Anais
RESUMO DE ARTIGO - XVIII CONGRESSO INTERNACIONAL ABRALIC
AS PERIFERIAS DO ROMANCE CONTEMPORÂNEO: UM ESTUDO SOBRE A VOZ CONTADORA DE HISTÓRIAS COMO RECURSO DISCURSIVO EM ROMANCES DE MARIA VALÉRIA REZENDE
Candice Firmino de Azevedo (IFRN)
Partindo de uma escrita comprometida com o entre-lugar (SANTIAGO, 2019), Maria Valéria Rezende articula vozes de pessoas excluídas em seus romances, assumindo eticamente o compromisso com as classes alijadas do poder, a exemplo de pessoas iletradas, loucas, moradoras de rua, idosas, perseguidas por ditaduras etc. Percebemos, então, uma escrita marcada pela preocupação em denunciar as ausências e as privações de que são vítimas mulheres e homens marginalizados de políticas públicas de alfabetização, de moradia digna, de assistência social e médica. Objetivamos, portanto, analisar de que forma essa escrita assume um compromisso ético com as vozes dos excluídos, esquivando-se dos discursos hegemônicos que tentam justificar as desigualdades, ao estabelecer um diálogo com a oralidade. Para tanto, contemplamos os romances “Ouro dentro da cabeça” (REZENDE, 2016a) e “Outros cantos” (REZENDE, 2016b) como parte de um projeto literário que aponta para uma “escrita interessada” (OLIVEIRA, 2013) em articular vozes periféricas como a voz contadora de histórias orais. Essa articulação movimenta forma e conteúdo (BAKHTIN, 2017) ao atribuir lugar de destaque ao espaço que a oralidade pode ocupar dentro do romance. Na arquitetura das obras, a voz narradora é marcada pelos aspectos discursivos de um elemento da cultura popular (o contar oral) historicamente pensado como um fazer de mulheres tidas como faladeiras, tagarelas, restritas ao espaço doméstico das cozinhas do século XIX (WARNER, 1999), portanto, um fazer desqualificado. Sendo o texto oral um elemento de representação das vozes das comunidades (ZUMTHOR, 1997), a escolha de uma voz narradora contadora de histórias nos romances de Rezende indica, portanto, um compromisso com uma escrita interessada em questionar fronteiras, subverter discursos hegemônicos e articular vozes subalternas, tendo em vista a emancipação e a dignidade humana por meio da literatura.
Palavras-chave: Oralidade; Vozes sociais; Subalternidades; Voz contadora de histórias .
VOLTAR