BRUNO MARIANO HOREMANS (Universidade de São Paulo)
Utilizando de materiais diversos como recortes de jornal, fotografias, relatórios, relatos de memória e anúncios, porém sem nenhuma interferência explícita de prosa própria, Valêncio Xavier escreve a obra "O Mez da Grippe" situando-a fora dos modelos tradicionais de literatura. A transgressão de materiais e forma abre caminho para um produto híbrido que gera reflexões sobre o próprio fazer literário e a sua relação com outros campos de linguagem e de conhecimento. Ao centralizar sua narrativa no referencial histórico da pandemia de Gripe Espanhola do início do século XX, questionamentos e perspectivas sobre a relação entre literatura e história se fazem pungentes e oferecem caminho para reflexões teóricas e analíticas sobre as convergências e divergências entre os dois campos. Pensar certas proposições sobre a transmissão da história no âmbito da linguagem e a presença de narratividade no discurso histórico, como descritas por Jacques Le Goff e Hayden White, permitem contemplar a importância da narrativa como elemento essencial da produção humana, histórica ou literária; possibilitando uma leitura da obra que dialoga com essa volatilidade. Se o narrar, como postula Walter Benjamin, está em vias de extinção, acessar especificidades e potencialidades da literatura na contemporaneidade requer novas chaves de compreensão para a representação literária que essas formas impõe, inclusive colocando em cheque o formato do romance nessa produção.
Palavras-chave: Interpretação; História; Literatura Contemporânea; Hibridismo.