Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Representação e subalternidade em "Biografía de un Cimarrón" e em "Biografia do Língua": um estudo comparado.
Higor David Rosa Afonso Pinto (Universidade Federal do Rio de Janeiro)
"Biografía de un Cimarrón" (Miguel Barnet) e "Biografia do Língua" (Mário Lúcio) são, ambos, baseados na vida de um mesmo homem, Esteban Montejo. Talvez o único vivente registrado que passou pela escravidão, pela guerra de independência, pelo colonialismo, pelo imperialismo, pelo capitalismo e pelo comunismo, Esteban é uma figura que chama a atenção. Entretanto, há importante problema: por ser analfabeto, não pode escrever a própria história. Por isso, perde, guardadas as devidas proporções, o direito a representar-se, passando a ser representado. Por um lado, é escrito pelo olhar antropológico, historiográfico e, em alguma medida, literário de Miguel Barnet; por outro, é transformado por inteiro numa persona da ficção por Mário Lúcio. Surgem, assim, imagens muito distintas, que se ligam diretamente ao lugar, às experiências e às necessidades comunicativas de quem escreve. Isso porque, quando construída por outro, a representação de Esteban não parte da própria experiência, mas do modo como Barnet e Lúcio recebem-na e decidem apresentá-la. É uma mediação difícil, que estabelece encontros, agenciamentos, fragmentações e reconfigurações. A figura que se lê, no fim, não é Esteban Montejo, mas uma conformação dele; atravessada pelo discurso, mediada por necessidades, por visões de mundo e por valores diretamente ligados ao lugar de cada autor. Surge, assim, terreno importante para fomentar o debate acerca do modo como diferentes interpretações da personagem histórica serão reivindicados por cada projeto. Afinal, o que está em jogo nestas diferentes representações? Que pistas podem oferecer para pensarmos os processos contra-hegemônicos? A partir dessas perguntas, espera-se propor um caminho que nos permita mergulhar nas implicações relacionadas ao diálogo entre testemunho, ficção e história, de modo a contemplar os discursos (HALL, 2016), os lugares de fala (RIBEIRO, 2017), e os possíveis agenciamentos (DELEUZE E GUATTARI, 1996) que influenciam cada leitura e contribuem para cada modelo de construção de realidade.
Palavras-chave: Escritas da história; Testimonio; Decolonialidade; Representação; Discurso.
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