mitopoética se expressa não apenas por meio do texto literário, mas também pelo cinema e pela paraliteratura das HQs (histórias em quadrinhos), o simpósio pretende acolher propostas de comunicação que tenham como objetos de estudo e análise crítica peças literárias (romances ou poesias), filmes e HQs, sempre em interface com a perspectiva da teologia e dos estudos de religião.
Ao se propor este simpósio há a expectativa de acolher trabalhos de pesquisadores das três áreas anteriormente mencionadas (estudos literários, estudos teológicos e estudos de religião), por saber que há no país grupos de pesquisa que se dedicam a um ou mais destes temas.

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COORDENADORES:
lyslei de souza nascimento (UFMG)
nancy rozenchan (Universidade de São Paulo)
Gerson Luiz Roani (Universidade Federal de Viçosa)

RESUMO: Jorge Luis Borges afirmou que “en el princípio de la literatura está el myto, y asimismo en el fin”. Sinônimo de “palavra”, “discurso”, “narrativa” (e até de “mentira”), o mito, com a diversidade de seus significados, não deixa dúvidas quanto ao seu papel fundador na literatura. Na literatura, a reelaboração de mitos judaicos e bíblicos produz uma rede infinita de referências e citações. A Criação em O lustre, de Clarice Lispector; A mulher que escreveu a Bíblia, de Moacyr Scliar; Judas, de Amós Oz; a poesia de Yehudá Amichai e Chaim Nachman Bialik; o dilúvio, Esaú e Jacó, entre outras histórias bíblicas que povoam a obra de Machado de Assis, são alguns desses autores e obras que reelaboram os mitos judaicos, pondo-os em circulação na contemporaneidade. Em "O mito e o homem moderno", Raphael Patai dedica-se não só a definir, mas a estudar alguns deles. Nesse livro, estão presentes temas como a religião como mito da vida moderna, o mito nazista e a interpretação dos mitos através dos séculos. Em "O livro do Gênese: mitologia hebraica", que publica com Robert Graves, investiga da Criação aos patriarcas, passando pela queda de Lúcifer e do homem, Adão e Eva, pela descrição dos monstros primevos (Beemot, Leviatã), pelo relato sobre a Torre de Babel e a multiplicidade das línguas, pela narrativa da destruição das cidades de Sodoma e Gomorra, pela história da escravidão dos hebreus no Egito e sua libertação, bem como as histórias dos juízes como Débora e Sansão, dos profetas como Isaías, Jeremias e Oséias, os relatos da consolidação das 12 tribos e a constituição do reino de Israel, seus reis, como Davi e Salomão, entre outros temas caros à narrativa bíblica. e também à literatura. Na obra de Borges, personagens como Caim e Abel, Esaú e Jacó, Davi, Moisés e José, além da referência a Adão, Eva e o Paraíso, além de Lilith e o Golem, que também aparecem na obra de Machado de Assis, Thomas Mann, Virgínia Wolf entre outros grandes escritores, que revelam, num entretecer de fios, a apropriação de mitos judaicos como estrutura e estratégia de enunciação. Vale lembrar, ainda, as citações implícitas e explícitas aos Salmos e a O cântico dos cânticos, ao livro de Jó e Provérbios, bem como ao Eclesiastes, tanto na poesia quanto na prosa contemporânea. Quando Sócrates, no II livro da República, aproxima os mitos à mentira e exige sua censura, o parentesco entre mito e literatura se revela, também, pelo lado negativo, isto é, pela crítica dos aspectos supostamente fantasiosos que atentariam contra o postulado de verdade ou dos bons costumes. As cenas violentas da Teogonia, de Hesíodo, chocavam os leitores da Grécia clássica, assim como o Cântico dos cânticos chocava os leitores da Bíblia pelo seu erotismo, fazendo com que se optasse por uma leitura alegórica. Com Dante, porém, o “sentido alegórico” foi muito além de um mero ato de censura, pois marcou um processo de recepção das narrativas míticas que não parou com o iluminismo do século XVIII, quando se achava que a razão iria acabar de vez com as fabulações do mito. O romantismo não apenas retomou o interesse pelos mitos, mas o ampliou pelas narrativas nórdicas e asiáticas, mostrando que a literatura moderna não apenas se alimenta de mitos, mas, pelo seu caráter alegórico, é, ela mesma, da ordem do mítico. Além disso, a Filosofia, a Antropologia e a Teoria da Literatura, entre outras disciplinas, abandonam as doutrinas positivistas do século XIX, contribuindo não apenas para uma valorização do pensamento mítico (Ernest Cassirer), como também para a emancipação das culturas ditas “primitivas” (Claude Lévi-Strauss). Nesse sentido, a proposta de estudo no biênio é analisar, nas literaturas contempladas no GT, a presença do mito em suas múltiplas acepções e, a partir dessa constatação, problematizar a permanência ou não de sua enunciação na contemporaneidade. O século XX, após se aproximar das ciências em suas vertentes mais realistas e naturalistas, ratifica, de certa maneira, o fracasso da razão quando promove uma atualização dos mitos judaicos. Esta proposta de simpósio objetiva, no amplo escopo da literatura comparada, investigar as estratégias de construção do texto que se utiliza da mitologia judaica para se inscrever na modernidade, problematizando ou reafirmando sua forma e sentido.

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COORDENADORES:
AUGUSTO RODRIGUES DA SILVA JUNIOR (Universidade de Brasília (CNPq))
Willi Bolle (Universidade de São Paulo (CNPq))
Ana Flávia de Andrade Ferraz (Universidade Federal de Alagoas (UFAL))

RESUMO: No ano dos 70 anos de Grande sertão: veredas (Rosa, 1956), este Simpósio propõe reunir pesquisas que, no campo da Literatura Comparada, busquem a figura dos narradores e narradoras (Der Erzähler; Walter Benjamin, 1936) como paradigma crítico-literário e ensaístico, criador e criativo para pensar a geopoesia em diálogo com literaturas e outras artes em espaços de travessias e encruzilhadas. A nossa proposta nasce das raizamas entre o narrador (de livro; impresso) e o contador de histórias e suas técnicas de composição nas eras das reprodutibilidades técnicas e digitais. Geopoetizar é inscrever e escrever, traduzir e retraduzir de uma voz a outra, de um corpo a outro, de um território a outro – sempre na luta contra o esquecimento e apagamento do outro. Nessa direção, o narrador/contador de histórias benjaminiano (leskoviano/machadiano/rosiano), como figura que condensa memória e recordação, passagens e etnoflâneries, conselhos e conhecimentos conversáveis, torna-se decisivo para reler produções literárias e artísticas que emergem de zonas liminares. Das raízes dialógicas do Brasil e dos rizomas polifônicos, a história comparativista da literatura “a contrapelo”. As territorialidades, por muito tempo lidas apenas como margens, neste Simpósio partem da hipótese de que a geopoesia pode oferecer à Literatura Comparada uma chave de leitura capaz de deslocar os lugares e os fazeres tradicionais do comparatismo. Em vez de pensar a comparação apenas entre autores, obras, línguas ou sistemas nacionais, interessa-nos compreender como vozes, comunidades, paisagens, imaginários, arquivos e formas artísticas entram em relação e produzem constelações críticas. A geopoesia não designa apenas uma poesia da terra, nem uma simples tematização do espaço: ela busca modos de ler e de fazer em que as passagens e as paisagens se convertem em banzeiros pensamentais e remansos sentimentais. Um campo de vocalidades e de estilizações nos leva a narradores e narradoras da geopoesia, reconhecendo que eles/elas não apenas contam o mundo, mas o reinventam (entre a hermenêutica e a aletria) sob a forma de experiências estéticas: orais, corporais, escritísticas, cinêmicas, digitais e outras mais. O subtítulo “letras e artes, passagens e aletrias” nomeia método e mobilização: “Letras e artes” assinala a abertura para um campo interartístico em que literatura, teatro, cinema, artes visuais, canto, performance, oralidade, escuta e tradução coletiva se tocam, sem que uma linguagem se imponha sobre a outra. Nossas “Passagens” convocam, em diálogo com Benjamin, uma crítica atenta aos percursos, liminaridades, montagens, fisionomias e aos modos pelos quais a história se deposita em ruínas, rastros, cenas, objetos, ruas – com nomes e sem nomes. Das “aletrias” rosianas, nosso Simpósio convida trabalhos e pensamentos que busquem invenções hermenêuticas, reinvenções epistemológicas. Entre os eidos geralzeiro, centroestino, norte-nordestino, a geopoesia reconfigura “Corredores”, “Entornos” e Zonas de influência. Em diálogo com Willi Bolle e Niemar, Ferraz e Cabral, interessa-nos acolher trabalhos que repensem a formação cultural e literária brasileira – que continuam em formação. Em diálogo com Benjamin, desejamos pesquisas que interroguem a sobrevivência da experiência em tempos de dispersão e navegação (digital). A potência crítica da memória e a figura de narradores/narradoras, ensaístas e pesquisadores surgem como portadores de historicidade, literariedade e “perguntabilidade”. Em diálogo com Carlos Rodrigues Brandão, queremos abrir espaço para leituras em que cultura, educação, partilha, escuta, comunidades e saberes se articulem de modo vivo, em contextos em que a palavra guarde vínculo com o chão, a festa, a roda, o canto, a dança. É uma pedagogia da convivência, que pensa a literatura de campo na sala de aula, na tela, na performance. Serão bem-vindos para nosso encontro trabalhos que abordem geopoesia e literatura de campo; narradores e narradoras em contextos quilombolas, indígenas, ribeirinhos, sertanejos, amazônicos, cerradeiros e periféricos; crítica polifônica em comparatismo: Walter Benjamin, Guimarães Rosa e as reescritas do espaço brasileiro que vão de Cora Coralina a Astrid Cabral, de Godoy Garcia a Cassiano Nunes, de Vicente Cecim a Dalcídio Jurandir, de Tião Pinheiro a Itamar Vieira Junior, de Socorro Acioli a Verenilde Pereira, dentre tantos. Convocamos cartografias afetivas e imaginários territoriais que priorizem passagens entre literatura, cinema, teatro e tantas artes, e que se constituem de recriações literárias brasileiras, afro-brasileiras, quilombolas e originárias. Formas e desformas narrativas de rexistência nascidas de experiências éticas e estéticas em que o narrar enforma gestos de transmissão e reinvenção comunitária (communitas). Por fim, neste redemunho pensamental, nos perguntamos: quem narra a geopoesia, desde onde o mundo e a palavramundo são narrados? Por quais formas a palavra se deixa ouvir, se deixa conversar, se deixa escrever, digitalizar? Entre letras e artes, entre passagens e aletrias, o que está em jogo geopoético é uma crítica capaz de ler os Brasis liminares em movimento, de reconhecer seus geopoetas, e de escutar, nas ampliações dialógicas de tantas outras literaturas, aquilo que ainda insiste em ser partilhado como experiência, vivência e escrevivência.

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COORDENADORES:
Leonardo Mendes (UERJ)
Haroldo Ceravolo Sereza (UFSCAR)
Claudia Barbieri (UFRRJ)

RESUMO: O Simpósio propõe discutir os princípios da estética naturalista e debater suas principais manifestações literárias, de qualquer nacionalidade, tanto no século XIX, quando ela surge, quanto nos séculos XX e XXI. Os princípios deste movimento estético, popular e democrático, que ousava nos temas e apresentava novos procedimentos discursivos, garantiram sua difusão pelo mundo, atraindo escritores de diversos países que adotavam o naturalismo como forma de se alinhar à modernidade industrial, numa geografia que transborda as fronteiras das literaturas nacionais. Tal força de representação ultrapassou seu tempo histórico e sobrevive até hoje, mostrando que a temporalidade literária obedece a regras específicas dos campos literários (Casanova, 1999). Tendo como princípio fundamental retratar "a vida como ela é", o naturalismo estuda personagens de diversas classes sociais, retratando seus cotidianos sem excluir o fisiológico, o desprezível ou o abjeto. Este método de observação e de criação deu origem a críticas tanto à brutalidade e à imoralidade do naturalismo quanto à pretensão ingênua de representar fielmente a realidade. Entretanto, em vários textos-chave da estética, como o prefácio da segunda edição de Thérèse Raquin (1868) e o ensaio "O romance experimental" (1880), de Émile Zola, fala-se que o objetivo era criar uma "ilusão" da realidade, pois, se o romance naturalista adotava procedimentos científicos como reação a um romantismo esgotado, cabia a cada artista, em seu "temperamento" individual, o ato da criação. Daí que não se deva falar de "escola naturalista" e de "mestres" e "discípulos", pois cada escritor tomou e moldou os princípios da estética à sua maneira – o que nos permite, hoje, falar de "naturalismos" (Becker & Dufief, 2017). Destacamos esse equívoco historiográfico como um dentre vários reducionismos impostos ao naturalismo, retratado pela historiografia tradicional brasileira como uma estética menor, obscena, falsa e ingenuamente científica, muitas vezes reduzida a uma caricatura. Estudos recentes vêm desvendando um quadro mais sofisticado e complexo, capaz de acomodar uma gama variada de vertentes naturalistas nos séculos XIX, XX e XXI, em suas relações com o gótico, a prosa decadente, o romance popular, a literatura marginal e a literatura pornográfica, privilegiando ora uma visão trágica da existência, ora uma perspectiva "cômica" e desiludida (Baguley, 1995). Na literatura brasileira oitocentista, esses desdobramentos parecem capazes de abarcar uma gama mais ampla de autores e textos do que a historiografia tradicional conseguiu identificar. A voga naturalista do século XIX deu origem a métodos de pesquisa e criação, bem como a formas de expressão que foram retomadas por escritores nos séculos XX e XXI. A abordagem da realidade "sem filtros" como elemento constitutivo da obra se adaptará a novas tecnologias e servirá a escritores, pintores, fotógrafos, cineastas e autores de novela, que nela verão um modo contundente de falar sobre o mundo e as sociedades. Brito Broca (1961) chama de "movimento neonaturalista" os romances carnais e eróticos da década de 1920 de Benjamin Costallat, Théo Filho e Romeu Avelar. Flora Süssekind, ao analisar o romance brasileiro da segunda metade do século XX, refere-se às vogas naturalistas nas décadas de 1930 (romance de 30) e 1970 (romance-reportagem). Também aponta, nos temas tratados na obra de Ferréz, Dráuzio Varella e Paulo Lins, nos anos 2000, para uma retomada dos postulados centrais do naturalismo. O desejo de expressar dimensões pouco atraentes da realidade, a primazia dada à descrição de conflitos sociais, os temas do preconceito racial e da dissidência sexual, assim como o desejo de documentar situações de opressão e exclusão de sujeitos subalternizados, constituem elementos do pacto naturalista de leitura que se renova e se reproduz na contemporaneidade. São obras que se posicionam como retratos do real, dialogam com o tempo imediato e sugerem posicionamentos sobre situações cotidianas de opressão e violência. O elemento extraliterário é um componente central da obra, e a busca por verossimilhança decorre tanto do discurso da experiência pessoal quanto da pesquisa científica ou jornalística. Essa dimensão política do naturalismo encontra respaldo teórico em Rancière (2009), que aponta que, ao abolir hierarquias e criar obras que não respeitavam a organização até então vigente, o naturalismo do século XIX criou, por meio do "efeito de realidade", o "efeito de igualdade", que, para ele, está diretamente ligado à possibilidade de associação livre de imagens. Rancière dirá ainda que a literatura que privilegia o descrever sobre o narrar permite que o "aristocrático emprego da ação" seja "bloqueado pela democrática coleção desordenada de imagens". Com a perspectiva renovada de um naturalismo democrático, múltiplo, erótico e desordenado, reconhecível nos séculos XIX, XX e XXI, convidamos pesquisadores a enviar propostas de trabalho que incorporem novas questões de pesquisa e estudos de caso ao debate sobre o naturalismo.

