MARCOS VINÍCIUS FERREIRA DE OLIVEIRA (Universidade Federal de Juiz de Fora)
No ensaio intitulado “Guimarães Rosa ou o terceiro sertão”, que fecha o volume A Nau de Ícaro (2001), Eduardo Lourenço propõe uma desafiadora leitura da identidade cultura e literária do Brasil brasileira. Alicerçado numa recusa da Semana de Arte Moderna como mito fundante da autoconsciência nacional, por não reconhecer nas propostas surgidas em torno dela e do nosso primeiro Modernismo uma imagem de país capaz de escapar aos mimetismos que buscavam não mais do que integrar o país na civilização ocidental, o ensaísta arrisca a hipótese de que a “sertanidade brasileira” fundada por Euclides da Cunha seja, na verdade, muito mais capaz de se aproximar da síntese cultural que nos define. De acordo com Lourenço, ao conferir para o massacre ocorrido em Canudos um estatuto de “mito”, Euclides da Cunha teria inaugurado um modelo de ruptura com a racionalidade que impregnava de europeísmo as nossas manifestações culturais, sendo capaz de “fundar o homem brasileiro”. O ensaio de Lourenço ainda reflete acerca dos desdobramentos da empreitada euclidiana em mais dois “sertões” distintos, o do romance de 30 e o de Guimarães Rosa, no qual, de acordo com ele, “o Brasil veio a existir e se feito nação”. A presente comunicação pretende levar adiante algumas iluminações do ensaio de Eduardo Lourenço, discutindo-as num cotejo com outras análises do mesmo fenômeno.