Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Pelé e Caetano: o comum dessa gente que não trai a força que mora no coração
Leonardo Davino de Oliveira (UERJ)
Ora "gente, espelho de estrelas, reflexo do esplendor", ora "no coração da mata, gente quer prosseguir / quer durar, quer crescer, gente quer luzir" canta Caetano Veloso em "Gente" (1977). Ligada à partilha cotidiana da existência, gente é comum, povo não. O comum é aquilo que une o próprio ao oposto. Daí porque o termo "gente" interessa mais ao cancioneiro de Caetano Veloso do que "povo", termo corrompido na história das práticas políticas de nossa nação, outro conceito supostamente aglutinador, mas que tende a ser usado para excluir, apagar, silenciar o oposto. A obra de Caetano Veloso tem instaurado no centro do debate público aquilo que durante um bom tempo esteve às margens: a gente brasileira. "Não, meu nego, não traia nunca essa força, não / essa força que mora em seu coração", canta na mesma canção. Esse trabalho pretende passar em revista esses termos e conceitos, tomando como mote a figura do jogador de futebol Pelé (1940-2022). Pelé é cantado por Caetano em pelo menos três canções: "Two naira fifty kobo", de 1977, ("No meu coração da mata gritou Pelé, Pelé / faz força com o pé na África"); "Love, love love", de 1978, ("A visão que comove / Pelé disse love, love, love"); e "Os meninos dançam", de 1979, ("A história do samba, a luta de classes, os melhores passes de Pelé / tudo é filtrado ali"). As três do final da década de 1970. Nas três, o jeito de corpo que representa nossa gente e lançou mundos no mundo, o absurdo - por que radicalmente novo e nosso, brasileiro, e à margem da imagem institucionalizada pela ditadura militar da época - modo de ser, de estar, de existir, um modo engendrado e defendido pela canção brasileira, notadamente a tropicalista, a partir da segunda metade do século XX.
Palavras-chave: Pelé; Caetano Veloso; canção; gente; comum
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