Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Superposição de escritas na ficção de Noemi Jaffe
Lígia Guimarães Telles (Universidade Federal da Bahia)
A ficção brasileira contemporânea, na sua diversidade de tendências e de formas literárias, traz como uma de suas possibilidades de realização aquelas marcadas pela hibridez, pela perda de limites, pela transgressão a modelos estabelecidos, entre os quais os gêneros literários. Como uma dessas realizações encontra-se a vasta e variada produção ficcional da escritora Noemi Jaffe, particularmente no que tange à eleição de uma escrita prévia como estratégia narrativa, à qual superpõe sua voz e sua escrita. Nessa vertente destacam-se os textos O que os cegos estão sonhando? com o Diário de Lili Jaffe (1944-1945), publicado em 2012, e O que ela sussurra (2020). Ambos têm como ponto de partida uma narrativa primeira que se realiza como forma de resistência: no primeiro caso, resistência à experiência vivida em campos de concentração nazistas por Lili Jaffe (mãe da escritora) durante a Segunda Guerra Mundial e, no segundo caso, resistência empreendida por Nadejda Mandelstam contra o apagamento literal da escrita do seu marido, o poeta Óssip Mandelstam, no contexto da Rússia stalinista, mediante utilização do sussurro contínuo e persistente de seus poemas por ela memorizados como forma de salvá-los do esquecimento. Ao retomar textos de outras escritoras e romper fronteiras históricas, geográficas, culturais, biográficas e subjetivas, Noemi Jaffe questiona os limites das possibilidades expressivas e suplementa veredas abertas por sua mãe Lili no Diário e por Nadejda Mandelstam em seus dois livros de memórias (1970; 1974), num gesto simultaneamente estético e político.
Palavras-chave: Escrita; Resistência; Noemi Jaffe
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