Viviane Nogueira da Silva (Universidade de São Paulo (FFLCH-USP/IEA-USP))
A apresentação se propõe a fazer uma aproximação da prática-conceito da “escrevivência”, proposta por Conceição Evaristo (2008) à categoria de “fabulação crítica” proposta por Saidiya Hartman (2020), tendo em vista que para Evaristo (2008) a escrevivência, enquanto produção literária de autoria negra, atua remontando e reinventando o registro de uma memória social que permite o conhecimento e a construção de um sistema simbólico que, através da imaginação, “ocupa um espaço vazio deixado pela ausência de informações históricas mais precisas” numa poética na qual história e memória se confundem enquanto elementos constitutivos (Miranda, 2019). Para tanto, traz como “matéria bruta” (Ferreira da Silva, 2019) o romance Ponciá Vicêncio (2003), primeira publicação individual de Conceição Evaristo, a fim de mostrar nele o que Jota Mombaça (2020) apontou como “envisionamento da história – no sentido de tornar visível a história – que o Brasil não conseguiu escrever, ou não permitiu que fosse escrita” na construção de uma narrativa com diversas aparições do “vazio” e do “nada” que se apresentam como resquícios do passado colonial que se inserem nas memórias do pós-abolição, configurando continuidade do “tempo da escravidão” (Hartman, 2020), ao mesmo passo que se apresentam, talvez como falha da narração, como denuncia da morte mas também da vida na herança-oralitura que a personagem Ponciá, que dá nome ao livro, recebe de seu avô que fora escravizado.