Como o recurso da terceira pessoa pode conformar uma narrativa de si? Almejamos, nesta comunicação, apresentar como duas obras da literatura alemã – O Tambor de Lata (1959) e Nas Peles da Cebola (2006), de Günter Grass (1927-2015) – modulam a narrativa si a partir da terceira pessoa, respectivamente na ficção e na autobiografia. Em um primeiro passo teórico, mostramos como a terceira pessoa na narrativa estrutura o si-mesmo – o si autorreflexivo – segundo a chamada ipseidade, isto é, uma unicidade identitária constituída pela alteridade, de acordo com Paul Ricoeur (1913-2005). Então, em um segundo passo interpretativo, mostramos como o si-mesmo é figurado como um outro, a partir de uma instância reflexiva que invoca uma terceira pessoa, a partir da narrativa ficcional e da narrativa dita autobiográfica de Günter Grass. Ao final desse arco teórico e interpretativo, pretendemos apontar elementos sobre como a narração do si-mesmo em terceira pessoa faculta uma abertura ética para a instância narrativa. A apreensão da modelação narrativa dessa torção ética – que torna o sujeito um outro, no interior mesmo de sua narrativa – será o objetivo constante desta exposição. Buscamos, assim, mostrar como as instâncias narradoras nas duas obras de Grass, ao atribuírem uma terceira pessoa ao si-mesmo de suas narrativas, tornam-se alteridades que confundem, borram e revertem tanto a perspectiva narrativa quanto o posicionamento ético da personagem do romance e do autor autobiografado.
Palavras-chave: memória; ipseidade; alteridade; Paul Ricoeur; Günter Grass