Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
A redemocratização brasileira pelo olho mágico do extermínio: forma e processo social em Estorvo (1991), de Chico Buarque
JOÃO VITOR RODRIGUES ALENCAR (IFPA)
De modo geral, o público de Chico Buarque estranhou a dificuldade experimentada durante a leitura de seu primeiro romance, Estorvo (1991). Em prosa simples e relativamente coloquial, somos atropelados por uma série de episódios intrincados. A complicação se encontra tanto nas circunstâncias em que tais peripécias se desenrolam quanto na maneira tresloucada com que o narrador as apresenta. Realidade, sonhos, devaneios e lembranças se misturam na sequência dos acontecimentos (em que não há sequer garantia de ordem cronológica), que relatam a participação de um filho família, relativamente dissidente em termos políticos-ideológicos e inusitadamente envolvido com mercados ilegais, no extermínio dos pobres promovido por figuras do Estado à mando das classes altas em pleno contexto de redemocratização do país. Toda essa confusão, entretanto, é apresentada de maneira corriqueira e quase nada rebuscada. A forma insólita pela qual a voz narrativa flui de maneira perturbada através de situações tão complexas coloca uma série de questões. Ora, como explicar que uma figura tão relacionada ao popular tenha escrito um romance tão fácil de ler e difícil de compreender? Existe algum sentido implicado nesse hermetismo fluente? Se sim, há relação entre essa forma insólita e as particularidades daquele fim de século vinte brasileiro? Ao contrário dos leitores que julgaram a narrativa como um nonsense formado pelo regime da imagem contemporâneo geral, pretendo mostrar a partir de uma análise imanente do romance que a montagem estabelecida pela relação entre a voz narrativa e seus materiais, cujas determinações caracterizam seu ponto de vista, dá forma literária ao sistema de violências reais e compensações imaginárias que estruturam a sociabilidade brasileira naquele momento específico do capitalismo mundial.
Palavras-chave: Literatura brasileira; História contemporânea; subjetividade; representação; romance e canção
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