Wladimir Garcia
Se toda a desterritorialização implica território, como querem Deleuze e Guattari, o pensamento move-se no sentido de sua espacialização, em meio aos vetores que configuram seu campo de forças. Neste sentido, é possível avançar dos territórios numéricos, seja na geopolítica que define áreas de domínio (a propriedade, a escola, o Estado, etc.), seja nas operações divisivas dos controles culturais (o cânone, os programas curriculares, a mídia e outras ficções de controle), até uma virtualização das potências simbólicas. É neste outro espaço, virtualizado, que territorialidades imanentes podem-se expressar como resistência ao pensamento presente, com as mediações excludentes sendo substituídas por zonas de intensidade, ou conjunções transformativas, que configuram a contaminação conceitual como processo desencadeador daquele espaço crítico.
Os platôs de tempo de cada configuração histórica que se entrecruzam, anunciam e coexistem, expressando a formação de territórios, suas desterritorializações e reterritorializações, organizam-se e se desconstroem incessantemente, como máquinas que se acoplam, interpõem e capturam. Espaços perpetuamente em construção ou em colapso, onde atuam regimes despóticos ou virtuais que desbloqueiam as contingências em favor de linhas de vôo, como resistência aos dualismos que são o inimigo do pensamento, em favor do pluralismo do território como forma de evitar desesperadamente ser reafirmado no Um ou no unitário, ainda que para isto seja preciso justamente sondar as dualidades, invocar-se uma somente para desafiar outra, reterritorializar sobre as linhas de fuga que não cessam, também, por sua vez, de desestabilizar o instituído. Uma desterritorialização, segundo Deleuze/ Guattari, depende de sua relação como o exterior a partir de um saturamento dos seus milieus internos, ou seja, depende da força de excentricidade capaz de levar à descoberta de sua própria potência. Neste sentido, ela é um poder positivo com diferentes graus de estratos e limiares, e tem na reterritorialização, no novo arranjo dos elementos heterogêneos que agencia, a sua dobra ou complemento. Aí, os movimentos locais demarcam alterações externas: deslocamentos e novas figuras espaciais dependem de relações diferenciais que surgem pela variação nos limiares de intensidade em relação aos outros espaços que o envolvem ou pelos quais cruza. A potência ou virtualidade que vai definir este território é um estado de absoluta desterritorialização, um estado de matéria não formada, energia do caos (Deleuze; Guattari, 1996). Este movimento tem marcado tudo aquilo que envolve a Literatura, no tocante à sua dinâmica espaço-temporal: relação com a tradição, ruptura e vanguardas, formação de cânones e a ética criativa infinita da instituição literária.
Aquilo que habita os territórios é, primariamente, fluxos que operam entre si por conexão, acelerando o espaço comum dividido ou por conjunção, acumulando linhas de vôo, reterritorializando-as em um novo fluxo. Estes movimentos processuais que vimos tratando atuam no próprio devir humano da arte. Sendo assim, o tornar-se outra coisa dá-se por um movimento pelo qual a linha livra a si mesmo do ponto e produz pontos indiscerníveis. O que se busca aqui é uma decodificação dos modos de efetuação da animação dos territórios, ou seja, cifragem e segredo como potenciais de leitura-escritura. Vale frisar, portanto, que o território é inseparável da desterritorialização a que está eventualmente sujeito, da mesma forma em que está o código em relação à sua decodificação. A própria decodificação de cada agrupamento de heterogeneidades do espaço estende-se por fluxos de deslocamento, de um arrastar que é compor. Neste sentido, o território ganha em potência virtual, na medida em que é carregado para o seu fora por aqueles fluxos.
A desterritorialização desprovida aqui de valores morais prévios engendra a sua própria positividade enquanto linha em fuga sempre relativa, mantendo-se atenta ao território, que se pode apresentar como o ser, o livro, um sistema ou um espaço simbólico. O campo dos regimes de significação tende, entretanto, a cristalizar significantes ou significados, reterritorializando-os, direcionando a linha numa curva negativa. Permanece, porém, o caráter duplicado e paradoxal do território: itinerante e aberto, de acordo com as qualidades de multiplicidade nele operantes.
