Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Memória e esquecimento, utopia e barbárie numa trilogia de documentários de Vladimir Carvalho
Gabriela Kvacek Betella (UNESP)
O país de São Saruê (1971, lançado em 1979), Conterrâneos velhos de guerra (1992) e Barra 68 – sem perder a ternura (2001) são elementos-chave na filmografia de Vladimir Carvalho e representam, grosso modo, etapas simbólicas de uma história pessoal do cineasta por meio das imagens documentais. É possível pensar numa unidade para a trilogia quando utilizamos como vieses de análise as evidências das lutas de classes, dos deslocamentos e dos espaços utópicos como registros da memória coletiva. Destacamos, na análise imanente dos planos, a densidade das relações entre o homem, a terra e as utopias. Assim, o documentário inspirado no título de cordel que descreve um paraíso utópico reconstrói o espaço fronteiriço entre Paraíba, Pernambuco e Ceará para mostrar as dificuldades de sobrevivência no sertão. Conterrâneos aborda o deslocamento dos trabalhadores da construção de Brasília e o contraponto entre a visão utópica dos idealizadores da capital e a realidade dos trabalhadores, por meio da reconstituição de um suposto massacre de operários pela memória de entrevistados e a tentativa de apagamento do episódio da história. Barra 68 retorna aos anos de 1960 para mostrar a criação da Universidade de Brasília encarnada na perseverança de Darcy Ribeiro (1922-1997) e as tentativas de destruição da instituição, desde o golpe militar de 1964, a invasão de 1968 (que resultou em centenas de estudantes detidos e na exoneração de quase todo o corpo docente) e a dura repressão de manifestações em 1977. Ao afirmar que todo documentário tem muito de autobiográfico, o próprio diretor esboça os elos que nossa análise fortalece entre os dois tipos de memória correspondentes às experiências pessoais e à vivência coletiva, nas palavras de Michael Pollack (1989), ao papel das “memórias subterrâneas das culturas minoritárias ou dominadas que se contrapõem à memória oficial que afloram em momentos de crise”.
Palavras-chave: Vladimir Carvalho; Documentário; Utopia; Memória
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