Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Do narcisismo primário ao laço perverso: o impossível do desejo em Sangue no olho, de Lina Meruane.
ZUILA KELLY DA COSTA COUTO FERNANDES DE ARAÚJO (Universidade Federal da Paraíba), ANDREIA DA SILVA SANTOS (Faculdade de Integração do Sertão)
Desde o lançamento de sua primeira obra, Lina Meruane chamou atenção da crítica pela forma inusitada como conseguia entrelaçar narrativas e trazer à tona perspectivas ambivalentes quanto às identidades. Com temáticas bastante distintas entre si, sua escrita é atravessada por um traço de preocupação com a linguagem e a forma como esta pode vir a ocultar/revelar, instituir/destituir relações complexas entre os sujeitos. Ao construir a narrativa de Sangue no olho, Lina Meruane problematiza a centralidade da visão, ao mesmo tempo em que nos conduz a uma reflexão a respeito das relações intersubjetivas marcadas pela posição que os sujeitos ocupam: no romance familiar, nos arranjos amorosos. O presente artigo consiste em uma leitura do referido romance tomando por base a crítica psicanalítica. A obra é narrada por Lucina, personagem protagonista, e apresenta a trajetória de uma escritora que tem sua vida marcada pela convivência com uma enfermidade nos olhos, para a qual o tratamento é incerto. É possível associar o romance a uma já tradicional escrita da cegueira, cujas raízes podem ser rememoradas desde a mitologia grega, das quais podemos citar Édipo e Tirésias como figuras emblemáticas; mas que persiste também em obras contemporâneas como Ensaio sobre a cegueira (1995), de José Saramago, ou Informe sobre Ciegos – terceira parte de Sobre Héroes y Tumbas (1991), de Ernesto Sábato, dentre outros. O escopo de nossa análise, entretanto, recai sobre a forma como são tecidas e se desdobram as relações da protagonista com sua mãe e seu namorado, atravessadas pela condição da cegueira, mas, sobretudo pela inscrição do desejo. Para tanto, recorremos aos conceitos de narcisismo primário, desenvolvido por Freud em sua Introdução ao Narcisismo (1914), e de montagem perversa, a partir das considerações de Contardo Calligaris em Perversão – um laço social?(1986).
Palavras-chave: Literatura de cegueira; Narcisismo primário; Montagem perversa.
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