Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Ouroboros: a terra, a mulher e a serpente
MARINA MARIA CAMPOS BRITO (Universidade Federal Fluminense)
Segundo Claudete Daflon, propostas decoloniais denunciam o “silenciamento de povos e sujeitos cuja humanidade é cotidianamente colocada em dúvida em processos violentos de negação de sua capacidade enunciativa e de sua condição de produtores de conhecimento” (DAFLON, p. 55). É o que vemos em Torto arado (2019), de Itamar Vieira Junior, história contada a partir da perspectiva de mulheres negras, trabalhadoras rurais, descendentes de escravizados, constantemente violentadas, e de uma entidade do Jarê, que se apropriam do narrar e, ao fazê-lo, são as suas vozes que passam a ser ouvidas, com seus olhos os leitores conhecem a vida em Água Negra. Porque assumem a condição de produtoras de conhecimento, Bibiana e Belonísia trazem à luz a questão agrária e a subjugação do corpo feminino. Mulher e terra são propriedades. A retórica da colonialidade de que nos fala Mignolo (2010) mostra ter raízes tão profundas que faz a mulher duvidar se há alternativas à submissão. Em um movimento cíclico, como a serpente que engole a própria cauda, a colonialidade mantém uma estrutura de exploração e violências. Apesar disso, o que vemos na narrativa é uma tentativa de romper esse ciclo. Belonísia e Bibiana carregam em seu narrar saberes ancestrais que, paulatinamente, se articulam no enfrentamento à retórica da colonialidade. As vozes das irmãs são ouvidas como um grito de libertação contra a narrativa colonial/patriarcal que prende seus corpos e explora a terra. Santa Rita Pescadeira é testemunha das histórias que remontam aos tempos da escravização. Passado e presente se encontram, revelando um sistema monolítico – pedra que sufoca e impede o florescer. Neste trabalho, buscamos refletir sobre como o narrar dessas três mulheres, paridas pela terra, mobilizam saberes que questionam certezas de um mundo colonial/patriarcal/branco, voltando-se a um futuro em que suas vidas sejam possíveis.
Palavras-chave: Corpo; colonialidade; feminino; terra; Torto arado.
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