Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Cornélio Penna Intérprete do Impensado
LUIZ EDUARDO ANDRADE (Universidade Federal Rural do Semi-Árido)
A escrita de Cornélio Penna não é uma ação contra o tempo, no sentido de Nietzsche, quando este questiona a noção de origem, mas uma tomada de posição “entretempos”, nas palavras de Finazzi-Agrò, fundamental para a compreensão dos regimes da vida, em que os sujeitos precisam conhecer a história e dela se apropriar tanto quanto demarcar um limite para não perder de vista a possibilidade do anti-histórico. Esta comunicação objetiva pensar a condição de intérprete do Brasil, atribuída aqui a Cornélio Penna, sob a chave de leitura do “impensado”, de Eduardo Lourenço. O estudioso português desenvolve esse perspectivismo ao sugerir que a colonização foi impensada em Portugal. Em sentido inverso, mas semelhante, podemos dizer que isso também houve entre nós, brasileiros. Em geral, o passado foi estudado sob a lente de um futuro prometido, sem nunca ter se realizado, ao passo que Penna traduz em seus quatro romances, a partir do “lado de dentro”, os afetos e a memória em questões mais complexas da realização comunitária nacional – até alcançar o impensado da nossa história coletiva. A reflexão promovida por Penna e Lourenço, consideradas as diferenças, abre um corte no tecido da colonização, uma vez que não aposta no congraçamento entre os povos, muito menos na promessa de transcendência ou soteriologia mítica. O mito em Penna é traduzido como morto desde o início, posição diametralmente oposta a estudiosos como Joaquim Nabuco, Gilberto Freyre, Paulo Prado e Sérgio Buarque de Holanda, como se o ficcionista fluminense escrevesse para denunciar a falácia do projeto nacional representado nos afamados intérpretes. Tomado esse pressuposto, concordamos com a crítica de Lourenço sobre as repetições de apologia e ressentimento ideológicos que atravancaram a reflexão de parte da historiografia brasileira – e portuguesa – acerca do mito do colonialismo.
Palavras-chave: Colonialismo; Impensado; Cornélio Penna; Eduardo Lourenço
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