Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Nada humano é estranho para mim: grotesco, transgressão e resistência feminina em Carson McCullers
Giovana de Proença Gonçalves (Universidade de São Paulo)
Nosso objetivo é propor uma leitura das personagens femininas da escritora norte-americana Carson McCullers, tendo como objetos de análise o romance O coração é um caçador solitário (1940) e a novela A balada do café triste (1943). Assim, acentuamos a minuciosa visão social da autora, uma vez que ela, na construção de suas personagens, subverte a normatividade sulista. Essa normatividade é questionada por meio da transgressão de expectativas relacionadas a gênero, sexualidade e corporeidade, que imperam com estrita rigidez no Sul da primeira metade do século XX, principalmente com a veiculação do mito da Southern belle. É reconhecido pelos comentadores da literatura de McCullers que sua obra explora, em linhas gerais, a desintegração social e a alienação, de modo que a própria autora escreve que o isolamento espiritual é a base da maioria de seus temas (McCULLERS, 2010, 319), o que se expressa também formalmente em seus escritos. Isso é observado na composição de suas personagens, em consonância com a tradição sulista do Grotesco. O grotesco sulista é construído, segundo seus principais teóricos, por meio do encontro de elementos vistos tradicionalmente como opostos e irreconciliáveis (LAWSON, 1967, 168-9). A própria McCullers acredita nisso, ao definir o momento literário em que se insere como a justaposição de contrários (McCULLERS, 2010, 295). Desse modo, o grotesco, conforme empregado pela autora, contrapõe-se à noção estática e fixa de identidade, de modo a celebrar identidades femininas marginalizadas. Com isso, o grotesco de McCullers denota elementos da resistência e da potencialidade para uma nova ordem, além de uma abertura para novas subjetividades (GLEESON-WHITE, 2009, 59), reprimidas pela normatividade. Buscamos, portanto, apresentar uma análise que se atente ao realismo da obra de McCullers, a partir de suas personagens femininas transgressivas - e que não as interprete meramente como símbolos, conforme a crítica conservadora.
Palavras-chave: Grotesco; Resistência; Transgressão; Literatura Sulista; Carson McCullers
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