Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Ouvidos na enfermaria e um chapéu de três pontas: uma leitura literário-sonora da obra de Primo Levi
Leandro Donner (PUC-Rio)
Este artigo coteja fragmentos de duas obras de Primo Levi – É isto um homem? e A trégua – a partir de leituras sonoras de seus escritos. Entende-se por leituras sonoras uma atenção ampliada à musicalidade e a outros aspectos auditivos expressos no conteúdo e na forma literária dessas obras, que resultam em um tecido sonoro-textual de efeito estético singular que permite diversas análises. Nessa perspectiva, busca-se apontar alguns expedientes criativos do autor e sobrevivente da Shoá, e as diferentes perspectivas com que ele interage com a música nas duas obras. O pesquisador procura, ainda, estabelecer e enunciar certas poéticas de escuta, particularmente aquelas de maior acento político, pincelando, neste processo, os quatro elementos sonoros – altura, duração, intensidade e timbre. Se, por um lado, em É isto um Homem?, Primo Levi se refere a talvez uma dúzia de canções que tocavam no Campo – marcando sensorialmente e de maneira permanente a experiência no Lager –, mas opta por não nomeá-las, rememorá-las em profundidade, ou tampouco esmiuçar aspectos criativos, por outro, o capítulo “O Teatro”, de A trégua, é recheado de descrições detalhadas de números musicais e artísticos que são frequentemente nomeados e contados com vívida memória. Primo Levi assume, assim, duas posturas bastante diversas ante o contato com a música em suas experiências como prisioneiro e como errante a caminho do lar. Este artigo busca realizar um sobrevoo sobre tais opções literário-musicais, analisando aspectos estéticos e contornos políticos.
Palavras-chave: Primo Levi; poéticas de escuta; música e literatura; Shoá; arte e política.
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