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COORDENADORES:
MONICA ASSUNCAO MOURAO (UEMASUL)
Márcio Araújo de Melo (Universidade Federal do Norte do Tocantins)
Tereza Ramos de Carvalho (Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT/CUA))

RESUMO: Reflexões sobre letramento, letramento literário, usos da literatura e seu processo de escolarização são temas recorrentes no trabalho do professor, que deve desenvolver e apresentar atividades variadas que ampliem a metodologia para escolarização literatura. Nesse sentido, as leituras, discussões e atividades práticas são de fundamental importância ao processo de formação do leitor de literatura que, se não começa no ambiente familiar, deve se iniciar no espaço escolar. Quando se deseja promover o letramento, deve-se considerar a afirmação de Barthes de que “ler implica encontrar sentidos”, não só entre escritor e leitor, mas também entre textos e contextos nos quais estão inseridos. Conforme o dialogismo bakhtiniano “um texto só ganha vida em contato com outro texto, com o contexto” (1986). Nesse dialogismo é possível perceber como cada texto é concebido: como um intertexto numa sucessão de textos já escritos ou que ainda serão escritos. Para Bakhtin, o acontecimento na vida do texto sempre sucede nas fronteiras entre a consciência do autor e a do leitor. E o sentido do texto só se completa quando estamos abertos à multiplicidade do mundo e a capacidade de a palavra dizê-lo. Sabemos que o que dá sentido à obra é sua totalidade orgânica; a articulação e mediação entre os elementos que a compõe e muitas vezes o “não-dito”, a subjetividade do leitor (Melo, Lima e Carvalho, 2023). Portanto, o letramento que se faz por meio de textos literários, além de empreender uma dimensão diferenciada no uso da escrita é uma forma de assegurar, sobretudo, seu efetivo domínio. Por ser a literatura uma maneira diferente de utilização da linguagem (Candido, 2006), não podemos esquecer que a língua é sua própria substância e que a literatura existe para fazer a língua funcionar. Nesse sentido, o letramento literário deve se integrar numa prática de leitores sujeitos do dizer e do pensar, pois, como já afirmado em outras palavras por Barthes (1987), é confirmado por Candido (2006) que a literatura veicula toda área do conhecimento, toda área da intuição, toda área da aspiração e faz com que o homem veja a língua não apenas como valor de comunicação, mas como valor em si. Uma vez que a língua no texto literário pode ser entendida como uma série de sinestesias pelos sons, os sabores, as cores e os corpos com que se apresenta, vale pelo significado e deveria estar no topo de nossas preocupações pedagógicas. Nosso objetivo, neste Simpósio, é acolher propostas e reunir pesquisadores e trabalhos que dialoguem com o ensino de literatura, apontando para alguns conceitos da literatura comparada enquanto campo de estudo que se dedica a analisar e interpretar obras literárias inseridas em diferentes contextos, que identifiquem semelhanças e /ou diferenças entre elas e o labor com o texto literário no espaço escolar. Sabemos que essa abordagem teórica surgiu no século XIX, com o intuito de superar as limitações da crítica literária tradicional, que se concentrava em obras individuais ou em contextos nacionais específicos. Ademais, as discussões acerca do espaço da literatura na escola não são recentes e, mesmo assim, os debates seguem seja na educação básica seja na educação superior. Nesse constructo, encontramos referências teóricas, datadas desde a década de 70, de autoria de pesquisadoras como Regina Zilberman, Marisa Lajolo, Glória Bordini, Lígia Chiappini, dentre outras, que já sinalizavam a difícil relação entre literatura e escola. Nos últimos anos, entretanto, essa discussão esteve mais acalorada, especialmente, depois da publicação de textos de teóricos conhecidos nos estudos literários, como Tveztan Todorov e Antoine Compagnon que, ao tratarem da realidade francesa, parecem ter diminuído a obnubilação que atingia os meios acadêmicos nesta área. No que tange ao cenário de teóricos brasileiros, temos os estudos desenvolvidos por Rildo Cosson, onde “pode-se associar a prática da leitura literária à apreensão da literatura enquanto linguagem e refletir sobre seu ensino e aprendizagem como ações relativas ao letramento literário” (COSSON, 2016), ou seja, não há necessidade de haver um hiato entre o ensino de literatura, sobretudo, nas escolas visto que as competências leitoras e de escrita estão diretamente relacionadas ao contexto social como pontuou, por diversas vezes, Paulo Freire em suas teorias sobre o processo de alfabetização e (Soares, 2009), ao afirmar que “letramento é o conjunto de práticas sociais ligadas à leitura e à escrita em que os indivíduos se envolvem em seu contexto social”. Isto posto, pontuamos que a prática do letramento literário, na escola, desenvolvimento de inúmeras competências indispensáveis aos indivíduos, não apenas em termos pedagógicos, como também enquanto processo de formação humana, cultural e social. Propiciar, portanto, um ensino contextualizado, fomentado pela reflexão e pelo diálogo, permite aos alunos a posição de protagonismo, de produtor de argumentos, assim como o insere em redes discursivas cada vez mais relevantes.

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COORDENADORES:
Luciana Molina (Univerzita Karlova)
Rogério Rufino de Oliveira (Secretaria de Educação do Estado do Espírito Santo)

RESUMO: Embora o cânone literário brasileiro seja frequentemente associado a uma estética tradicionalista e estável, muitos de seus representantes construíram suas obras a partir da diferença e da ruptura em relação aos modelos importados da Europa. Ao contrário do que por vezes ocorre com outras tradições latino-americanas quando circulam globalmente, a exemplo do realismo fantástico e do surrealismo desenvolvidos na Argentina, na Colômbia e no México, a literatura brasileira parece ser mais reconhecida pela representação social do que pela produção de formas literárias idiossincráticas e originais.

Essa leitura talvez se revele com maior clareza a partir da obra de Machado de Assis, que, conquanto seja comumente associado ao realismo, demarca diferenças importantes em relação ao romance europeu do século XIX, desmanchando seus modelos a partir da ironia e da digressão. Além disso, em Memórias póstumas de Brás Cubas, por exemplo, o autor flerta com o fantástico na figura do defunto-autor e, ainda, fragmenta os capítulos do livro em episódios, situações e pensamentos curtíssimos, além do manuseio de sinais gráficos incomum para narrativas contemporâneas, traços não convencionais para a tradição realista que também influenciou Machado.

A partir da Semana de 1922, a Antropofagia tornou a “inspiração infiel” princípio e modelo do experimentalismo brasileiro: embora bebessem das vanguardas europeias, Oswald e Mário de Andrade pretendiam tomá-las apenas como inspiração para uma estética brasileira, que colocasse para si seus próprios termos, a partir de uma linguagem mais próxima da experiência e da fala cotidianas do país.

Clarice Lispector, por sua vez, é tantas vezes comparada com autores europeus que exploraram o fluxo de consciência e o monólogo interior, e pouco reconhecida por aquilo que, em sua escrita, demarca diferenças em relação a Woolf ou Joyce: o fato de empurrar o texto para zonas limítrofes do poema em prosa e do ensaio, isto é, formas que desestabilizam o enredo a ponto de torná-lo quase inexistente em romances como Água viva, Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres ou no conto “O ovo e a galinha”. Além disso, explora a metaficção irônica e situada histórica e socialmente a partir do narrador pequeno-burguês Rodrigo S.M. em A hora da estrela.

Guimarães Rosa assimilou tópicos relevantes da tradição da literatura europeia, algumas características dos romances de cavalaria, o pacto fáustico e o tema do duplo, sempre de acordo com seu projeto de estilo. Grande sertão: veredas comprova essa mediação crítica, juntamente com a variedade de formas dentro da unidade de Corpo de baile. Seus contos se posicionam com irreverência criativa frente ao conto clássico e até mesmo às experimentações modernistas da narrativa breve, vistas em Joyce e Kafka, lidas em Borges e Cortázar. Fator primordial em Rosa, a representação explora e produz linguisticamente para com isso fazer da linguagem um mundo próprio.

Na poesia, vale lembrar novamente de Mário e Oswald, que não apenas se posicionaram criticamente em relação à tradição, mas projetaram influência futura. Os modernistas são lembrados pelos concretistas, que romperam com o verso, fundiram os códigos verbal e não verbal rumo ao ícone, trouxeram para o Ocidente algo do ideograma oriental e contextualizaram a agência espacial presente já em Mallarmé. Seu antilirismo de verbivocovisualidade estende a variedade da produção brasileira em comparação com a poesia marginal, que fez outro caminho: com produção independente e por vezes artesanal, com coloquialidade, deboche e atribuição de dignidade ao trivial, fez do "relaxo" capricho estilístico. Se se quer falar em poesia e experimentalismo no Brasil, é pertinente comparar Drummond, Cabral e Bandeira, a variedade formal entre eles e aquela que se espalha, diversificada, dentro de suas produções, ainda que em menor medida, no sentido da elasticidade formal, em João Cabral de Melo Neto.

Este simpósio questiona em que medida o experimentalismo no cânone brasileiro levou a literatura mundial para lugares pouco explorados. A intenção é a de jogar outra luz ao cânone mediante o reconhecimento de sua inovação, mas também dar oportunidade para que autores disruptivos e de fortuna crítica limitada sejam mais discutidos e reconhecidos. Além das menções feitas, há interesse por trabalhos sobre Gilka Machado, Carolina Maria de Jesus, Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles, Wilson Bueno, Manoel Carlos Karam, Osman Lins, José Agrippino de Paula, Lúcio Cardoso, Paulo Leminski, Ana Cristina Cesar, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Ferreira Gullar, Régis Bonvicino, a Bossa Nova, a Tropicália, o Cinema Novo (ou exemplos de cinema na fase posterior à retomada) etc. Pretende-se discutir experimentalismo linguístico; dissolução, reformulação e fundação de gêneros e subgêneros literários; hibridismo formal e cultural; valorização da aleatoriedade como elemento construtivo; dentre outros.

Procura-se por inscrições que comparem o experimentalismo literário brasileiro ao europeu, a outras modalidades artísticas como cinema, pintura, música etc., e trabalhos que explorem hipóteses teóricas e comparativas em torno da experimentação do cânone brasileiro em relação com outras tradições nacionais e com a literatura dita “mundial”.

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COORDENADORES:
VALNIKSON VIANA DE OLIVEIRA (Universidade de São Paulo (USP))
Daniela Maria Segabinazi (Universidade Federal da Paraíba (UFPB))
PEDRO AFONSO BARTH (Universidade Federal de Uberlândia (UFU))

