Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Os quatro caminhos da perda em José Saramago
Gabriel Franklin (Universidade de Brasília)
No presente trabalho, busca-se realizar uma reflexão filosófico-literária acerca da condição do ser humano no âmbito das poéticas do estado de urgência, referindo-se estas às relações que se estabelecem entre as angústias do tempo presente e suas manifestações artístico-culturais. Para tanto, utiliza-se, como ponto de partida, o conceito de “desintegração”, apresentado pelo poeta polonês Czes?aw Mi?osz em seu livro “O testemunho da poesia”, que consiste no “desmoronamento de todas as noções e critérios correntes”. Segundo Mi?osz, essa é uma ocorrência rara e característica apenas dos períodos mais tempestuosos da história, quando a ordem em que os indivíduos costumam viver pode deixar de existir. Nesses particulares estados de emergência, que levam uma coletividade humana à desintegração, seja “uma guerra, o governo do terror ou catástrofes naturais”, Mi?osz diz que uma “hierarquia de necessidades” é, então, “inscrita na própria realidade”. Após sua devida caracterização, passa-se, no trabalho, à identificação do processo de desintegração e hierarquia de necessidades em quatro obras literárias de nosso tempo, quais sejam, os seguintes romances de José Saramago: “A jangada de pedra”, “Ensaio sobre a cegueira”, “Ensaio sobre a lucidez” e “As intermitências da morte”. Defende-se, então, que nessas quatro narrativas os indivíduos vão, aos poucos, perdendo algo que os torna humanos: identidade, percepção, autonomia, finitude; no entanto, durante o processo, por meio do recolhimento e da reflexão, começam a descobrir e entender o que realmente significa “ser” humano. De forma que as situações excepcionais apresentadas nas referidas obras, esses exercícios de imaginação levados às últimas consequências, mostram-se evidentes manifestações de “estados de emergência” que, nas entrelinhas do não-dito, revelam o perene “estado de urgência” em que se vive hoje; na mesma medida, refletem também o mundo e o indivíduo que José Saramago viu no passado, estava vendo no presente, e imaginava que poderiam ser vistos no futuro.
Palavras-chave: Literatura Comparada; Poéticas do estado de urgência; Czes?aw Mi?osz; José Saramago.
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