Ana Beatriz Matte Braun (Universidade Tecnológica Federal do Paraná)
O objetivo da presente reflexão é promover um diálogo entre as obras de dois dos intelectuais moçambicanos mais conceituados da atualidade, Francisco Noa e João Paulo Borges Coelho. O primeiro, um dos mais reputados críticos literários moçambicanos, acadêmico e autor de diversos estudos sobre o campo literário e a cultura moçambicana. O segundo, ficcionista internacionalmente premiado, acadêmico e um dos principais historiadores moçambicanos. A discussão aqui proposta tem cariz comparativista, ainda que em uma configuração pouco usual, já que busca estabelecer interlocução entre o volume "Império, mito e miopia - Moçambique como invenção literária" (2002), de autoria de Noa, estudo teórico que discute o contexto de formação e a história de um gênero literário específico, o romance colonial em Moçambique, e as obras "As visitas do Dr Valdez", de 2004, "O Olho de Hertzog", de 2010 e Rainhas da noite, de 2013, romances contemporâneos de Borges Coelho ambientados no período colonial. A leitura desses romances tendo o estudo de Noa em contraponto destaca a disposição da ficção de Borges Coelho para interpelar, relativizar e dissolver as balizas da ideologia imperialista que impregnava a literatura colonial por meio da subversão e ressignificação de seus aspectos formais e temáticos mais característicos, especialmente a persistente incomunicabilidade entre colonizadores e colonizados.
Palavras-chave: Romance moçambicano contemporâneo; Romance colonial; João Paulo Borges Coelho; Francisco Noa.