Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Poética e realidade
Katia Fernandes de Lima (UFF)
A poesia da moçambicana Noémia de Sousa mescla lirismo com as experiências brutais do mundo colonizado ao embalar o movimento de independência dos países africanos. Escrita entre 1948 e 1951, sua proposta estética engajada não apenas serve de instrumento de conscientização para o autóctone acerca da política imposta pelo dominador português, mas também ajuda o leitor a refletir sobre mecanismos que propiciaram a vulnerabilidade do corpo negro à violência, inclusive nos dias atuais. Nota-se que a racialização, estrutura de poder instituída por intermédio do capitalismo, biparte o planeta entre europeus e não europeus, conforme destaca Quijano (2009). Dinâmica de dominação que é contestada artisticamente pela voz de Sousa enquanto temática central do único livro publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) em 2001, pois, diante do contexto socio-cultural desfavorável às ações anticolonialistas da época, a obra da poetisa circula de maneira dispersa em periódicos do movimento de luta pela libertação de Moçambique até a plena independência política do país (1975). Na coletânea intitulada Sangue Negro (2001), mediante a perspectiva crítica da autora, percebe-se que as referências culturais do colonizador são revistas, assim como o modelo tradicional de versejar. Essa prática de ressignificação de valores faz emergir novos estilos de expressão que sinalizam elementos de rupturas ao paradigma hegemônico, segundo argumenta Noa (2001) a respeito dos registros da língua ronga nos poemas ou sobre vibração do sujeito lírico enquanto porta-voz dos oprimidos. Em tal projeto lírico, a presente comunicação focaliza o enlace de texto e contexto na leitura de "Um dia" a fim de destacar as estratégias estética e política de Sousa, entre as quais, o hibridismo linguístico, a referência à oralidade, o uso do possessivo "nosso" que estabelece ligação entre possuído-possuidor.
Palavras-chave: Poesia africana; Ruptura, Noémia de Sousa.
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