Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
O Fausto brasileiro de Machado de Assis
GREGORY MAGALHÃES COSTA (UERJ)
Pretende-se rastrear os traços fáusticos da narrativa ficcional de Machado de Assis, composta em primeira pessoa, na categorização de Franz Stanzel, quando narrador e personagem são o mesmo e a distância temporal entre eles gera metamorfose existencial, permitindo a crítica e autocrítica constante, de modo que o narrador zomba do personagem que foi, numa bufonaria transcendental. Deste modo, se denuncia a frieza racional destes personagens indiferentes, que, na visão de Antonio Candido, se convertem em devoradores sociais. Brás Cubas devora sexualmente Marcela e Virgília e socialmente Lobo Neves, Eugênia e seu escravo Prudêncio numa perpetuação ritual da opressão. Bento Santiago, santo e Diabo, segundo Helen Caldwell, devora Capitu, Escobar e seu filho. Estes personagens vivem numa crise civilizatória acossados por fáusticas ideias fixas de egoísmo, exploração, glória e eternidade. O Diabo chega a fundar uma igreja para atiçar a indiferença humana num conto que cita diretamente Fausto. Assim, por meio da poética comparada, é possível demostrar como a ficção machadiana se nutre da tradição fáustica, sobretudo da de Goethe, renovando-a por meio da tradição de La Mancha, como define Carlos Fuentes, situando Machado como gênio literário, conforme avalia Harold Bloom, moderno, como defende Susan Sontag. Num romance como Memórias póstumas, essa relação intertextual pode se dar en abyme por fragmentos altamente significativos espalhados em forma narrativa pelo defunto autor, segundo definição de Lucien Dallenbach: “est mise en abyme toute enclave entretenant une relation de similitude avec l’oeuvre qui la contient” (1977, p. 18). André Gide transportou um termo da heráldica para a prática literária a fim de descrever o fenômeno artístico das reduplicações reflexivas passado de geração em geração. A reflexão literária seria uma forma de refletir o mundo. Mais do que os modos de essa estrutura se manifestar na literatura, verificaremos os significados que cada obra encerra e origina.
Palavras-chave: Fausto; Devorador social; Indiferença pós-moderna; Myse en abyme.
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