RESUMO: Este simpósio temático propõe um espaço de debate e reflexão acadêmica voltado às múltiplas facetas do insólito ficcional nas produções literárias contemporâneas e canônicas destinadas ao público jovem. A proposta parte da necessidade premente de desconstruir a visão difundida de que os gêneros que compõem o imaginário são formas de escrita inferiores ou voltadas exclusivamente a um público invisibilizado, reafirmando que a fantasia, o fantástico, o maravilhoso e a ficção científica são essenciais no processo de formação leitora. Assim, o simpósio busca consolidar redes acadêmicas nacionais e internacionais interessadas em discutir como essas narrativas subvertem a realidade convencionada e oferecem novos olhares sobre o mundo. O insólito ficcional é aqui compreendido como uma tentativa epistemológica de abarcar literaturas que retratam, em diversos níveis, uma distorção ou subversão do mundo empírico, servindo de contraponto às literaturas miméticas. Conforme define Lenira Marques Covizzi (1978), o fenômeno caracteriza-se por uma inadequação essencial, uma disfunção que transcende os conceitos de realidade. A relevância do tema justifica-se pela onipresença dessas obras nas listas de mais vendidos e pelo seu papel fundamental no despertar do encantamento do leitor jovem. Nelly Novaes Coelho (2000) destaca que a atração pelo imaginário resulta de uma intencionalidade de descobrir o “outro lado” da realidade, transfigurando-a através do processo metafórico. Nesse sentido, o simpósio acolherá comunicações que analisem obras que transitam entre a realidade concreta e a imaginada, explorando como essas narrativas conquistam e desafiam os leitores jovens em formação. Dentro do campo da fantasia, o foco pode recair sobre a criação de mundos secundários e a utilização de seres e elementos imaginários (Fritsch; Rocha; Zilberman, 2022). Serão discutidas narrativas e sagas literárias que apresentam uma consistência interna de realidade, permitindo que o leitor adentre universos regidos por leis próprias, quer se trate de histórias de portal, narrativas imersivas ou invasões de elementos intrusivos no mundo real, levando em consideração as perspectivas teóricas de J. R. R. Tolkien (2010) e Farah Mendlesohn (2008). Além disso, o conceito de fantasy fiction, trazido por Marisa Lajolo e Regina Zilberman (2017), permite investigar o hibridismo e a intertextualidade em obras do final do século XX e início do XXI, povoadas por seres sobrenaturais e poderes mágicos. No que tange ao fantástico, sob a ótica de Tzvetan Todorov (2004), Julio Cortázar (2006) e David Roas (2014), as discussões podem abordar a hesitação diante do sobrenatural e do surreal, em obras que estabelecem um pacto de verossimilhança com o leitor sem necessariamente se desassociar da experiência do real. O simpósio acolherá estudos sobre como o elemento fantástico pode surgir de forma a despertar a imaginação, oferecendo novas sensações que não excluem a realidade, mas a expandem através do inusitado. Ademais, serão bem-vindas análises de obras que transitam entre o estranho e o maravilhoso, desafiando as leis conhecidas do nosso mundo familiar. O gênero maravilhoso será contemplado através de estudos de narrativas que não buscam explicações racionais, servindo como contrapeso à banalidade do cotidiano. Podem ser analisadas histórias enraizadas em culturas de tradição oral, lendas e contos populares que compreendem a existência de regras naturais distintas da normalidade, de acordo com pressupostos de Jacques Le Goff (2010). A presença desses elementos na cultura literária juvenil, como em produções contemporâneas que revitalizam fadas, dragões e reinos encantados, oferece um campo fértil para a investigação da permanência do imaginário ao longo das gerações. Por fim, a ficção científica poderá ser abordada sob a perspectiva do progresso científico e das invenções humanas, focando em como o gênero utiliza o especulativo para refletir sobre a sociedade, seguindo as concepções de Ernani Ssó (1987). Viagens extraordinárias, mundos alternativos, distopias, tecnologias avançadas e futuros possíveis são temas que permitem ao jovem leitor processar os impactos da ciência no mundo contemporâneo. O simpósio busca entender como esses elementos, ao evitarem o puramente sobrenatural em favor da extrapolação científica, mantêm uma conexão vital com os questionamentos humanos mais profundos. Além das discussões centradas estritamente no texto escrito, a proposta também abarcará o estudo comparativo de obras literárias com suas respectivas adaptações para outras mídias, como o cinema, as séries de televisão e os jogos digitais. Ao analisar como os elementos imaginários transitam entre diferentes linguagens artísticas e performances, pretende-se ampliar significativamente a compreensão do universo juvenil e dos seus processos de recepção. O simpósio objetiva, portanto, reunir pesquisadores/as interessados/as em analisar como essas categorias do insólito propõem eventos singulares que desestruturam a lógica física e empírica, instaurando novos sentidos ao que conhecemos como real.

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COORDENADORES:
JULIANE VARGAS WELTER (UFRN)
Mariana Figueiró Klafke (IFSul)

RESUMO: Este simpósio se propõe a ser um espaço de discussões sobre a produção romanesca brasileira no século XXI. Tendo em vista esse recorte, interessa-nos refletir sobre os temas e as formas engendradas por uma produção que lida com esse novo tempo no mundo (Arantes, 2014), explorando, metodologicamente, as relações entre a literatura e a sociedade (Candido, 1993; 2006). Assim, entende-se a contemporaneidade brasileira tensionada pelo grande trauma de nascimento, o golpe civil-militar de 1964, lidando com um horizonte de expectativas reduzido: a miragem do país do futuro é cada vez mais uma ilusão (Arantes, 2004; 2014). Assim, são questões norteadoras deste simpósio: que elaborações narrativas emergem de um mundo em estado constante de exceção e emergência (climática, sanitária, política, social, econômica), em que, se a História não acabou, ao mesmo tempo não se identifica um projeto compartilhado de futuro e o conceito de progresso perdeu força e sentido? Como o romance contemporâneo tem dado forma à experiência regressiva de uma sociedade assombrada pela constante iminência do colapso? Concomitantemente, em diálogo com a teoria literária que vem refletindo sobre o narrador contemporâneo, partimos dessas investigações para pensarmos essa posição na atualidade. Dessa forma, pretendemos problematizar o narrador a partir de duas proposições centrais para a crítica recente: a) o narrador descentrando, conforme Ginzburg (2012), ou seja, o narrador que se coloca em antagonismo com o campo dominante (qual seja: o patriarcado, o autoritarismo etc) - esse narrador confrontaria tradições conservadoras, propondo renovações; e b) o personagem-autor, a partir de Dalcastagné (2012), aquele que narraria sua história como forma de agência de sua própria vida, seja o passado, presente e talvez futuro, ainda que não se saiba que futuro seria esse. Este simpósio almeja, dessa maneira, discutir questões que atravessam essas formalizações, tanto aquelas que correspondem às leituras críticas aqui citadas quanto as que divergem dessas leituras, apontando outros caminhos. Se, como afirma Walter Benjamin (1987) em “Sobre o conceito de História”, “A tradição dos oprimidos nos ensina que o ‘estado de exceção’ em que vivemos é na verdade a regra geral” (p. 226), a presença de um narrador descentrado e de experiências narrativas mais variadas na contemporaneidade nos apresentam ricas possibilidades de entendimento de nossa sociedade e cultura e do momento histórico que vivemos. Em um contexto em que o debate público apresenta frequentemente questões relacionadas aos conceitos de lugar de fala, representatividade e legitimidade, de que forma a narrativa se apresenta como discurso? Se as tensões externas são incorporadas internamente na forma literária como impasse (Candido, 2006), como as crises (estéticas, políticas e ideológicas) estão sendo formalizadas pela literatura brasileira contemporânea? Por um lado, trata-se de analisar questões referentes ao narrador contemporâneo - qual a sua posição?, para pensarmos nos termos de Adorno (2012) -, e à estrutura literária construída, buscando refletir sobre as formalizações que o romance contemporâneo tem apontado como tendência. Por outro lado, e de forma inseparável e dialeticamente intrincada, é imprescindível refletir também sobre a emergência de temáticas tais como a centralidade dos regimes autoritários, as violências sofridas pelos povos originários e escravizados, as violências de gênero e sexualidade, entre outros conteúdos que, nos moldes benjaminiano, contam a história a contrapelo (Benjamin, 1987). Seguindo um ponto de vista materialista, consideramos aqui que a forma literária não pode ser separada de seu tempo histórico, ou seja, não somente os temas e conteúdos das obras literárias expressam seu tempo, mas também as formas e gêneros que elas assumem dão testemunho do horizonte e das elaborações possíveis em um determinado momento histórico (Lukács, 2000). Nesse sentido, a literatura oferece ao pesquisador e ao crítico a oportunidade de avaliar “como o recado do escritor se constrói a partir do mundo, mas gera um mundo novo, cujas leis fazem sentir melhor a realidade originária” (Candido, 1993, p. 9-10). Ou seja, a partir da articulação entre o texto, em sua integridade, e seu contexto, em seus processos, este simpósio objetiva ser um espaço de reflexão sobre as formas e os temas que vem sendo trazidos pelo romance recente, almejando assim discutir essa literatura em compasso com a tradição crítica brasileira. Desse modo, pretende ser um espaço de ampliação do debate sobre o romance recente e sobre os caminhos de análise a partir da Literatura Comparada, entendendo a diversificação do seu escopo de ação na atualidade.

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COORDENADORES:
Sergio Manoel Rodrigues (Universidade de São Paulo (USP))
Sandro Roberto Maio (Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES))
Eduardo da Rocha Marcos (Universidade Metropolitana de Santos (UNIMES))

RESUMO: A literatura brasileira moderna e contemporânea apresenta personagens que transitam à margem de estruturas sociais, simbólicas e existenciais estáveis. Esses sujeitos, aqui considerados “personagens errantes”, caracterizam-se pela ausência de um horizonte definido e pela instabilidade de seu lugar no mundo, constituindo elementos que tensionam as noções tradicionais de identidade, pertencimento e finalidade narrativa. Nesse contexto, a errância não deve ser compreendida apenas como deslocamento físico, mas afirma-se, sobretudo, como uma condição existencial e histórica que revela fissuras profundas nos sistemas de organização da vida “administrada”.
A falta de destino desses seres ficcionais implica uma ruptura com trajetórias lineares, frequentemente associadas à ideia de progresso, ascensão social ou realização individual. Ao contrário, os personagens errantes movem-se em circuitos fragmentados, descontínuos e, muitas vezes, reiterativos, sem um objetivo claramente delineado, evidenciando a precariedade de suas existências e a fragilidade dos vínculos que estabelecem com o mundo ao seu redor. Paralelamente, a ausência de inserção em estruturas sociais e simbólicas reforça sua condição de deslocamento permanente. Esses sujeitos não apenas caminham sem rumo, mas também não encontram reconhecimento em instâncias que lhes atribuam sentido duradouro, o que os coloca em uma posição de constante desajuste.
Nesse cenário, o conceito de limbo torna-se central para a compreensão dessas figuras. Entendido como um espaço intermediário entre pertencimento e exclusão, o limbo designa a posição simbólica ocupada por esses seres ficcionais, que não se encontram plenamente integrados nem totalmente apartados da ordem social. Trata-se de um estado de suspensão no qual não há consolidação identitária nem estabilidade social, mas sim uma permanente oscilação entre possibilidades não realizadas. Esse espaço liminar permite que a literatura explore zonas de indeterminação e ambiguidade, nas quais os sujeitos vivem sob a marca da transitoriedade e da incerteza, frequentemente impostas a eles por meio de um convívio pouco amistoso com outros indivíduos ou pela tentativa frustrada de realização das próprias vontades.
Frequentemente categorizados pela crítica literária como malandros, vagabundos, marginais (ou marginalizados), periféricos ou anti-heróis, os personagens errantes representam camadas sociais historicamente excluídas ou invisibilizadas. Sua errância assume, assim, uma dimensão política significativa, ao evidenciar desigualdades estruturais e denunciar processos de exclusão que atravessam a sociedade brasileira em diferentes momentos históricos. Ao mesmo tempo, esses sujeitos desafiam normas e expectativas sociais, recusando — de maneira consciente ou não — os papéis que lhes são impostos. Nesse sentido, desestabilizam o centro e deslocam o olhar para as margens, conferindo, portanto, outras possibilidades de leitura, interpretação e análise literária.
Em diálogo com reflexões de pensadores como Giorgio Agamben, Walter Benjamin, Bronislaw Geremek, Antonio Candido, entre outros, este simpósio temático propõe reunir pesquisas que investiguem a figura do personagem errante na literatura brasileira moderna e contemporânea, articulando-a a perspectivas teóricas diversas e a diálogos com outras tradições literárias. Pretende-se, assim, promover um espaço de reflexão crítica acerca das formas pelas quais a errância se configura como categoria estética, ética e política, contribuindo para a compreensão de subjetividades em deslocamento no contexto da modernidade e da contemporaneidade.
Serão acolhidos trabalhos que abordem, entre outros aspectos: a construção narrativa da errância e suas implicações formais, como a fragmentação do enredo ou a descontinuidade temporal; a relação entre errância, marginalidade e exclusão social; os vínculos entre errância e processos históricos, como urbanização, migração e precarização do trabalho; a representação de sujeitos liminares em diferentes gêneros literários, como romance, conto e dramaturgia; diálogos comparativos entre a literatura brasileira e outras literaturas nacionais ou transnacionais no que concerne à figura do errante; e a interlocução com teorias críticas que problematizam a experiência moderna, como as considerações teóricas sobre flânerie, subalternidade, despossessão e vida precária.
Ao propor a errância como eixo de investigação, o simpósio busca não apenas mapear a recorrência dessas figuras na literatura, mas também compreender como elas tensionam modelos narrativos tradicionais e revelam modos alternativos de existência. Interessa, ainda, examinar de que maneira tais personagens, ao habitarem zonas de indeterminação, instauram formas — por vezes frágeis, contraditórias ou ambíguas — de resistência às lógicas normativas que regem a vida social, seja na busca (ou recusa) de identidade, seja na construção de relações com o outro e com o mundo.
Desse modo, pretende-se contribuir de maneira significativa para o campo da Literatura Comparada ao evidenciar como a errância, longe de ser um fenômeno isolado ou restrito a um contexto específico, apresenta-se como um traço recorrente em diferentes tradições culturais e literárias. Tal perspectiva permite estabelecer aproximações, contrastes e redes de sentido entre obras, autores e contextos históricos distintos. Espera-se, por fim, fomentar debates que ampliem o entendimento das relações entre literatura, sociedade e formas de subjetivação, destacando o papel dos personagens errantes como operadores críticos privilegiados na leitura do mundo moderno e contemporâneo, bem como na problematização de suas tensões e impasses.

