Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Memórias do subsolo, entre Rússia e Europa: o argumento dostoievskiano no debate sobre o desenraizamento nacional
Davi Lopes Villaça (Universidade de São Paulo)
Memórias do subsolo, uma das obras mais impactantes e influentes de Dostoiévski, é também, em razão de sua tortuosa complexidade formal, uma das que mais colocou obstáculos à interpretação. Ao considerar a novela como argumento do autor no palco das polêmicas ideológicas, filosóficas e políticas travadas pelos representantes da intelectualidade russa em meados do século XIX, concernentes ao futuro de seu país, percebemos que o ponto central desse argumento passou muitas vezes despercebido, o que ocorre, ironicamente, em razão da própria sofisticação artística que deveria torná-lo mais contundente. Na tensionada dialética instaurada no centro da “confissão” do herói-narrador, o “homem do subsolo” (essa arquetípica e amargurada encarnação do indivíduo moderno, com suas angústias e vacilações), o autor atualiza, para o seu contexto nacional, um debate filosófico que se travava na Europa ocidental desde finais do século XVIII, entre intelectuais iluministas, de um lado, e românticos, do outro; entre os que professavam a fé no poder da razão e da ciência para organizar a sociedade, solucionar seus problemas e suprir suas necessidades, e os que, reagindo a isso, afirmavam a inexorabilidade, no espírito humano, de desejos irracionais, do anseio por conflito e da necessidade da busca e do fazer intermináveis. Se Dostoiévski se identifica muito mais com a segunda posição do que com a primeira, ele contudo recusa as conclusões provenientes de ambas, concebendo-as como expressões (ou sintomas) do individualismo e do desenraizamento característicos das modernas sociedades europeias, cujos valores agora penetravam a Rússia na garupa de um capitalismo ainda incipiente, mas profundamente desagregador do ponto de vista social e psicológico. Num país em que modernização é praticamente sinônimo de ocidentalização, o anti-herói dostoievskiano, destituído de nome e de lugar, figura como símbolo de uma consciência nacional que pensa a si mesma a partir de seus próprios processos de desenraizamento.
Palavras-chave: Dostoiévski; Memórias do subsolo; narrador problemático; desenraizamento.
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