Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Fugas constitutivas na literatura de Elvira Vigna
Bianca Magela Melo (Instituto Federal do Norte de Minas Gerais)
Escorregar de nomeações é um dos caminhos escolhidos por Elvira Vigna (1947-2017) para configurar perfis complexos de mulheres. Medulares, pois com a palavra como narradoras, rejeitam constituição centralizadora ou final. Como professando uma pobreza de experiência, ao modo do que afirmou Walter Benjamin para parte das vanguardas do século 20, é comum que elas oscilem em seu papel: “vou contar uma história que não sei bem como é. Não vivi, não vi. Mal ouvi. Mas acho que foi assim mesmo” (In Como se estivéssemos em palimpsesto de putas). Neste ponto, diferem de alguns textos de autoria feminina que, para expressar o lugar das vozes que apresentam, precisaram gritar ou escrever textos pronunciadamente diretos e com graus de violência nos temas e na escrita. Elvira Vigna não grita nomes, apesar de lidar com a temática da violência como uma cadeia que vai reverberando em novas ações. Há sempre no ar a densidade de coisas não resolvidas, como uma identidade duvidosa, um assassinato, um roubo. E as narradoras são observadoras misteriosas e suspeitas – às vezes de estarem envolvidas criminalmente. Ocupar o lugar de mulher nas ficções de Elvira Vigna não é restrito às que têm um corpo com genitália feminina. Shirley Marlone, narradora de Deixei ele lá e vim, esconde um nome e um corpo masculinos, assim como a travesti Lurien, de Como se estivéssemos em palimpsesto de putas. O corpo mutante é um dos trânsitos desestabilizadores das nomeações costumeiras nessas ficções. Indefinição extensiva ao texto: romance com características do ensaio e do solilóquio de uma narradora sem autoridade para narrar: na direção do questionamento de campos ou, como definiu Josefina Ludmer, de uma literatura pós-autônoma. O termo, associado a ficções que atravessaram a “fronteira literária” e não cabem em definições, apresenta-se afim à mencionada literatura e à instabilidade sugerida.
Palavras-chave: Elvira Vigna; Pós-autonomia; Literatura brasileira contemporânea
VOLTAR