Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Varlam Chalámov: problemas de uma nova prosa
Joaquim Ferreira Mendes Neto (Universidade de São Paulo)
Esta proposta de comunicação tem por base o estudo da poética de Varlam Chalámov. Para escrever os ciclos de Kolimá, o autor propõe uma nova prosa para o seu século, algo que possibilite dar forma à sua experiência no Gulag. Percebe-se que, analisados historicamente, outros materiais literários tornam-se relevantes para a nova prosa: o conto deve aproximar-se a um documento; a relevância na experiência única de autor; a desconfiança nas formas prontas e no modo de representar do século anterior, ainda que o autor reitere a necessidade da técnica literária. A tensão entre a adesão e o afastamento consciente das técnicas e dos gêneros tradicionais que sugeriam totalidade no século XIX deflagram um movimento particular, o que transforma o periférico ensaio russo (ôtcherk) em gênero central em sua narrativa. Dessa maneira, a posa de sobrevivente proposta por Chalámov aproxima-se do que Iúri Tyniánov chamou de fato literário, já que procura o material que é necessário para sua representação tendo em vista o momento histórico do objeto artístico, ora retraindo ora expandindo o diálogo com a tradição literária russa desde os tempos de Púchkin e Gógol, autores citados já no início do primeiro ciclo de Kolimá. Subjaz a essas escolhas artísticas a necessidade da busca pela nova forma, algo que dê conta de expressar literariamente o ser humano do século XX. Ao questionar os limites entre verdade da experiência histórica e ficção, Chalámov reacende esse debate que nasceu junto à ascensão do romance burguês, discussão que acompanhou autores como Daniel Defoe, ou serviu de matéria satírica para as prosas “anticonvenção” de Laurence Sterne e Denis Diderot, escritas ainda na gestação das formas burguesas, o que universaliza as possiblidades da nova prosa.
Palavras-chave: literatura documental; literatura soviética; gulag; nova prosa.
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