Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Narrar um país em crise: memória e esquecimento em ‘O último gozo do mundo’, de Bernardo Carvalho
JULIANA KRAPP GUIMARÃES (Fiocruz)
'Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são', já acusava Macunaíma. A ideia de doença teve lugar primordial na construção do imaginário sobre o Brasil, apontam muitos historiadores. Porém, doenças que assolam grande parte da população não frequentam com destaque a ficção brasileira. Não costumamos narrar doenças relacionadas à pobreza, agravos endêmicos das periferias, desafios contumazes para a saúde pública. Por outro lado, na ficção brasileira recente, há vários distúrbios que afetam a memória ou a percepção dos personagens. Até que ponto representam a busca por investigar a carga de uma memória social tão marcada pela violência, pelos traumas, pelos apagamentos? Um esforço para iluminar memórias que se insinuam como espectros, heranças tornadas fantasmas, destroços? O que teriam a dizer sobre as formas com que a ficção brasileira tem lidado com o olhar sobre o ‘outro’, ato sempre informe, em narrativas de autores que guardam, em si, fardos, marcas e contradições herdadas de um país que pulsa em encruzilhada? A ideia de nação, enquanto narrativa unificadora e alimento simbólico, parece ter se ausentado da ficção brasileira, aponta Renato Cordeiro Gomes (2014). Ao mesmo tempo, não podemos nos livrar da nação enquanto herança, força residual, aparição fantasmal a nos assombrar. Foram apenas 100 anos de diferença entre a gripe espanhola e a pandemia de covid-19. Porém, a memória social brasileira sobre a primeira parece não ter sido suficiente para amenizar a devastação da segunda. Neste trabalho, vamos investigar como a memória — e sua impossibilidade — é elemento central de ‘O último gozo do mundo’ (2021), de Bernardo Carvalho. Ao tecer uma fábula que transcorre num mundo em ruínas, marcado por uma pandemia, o romance parece ilustrar os desafios de projetos estéticos que encarem 'o paradoxo de um passado indelével que não admite passado' (CARVALHO, 2021).
Palavras-chave: Memória; doença; literatura brasileira contemporânea
VOLTAR