Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Corpo-texto: a mensagem do feminicídio na literatura brasileira contemporânea
TARSILLA COUTO DE BRITO (Universidade Federal de Goiás)
A presença de mulheres assassinadas em narrativas brasileiras da contemporaneidade revela um “inconsciente literário” (derivado do conceito de "inconsciente jurídico" de Shoshana Felman, 2014) posto que aponta para violências estruturais da sociedade brasileira bem como coloca questões estéticas para os modos de representação do feminicídio. Enterre seus mortos, de Ana Paulo Maia (2018), é um exemplo de romance em que o feminicídio não é o tema central, mas participa da construção da alegoria perfeita do massacre produzido pelo Estado em sua marcha para o progresso. O livro Mulheres empilhadas, de Patricia Melo (2018), por sua vez, tem o feminicídio como tema central, e acaba trazendo à tona o modo como o corpo feminino foi transformado em território de disputa análogo ao da terra brasilis desde a colonização. Rita Laura Segato, no livro La guerra contra las mujeres (2018) nos lembra que nas guerras consideradas convencionais, desde o mundo tribal até as guerras formais entre Estados do século XX, a mulher era capturada, como um território era dominado. Ambos, mulher e território, eram apropriados, violados e inseminados. Mas o que a antropóloga chama de guerra contra mulheres diz respeito a um outro tipo de guerra, em que os corpos feminizados (conceito de Verônica Gago, A potência feminista, 2020) são violados publicamente para expor o que nesses corpos foi inscrito como devastação física e moral de um povo ou de uma comunidade cuja representação ancestral é o corpo de mulher (2018, p. 87). Nesse sentido, corpo é texto. Entendendo que a violência contra o corpo feminizado escreve sobre ele, rasura, marca e o ressignifica, as perguntas que me faço são: quais são as mensagens produzidas pelo feminicídio nos textos escritos por mulheres na literatura brasileira contemporânea? Que inconsciente literário se manifesta nesses corpos-textos?
Palavras-chave: Literatura Brasileira; Autoria feminina; Crítica feminista; Feminicídio.
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