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COORDENADORES:
Paula Glenadel Leal (Universidade Federal Fluminense)
CELIA DE MORAES REGO PEDROSA (Universidade Federal Fluminense)
MARIA JOSÉ CARDOSO LEMOS - MASÉ LEMOS (Unirio)

RESUMO: Desde há muito, a discussão das relações entre poesia e filosofia como meios de conhecimento do mundo vem se revelando intrigante e apresenta, por isso, grande interesse para os estudos de literatura comparada. Questionando a tradicional separação entre as duas, que reserva exclusivamente à segunda o caminho cognitivo, em busca de outros movimentos, mais porosos, para tratar da relação entre poesia e filosofia, a principal questão que gostaríamos de abordar, dentro desse contexto, consiste no enfrentamento da vida pensável. Essa cognoscibilidade pode ser concebida, remetendo-nos a “sua natureza de relação fenomenológica, isto é, ao particularíssimo nexo, e quase harmonia, entre uma coisa e seu aparecer, entre um ente e seu dar-se a conhecer” (Agamben, 2018, p. 4), como um gesto que reúne o mundo e sua figuração, em uma espécie de fabricação mútua. Tocamos aqui, novamente, a raiz da poiesis como movimento produtor daquilo que, neste caso, queremos pensar como formas-de-vida, “uma vida – a vida humana – na qual cada um dos modos, dos atos e dos processos do viver nunca são simplesmente fatos, mas sempre e sobretudo são possibilidades de vida, sempre e sobretudo potência” (Agamben, 2017, p. 233). Para além do humano, contudo, haveria também nessas formas-de-vida, abertas sempre a novos usos, uma tensão constituinte com modelos de subjetivação que vedam a possibilidade de considerar a coexistência de sujeitos humanos e não humanos, em nós e no mundo.
Atravessando diferentes linhagens da poesia contemporânea, essa perspectiva se manifesta na consideração poética das animalidades e vegetalidades – um trabalho renovado sobre o partido das coisas pelo viés do que se poderia considerar como naturezas-mortas contemporâneas (ressaltando a noção de vida em termos que designam o gênero, como o inglês still life ou o alemão Stilleben, vida estática). Outro exemplo de forma-de-vida poética é fornecido pelas saxífragas (Marie-José Mondzain), cuja vitalidade política, desafiadora dos territórios improváveis para seu surgimento, figura a quebra de discursos totalizantes, identificados como a pedra em que é gravada a lei. Nessas produções, encontramos também uma meditação sobre algo de um real enigmático que tentamos capturar em um dito que o abranja, para tentar pensar na linguagem o que significa estar vivo, ainda que esta seja, paradoxalmente, uma tarefa da ordem do “impossível” (Georges Bataille). Há nessa tarefa, em uma circulação incessante, a passagem do informe à forma e vice-versa, assim formulada por Jean-Marie Gleize (2025, p. 11) em relação ao desafio de expressão do real na poesia: “O que se passa é sem nome”. Ele prossegue: “Escrever, nesse sentido, talvez não pertença à literatura. Ou seria aquilo que, na literatura, não pertence à literatura. Ou aquilo que, na poesia, ‘não tem nada a ver com a poesia’” (Gleize, 2025, p. 17).
Assim, aprendemos com essa poesia que, “[s]e a democracia tem algum sentido é por possibilitar a partilha resistente de dinamismos singulares que oferecem a todos a mesma possibilidade de viver e de ser reconhecido em sua capacidade de construir futuro. E isso em qualquer que seja o domínio onde se exerce sua própria existência. É isso que significa pertencer a uma cultura e não, como nos fazem crer, o consumo barato e institucionalizado de obras-primas” (Mondzain, 2026, p. 176).
Também uma pedagogia do aberto envolvendo a literatura, a poesia incluída, se depreende dessa questão. No caso da aula sobre literatura, “mais do que transmitir informação, o que se faz é criar novas combinações e interlocuções, indicando a existência de diferentes maneiras de pensar, que são também diferentes formas de estar no mundo” (Natali, 2024, p. 3). Essas combinações entreabrem a possibilidade de surgimento de novas formas-de-vida suscitadas pela leitura da poesia que responderiam, cada uma a sua maneira, às perguntas postas pelo poema com respostas que são novas perguntas. Nesse processo, em que são testados os vínculos entre a leitura de uma obra e a vida social, “[n]ão se trata [...] de assegurar a coerência entre pensamento e vida, mas de pensar as formas de contaminação recíproca entre essas esferas, em relação que inclui dissonâncias e convergências” (Natali, 2024, p. 9), mantendo a abertura que impede que cada forma-de-vida se converta em nova imobilidade.
Convidamos pesquisadoras/es interessados na discussão de questões em torno de poesia, filosofia e formas-de-vida a enviarem suas propostas de comunicação, as quais, em caso de aprovação, serão apresentadas de forma presencial, nos termos do Congresso (em função do número de participantes do simpósio e da necessidade de reservar algum tempo para o debate, as apresentações terão a duração entre 15 e 20 minutos).

INSCREVA-SE

COORDENADORES:
IDA MARIA SANTOS FERREIRA ALVES (Universidade Federal Fluminense)
MÁRCIA MANIR MIGUEL FEITOSA (Universidade Federal do Maranhão)

RESUMO: Que relações podemos traçar entre Literatura e Geografia? Se, do ponto de vista de áreas de conhecimento, trata-se de dois domínios distintos, na perspectiva da criação literária, há trajetos comuns os quais podem servir de aproximação entre essas grafias do mundo. Não é tema inédito, mas, no Brasil, esse ângulo de apreciação não tem merecido uma atenção mais detida, pelo menos na área dos estudos literários comparados. Por isso, nos últimos anos temos procurado, em nosso campo de produção reflexiva, demonstrar a produtividade desse encontro interdisciplinar, pensando a relação entre espaço, território, lugar e natureza, a partir de perspectivas contemporâneas dos estudos globais de paisagem, ecocrítica e geopoética.
Defendemos a compreensão de que muitos textos literários (prosa e poesia) podem ser discutidos como uma geo-grafia, na medida em que se configura no espaço textual um pensamento inquieto sobre a experiência de espaços naturais ou citadinos e um pensamento estético sobre o habitar o mundo e a linguagem, formulando uma po-ética, como pensa Michel Deguy.
Nas últimas décadas, a consciência ecológica tem se desenvolvido de forma acentuada frente aos mais diversos problemas provocados por ações humanas em relação ao espaço circundante. As ações predatórias contra a natureza, a sua rarefação frente a expansão cada vez maior da malha urbana, tem fomentado uma discussão ampla sobre a proteção e a resistência das paisagens. Renomados geógrafos, antropólogos e sociólogos, desde os anos 70 do século passado, vêm publicando trabalhos fundamentais a respeito, renovando o modo de considerar e compreender as representações e percepções da natureza e a relação com a cultura. Em decorrência, o conceito de paisagem foi retomado por diferentes áreas, para além da geografia humana e cultural, sob os pontos de vista morfológico, funcional e simbólico. Essa diversidade vem permitindo uma abertura crítica bastante instigante entre geografia e literatura, considerando ainda filosofia, estética, história, ecologia e antropologia, o que permite trajetos convergentes de pensar como o homem constitui seus lugares de existência, de memória e de criação.
Tais abordagens propõem, naturalmente, modos próprios de debate, mas há um ponto comum na diversidade: observar a relação entre subjetividade e natureza, envolvendo percepção, concepção e ação, para demonstrar estruturas de sentidos e articulações éticas, sociais, culturais e estéticas. Questionar hoje a paisagem é debater a relação transitiva que o homem mantém com o mundo por meio da experiência do olhar e do domínio da linguagem.
Nos estudos literários, o espaço tem sido categoria tradicional de análise e muitas literaturas produziram obras emblemáticas em torno de espaços geográficos referenciais ou imaginados. Mas, sob a percepção da paisagem como processo relacional entre sujeito, palavra e mundo, como defende Michel Collot, só mais recentemente vem se constituindo de forma mais sistematizada uma produção analítica brasileira, assumindo novos contornos e possibilitando outras relações analíticas e interpretativas. O desenvolvimento da ecocrítica e da geopoética vem ampliando teoricamente esse quadro analítico. Afirma-se a importância desse caminho reflexivo, ainda mais se considerarmos que estamos vivendo em um tempo de urbanismo veloz que vai, inexoravelmente, engolindo a natureza. As obras literárias do presente, como contemporâneas que são, não evitam de questionar a questão urbana, a aceleração cotidiana, o espaço virtual dominante e, em decorrência, de refletir sobre as figurações ou desfigurações da natureza frente a experiências de sujeitos fortemente marcados por novas relações com o espaço e a visualidade.
Não é de agora que nos interessamos por essa temática. Há alguns anos, também num simpósio da Abralic (2008), as discussões então realizadas fomentaram a criação do Grupo de Pesquisa UFF /UFMA/ CNPq Estudos de Paisagem nas Literaturas de Língua Portuguesa, sob nossa coordenação, e a ampliação de uma rede de interesse sobre a questão paisagística em diferentes direções. Interessa-nos, por exemplo, o Grupo da Universidade Nova de Lisboa que vem elaborando um Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental, o Seminário Permanente, coordenado por Michel Collot, na Université Sorbonne Nouvelle – Paris III, intitulado Vers une géographie littéraire, no âmbito de Programme de Recherche “Écritures de la Modernité”, o Grupo Paisagem e Património – Seminário Interdisciplinar de Investigação – CHAIA – Centro de História da Arte e de Investigação Artística, na Universidade de Évora, entre outros que dialogam conosco.
Em 2023, ocorreu a publicação do número 61 da revista Gragoatá (PPG Estudos de Literatura da UFF) que deu relevo à ecocrítica e à geopoética, demonstrando a produtividade desses campos de investigação, sob o ponto de vista comparativo, com problematização contemporânea em torno da experiência da natureza nos textos literários, em tempos do antropocentrismo.
Portanto, com linhas temáticas derivadas da percepção e representações da natureza e do espaço geográfico na contemporaneidade, convidamos pesquisadores a participarem deste simpósio com trabalhos de cunho comparativo sobre abordagens teóricas e analíticas próprias à geografia literária, com foco em narrativa ou poesia, especialmente de língua portuguesa, mas não só, para ampliação reflexiva desse campo de estudo.

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COORDENADORES:
Jucelino de Sales (Universidade Estadual de Goiás)
Cacio José Ferreira (Universidade de Brasília)

RESUMO: A crise da literatura comparada (Wellek, 2011), reconfigurada com a virada epistemológica dos anos 1960/70, impactou significativamente os estudos literários contemporâneos reorganizando os paradigmas explicativos da realidade. A reordenação de modelos de compreensão, interpretação e análise literária passa diretamente pela renovação da teoria literária, com a absorção de conceitos, ideias, dispositivos de análise, como intertextualidade – efeito palimpsesto, memória de literatura – (Samoyault, 2008) e estratégias narrativas como parasitismo ou vampirização literária (Pauls, 2004), autoficção (Colonna, 2014), escrevivência (Evaristo, 2020), oralitura (Martins, 2003), etc.
Samoyault traça um amplo estudo recompilando diversos teóricos que trataram do mecanismo em suas pesquisas, abordando a circulação de uma vasta memória de literatura, isto é, dos procedimentos intertextuais na diegese, gerando o “efeito palimpsesto” (2008, p. 139), acumulador de intertextos, recorrente na literatura de segunda mão, ou melhor, de um “texto derivado de outro texto preexistente” (Genette, 2010, p. 18).
A transformação, anunciada por teóricos como Roland Barthes (1984), no ensaio seminal A morte do autor, Maurice Blanchot (2011), que em seus escritos elevou aos estertores a discussão sobre o desaparecimento da autoria, Michel Foucault (2016), que salientou na formação discursiva da instituição literária sua condição de repetição infinita, entre outros, e que robusteceu o seu vigor nas décadas posteriores, exerce hoje uma expansão efervescente não apenas no terreno puramente teórico, como também, e vertiginosamente, no bosque profundo da ficção.
Na guinada da teoria pós-colonial, nas últimas décadas os estudos literários contemporâneos atravessam loquaz revisionismo de posições refratárias ao cânone literário ocidental (Bloom, 1995), contradizendo as epistemologias eurocêntricas com refutações criativas contra o perigo de uma história única (Adichie, 2019, p. 10). Na vertigem de reconstrução do debate sobre o fenômeno literário, as literaturas e oralituras afrodescendentes, também as literaturas marginais e periféricas com suas escrevivências, em ampla medida subsidiadas pela força da tradição viva (Bâ, 2010), comportam um limiar produtivo de manifestações estéticas irradiadas com os desdobramentos de uma deriva de insatisfações, questionamentos e denúncias desencadeadas ao longo do século XX e consolidadas no limiar do século XXI.
Quando o olhar atravessa detidamente o caso do Brasil cuja literatura nacional no esteio do sistema de pensamento ocidental, canônico e tradicional, vigora sob o horizonte de um sistema literário periférico quando tomado o cânone ocidental e a visão eurocêntrica como precedente analítico, a hipótese de um trânsito literário e cultural articulando as relações literárias sob o cálculo de uma rede mundial de conexões intertextuais transitando de texto para texto, no seu espaço literário de convergência, se acresce de consignada pertinência na medida em que uma visão anticolonialista e anti-imperialista da visada teórica mais recente abre um leque de compreensões no que tange aos relacionamentos interculturais. Os apontamentos do teórico israelense Itamar Even-Zohar (2013) sobre polissistemas literários em circulação num mesmo território e/ou em confluência em territórios distintos, sustentam uma dimensão de pertinência basilar para o crivo da questão. É nesses termos que o Edouárd Glissant pensa em uma poética da relação, cujo drama é observar o mundo pelas lentes do pensamento rastro/resíduo frágil, intuitivo, ambíguo (2005, p. 30). Para Glissant, a literatura sempre defendeu uma concepção de mundo. O polissistema literário ordena esse pensamento através do caos-mundo, “sob o poema aparentemente mais claro, pulsa em surdina uma visão do mundo” (idem, p. 42), capaz de desentranhar a realidade difratada no discurso histórico.
Modelos como, o de Edouárd Glissant que aponta uma poética da relação como instrumento para interpretar a diversidade das culturas do mundo, o de Itamar Even-Zohar que descentra a relação secular centro-periferia por uma teoria dos polissistemas fundamentada na dinamicidade múltipla do repertório literário cujas forças vetorizam a transição entre o canonizado e o não-canonizado, o pensamento de Tiphanie Samoyault que enxerga a rede de relações literárias a partir de uma memória de literatura, ascendem como projetos bastante atuais que além de provocadores tomam como plenitude uma razão que não limita a teoria a um método único e exclusivista. Suas abordagens muito mais se baseiam numa dinâmica transdisciplinar do que se encerram na aposta de um método limitado.
Em confrontação aos epistemicídios, e em consonância com abertura do cânone, esse simpósio propõe reflexões com recepção de trabalhos sob o viés comparatista que encampem estratégias narrativas recorrentes na prosa e na poesia (romance, poema, performance oral), que versem sobre efeito palimpsesto, vampirização literária, autoficção, escrevivência, oralitura, etc., e principalmente partam: (i) das literaturas e oralituras afro-brasileira; (ii) das literaturas e oralituras marginais e periféricas; (iii) das literaturas e oralituras regionais (amazônica, do cerrado e quilombola).
Assim, são bem-vindas investigações no recorte descrito, muitas vezes deixado fora da página da dita literatura canônica, doravante representam um caudaloso, multifacetado e plurissignificativo manancial de textualidades, as quais manifestam poeticidades riquíssimas e generosas, e acumulam em suas partituras universos mentais carregados de força simbólica e de qualificada diegese literária.

