A forma poética refletindo questões da modernidade:

uma breve análise

 

Vivian Ignes Albertoni da Silva

(ME/UFRGS)

 

O século XX foi marcado por transformações que viriam a mudar não apenas a forma pela qual a humanidade via o mundo, mas que abriram possibilidades antes inimagináveis de se colocar diante dele. Noções como Realidade, Arte e Estética receberam questionamentos que visavam não apenas traçar-lhes novas formas, mas problematizar-lhes traços que antes eram pensados como essenciais.

A Teoria da Comunicação de Marshall McLuhan e o uso do Estruturalismo como ferramenta corrente nas Ciências Humanas são dois fatores que se destacam nesse novo contexto, e a observação desses elementos na poesia das décadas de 1960 e 70 permite surpreender algumas possibilidades de diálogo propostas pela Literatura quanto às novas dimensões da cultura e da existência humana.

         Guilhermino Cesar, mineiro de nascimento mas gaúcho por adoção, é um caso bastante interessante a ser analisado: sua entrada no mundo da poesia se dá em 1927, como participante do grupo modernista Verde, de sua cidade-natal, Cataguases. Dentre as realizações do grupo Verde estão a publicação de um periódico cultural, a divulgação de escritos modernistas (o próprio Guilhermino teve seu primeiro livro de poemas publicado em 1928, além dos outros componentes, e as obras dos participantes da Semana de 22 também tinham espaço para divulgação, na Revista Verde de Cataguases), o incentivo à produção cinematográfica, ou ao simples gosto pelo cinema, na pequena cidade, e o contato com os modernistas de São Paulo e Belo Horizonte (Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade enviaram textos para a Verde).

         Após essa experiência modernista, os escritos de Guilhermino Cesar passam a incidir sobre áreas como a Crítica Literária, a História e a Historiografia Literária, a Política, a Crônica de Costumes, a Tradução, o Teatro, e, eventualmente, a peças de apenas um ato, contos e poemas esparsos.

         Sua publicação de obra poética é retomada realmente em 1965, com Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa, que gira em torno da experiência portuguesa do autor (que dera aulas na Universidade de Coimbra), e prossegue em 1969, com Arte de Matar, que o próprio autor diz, em depoimento, ser inspirado pela indignação diante da Guerra do Vietnã.

         A influência dos acontecimentos históricos se dá de forma bastante óbvia, nessas duas publicações: uma delas reflete experiências pessoais recentes do Autor, que fala das relações Brasil-Portugal, de questões geogr

'e1ficas e literárias que perpassam espaço-temporalmente os poemas; a outra detém-se no absurdo da guerra, da violência, da condição humana desvalorizada e desrespeitada.

         No entanto, Guilhermino Cesar ainda apresentaria outra forma de fazer sua poesia dialogar com o real-histórico: ela se daria em 1977, ano em que viria a público Sistema do Imperfeito & Outros Poemas, livro do Autor que mais atenção mereceu da crítica nacional, até hoje.

         De fato, a obra preserva a qualidade técnica – musical, vocabular, referencial, estilística – demonstrada pelo poeta em seus trabalhos anteriores, acrescentando a elas temáticas extremamente pertinentes ao momento histórico. Procuraremos acompanhar de que maneira essas temáticas aparecem num poema guilherminiano extraído de Sistema do Imperfeito

 

                             Soledade

 

Cem parelhas de bois; cem mercadores núbios;

cem prostitutas do Mangue, há muito enterradas

na areia de Copacabana; cem lagartos de língua

pensa; donzelas (cem) com os seus véus e a sua

gula de mais vida; cem velhas de Erexim nas pi-

râmides do Egito; cem loucos furiosos e cento e

dez besouros num só quarto. Cem magnólias ao luar

de algum lugar; um sapo, um sapo, um sapo.

                 E o homem?

 

 

O poema constrói uma espécie de imobilidade através de sua forma de bloco, em que a limitação do espaço é levada a extremos – como o corte da palavra “pirâmides”, que é dividida, privilegiando o tamanho desejado do verso –, na aposta feita sobre a força da visualidade e na ausência de verbos que, quando aparecem, estão em sua forma nominal.

Dentro do bloco há uma espécie de sistema de imagens concretas enunciadas de maneira caótica. Assim, aparecem lado a lado coletividades sem relação óbvia, como bois, mercadores núbios e prostitutas. A sensação de movimento surgirá, então, de duas maneiras: ou pelas próprias situações representadas (“cem loucos furiosos e cento e / dez besouros num só quarto” – trecho em que o próprio movimento parece sufocado) ou, e isso é muito relevante para a linha de análise que estamos propondo, a partir do olhar do leitor que se move de um grupo (“cem velhas de Erexim”) para a grandeza do ambiente em que ele está envolvido (“nas pirâmides do Egito”). O movimento se dá no deslocamento da atenção do leitor de um elemento que, apesar de seu caráter de coletividade, é subitamente diminuído pela revelação de que está integrado num todo maior.

Podemos transferir essa última relação mencionada para a maneira como o verso final do poema (“E o homem?”) se apresenta diante do leitor.

