Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Língua de serpente: uma leitura feminista do testemunho
DANIELLE HENRIQUE MAGALHÃES (UFRJ)
Em "Borderlands/La frontera", Gloria Anzaldúa diz: “A las lenguas salvajes no se las puede domesticar, solo se las puede cortar”. Nesse livro, que se faz em uma escrita bifurcada em dois ou mais idiomas, que se faz sinuosamente entre a poesia, a narrativa, a canção, o sonho, a mitologia, o sexual, o espiritual, a teoria, a autobiografia, a história, o movimento deslizante impossível de ser domado é trazido também pelo imaginário em torno da serpente na constituição da cultura chicana. Anzaldúa diz que um dos modos de domesticar uma língua selvagem era o ditado que ela ouvia quando criança: “Em boca fechada não entra mosca”, daí que “ser faladeira era ser fofoqueira e mentirosa, era falar demais”. Em "Fala, poesia", Tamara Kamenszain diz: “a poesia é uma boca que se abre ou que está sempre aberta, que não pode fechar, que quando fecha, vira estereótipo... Mas quando está sempre aberta, entram nela todas as moscas”. Disso depreendemos que a boca do testemunho não pode falar senão com todas as moscas. Cortar a língua das mulheres (simbolicamente ou não) para impedir que elas falem, bem como para impedir os voos, os zumbidos e o indomesticável de uma língua que não se domina, é uma prática que atravessa séculos e culturas. Na nossa cultura judaico-cristã, isso também chega por um mito fundador da cultura ocidental, a punição de Eva – e, consequentemente, de todas as mulheres – que ousou falar com a serpente. Além desse, há mito grego do herói Perseu que decapitou a cabeça de serpentes de Medusa, personagem que vem sendo relida pela poesia contemporânea em um gesto que a afirma, sobretudo, como um testemunho. A partir dessas abordagens, desejaremos pensar figurações do testemunho, em uma perspectiva feminista, que passam necessariamente pela releitura de personagens femininas fundantes da nossa cultura.
Palavras-chave: Feminismo; Mitologia; Poesia; Releitura do cânone
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