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COORDENADORES:
Daisy da Silva César (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Isabel Cristina Jasinski (Universidade Federal do Paraná (UFPR))
Cinara Antunes Ferreira (ufrgs)

RESUMO: Falar sobre literatura de mulheres permite pensar sobre dinâmicas de relação e sentido na atualidade, que implicam a saída de si e o reconhecimento da diferença do outro, desde muito debatida no campo da filosofia e dos estudos de linguagem. Porém, agora como nunca antes, se faz necessário pensar sobre o estar-em-comum, sobre a indissociabilidade entre ética e política, sobre os afetos que movem as ações e sobre modos de uso da linguagem. Sob este prisma, a literatura de mulheres oferece abordagens privilegiadas para a reflexão. A escrita literária é uma prática que responde às demandas do presente pela sua capacidade de resistência à instrumentalização da linguagem, lembra Cristina Rivera Garza em Muertos Indóciles (2013, p. 43). A escritora considera a linguagem como um bem comum, uma forma de partilhar experiências, “invocar, conmover, alertar, participar, ofrendar, acompañar, abrazar a otros” (em “Nadie escribe en soledad”, 2023). Nessa linha, escrever é um ato político, defende Jacques Rancière, não por ser um instrumento de poder nem de saber, mas porque “seu gesto pertence à constituição estética da comunidade” (2017, p. 07). Tradicionalmente, o poder se fundamenta como um lugar de fala autoritária, que domina o discurso da realidade, dos fatos, da História, da memória e da sensibilidade. Contudo, as partes que constituem a partilha do sensível são capazes de constituir outros “lugares de fala”, antes obstruídos, e propor “políticas da sensibilidade” diferenciadas (RANCIÈRE, 2005), como é o caso da escrita literária elaborada por mulheres. Deste modo, propomos refletir sobre a literatura de mulheres na América Latina enquanto “poéticas do presente” para a construção de novas políticas do afeto e da sensibilidade, ao explorar a multiplicidade de modos de ser mulher. O simpósio pretende abarcar as muitas práticas de expressão das mulheres, que permitam considerar suas singularidades estéticas, existenciais e plurais.
Nas últimas décadas, a literatura de autoria de mulheres na América Latina consolidou-se como campo de investigação, ao tensionar gêneros literários e afirmar subjetividades plurais. Essas produções frequentemente exploram corpo, identidade, violência de gênero e história, e trazem uma perspectiva que alia escrita e experiência. María Lugones, em Colonialidade e Gênero (2014), expande a análise sobre as identidades de gênero, ao propor que as mulheres latino-americanas resistam às estruturas coloniais e "reexistam" por meio de práticas criativas que subvertam identidades fixas. A escrita de mulheres é compreendida, nesse sentido, como uma forma de deslocamento, na qual a experimentação se torna ferramenta de questionamento e redefinição de normas de gênero, território e linguagem.
Entre inúmeras escritoras contemporâneas, Gloria Anzaldúa, em Borderlands/La Frontera (2022), revisita o conceito de "nepantla", um estado de entre-lugar que traduz as identidades híbridas e fronteiriças. Ainda no contexto latino-americano, Rita Segato (2016) explora como a violência de gênero está vinculada às estruturas coloniais e patriarcais na obra La Guerra Contra las Mujeres, sugerindo que a experimentação narrativa pode reconfigurar relações entre corpo, poder e território. Na mesma linha, Cristina Rivera Garza (2013) discute a escrita como uma prática que desafia as fronteiras tradicionais e se alinha ao conceito de rizoma de Deleuze e Guattari (1995), no qual a literatura não tem um centro fixo, mas se expande em múltiplas direções.
Nessa perspectiva, o simpósio acolherá comunicações que problematizem as escritas de mulheres, em diferentes aspectos, contemplando: os feminismos na América Latina, com atenção ao feminismo decolonial, que desloca o foco para produções literárias de sujeitos historicamente subalternizados, sobretudo mulheres negras e indígenas; estudos sobre subjetividades dissidentes, com atenção às experiências trans; a literatura insólita de autoria de mulheres, como prática que desestabiliza percepções naturalizadas, expressa experiências silenciadas e subverte normas hegemônicas; e abordagens que tomem as fronteiras — geográficas, linguísticas, culturais e simbólicas — como espaços de tensão, trânsito e criação, vinculadas a experiências situadas e corporificadas. Incluem-se ainda análises da experimentação formal como gesto que tensiona normas da linguagem e da representatividade. Interessa-nos, sobretudo, trabalhos que examinem como essas escritas reconfiguram o sensível, instaurando outras formas de partilha, de resistência e de existência, em diálogo com perspectivas como as de María Lugones, Gloria Anzaldúa, Rita Segato e Cristina Rivera Garza. Ao reunir tais abordagens, o simpósio busca não apenas mapear um campo em expansão, mas contribuir para a construção de leituras críticas capazes de reconhecer, nessas poéticas, práticas de reexistência que articulam estética, ética e política no presente.

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COORDENADORES:
Cinthia da Silva Belonia (UFSM)
Paulo Ricardo Kralik Angelini (PUCRS)
Mauro Dunder (UFRN)

RESUMO: Uma das marcas da contemporaneidade, a convivência simultânea de diferentes regimes temporais assume conotações peculiares quando analisada a partir das diversas expressões literárias em língua portuguesa - sejam as manifestações em questão aquelas produzidas em Portugal, sejam as expressões literárias brasileiras ou as provenientes dos diferentes países africanos de língua portuguesa. Segundo Agamben (2010), a contemporaneidade “é uma singular relação com o próprio tempo”, uma ligação que envolve, simultaneamente, uma adesão e um distanciamento em relação ao presente, ou ainda, uma “relação com o tempo que a este adere através de uma dissociação e um anacronismo” (2010, p. 59).
Distanciar-se do presente, reconhecer os seus descompassos, para, de fato, integrar-se a ele, são estratégias particularmente relevantes para a ficção portuguesa contemporânea, sobretudo para as manifestações dessa literatura que, atentas à relação entre o passado colonial e a atualidade, parecem comprometidas com a construção de uma memória responsável para o futuro. A respeito da relação entre ficção e historiografia no processo de construção da memória, convém ainda recordar o fenômeno que Ribeiro (2007) aponta como uma espécie de “divórcio” entre a memória “colectiva”, constituída pela narrativa predominante no senso comum e pelo discurso historiográfico, e aquela que, por oposição, pode se chamar “privada” (p.15), na medida em que é constituída pelas percepções daqueles diretamente envolvidos nas vivências implicadas em momentos históricos que, na construção da historiografia, ganham relevo e passam a fazer parte da “verdade dos fatos”. Nesse movimento, é preciso então que o discurso literário (da prosa de ficção ou da poesia) sirva como espécie de complexificador crítico da forma como o discurso historiográfico mobiliza os elementos que escolhe para a construção desse registro memorialístico. Por outras palavras, um dos papeis assumidos pelo texto ficcional como instrumento daquele processo de reconhecimento dos “descompassos” do presente pode ser o de registrar matizes dos eventos históricos que o discurso da historiografia não pode (ou não quer) apreender, fazendo o que Lídia Jorge descreveu como lavar “com lágrimas ardentes os olhos da História”. Aparentemente paradoxal, a projeção e a formulação, na circunstancialidade do presente, de uma memória para a posteridade, talvez sejam o “ato de coragem” referido por Agamben, uma possível exemplificação do que o teórico define como a necessidade de “ser pontual num compromisso ao qual se pode apenas faltar” (p. 65).
Reconhecer a presença do passado no presente, identificar as irresoluções pretéritas que desafiam a experiência do hoje são posicionamentos que parecem dinamizar também a literatura brasileira contemporânea, especialmente, se considerarmos a atenção e a incisividade que as manifestações em questão dispensam às problemáticas da misoginia, do racismo, das desigualdades socioeconômicas. Onipresentes e irresolvidas, ao serem tratadas literariamente, as violências citadas oportunizam reflexões de natureza interseccional que permitem não apenas o estabelecimento de análises inter-relacionais das categorias de “raça, classe, gênero, orientação sexual, nacionalidade, capacidade, etnia e faixa etária” (Collins; Bilge, 2020, p. 17), mas que também possibilitam a articulação entre essas categorias e as especificidades da experiência histórica brasileira – que inclui a exploração (neo)colonial, as cicatrizes ditatoriais, as reincidentes ameaças à soberania e à democracia.
Especialmente dolorosa para os países africanos de língua portuguesa, a ferida colonial parece ter legado às literaturas dos diferentes países possibilidades temáticas pungentes. Frequentemente abordada a partir do registro lírico, a tensão passado-presente, que movimenta as literaturas em questão, longe de disfarçar a violência colonial e o seu legado, parece mimetizar a complexidade dos desdobramentos da colonialidade, como o fato de a ex-metrópole não se responsabilizar pela subjugação e de, entre os ex-colonizados, haver aqueles nostálgicos do domínio – já que a colonização foi a responsável, por exemplo, pelo desenvolvimento da infraestrutura urbana das cidades coloniais. Além da colonialidade presente no cotidiano dos países africanos de língua portuguesa, essas literaturas apontam também para outro problema não resolvido no pós-independência, como a redefinição da identidade em países que, agora, vão se reconstruir como nação.
Diante do exposto, neste Simpósio serão bem-vindas propostas que reflitam sobre (possíveis) reverberações da intempestividade contemporânea sobre o arranjo narrativo das manifestações literárias em língua portuguesa – ou em diálogo com as literaturas expressas no idioma. Os cruzamentos temporais, seja na relação passado-presente, seja na prospecção de futuros imaginados, ganham particular relevância em casos que levem em consideração os modos como a colonialidade do poder (Quijano, 2005) pode ser expressa nas manifestações literárias, a que aqui damos o nome de “poéticas”, no sentido amplo que o termo adquire quando se refere a como se constroem diferentes manifestações literárias, sejam coexistentes em tempos e espaços ou não. Nesse sentido, são também convergentes análises voltadas para as relações entre o cânone e as literaturas (hiper)contemporâneas (Taylor-Collins, 2021), uma vez que o diálogo com a(s) tradição(ções) pode(m) oportunizar a contemporização de elementos que, como afirma Agamben, permitam “[p]erceber no escuro do presente essa luz que procura nos alcançar e não pode fazê-lo” (p. 65).

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COORDENADORES:
MARIO TOMMASO PUGLIESE FILHO (FFLCH / USP)
Luiz Alberto de Souza (Universidade Federal de Santa Catarina)

RESUMO: A história da crítica literária brasileira constitui um processo de longa duração iniciado com as formulações românticas de Gonçalves de Magalhães e Ferdinand Denis, voltadas à constituição de uma literatura nacional, e se desdobra por diferentes matrizes teóricas, institucionais e discursivas desde o século XIX. Tomando como referências núcleos institucionais e configurações históricas (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Escola do Recife, Academia Brasileira de Letras, imprensa, crítica universitária, entre outras), o simpósio pretende reunir trabalhos que investiguem a crítica literária como prática social, histórica e institucionalmente situada.

Busca-se discutir como diferentes correntes críticas e instituições disputaram, ao longo do tempo, a definição da literatura brasileira e seus regimes de leitura. Esse percurso atravessa momentos e autores-chave: a crítica “científica” de Sílvio Romero; o naturalismo de José Veríssimo e o psicologismo de Araripe Jr., bem como as ponderações de Machado de Assis; a contribuição dos simbolistas como Nestor Vítor e Gonzaga Duque; as inflexões modernistas em Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda; o ensaísmo periodista dos “rodapés” das décadas de 1930 e 1940; a centralidade da literatura em um projeto de modernização nacional em Antonio Candido; a institucionalização de uma ciência da literatura sob influência do new criticism, com Afrânio Coutinho; as disputas entre estruturalistas e marxistas; as contribuições teóricas dos concretistas (Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari) e de Luiz Costa Lima; os estudos da materialidade na obra de pesquisadores da Fundação Casa de Rui Barbosa; os estudos comparativistas; os estudos das práticas poéticas e retóricas em João Adolfo Hansen; até desenvolvimentos mais recentes, com a diversificação impulsionada pelos Estudos Culturais e por novos meios e suportes. Evidentemente, esta lista não é exaustiva e permanece aberta a complementações e a diferentes possibilidades de rearticulação.
A história da crítica, assim, abrange um conjunto de discursos sobre objetos e práticas de escrita, publicação e leitura, performados como atividade especializada de autorregulação e de regulação sobre a leitura literária, incorporados de modo mais ou menos explícito a dados de seus contextos enunciativos, em que diferentes grupos instituídos produzem diferentes vocabulários, conceitos, repertórios de eleição, projetam no horizonte diferentes “tarefas” e fundamentam-se em diferentes concepções – que coincidem com as diferentes tomadas de posição – de literatura, crítica, história, nacionalidade etc. Nesse quadro, seu objeto último é a própria leitura – sua materialidade (seus suportes em circulação e suas práticas socialmente compartilhadas); os significados dos textos (o modo como se concebe que os textos literários se referem a conhecimentos pressupostos e os realizam em seu espaço próprio de ação); seus sentidos (o que os textos literários veiculam como ideias ou noções) e seus valores (que peso, que uso ou dimensão são atribuídos às obras declaradas relevantes).

Propõe-se pensar a crítica literária não como sequência linear de ideias, mas como conjunto de práticas discursivas historicamente situadas, produzidas sob condições materiais, institucionais, políticas e sociais concretas. Apoiado em perspectivas como a história dos conceitos (Reinhart Koselleck; J. G. A. Pocock), a sociologia dos intelectuais (Pierre Bourdieu; Sergio Miceli; Mary Douglas), a história intelectual (José Murilo de Carvalho; Roberto Ventura; Nicolau Sevcenko), a história cultural e da leitura (Roger Chartier; Robert Darnton; Hans-Robert Jauss; Michel de Certeau; Raymond Williams) e os estudos pós-coloniais e decoloniais (Edward Said; Aníbal Quijano; Gayatri Chakravorty Spivak), entre outras afins, o simpósio concebe o campo crítico como “poliglota”: constituído por múltiplos discursos que se articulam, confrontam e redefinem-se mutuamente em disputas por legitimidade, autoridade e espaço institucional.