Retomando a divisão inicial vale pensar o espaço enquanto instância de abordagem da sociedade, continente e conteúdo dela. Neste sentido, por meio de variáveis geopolíticas o espaço interioriza o pensamento social, particularmente quando focamos a formação do Estado, o qual investe com uma valoração simbólica o espaço pelos processos econômicos, institucionais e ideológicos. Acrescentam-se, pois, localizações à idéia de lugar, com as variantes do processo produtivo, de natureza simbólica, tais como a concepção, o controle, o poder, a mercadologia e a mídia, operando de acordo com as - desde aí - decorrentes imposições de cânones e de construção de subjetividades inseridas no Estado e no seu sistema produtivo. Sobre o espaço geográfico conjuga-se um espaço de produção de formas, de circulação de valores e de consumo. Territórios aqui, limitados enquanto frações funcionais, são, na nomenclatura deleuziana, segmentares, molares, sistêmicos. Entretanto, como vimos, estas funcionalidades são compostas por linhas e fluxos capazes de desestabilizá-los enquanto sistema. As formas simbólicas, por sua vez, manifestam-se como linguagem, mito e conhecimento, mediando as determinações dos lugares, desenvolvendo uma expressão com valor de nome. É neste sentido que a potência da Literatura, excluindo-se ou pondo-se em fuga das falas tipificadas das estruturas simbólicas, ajuda-nos a pensar a virtualidade. A óptica da arte favorece um distanciamento que leva a uma deriva dos objetos simbólicos; ao conhecimento artístico.
A dimensão apontada pela Arte Barroca, por exemplo, acrescenta virtualidade à arte no sentido de um deslocamento do olhar; do estabelecimento de um código pictório não-linear; da passagem dobrada das formas fechadas às formas abertas; do perspectivismo a uma representação rítmica; da claridade à indeterminação. Dinamizam-se as formas pela instigação de uma lógica de desdobramento e redobramento análoga ao processo que caracterizamos em relação ao território.
O virtual da territorialidade pode ser entendido, conforme aponta Eric Alliez (1996), desde uma analogia com o cérebro-mapa, ou seja, com as máquinas de pensamento humanas e das imagens que as animam. Neste sentido, associar o virtual à territorialidade implica em trazer a negação dos princípios transcendentes que cercam os territórios, ou seja, rejeitar as concepções de esfera, centro e círculo como esquemas organizacionais (lembre-se do peso desta nomenclatura nas instituições culturais). Ou seja, os territórios virtuais criam as condições de possibilidade de um pensamento-acontecimento, de um pensamento que enquanto criação procede por virtualização.
Esta instância virtual não pode se confundir, entretanto, com uma esfera metafísica, tampouco com um mecanismo de representação, antes ela favorece a crítica destas pela experiência como fluxo de sensações e percepções distintas postas em relação. A experiência apresenta-se como movimento de subjetivação que ajusta a imanência ao devir contínuo de intensidades. Neste sentido, este pensamento é ao mesmo tempo um protesto vital contra os princípios.
A virtualidade do território vai repugnar uma compreensão de história factual e progressista para interiorizar o devir histórico e fazer dele seu motor. Ou seja, a história como auto-criação contingente dos homens. Cabe, assim, pensar contra uma Ordem pré-definida, num movimento para fora da esfera de controle das territorialidades de Estado e de suas instituições de preservação dos regimes da apatia (a escola, entre elas), repensando o desejo que vincula o princípio de recusa e de radicalidade em relação aos lugares de controle. Cabe, enfim, seguir a rota de deslocamento propiciada pela virtualidade e pelo descentramento em relação ao papel fundador do sujeito a partir do qual se pensava o mundo.
Referências Bibliográficas
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Wladimir Garcia é professor de Literatura na Universidade Federal de Santa Catarina.
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