Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
Coautoria: como viver junto no espaço literário
Luciéle Bernardi de Souza (Universidade Federal de Santa Catarina)
Viver com o outro constitui, simultaneamente, nossa individualidade e nossa sociabilidade, e isso, mais do que nunca, foi evidenciado durante a pandemia de COVID-19. Ao tempo que afirmamos a importância da valorização do viver com, do viver junto, temos, no campo literário, a materialização da individualidade estrita, presente no conceito moderno de “autor”, fixada como estritamente individual, burguesa e relacionada com o surgimento da propriedade privada, o que levou Roland Barthes (1968) a declarar a morte desta entidade. À vista disso, objetivando recuperar uma literatura realizada efetivamente (e afetivamente) com o outro, partilhada, em convivência, recordamos obras-espaços que evidenciam o pertencimento e, simultaneamente, o distanciamento entre seus autores. Especificamente, nos centraremos na obra Como se fosse a casa: uma correspondência (2017), realizada em coautoria, em colaboração entre dois poetas, fruto da troca de e-mails entre a poeta Ana Martins Marques e do poeta Eduardo Jorge, durante o período em que o poeta aluga seu apartamento para a poeta. Em Como Viver Junto (2013), Roland Barthes assegura que literatura é o “campo fantasmático” em que o estar junto, o compartilhar tempo-espaço, ao tempo que criar e manter um ritmo próprio, a “idiorritimia” acontece. Objetivando compreender a coabitação entre os autores na (e para a) obra poética mencionada, estendemos a noção de espaço, compreendendo-o metaforicamente enquanto obra literária, língua portuguesa e a própria coabitação da casa -espaço físico- comum entre os autores. Além deste alargamento conceitual, consideramos alguns “rasgos” do viver junto idiorrítimico elencados por Barthes para pensar a obra enquanto uma relação conciliadora (utópica?) entre o individual e o coletivo, ambos permeados pelo afeto. Destacamos o processo de realização do Rhythmós, o Télos, a Anakhóresis (anacorese) enquanto vontade de ruptura, a Xeniteía como recurso para pensar-se alheado ao espaço, no estrangeiro e enquanto uma vontade ativa.
Palavras-chave: Coautoria; Poesia brasileira contemporânea; Viver junto.
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