O simpósio articula a história da crítica aos estudos comparativistas, com base na formulação de Sandra Nitrini, para quem “o fenômeno da recepção encontra-se no âmago dos estudos de literatura comparada” (1997, p. 168). Nesse quadro, a crítica é compreendida como instância específica de mediação, articulada às dinâmicas de emissão, transmissão e recepção, responsável por regular, reconfigurar e historicizar os modos de leitura e circulação das obras literárias.

Serão bem-vindas propostas que contemplem, entre outros, os seguintes focos:

• estudos sobre recepção comparada de autores, obras ou tradições literárias;
• análises da produção crítica de autores ou grupos específicos;
• estudos sobre marcos teóricos específicos e polêmicas, como eventos que problematizam e redefinem tomadas de posição;
• estudos sobre a construção e institucionalização de diferentes histórias literárias, seus pressupostos e efeitos no campo intelectual;
• reflexões teóricas, historiográficas, sociológicas ou estéticas sobre práticas críticas;
• investigações sobre práticas de produção, circulação e leitura literária, em suas dimensões materiais e simbólicas;
• estudos sobre formações ou grupos culturais, instituições, periódicos, agremiações e outros espaços de legitimação crítica;
• abordagens interdisciplinares relacionadas à crítica literária, incluindo perspectivas pós-coloniais e decoloniais.

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COORDENADORES:
Phelipe de Lima Cerdeira (Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ)
Cristian Javier Lopez (Universidade de Pernambuco)
Gilmei Francisco Fleck (Universidade Estadual do Oeste do Paraná)

RESUMO: O presente simpósio tem por objetivo reunir pesquisas que se interessem pela discussão entre os diferentes caminhos tomados a partir das interseções dos discursos ficcional e histórico, tendo como disparador inicial a consolidação do romance histórico no início do século XIX por sir Walter Scott, segundo a crítica desenvolvida por Georg Lukács em seu ensaio seminal O romance histórico (1937). Não há dúvidas de que ficção e história apontam um marco comum, submetido aos anseios do homem para descrever os eventos da natureza ou, tal como postulado por Linda Hutcheon, estabelecer as chamadas “construções de realidade” (Hutcheon, 1991, p. 89). Das relações simbióticas em tempos clássicos – que lhe apregoava ao poeta as atividades verbais baseadas na imitação, enquanto ao historiador a tarefa de “testemunho ocular” – a tempos da transmodernidade em que ficção e história voltam a ser entendidos não como polos refratários, mas como discursos atravessados pela interpretação de quem narra determinada história (Menton, 1993; White, 1998), não é de se espantar que a ficção histórica venha (re)escrevendo os interesses da recepção e da crítica. A necessidade de apregoar uma possível diferenciação entre história e ficção (ou, especificamente, a literatura) acaba por estar atrelada a uma necessidade de se pensar o próprio passado. Tal ideal de passado, aliás, parece ser subsidiado por um interesse que é fruto das esferas social e cultural. Se, como sublinhado pela crítica espanhola Celia Fernández Prieto (1998), cada época acaba reescrevendo o passado a partir de uma eleição, uma escolha por narrativizar preferências e privilegiar certos interesses, coube – e segue cabendo – também ao literário promover eventuais fissuras diante de discursos hegemônicos, recalibrando olhares monológicos e abrindo, via ficção, espaço(s) para abordar as histórias não apenas dos vencedores, mas também as dos vencidos. Ademais, a proposição de friccionar os múltiplos espaços de enunciação latino-americanos, a partir dos horizontes de recepção e de crítica estabelecidos em universidades e grupos de pesquisa, amplia a busca pela fissura de determinado campo de poder (Bourdieu, 1990, 2002), permitindo-nos ressignificar o passado e, ao mesmo tempo, decolonizar os saberes (Sousa Santos, 2010). Ainda no que diz respeito ao espaço latino-americano, compreende-se que produções ficcionais atravessadas pelos discursos históricos acabam se transformando também em uma chave para a proposta de giro decolonial (Quijano, 2014), uma oportunidade de que, via literatura, sejam (des)estabilizadas as perspectivas dos ditos vencedores, (re)ssignificando os passados e criando novas poéticas para constructos como o “descobrimento” (Fleck, 2008, 2019, 2022). Tal processo reverbera conjuntos de epistemologias outras (Mignolo, 2003), capazes de escapar de hipertrofias e ideias de literaturas nacionais sistematizantes, que pouco parecem dialogar com as expectativas e exigências trabalhadas via Literatura Comparada, há muito, libertas do estigma do texto devedor (Coutinho, 2004). Portanto, este simpósio, cujo eixo parte da premissa de estabelecer os diferentes encontros e desencontros levados a cabo pela ficção ao friccionar literatura e história, receberá propostas de trabalhos inseridos nas seguintes temáticas: a) reflexões diretamente atreladas às transformações ocorridas pelo romance histórico desde a sua consolidação no início do século XIX (Lukács, 1966) até as suas novas possibilidades nas literaturas contemporâneas, com destaque para críticas voltadas aos caminhos outros escolhidos pela ficção histórica (Weinhardt, 2006, 2010; Esteves, 2017; Cerdeira, 2015, 2019) e a sistematização do romance histórico a partir do estudo de sua trajetória diacrônica, com destaque para os seus 2 grupos, 3 fases e 5 modalidades (Fleck, 2017); b) leituras de poéticas que discutam os múltiplos encontros e desencontros dos discursos ficcional e histórico; c) estudos tradutórios de obras publicadas a partir do século XIX que tenham suas diegeses arquitetadas a partir da interseção entre os discursos histórico e ficcional; d) estudos e pesquisas que expandam as lacunas e silenciamentos sistematicamente perpetrados pelas historiografias literárias, valorizando produções de romance histórico não contemplados pelos cânones literários; e) estudos sobre produções de história e ficção voltados à literatura infantil e juvenil; f) estudos sobre produções de história e ficção que podem se inserir em produções lidas como dramas históricos; g) processos memorialísticos e de arquivamento em ficções que podem ser lidas como romances históricos; h) ficcionalizações e ressignificações de escritores e escritoras, discutindo o papel metaliterário para as produções de ficção histórica nas últimas décadas; i) interpretação e divulgação de autores contemporâneos que desenvolvam poéticas inseridas no contexto da ficção histórica: temas e metodologias de pesquisa comparatista; j) “Poética do 'descobrimento'” como fissura do campo de poder e (re)elaboração do passado histórico a partir da ficção; l) o papel do campo editorial e da crítica literária para a recepção de obras que tenham em sua gênese o desafio de ressignificar, via ficção, o passado histórico.

INSCREVA-SE

COORDENADORES:
Carlos Gontijo Rosa (Universidade Federal do Acre)
Esther Marinho Santana (Universidade de São Paulo - USP)
Maria Clara Gonçalves (Universidade Federal do Espírito Santo/DLL)

RESUMO: Proposto pelo grupo de pesquisas Estudos do Teatro Ex-Cêntrico - ETEx (CNPq/ UFAC), o simpósio “Revisão da historiografia teatral: Ler e reler fontes primárias, visões críticas e juízos estéticos” vem, desde 2020, consolidando-se nos encontros da ABRALIC como um frutífero espaço de debates em torno do universo cênico. As reflexões se dedicam tanto ao exame de peças, autores, gêneros, repertórios ou círculos teatrais de pouca visibilidade na historiografia teatral quanto ao questionamento de discursos hegemônicos no campo. Os textos dramáticos constituem um componente de inegável relevância para o teatro, na medida em que apresentam expressões estéticas que, tal qual na literatura, utilizam-se da matéria verbal para concepções da experiência humana, justificando-se assim o seu comum estatuto estrutural e estruturante nos estudos da área. Os pesquisadores devem compreender que “a peça teatral, considerada literatura, é um dos elementos mais importantes do teatro; todavia, não o constitui, não lhe é condição indispensável” (ROSENFELD, 2008, p. 35). Isto é, em sua natureza multifacetada, o teatro afirma-se como um objeto de análise dos mais complexos, que convida à consideração de outros fatores para além do material textual. Tal desafio é possivelmente um dos principais motivos pelos quais as obras teatrais tendem a receber menos atenção na crítica literária consagrada. Ademais, as leituras estabelecidas refletiram e parecem seguir ecoando critérios de interpretação e apreciação pautados em dinâmicas de poder e preferências coetâneas aos momentos de concepção da crítica. Em geral, “ao observarmos as premissas estéticas e culturais que impulsionaram as criações artísticas, constatamos que as reflexões construídas sobre as mesmas foram elaboradas a partir de ideias que, ao serem, sistematicamente, defendidas, tornaram-se referências para as práticas teatrais transformadas em marcos ordenadores da temporalidade que conhecemos como História do Teatro Brasileiro” (GUINSBURG; PATRIOTA, 2012, p. 23). Se o olhar avaliativo está ligado às ideias estéticas valorizadas quando de sua realização, então “o valor é uma atribuição historicamente construída. Frases como ‘esta obra tem densidade’ não são objetivas, e evocam primariamente os interesses dos sujeitos que as enunciam” (GUINZBURG, 2008, p. 103). Para que sejam construídas análises que ampliem e nuancem o entendimento sobre o teatro, é necessário reavaliar as concepções estéticas que orientam as apreciações estilísticas das dramaturgias; a importância de determinados autores para a compreensão da cena teatral na qual estavam inseridos; a perspectiva valorativa da crítica, pautada na hierarquização dos gêneros; e os círculos teatrais de menos prestígio – que, por sua vez, permitem adensar as informações sobre o fazer teatral e as relações entre o repertório de companhias/teatros e o gosto de uma época. Torna-se imperativo, portanto, questionar a cristalização de determinados juízos nos estudos críticos e historiográficos, responsáveis pelo obscurecimento de produções e pela sugestão de uma evolução cênica baseada em parâmetros que, em nossos dias, devem ser revisitados. Há que se repensar também a questão do “valor” artístico através do qual peças, autores, gêneros, repertórios e/ou círculos teatrais obtiveram maior consagração em detrimento de outras criações, deixadas à margem. Os padrões norteadores de aclamações e exclusões convidam à reavaliação a partir de urgências e epistemologias diversas da contemporaneidade. Ou seja, novos interesses mobilizarão novas avaliações, que fomentarão novas informações sobre a cena teatral como um todo. Contudo, não se trata de desconsiderar a relevância de produções, autores ou movimentos teatrais já prestigiados pelos estudiosos. Trata-se, antes, de empreender um exercício reflexivo que permita problematizar lugares-comuns da crítica, realizados em outros tempos e em outras circunstâncias, em um movimento de exploração de manifestações teatrais múltiplas. Por fim, a investigação de fontes primárias e de materiais que ultrapassam a dramaturgia – como anúncios de espetáculos; programas e publicidades de peças; registros audiovisuais; cadernos de atores, empresários e diretores; desenhos de cenografia e demais documentos utilizados em processos de criação – ilumina aspectos da cena para além da dimensão estritamente literária, abrindo caminhos para o pensamento na literatura comparada e em horizontes intra e transdisciplinares mais amplos. Em consonância com iniciativas para a pluralização de diálogos e saberes, este simpósio busca reunir e criar uma rede ativa entre os pesquisadores dos palcos. Trabalhos que explorem textos desprezados pelos cânones ou que inaugurem novos olhares sobre os já desgastados lugares-comuns da crítica e da historiografia teatrais contribuirão sobremaneira às discussões, assim como conexões com campos variados do conhecimento.

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COORDENADORES:
MARCOS VINICIUS SCHEFFEL (UFRJ)
Caroline Valada Becker (Universidade Federal do Rio Grande do Sul)
Victor Figueiredo Souza Vasconcellos (Colégio Pedro II)

