O trabalho compara os contos "A escrava" (1887), de Maria Firmina dos Reis, e "Os porcos" (1903), de Júlia Lopes de Almeida. Com apenas dezesseis anos de diferença entre eles, esses contos dialogam com um momento de efervescência política e cultural no Brasil, marcados não só pela Lei Áurea, em 1888, e pela Proclamação da República, em 1889, como também pela influência do positivismo, das teorias raciais e do naturalismo enquanto correntes de pensamento importantes para a imaginação do Brasil como nação alinhada à "marcha da civilização" ocidental. Atentando especialmente para os desfechos dos enredos das narrativas examinadas, argumenta-se que em Maria Firmina dos Reis vemos esse contexto acionado para a projeção de outro tipo de nação, a qual, diferentemente da hegemônica, incluiria na ideia de progresso o sujeito negro descendente de indígenas e africanos. Já Júlia Lopes de Almeida recupera o mito alencariano da origem brasileira como resultado do amor entre um homem branco e uma mulher indígena, e faz dele uma releitura fatalista e grotesca. Com essa análise, defende-se que houve, no período histórico em questão, uma pluralidade de visões em torno da nação brasileira e seus destinos, e que o discurso dominante, torno do embranquecimento nacional, foi acompanhado de contradiscursos que precisam ser considerados.
Palavras-chave: Nação; Maria Firmina dos Reis; Júlia Lopes de Almeida.