O verso final poderia parecer apenas mais um detalhe, se colocado de forma banal; mas ele ganhou destaque ao ser transformado em detalhe estranho ao resto, ao aparecer como elemento final e aparentemente esquecido. A presença do homem no mundo n_e3o só é lembrada, como reforçada: já uma segunda leitura do poema é centrada na procura deste homem – seja qual for a interpretação que o leitor tenha dado à palavra “homem” – a humanidade em geral, o ser humano enquanto espécie, o ser humano do sexo masculino.

O sistema imagético criado pelo poema poderia ser interpretado em si mesmo, no entanto ele adquire outro significado quando confrontado com o último verso do poema: “E o homem?”.. No momento em que termina a leitura, o leitor se depara com esse verso curto e de ritmo muito diverso de todos os anteriores – até por tratar-se de uma pergunta, e não mais de uma enumeração “caótica” de apreciável velocidade, como aquelas às quais fôramos apresentados na leitura do conjunto anterior. Então o leitor se vê obrigado a retomar o texto e reavaliar todo o sistema, procurando justamente o lugar que o ser humano ocupa na estrutura apresentada anteriormente.

         Nesse ponto, pode-se lançar uma especulação sobre a dupla leitura do signo “cem” (numeral ou preposição, “auditivamente”): a escolha do leitor define se ele está diante de um sistema repleto ou de uma estrutura formada por marcantes ausências. Tendo em vista os dois significados ao mesmo tempo, podemos perguntar: o poema nos sugere o homem perdido em meio a um grande labirinto cheio de elementos, ou realça sua solidão, por sugerir a incerteza do lugar que lhe caberia nesse labirinto? Existe ainda uma terceira possibilidade: não seriam todas essas “presenças” em torno do homem a maior causa de sua solidão? O poema exige que o leitor se posicione diante do sistema, a cada leitura.

A solidão já aparece no final do sistema imagético, com a imagem repetitiva de um elemento unitário: “um sapo, um sapo, um sapo”.. Parece que essa referência chega para preparar a percepção do elemento humano que será procurado. No entanto, pelo menos ainda uma outra leitura é possível: se estamos (nós, os leitores) em meio a um ambiente caótico, podemos estar, juntamente com o poeta, tentando contabilizar os elementos – e aí vemos um sapo aqui, outro ali, outro lá.. A velocidade continua, como na parte anterior do poema, e torna ainda mais surpreso o tom da pergunta final: em meio de tantas coisas que se movem, ou de tantos itens surgindo de forma tão veloz, onde está o homem? Em outras palavras, qual é o seu lugar num mundo em que tanta coisa acontece, e tão rápido? 

Existe uma possibilidade de interpretação para “Soledade” que poderia partir da hipótese de que a pergunta do último verso contém não só a dúvida de um eu-lírico perdido em meio ao verdadeiro furacão que descreve (e no meio do qual parece mesmo estar, tanta é a propriedade com que o descreve), mas também uma provocação ao leitor, um desafio com o fim de encontrar o homem em meio a essa quantidade de referências dadas; quem sabe o leitor também está perdido em meio a esse sistema? A impressão provocada pelo poema pode ser esta, tanto pela sua já referida capacidade descritiva quanto pelo desafio feito ao leitor, de embrenhar-se no verdadeiro labirinto em que o texto está para se transformar, devido à presença de tantos elementos aparentemente desconexos lado a lado. Também colabora para essa sensação a força da quantidade, grandeza ou estranhamento dos elementos, dentro de cada conjunto citado (algo como “cem velhas de Erexim nas pi- / râmides do Egito”). Assim, se o sistema pode se transformar num labirinto, pode-se dizer que não foi à toa que o homem se perdeu.

         O poema se constitui de tal maneira que, não apenas o seu conteúdo – a seqüência de elementos que é contrastada com a presença do humano –, mas também a sua forma dá as pistas de um mundo veloz, sobrecarregado de informação, sufocante e labiríntico. Os recursos poéticos utilizados levam a uma amálgama notável entre forma e conteúdo, ambas recriando, no plano da lírica, as configurações e questionamentos do homem que se depara com essa sociedade que se constrói de forma a transformar em incertezas noções fundamentais para a constituição do humano, como identidade – seja ela pessoal, geográfica, histórica, social.    

 

Bibliografia:

Autores gaúchos n° 13 - Guilhermino Cesar. Porto Alegre: Instituto Estadual do Livro, Editora da ULBRA, AGE. 1996.

 

BOSI, Alfredo. Poesia e historicidade. In: O ser e o tempo da poesia. São Paulo: Cultrix / EDUSP, 1977.

 

CESAR, Guilhermino. Sistema do Imperfeito & Outros Poemas. Porto Alegre: Globo, 1977.

 

___. Meia-Pataca. Cataguases: “Verde” Editora, 1928. Escrito em parceria com Francisco Inácio Peixoto.

 

 

___. Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa. Coimbra: Livraria Almedina, 1965.

 

 

___. Arte de Matar. Porto Alegre: Edições Galaad, 1969.

 

 

McLUHAN, Marshal. Os meios de comunicação como extensões do homem: understanding media. São Paulo, Cultrix, 1969

 

 

Verde - Revista de Arte e Cultura. Poemas publicados nos exemplares 1, 2, 3, 4, 5 e número de homenagem a Ascânio Lopes. Cataguases: 1927, 1928, 1929.