Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Os ossos fora do baú: Pedro Nava e a destruição da memória familiar alheia
Venâncio Paiola Tonon (FFCLRP-USP)
Este trabalho investiga os procedimentos de construção e destruição da memória geracional no Baú de Ossos, primeiro volume das memórias de Pedro Nava (1903-1984). O sociólogo Pierre Bourdieu (1996), no texto O espírito da família, define a preservação da instituição familiar como uma das principais condições de acumulação e transmissão de privilégios econômicos, culturais e simbólicos. Podemos enxergar nas memórias de Pedro Nava um movimento análogo − uma vez que as memórias de sua família se confundem com a história da própria instituição familiar brasileira. Mas, se por um lado, o vasto acervo de objetos, cartas, e registros presentes no Baú de Ossos permite a Nava conservar, e em alguma medida – recriar a história de seus antepassados; sua obra também revela a negação do direito à memória familiar alheia. Essa mnemônica destrutiva é explícita, por exemplo, nos atos da avó materna, que vivia “como se não tivesse havido princesa Isabel nem Treze de Maio” (Nava, 2012, p. 289), preservando instrumentos de tortura, queimando registros de ex-escravizados e revogando o nome de batismo das crianças negras assimiladas à periferia de seu núcleo doméstico. Portanto, a costura do enredamento familiar implica, no caso do Baú de Ossos, a descostura de uma outra trama, a dos escravizados e seus descendentes subordinados à ordem familiar do autor − na qual não apenas sofrem toda sorte de violência física e simbólica, mas onde também lhes é subtraído o direito à uma história própria, ao sobrenome – e, sobretudo, à memória.
Palavras-chave: Pedro Nava; Família Brasileira; Literatura Memorialista; Memória
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