Márcia Cristina Fráguas (Universidade Estadual do Rio de Janeiro)
Além de artistas fundamentais na constituição do LP (long-playing) como forma artística, que tornou o álbum uma unidade discursiva produtora de uma narrativa, o grupo inglês The Beatles também foi incorporado ao processo antropofágico tropicalista, que os deglutiu com Luiz Gonzaga, a Banda de Pífanos do Caruaru, Roberto Carlos e Jimi Hendrix, para citar alguns exemplos, na constituição de um projeto estético-musical. Em sua carreira solo, Caetano Veloso dialogou de diversas maneiras com o trabalho do quarteto de Liverpool, desde a atribuição do caráter de “canção benfazeja” a “Hey Jude” durante sua prisão em dezembro de 1969 às citações lírico-musicais nos discos Caetano Veloso (1971) e Transa (1972) gravados no exílio londrino, além da adoção de procedimentos artísticos em Araçá Azul (1973) utilizados anteriormente pelos músicos ingleses, sobretudo no disco The Beatles (1969), também conhecido por The White Album. Finalmente, Jóia e Qualquer coisa, ambos de 1975, parecem fechar um ciclo de intenso diálogo cancional entre Caetano Veloso e a obra dos Beatles, como bem ilustrado na recriação da capa de Let it be (1970) no projeto gráfico de Qualquer coisa (1975). O objetivo desse trabalho é revisitar de que modos e em que momentos esse diálogo se evidencia na obra de Caetano Veloso, tensionando e revertendo expectativas a serviço da construção seu projeto cancional.
Palavras-chave: Caetano Veloso; The Beatles; Qualquer Coisa; Projeto cancional; Exílio.