Em 2003, em Imigrantes, mascates & doutores, foram publicados alguns contos seminais de Meir Kucinski (1904, Polônia-1976, São Paulo) organizados por Rifka Berezin e Hadassa Cytrynowicz que orquestraram, ali, vários tradutores do ídiche, a língua na qual foram originalmente escritos. Nessa coletânea, um arquivo literário da imigração judaica para o Brasil, o leitor pode vislumbrar línguas, etnias e tradições que, como as cidades visíveis e invisíveis de Italo Calvino, abrem-se como um atlas imaginário com suas fronteiras e limites. A literatura ídiche no Brasil tem, na obra de Kucinski, um dos acervos mais instigantes sobre esses complexos, mas infinitamente, ricos mundos compartilhados. Diante da contingência-limite da Shoah, os contos de Kucinski são especialmente paradigmáticos. Nesta comunicação, analisarei nos contos “A prédica”, “Mitzves, boas ações” e “O tio” presentes na parte intitulada “Ecos do Holocausto”, da coletânea, malas, livros e outras coisas e objetos, considerados, aqui, como índices de memória. Nesses textos, a memória de um mundo que foi, para sempre, deixado em ruínas – destruído pela violência, pela intolerância e pelos desatinos do poder – impõe aos perseguidos os males da ausência, mas também, os novos ares do mundo novo – articulado e rearticulado na ficção, não sem ironia ou sem estratégias de entrar e sair de outras culturas e tradições.
Palavras-chave: Meir Kucisnki; Shoah; Coisas e objetos.