RESUMO: A formação de leitores de literatura na escola, como entendemos nos dias de hoje, tem uma história relativamente recente. A constatação generalizante de que as crianças e os jovens “leem menos” que as gerações anteriores por conta de novas tecnologias (o cinema, a televisão, as redes sociais) criou uma nova demanda para os professores de língua materna ao redor do mundo: incentivar / fomentar a leitura de obras literárias na escola. Em termos didáticos, o ofício docente é determinado por um objeto de estudos e, ao mesmo tempo, por uma caixa de ferramentas (artefatos) que acompanha o fazer do/a professor/a, tais como a própria sala de aula, o quadro para escrever, a tela para projetar, as palavras a serem ditas, escritas e lidas, os materiais criados/elaborados pelo/a docente (LARROSA, RECHIA, 2019). Sem dúvida, “sou professor/a” é uma oração cujo verbo é conjugado em primeira pessoa, mas abarca a coletividade, principalmente o encontro com os/as estudantes. É nesse espaço coletivo e com contornos socialmente negociados que se faz a sala de aula enquanto um tempo destinado ao ler, ao falar, ao ouvir e ao conversar. Essas ações, quando em prática, são apresentadas enquanto estratégias pedagógicas ou, como explica Jorge Larrosa, são artefatos idealizados e engendrados pelos/as docentes: “para compreender um professor é preciso perguntar-se quais artefatos usa e quais não usa, porque o faz e o que mobiliza desses artefatos” (LARROSA, RECHIA, 2019, p. 61). Um/a docente de Literatura e Língua Portuguesa acrescenta mais um item à lista de artefatos: livros. A (inevitável e adequada) escolarização da leitura literária implica seleção de obras e de autores/as e elaboração de situações de leitura que incorporem os/as estudantes “à cultura do escrito” e os/as tornem “membros plenos de uma comunidade de leitores e escritores” (LERNER, 2006). Nesse processo, torna-se fundamental reconhecer, à luz das contribuições de Julia Kristeva, que todo texto é um espaço de múltiplas vozes e diálogos, constituído por relações com outros textos anteriores e contemporâneos. Assim, formar leitores implica também desenvolver a capacidade de perceber essas redes de sentidos — isto é, compreender a literatura como um campo intertextual, em que ler é sempre relacionar, reconhecer ecos e produzir novas interpretações. Em outras palavras: o que e como ler? Enquanto docentes, podemos (e devemos) eleger como critério de seleção a palavra diversidade, que nos leva à pluralidade de gêneros, de autores/as, de editoras e de linguagem. Tal escolha será potente, também, para a elaboração dos dispositivos pedagógicos (MUNITA, 2025), isto é, tudo aquilo que será realizado, em sala de aula, a partir da e na experiência de leitura (LARROSA, RECHIA, 2018). O próprio texto literário indica quais caminhos percorrer no jogo interpretativo, e a função professor/a-mediador/a convoca a criatividade (MEDEIROS, RIBEIRO, 2024) para que dispositivos didáticos sejam elaborados — inclusive aqueles que favoreçam a leitura relacional entre textos. Historicamente, a leitura literária foi associada ao imaginário do silêncio, do isolamento e da trajetória solitária de leitura. Uma vez em sala de aula, especialmente na educação básica, ganham fôlego a coletividade e o ruído — ou seja, muitos sujeitos, muitos dizeres. Dessa forma, a leitura literária implica, também, sociabilidade. Ao ler, ouço minha voz, mas convivo com outras vozes, como a do autor empírico e a dos seres de papel (as personagens); à medida que realizo a leitura ou ao finalizá-la, posso conversar e, assim, “[...] ler faz com que as crianças, os adolescentes, as pessoas idosas falem por si mesmos, ou uns com os outros” (PETIT, 2009, p. 103). Nesse horizonte, também se insere a reflexão de Roland Barthes, para quem o texto não é um objeto fechado, mas um tecido de citações provenientes de múltiplas culturas. Como afirma o autor, “o texto é um tecido de citações, oriundas dos mil focos da cultura” (BARTHES, 1973, p.62). Tal perspectiva desloca o foco da autoridade do autor para a atividade do leitor, reforçando a ideia de que o sentido se constrói na leitura, em um processo ativo, plural e aberto — aspecto central para a formação de leitores críticos na escola. Este simpósio pretende reunir reflexões sobre o ofício docente, elegendo como mote estes questionamentos: enquanto docente de Literatura e Língua Portuguesa, quais textos e quais autores/as seleciono para compor minhas aulas? A partir da leitura escolhida, quais experiências são propostas aos/às estudantes e quais estratégias (dispositivos) são (re)criados? De que modo essas escolhas contribuem para desenharmos uma educação literária comprometida com a democratização do acesso ao livro e com o respeito à diversidade? Todas essas ações (escolher, propor, criar, comprometer-se) evidenciam o protagonismo docente, cujas filiações teóricas — incluindo a perspectiva intertextual e a centralidade do leitor — são traduzidas para o fazer pedagógico de modo criativo e subjetivo; é da proposição pedagógica — do ofício docente — que caminhos possíveis para a educação literária, na educação básica, poderão ser desenhados.

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COORDENADORES:
Pedro Fernandes de Oliveira Neto (UFRN)
Jonas Jefferson de Souza Leite (Universidade Federal de Pernambuco)
Maria Aparecida da Costa (Universidade do Estado do Rio Grande do Norte)

RESUMO: Desde a progressiva renovação da prosa romanesca em Portugal, seja na tentativa de dinamização dos protocolos criativos oitocentistas ou mesmo na sua negação e afastamento, desenvolveu-se uma variabilidade de formas, expressões, estéticas, temas e obsessões. Entre as águas da ficção de viés ou teor mais social advindas do que foram as produções do chamado Neorrealismo (e mais distante, do Realismo) e as da ficção mais preocupadas com o trato estético, eivadas dos resquícios das vanguardas, o romance nesse cenário contemporâneo, por assim dizer, se assume em feições plurais e ingressado no que poderíamos designar como uma literatura de corte universal ou cosmopolita, para citar um termo de Barrento (2016). Isto é, em parte, o romance se distancia dos localismos e se interessa pelas transformações e variações comuns a toda comunidade humana e isso tem sido observado ora como uma força marcadamente típica do post-modernismo (cf. Arnaut, 2002), ora como fluxo comum dado a uma época de dinamizações e integrações, afinal toda literatura é sempre um “modelo orgânico, vivo” (cf. Real, 2012). Nesse caso específico, as circunstâncias históricas que parecem influenciar os escritores advêm, dentre outras, do reconhecimento de Portugal numa dinâmica político-geográfica da Europa e das contínuas trocas culturais favorecidas em momentos pouco depois do fim das obstruções impostas ao largo de mais de quatro décadas pela ditadura do Estado Novo e a possibilidade de integração do país para as correntezas das globalizações, que, positiva ou negativamente têm assumido o protagonismo de novos valores contrários aos estilemas da opressão. Independente de qual perspectiva teórica nasça uma compreensão sobre as modificações no âmbito do romanesco, o fato é que se cobra dos investigadores maneiras de pensarmos sobre e com intuito de construir detalhadamente suas implicâncias seja para com o cânone, a forma, seja para com as questões sociais, culturais e políticas, estéticas porque, no fim de tudo, o que todas as mudanças favorecem, numa dialética, são também novas formas de ser e estar no mundo (cf. Seixo, 1984). O produto das transformações por que passa o romance, sabemos, se faz de motivações de ordem diversa e a principal delas responde pela presença de como os sujeitos se relacionam com as novas posições assumidas nos contextos pelos quais transitam; ao mesmo tempo, a literatura tece uma participação na variabilidade das forças reinauguradas no mundo fora do tecido textual. O que marca este período, então, no romance português, é o desenvolvimento de novas práticas e experiências com a narrativa e a ficção, a proliferação das inquietações tornadas em matérias temáticas dos novos escritores — ora afastando-se do conteúdo histórico-social e de uma reflexão sobre os modos de ser e estar português para se aproximar de preocupações a um só tempo interior e exterior ao indivíduo do seu país (nativo ou ingresso) ora reinventando os mananciais de criação, tais como a guerra colonial, os transes da imigração, outros episódios da história dos povos (as conflitos, os regimes despóticos, as violências explícitas ou encobertas), as crises do sujeito, a diversidade das relações humanas desencadeadas no extenso e complexo jogo social etc. No caso da ficção romanesca, do ponto vista estético-formal, cite-se a diversidade da composição, acentuada na valorização da escrita e suas implicações na tessitura textual (das quais as intersemioses, o ready-made, a autoficção e os procedimentos metaficcionais são apenas alguns exemplos), nas relações entre os modos escriturais e orais, no uso de novos recursos estilísticos, de criação, recriação e interpenetração das formas discursivas, na diversidade de registro e conformação da narrativa seja decorrentes das constantes infiltrações dos tons subjetivos (cf. Cerdeira, 2020), marcados pelo recurso de intromissão lírica, seja o desenvolvimento da reflexão sobre o cotidiano, a rotina íntima, no sentido de interior, dos sujeitos agora olhada como mundividências de interesse ao literato. Ainda, o que seduz a escrita é um tipo de interesse por formas ficcionais diversas — tais como uso recorrente das chamadas narrativas marginais (em desordem, cf. Barrento, 2016), os gêneros de primeira pessoa, os relatos, os diários, as crônicas etc. Os rumos, portanto, são muitos e vastos; “o romance português sofreu, no seu todo, uma profunda rutura” (Real, 2012, p. 22). No interesse de apontar, descrever, discutir, relacionar, construir diálogos com a pluralidade de eventos situados no âmbito da ficção romanesca, sua dinâmica geral, ora reafirmando essa tendência à dispersividade, ora estabelecendo uma busca por uma unidade dialética que possa compreender sujeitos e mundos na sua pluralidade, é que se constitui este simpósio — também em continuidade às discussões levantadas noutras ocasiões de encontros da ABRALIC. Vinculadas às discussões desenvolvidas no âmbito do Grupo Estudos Sobre o Romance, nosso intuito é, a partir da leitura de crítico interpretativa de corte comparatista de/ entre romances publicados em Portugal a partir dos anos pós-Revolução dos Cravos, abrir algumas coordenadas úteis crítica, teórica e metodologicamente para pensar as feições do romanesco em curso.

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COORDENADORES:
Ebal Sant’Anna Bolacio Filho (UFF)
Tito Lívio Cruz Romão (Universidade Federal do Ceará)

RESUMO: O avanço recente das tecnologias de Inteligência Artificial (IA) tem impactado significativamente o campo da tradução, inclusive o da tradução literária (TL). Vista como uma prática interpretativa enraizada em competências linguístico-culturais, estilísticas e estéticas, a TL enfrenta, hoje, novos desafios e possibilidades decorrentes da automação e da mediação algorítmica. Este simpósio temático propõe reunir tradutores, pesquisadores, críticos literários, editores etc., para discutir as implicações da IA na tradução de literatura germanófona para o português e lusófona para o alemão, enfatizando questões estéticas, éticas, epistemológicas, tecnológicas e legais.
Nossa reflexão dialoga com marcos teóricos fundamentais dos estudos da tradução. A célebre formulação de Walter Benjamin (2012), segundo a qual a tradução não visa simplesmente à comunicação, mas à revelação de uma “língua pura” subjacente às línguas históricas, oferece um ponto de partida produtivo para questionar até onde sistemas de IA conseguem operar nesse nível de complexidade estético-filosófica. Antoine Berman (2007) também destaca a importância da alteridade e da “estrangeirização” como princípios éticos da TL, que tendem a ser neutralizados por modelos automatizados orientados à fluência e à padronização.
A escolha do eixo germano-lusófono justifica-se pela tradição de intercâmbio literário entre essas línguas-culturas e pelas assimetrias histórico-culturais que marcam seus fluxos de tradução. Autores como Goethe, Kafka, Thomas Mann, Max Frisch ou Ingeborg Bachmann, e escritores germanófonos contemporâneos têm sido traduzidos para o português em contextos diversos; similarmente, a recepção de autores lusófonos no espaço germanófono apresenta especificidades dignas de análise.
O simpósio estrutura-se em três eixos principais. O primeiro aborda as implicações estéticas da TL assistida por IA. Em que medida sistemas automatizados conseguem lidar com estilo, ritmo, ambiguidade semântica e intertextualidade? De que forma ferramentas de IA reconhecem e reproduzem rima, métrica e cadência, respeitando recursos próprios de uma escola literária? Que influência a IA tem sobre escolhas lexicais, idiomáticas, estilísticas e gramaticais em textos de prosa marcadamente autorais? Como a “voz” do tradutor é afetada quando algoritmos passam a intermediar/produzir versões preliminares de textos literários? A crítica de Lawrence Venuti (2008) à “invisibilidade do tradutor” mostra-se particularmente relevante: a automatização pode intensificar a domesticação textual e obscurecer ainda mais a mediação tradutória, como ressaltam Costa e Silva (2026). Nesse cenário, a introdução de ferramentas de IA — como discutido por Kenny e Winters (2020) — levanta questões sobre a transformação das práticas tradutórias e dos próprios critérios de avaliação da TL. Esse eixo convida a reflexões sobre a possibilidade/impossibilidade de uma TL plenamente automatizada e sobre o papel da criatividade humana dialogando com a máquina.
O segundo eixo enfoca as dimensões éticas e políticas da utilização de IA na TL. Autoria, propriedade intelectual e reconhecimento do trabalho tradutório são particularmente relevantes num contexto em que textos podem ser gerados/adaptados por sistemas automatizados. A dependência de grandes corpora de dados, frequentemente desbalanceados em termos linguístico-culturais, pode reproduzir ou intensificar assimetrias já existentes no campo da TL alemão-português. Os modelos de contratos atualmente propostos pelas editoras para TL também são pontos de discussão. As reflexões de Michael Cronin (2013) sobre a tradução na era digital já destacavam como as tecnologias podem tanto ampliar quanto restringir a diversidade linguística.
O terceiro eixo propõe uma reflexão de natureza epistemológica: de que maneira a IA redefine/recria o próprio conceito de tradução? A emergência de modelos capazes de produzir textos “verossímeis” desafia concepções tradicionais baseadas em equivalência, fidelidade ou interpretação. Nesse contexto, a tradução pode ser pensada menos como transferência de sentido e mais como produção de efeitos discursivos, aproximando-se de perspectivas como a de Anthony Pym (2013), que propõe abordagens mais pragmáticas e interculturais do fenômeno tradutório. Como sugere Minako O’Hagan (2020), é necessário reconsiderar os próprios limites dos estudos da tradução diante das transformações tecnológicas atuais.
Metodologicamente, o simpósio incentiva abordagens interdisciplinares que articulem teoria da tradução, estudos literários, linguística, filosofia da tecnologia e humanidades digitais. Serão particularmente bem-vindas comunicações que incluam análises comparativas de traduções humanas e automatizadas, estudos de caso envolvendo obras específicas, reflexões sobre práticas editoriais e relatos de experiências pedagógicas com o uso de IA na tradução.
Mediante o diálogo entre diferentes perspectivas, pretende-se contribuir para uma compreensão mais ampla e crítica das transformações em curso na TL, no estilo do discutido por Walter (2025). Longe de adotar uma postura tecnofóbica ou tecnofílica, busca-se problematizar as condições sob as quais a IA pode ser integrada de maneira ética e produtiva às práticas tradutórias e à formação de tradutores, preservando a complexidade estética e cultural característica da literatura.

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COORDENADORES:
Marlova Gonsales Aseff (UnB)
Vitor Alevato do Amaral (Universidade Federal Fluminense)

RESUMO: Nos anos 1960, o poeta-tradutor Haroldo de Campos justificou sua proposta de recriação para a tradução de poesia como uma resposta à ideia predominante na época de que a poesia seria intraduzível. Ora, se era intraduzível, disse ele, ainda assim poderia ser recriada. O conceito de intraduzível advinha de uma concepção do campo da Linguística (e, devemos logo admitir, bastante estreita) do que deveria ser uma tradução de poesia. Nesse contexto em que a tradução poética ainda se pautava quase exclusivamente numa noção platônica de ideal – ou seja de equivalência perfeita --, a possiblidade da recriação expandia a percepção do que poderia ser considerado tradução poética. Ao mesmo tempo, trazia mais liberdade para a tarefa, aproximando-a de uma arte e afastando-a de um fazer apenas técnico. Ao longo do tempo, o conceito foi se transformando: da recriação, o poeta chegou à transcriação e seguiu na direção de “uma progressiva reelaboração neológica”, adotando termos como reimaginação, transtextualização, transparadisação (transluminação), transluciferação”, entre outros (Campos, 2015, p. 78).

