Luiz Fernando Medeiros de Carvalho (Universidade Federal Fluminense)
A poeta Danielle Magalhães encara de frente a fantasmagoria que envolve o nome vingar. Para escrever esse nome como título de uma obra, a poeta recorreu a arquivos, lidou com o estranhamento na sua radicalidade umheimilich, como pensou Freud, com lembranças que, por vezes, paralisam. Como caso paradigmático de contágio pelo arquivo, Sarah Kofman lidou com a assombração da memória até não suportar mais a intensidade da aporia. No livro Paroles Suffoqués, materializou-se o trabalho da memória como assombração.
Por outro lado, no livro da poeta Danielle Magalhães, vingar implica o trabalho da memória e o trabalho de uma ação por vir, por se realizar na incompletude do futuro. Esses dois eixos lutam e insistem em marcar o caminho poético de Danielle.
A fantasmagoria implica lidar com algo incompleto por natureza, já que é da ordem do vivido como traço incorporado na cultura e na história de um indivíduo. Mas como traço que experimenta a sua ruína, enquanto tentativa fracassada de incorporar uma presença em sua totalidade. Essa submissão registra o apagamento inelutável do processo de assombração. Ele está aí para ser refeito, reinventado, como um outro no seu distanciamento, enquanto revivescência de um trauma. E muitas vezes o trauma pode ser experimentado como apagamento radical. “il y a cendre”, como escreveu Derrida. Trauma que retorna metamorfoseado em mais vida, que sustenta a sobrevida e que engendra imagens preparatórias para uma nova condição de existir.