CHRISTIANE G REIS (Universidade Federal Fluminense)
Este trabalho tem como objetivo analisar as representações da violência, da memória e do testemunho na obra Essa dama bate bué!, de Yara Nakahanda Monteiro, romance que traz como protagonista Vitória, uma mulher nascida em Angola, levada quando criança para viver em Portugal, e que retorna à terra de origem em busca de Rosa Chitula, sua mãe e ex-guerrilheira, no ano de 2003, logo após o fim da guerra civil. Ao chegar, ela se depara com uma realidade inesperada: jovens pedintes mutilados, zungueiras, ruas “minadas” por buracos, péssimo funcionamento das redes de água, eletricidade e comunicação, além da visão do trabalho doméstico como exploração dos menos favorecidos e da difícil vida nos musseques. Enquanto Vitória investiga e procura, examinando inclusive os arquivos do MPLA, termina por resgatar a memória da mãe, por meio do contato com a personagem mamã Ju, com a qual combateu e, por via oblíqua e inconsciente, depara-se também com as memórias angolanas. Então, do particular, individual, surge o público, o coletivo, por serem desvelados os desdobramentos dos conflitos e contradições das fases seguintes a importantes eventos históricos. Nesse contexto, vê-se ainda a violação dos corpos femininos como forma de subjugação e demonstração do poder masculino durante os embates armados; a violência em suas diversas formas: institucional, atmosférica, física, psicológica, cultural e simbólica; e, sobretudo, as consequências do colonialismo português.