Conforme Jones (2024, s/p), “como as características textuais da poesia geralmente dependem do som e das nuances da língua, ela é popularmente considerada um gênero de difícil tradução. Isso dá ensejo a um discurso crítico centrado na perda [...]”. Basta nos lembrarmos da famigerada máxima do poeta estadunidense Robert Frost: “Poesia é o que se perde na tradução”. Por isso, algo louvável na teoria haroldiana é a retirada do foco da perda e a valorização da transformação. Essa transformação, no entanto, para Campos, deverá levar em conta a iconicidade do signo e uma atenção à forma do original.

Outro aspecto de transformação relativo à poesia, ao menos no Brasil, é a questão da ética da tradução. Antoine Berman definiu radicalmente a ética da tradução literária como a abertura ao Outro, ao estrangeiro. No entanto, no Brasil, novas formas de encarar essa tarefa foram formuladas nos últimos anos. São propostas como as reunidas em Traduções canibais (Faleiros, 2019), mais abertas a encampar projetos de tradução ou reescrita que passam pela transcriação, imitação e outras experiências, ou em Tradução-Exu (Capilé e Flores, 2022), que põe em cheque a divinização do original e os modelos colonizados de saber. Essas abordagens se caracterizariam por não exigir uma identidade estrita, ou baseada em noções de total equivalência, entre original e tradução.

Na teoria de Henri Meschonnic (1999), a tradução se apresenta como uma escrita (écriture) que não diz, mas faz alguma coisa, assim como o original. Para ele, a tradução desprende-se do signo e passa ao discurso, no qual os seres humanos se firmam como sujeitos históricos na operação de um transnarcisismo. É no discurso, inclusive no discurso da tradução, que nos transformamos em sujeitos.

Entrar em contato com outras tradições por meio da tradução pode ter um efeito libertador para o trabalho autoral criativo, conforme atesta o poeta-tradutor Nelson Ascher. Ele dizia que “

[..] muitos poetas aprendem línguas e leem autores estrangeiros justamente para tentar sair da camisa-de-sete-varas em que nossos antecessores nos colocaram. Um poeta como Drummond fez tanta coisa – e tão bem – que, para quem quer escrever seus próprios poemas, isso se torna quase assustador, castrante mesmo. [...] Quando parece não haver mais saída, visitar outras épocas ou lugares é sempre refrescante (Ascher, s/d).

O fato é que a tradução de poesia é um território de muitas experimentações e liberdade e que a relação do poeta-tradutor com o ‘original” pode se dar de múltiplas formas, desde a busca por correspondências mais "fiéis” ao original (como nas teorizações de José Paulo Paes, Paulo Henriques Britto ou Mario Laranjeira), passando pelas formulações de Haroldo de Campos e outros, centradas na recriação da forma, até chegarmos a concepções tradutórias que aceitam e incentivam o distanciamento em relação à fidelidade. Enfim, como notou o poeta espanhol Jordi Doce:

Si echamos la vista atrás, advertimos que escribir poemas ha sido durante mucho tiempo sinónimo de traducirlos. Hoy la historia de la poesía occidental es un palimpsesto de continuas reescrituras que han oscilado entre la traducción filológica y la versión libre, pero que en ningún caso han sabido resistirse a la tentación del hurto y el contrabando fronterizo (2008, p. 13).

Tendo passado pelos anos da virada cultural da tradução (década de 90) e chegado ao que se discute como tempos de pós-tradução, que sentido tem o trans- (além de, para lá de; depois de) presente em translatio? Não faria amais sentido falarmos em muitas formas de trans-formações textuais operadas dentro do que se chama tradução? Neste simpósio queremos abordar as muitas maneiras pelas quais o ato tradutório pode transformar o poema original e, indo além, transformar o próprio sistema literário pela via da importação de temas, estilos e procedimentos poéticos, além da própria obra do(a) poeta-tradutor(a) que se lança à tarefa da tradução/ transcriação/ transformação.

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COORDENADORES:
SHEILA MARIA DOS SANTOS (UFSC-PGET)
Cassiano Teixeira de Freitas Fagundes (Universidade Estadual do Centro-Oeste UNICENTRO)
Ilana Heinberg (Université Bordeaux Mointaigne)

RESUMO: Este simpósio convida pesquisadoras e pesquisadores a submeterem trabalhos que investiguem as relações entre tradução, música e literatura a partir de perspectivas interdisciplinares, com ênfase nas mediações intersemióticas e nos processos de circulação cultural em escala transnacional.
Partindo da concepção de literatura como sistema global (MORETTI, 2000), o simpósio busca reunir reflexões sobre os modos pelos quais textos, formas e gêneros circulam, se difundem e se transformam ao atravessarem fronteiras linguísticas, culturais e midiáticas. Nesse contexto, interessa-nos particularmente a canção como objeto híbrido, situado na interseção entre o verbal e o sonoro, e como espaço privilegiado de circulação literária e cultural.
A noção de literatura mundial (DAMROSCH, 2003) e a perspectiva crítica sobre o espaço literário global (CASANOVA, 2004) fornecem ferramentas relevantes para entendermos essas dinâmicas, sobretudo no que se refere às assimetrias que regulam a visibilidade, a consagração e a tradução de obras em diferentes contextos. Tais discrepâncias de capital simbólico entre centro e periferia implicam hierarquias linguísticas, desigualdade de circulação e processos de invisibilização ou marginalização de determinadas produções culturais. As canções traduzidas podem, assim, ser entendidas como formas específicas de circulação literária, operando como objetos móveis que transitam entre culturas e que, ao serem reconfigurados, produzem novos sentidos e efeitos estéticos. Adicionalmente, a noção de polifonia, desenvolvida por Mikhail Bakhtin (2021), oferece um aporte teórico fundamental para compreender a canção traduzida como espaço de coexistência e tensão entre múltiplas vozes, discursos e sistemas de valor.
Nesse sentido, a aproximação entre música e tradução, sugerida por Dennys Silva-Reis e Daniel Padilha Pacheco da Costa (2019), dá-se no paralelo entre contraponto musical e a polifonia literária, que os autores estendem à coexistência, no texto-alvo, das vozes do autor e do tradutor. É importante salientar que o contraponto musical é a técnica, enquanto a polifonia musical corresponde à textura sonora resultante, composta por duas ou mais linhas melódicas independentes (LATHAM, 2002). A polifonia constitui, assim, um princípio epistemológico para compreender a convergência entre tradução, música e literatura, na medida em que essas práticas se configuram como formas intrinsecamente relacionais, dependentes da interação de múltiplas vozes e sistemas de significação. A canção traduzida é, então, compreendida como um espaço de polifonia expandida, no qual se articulam vozes do autor, do tradutor e do intérprete, evidenciando o caráter intertextual, intermedial e situado das manifestações artísticas.
Por outro lado, a polifonia também envolve conflito de vozes e tensão ideológica, o que sugere que a canção traduzida pode ser compreendida como um espaço de disputas discursivas e reconfiguração de sentidos.
Partimos, assim, do princípio de que a tradução musical, longe de se restringir à transposição linguística de letras, envolve processos complexos de adaptação cultural, reconfiguração semiótica e negociação estética. Trata-se, portanto, de uma prática que evidencia a interdependência entre diferentes sistemas de significação e desafia fronteiras disciplinares. Isso exige abordagens que articulem estudos da tradução, estudos literários e estudos culturais.
O caráter prático da tradução de canções e os estudos sobre a aplicação de estratégias descritas por Peter Low (2017) e outros autores constituem também foco deste simpósio. Privilegiam-se, igualmente, investigações sobre adaptação musical. A partir da noção de “parentesco entre as artes” (SOURIAU, 1969), interessa-nos refletir sobre como a poesia é transposta em música, considerando as técnicas tradutórias envolvidas nesse processo. Como exemplo, pode-se mencionar as adaptações musicais dos poemas de Louise de Vilmorin realizadas por Francis Poulenc.
Não obstante, o simpósio também propõe tensionar abordagens centradas exclusivamente na circulação e na transformação cultural, incorporando perspectivas críticas que compreendem a tradução como prática ideologicamente situada e atravessada por relações de poder. Nesse sentido, dialoga-se com autores como Lucile Desblache (2019), que analisa a tradução musical como prática de mediação cultural em contextos globais, e com abordagens críticas da tradução (VENUTI, 1995; SPIVAK, 1993), que evidenciam suas implicações ideológicas e políticas. São abordagens que investigam a tradução musical a partir do impacto da ideologia na circulação global, problematizando a ideia do tradutor como agente cultural e evidenciando seu papel ativo na reconfiguração de sentidos e na mediação entre contextos culturais distintos.
Serão aceitos trabalhos que dialoguem com os seguintes eixos temáticos: (1) tradução intersemiótica e adaptação musical; (2) canção como forma de circulação literária; (3) tradução e versão de canções; (4) refração, reescrita e retradução; (5) mediações entre literatura, música e mídia; (6) estudos de caso em tradução e/ou adaptação de canções; (7) políticas da tradução e mercados culturais; (8) tradução audiovisual e música.

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COORDENADORES:
Roberta Guimarães Franco Faria de Assis (Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG / CNPq)
Renata Flavia da Silva (Universidade Federal Fluminense - UFF)
Daniel Marinho Laks (Universidade Federal de São Carlos - UFSCar)

RESUMO: As relações entre memória, história e literatura sempre foram objeto de análise e de debate acerca das especificidades de cada campo e das possibilidades de diálogos interdisciplinares, especialmente dentro do campo conflituoso da Literatura Comparada. Obras literárias que dialogam de forma próxima com a história, seja pelo gênero literário, pelo tema e/ou personagens escolhidos, ou que apresentam um caráter (auto)biográfico, podem funcionar como base para a organização de arquivos públicos ou particulares, monumentos e museus, os quais têm como objetivo mediar o estabelecimento de uma memória coletiva sobre acontecimentos transcorridos. A possibilidade de curadoria dos episódios que devem ser rememorados ou comemorados sob uma perspectiva nacional está intimamente ligada à afirmação dos interesses de grupos que estabeleceram sua hegemonia e, nesse sentido, o processo de produção de uma memória coletiva pretende funcionar como ferramenta política de legitimação de estruturas específicas de poder. Debate também presente na formação dos cânones literários, questionados por correntes críticas mais contemporâneas pelo seu caráter fragmentário e centralizador, que atenderia a perspectivas e interesses específicos. Nesse sentido, a memória vem, cada vez mais, se configurando como um elemento essencial na construção de sentidos entre o texto literário e o discurso histórico. Ao longo do tempo, a análise literária foi ganhando contornos que incluem, desde a possibilidade de pensar a obra em múltiplos contextos e temporalidades de acordo com o leitor, advinda através da Estética da Recepção, até os mais recentes Estudos Culturais e Póscoloniais, possibilitando novas formas de olhar eventos históricos consagrados ou trazendo à luz questões que a dita história oficial silenciou. A memória, por sua vez, seja pensada como componente intratextual, atuando diretamente na estrutura narrativa, aliada à ideia de tempo, seja constituindo o espaço entre a obra literária e o seu contexto de produção, ou ainda estabelecendo fronteiras entre as perspectivas individuais e coletivas, se configurou como instância que permite pensar a literatura tanto na sua esfera subjetiva quanto social. No contexto das literaturas de língua portuguesa, pode-se evidenciar formas variadas de diálogo entre memória, história e literatura. No Brasil, tais diálogos podem apontar desde a necessidade de criação de uma identidade nacional, até a urgência em propor limites e questionamentos a este conceito – basta lembrar das ideias de Silviano Santiago em Uma literatura nos trópicos (1978) –, chegando a manifestações mais recentes, ou a recuperação de obras/escritores apagados/silenciados, que trazem novos olhares sobre acontecimentos, personagens e espaços. No caso da Literatura Portuguesa, por exemplo, a história desempenhou um importante diálogo por meio de diferentes temas, mas também como próprio elemento ficcional. Basta pensar a maneira pela qual os mitos identitários foram construídos pela história da literatura portuguesa ao longo dos séculos. Além da transformação da memória nacional como um dos grandes temas da literatura, um outro aspecto relevante é o reverso dessa temática, como afirma Eduardo Lourenço (2014), ao apontar a dificuldade de assumir uma memória nacional não mais baseada nos grandes mitos, mas na decadência da colonização. Grande parte da literatura portuguesa do século XX, sobretudo após a Revolução dos Cravos, tem se ocupado da revisitação de fatos históricos ou da escrita ou reescrita de momentos relevantes para o país no que diz respeito à colonização. Já para as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa – ainda lutando por uma nomenclatura que as particularize na academia – a relação entre literatura e história parece ainda mais evidente, pelos recentes processos históricos que trazem um caráter testemunhal, muitas vezes autobiográfico, para essas literaturas, problematizando os silenciamentos em torno da colonização, das guerras pelas independências, da descolonização e das guerras civis. E também, dialogando com um passado mais distante, pela necessidade de reformular a história produzida pelo olhar exógeno, reconstruindo mitos, recuperando personagens, reconfigurando espaços agora nacionais. Portanto, as literaturas de língua portuguesa formam um extenso objeto de análise, comparadas entre si ou dentro de um único espaço, para o antigo e ainda necessário debate entre Literatura, História e Memória. Este simpósio, continuidade da proposta de edições anteriores, pretende, assim, acolher trabalhos que discutam as relações entre memória, história e literatura. Para isso, sugerimos, entre outros possíveis, alguns eixos de articulação: a literatura como arquivo; representação do trauma na narrativa e na poesia; vertentes políticas das escritas de si; memória coletiva e espaços públicos; relações entre os espaços de língua portuguesa.

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