O artigo propõe uma leitura para o conto “Sangre Coagulada” (2020), de Mónica Ojeda, através da chave do horror, destacando elementos que o conduzem a uma narrativa do trauma coletivo da violência de gênero na América Latina. A partir de uma reflexão sobre os recursos da literatura fantástica e de horror e como estes têm sido utilizados por uma grande variedade de escritoras latino-americanas que despontaram na última década para representar a misoginia e os terrores decorrentes do patriarcado, investiga-se como o extremo, o gore e o abjeto surgem na obra como forma de combate ao esquecimento. Propõe-se ainda um entrecruzamento com as referências daquilo que a própria Ojeda chama de "escrita sodomizadora", conceito também trabalhado por Enrique Verástegui e Angélica Liddell, e de "gótico andino", sobretudo em relação a presença de uma poética negativa. Sangue, família, violência e memória, temas que surgem como centrais durante a leitura do conto, servem para a representação da monstruosidade em suas variadas formas, do corpo dissidente e objetificado, das heranças e do estigma da bruxaria, da subalternização, do patriarcado e da preservação da letalidade masculina. Para tanto, adota-se uma abordagem pautada em trabalhos de França (2016), Cohen (2000), Federici (2017), Gagnebin (2006) e Ginzburg (2017).