Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
A distopia burocrática: cenas do trabalho na poesia contemporânea
Carolina Fabiano de Carvalho (UFRJ)
Em 1989, livro de poemas de Lucas Matos publicado em 2018, a distopia contemporânea é encenada nas repartições e escritórios. Na série de poemas intitulada franz, vislumbramos o drama do trabalho moroso e inútil, tipicamente associado à burocracia – esta que, segundo o antropólogo David Graeber (2015), se embrenhou por todos os aspectos de nossa existência, especialmente durante as últimas décadas, com a financeirização e o fortalecimento das grandes corporações. Em franz, o trabalho não é apenas repetitivo, mas intensamente vigiado; as tentativas de fuga sequer são contempladas, e mesmo a escrita é signo de cárcere. A marcação do tempo, no poema, eleva a angústia pela falta de ação; o tédio, aqui, não é ocioso e, portanto, não conduz à criatividade. Mais do que isso, é possível dizer que o trabalho encenado em franz, típico do atual estágio do capitalismo, age “como uma espécie de barreira invisível, bloqueando o pensamento e a ação” e contribui para o realismo paralisante de que nos fala Mark Fisher (2020). Tendo em vista o potencial da poesia de reconfigurar nosso olhar para conflitos e questões de nosso tempo, o objetivo desta pesquisa é fazer a leitura crítica de 1989, explorando sua construção de sentidos por meio de recursos formais, rítmicos, narrativos, etc, à luz da antropologia econômica e da crítica ao capitalismo na contemporaneidade. Os autores mobilizados para dialogar com os poemas são, dentre outros, Karl Polanyi (1957), Marshall Sahlins (1972), Silvia Federici (2019), Mark Fisher (2020) e David Graeber (2015, 2017, 2019, 2021).
Palavras-chave: Poesia contemporânea; Burocracia; Capitalismo; Trabalho.
VOLTAR