Exílios contemporâneos

 

 

Sylvia Helena Cyntrão[1]

 

 

 

“cada vez mais compreendo  Drummond ” [2]

 

 

O tema  exílio , do texto-matriz de Gonçalves Dias, escrito em 1843, aos textos da pós-modernidade, provocará um significativo processo intertextual na lírica brasileira, como será mostrado a seguir nas variantes estético-ideológicas dos poemas selecionados. Esta abrangência na lírica contemporânea traz consigo uma preliminar consciência conectiva, por meio dos quais o trabalho da linguagem a vincula à sociedade e à cultura .

 

Na “Canção de exílio”, de Gonçalves Dias, a temática envolve dois núcleos: um de partida e outro de conciliação. O núcleo inicial mostra desgarramento, descompromisso e uma certa atopicidade. Em outro movimento, conciliatório, o poeta tenta reinverter o vetor inicial: busca então um amparadouro tópico, um reencontro e a possibilidade de reatar com um passado. Essa “canção” matricial será geradora de vários comportamentos do sentir brasileiro, aqui referenciados em três momentos da poética nacional.

 

 

1. “Canção do exílio” de Murilo Mendes

 

 Murilo Mendes retomou o tema do exílio através da paródia, isto é, da inversão do texto-matriz de Gonçalves Dias, com a intenção de produzir efeitos críticos.

 

Canção do exílio

 

Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

 

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

Nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

 

 

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!

 

 

O exílio de Murilo Mendes é um exílio simbólico, pois o lugar de onde fala é a própria terra natal. Sua intenção é a de mostrar a opressão da invasão cultural estrangeira. Pode-se perceber esta denúncia nas duas primeiras estrofes, em que se sucedem, em uma espécie de multiplicação do real, uma série de elementos espacialmente insólitos.

 

A validade deste (conforme classificado anteriormente) poema-paródia está na relação que se estabelece entre o ato poético e estético e os demais atos humanos, em suas causas e conseqüências políticas, sociais e culturais.Uma relação invertida, por isso transgressora do ideário ufanista romântico.

 

 

2. “Uma canção”, de Mário Quintana

 

Defrontamo-nos aqui com uma perspectiva diferente de exílio. A distância físico-geográfica que permeia a “Canção” de Gonçalves Dias transforma-se, dando lugar a um outro tipo de espaço: o do interior do poeta.

 

Uma canção

 

Minha terra não tem palmeiras...

E em vez de um mero sabiá,

Cantam aves invisíveis

Nas palmeiras que não há.

 

Minha terra tem relógios,

Cada qual com sua hora

Nos mais diversos instantes...

Mas onde o instante de agora?

 

Mas onde a palavra “onde”?

Terra ingrata, ingrato filho,

Sob os céus da minha terra

Eu canto a Canção do Exílio!

 

Os dois primeiros versos do poema de Mário Quintana negam os dois símbolos de valor fundamental do poema de Gonçalves Dias, a palmeira e o sabiá. (“Minha terra não tem palmeiras.../E em vez de um mero sabiá...”). O poeta cai, em seguida, num confuso estado de irrealidade, com uma referência onírica a “aves invisíveis” que cantam “nas palmeiras que não há”. O primeiro questionamento que nos vem é: a que terra o poeta, então, quis se referir nesta primeira estrofe? A resposta vem, de imediato, na segunda estrofe, refletindo uma grande angústia existencial: “minha terra tem relógios”.

 

O elemento de valor desta terra está no tempo, sobrepondo-se ao espaço. O poeta constata diversidade de tempos de possibilidades, mas sua busca concentra-se num tempo que não consegue perceber: o momento presente “Mas onde o instante de agora?”. Na terceira e última estrofe a palavra terra apresenta-se com dupla possibilidade interpretativa: o espaço interior de vivência do poeta e/ou o próprio chão em que vive, a terra natal: “Terra ingrata, ingrato filho”.

 

Antecede o verso analisado aquele que, claramente, expõe a inadaptação do sujeito à realidade: “Mas onde a palavra ‘onde’?”. Existe o lamento de não ser acolhido pela “terra” - “terra ingrata”-  mas também a consciência de que, como filho, não busca tampouco esse acolhimento: “ingrato filho”. Mário Quintana empresta ao tema uma nova e inquietante conotação, transformando, ou melhor, acrescentando a idéia de que o exílio físico-geográfico pode ser doloroso, mas o exílio “interior” é o trágico, pois, para ele, não há saída - as possibilidades se fecham, totalmente, na sua incapacidade de compreender e ser compreendido em seu próprio espaço vital.

 

 

3. “laranjas laranjeiras laranjais”,  de AL-Chaer

     ( a  re-significação pós-moderna do mito )

 

Neste diálogo permanente com a tradição do cânone, chamo a atenção para o poema em vias de publicação sobre o tema, “ laranjas laranjeiras laranjais”, do poeta AL-Chaer que incorpora tanto a função de inversão apresentada no poema de Murilo Mendes quanto a tragicidade existencial do poema de Quintana. O poema faz o resgate, via Drummond, da nostalgia inicial de Gonçalves Dias, re-significando os ícones da “canção” matriz.

 

laranjas laranjeiras laranjais

 

no tempo das avós

com suas casas com quintal

e laranjeiras

quando

ainda não tinha espremedor industrial

nem lanchonetes

 

    os sabiás

    musicavam os sucos de laranja

    nas tardes dos netos

 

hoje

ainda tem avós

      mas as laranjas

      vêm escondidas em caixinhas Tetra-Pak

 

  nos shoppings e nos restaurantes

      o suco de laranja

      vem protegido por seguranças

      e walkie-talkies

 

   lá no centro da cidade

      as lanchonetes apressadas

      vendem laranjada

      espremida por um moço que usa luvas e gorro

 

um inverno rigoroso

castigou os laranjais no hemisfério norte

 

e daí?

 

 não planto laranjas

 

 as frutas cítricas

 já começam a causar acidez em mim

 

 a cidade só tem pardais

 

 minha avó

          “é apenas uma fotografia na parede”

 

 

no museu de ornitologia

os estudantes

   vêem um sabiá

 

           empalhado

     com o tempo

                

                cada vez mais eu compreendo Drummond

 

 

 

A poética do espaço e a poética do tempo são, ambas, componentes da poética existencial de AL-Chaer. Utilizando-se de deslocamentos espaciais e remissões temporais, o poeta re-liga o passado, presentifica a realidade  e aponta para o futuro.

 

 

O verso "Minha avó é apenas uma fotografia na parede" dialoga com  "Confidência do itabirano" e com "Cidadezinha qualquer", de Carlos Drummond de Andrade. Além da "fotografia na parede “, o poeta  é trazido também por outro verso, desta vez não em apropriação, mas implicitamente  -"Êta vida besta, meu Deus" -  ,  do  poema "Cidadezinha qualquer". Só que a “vida besta” é agora a do espaço  urbano cosmopolita. Natureza x civilização; tradição x modernidade; liberdade x cerceamento ; composição (família) x a fragmentação dos (shoppings)  são os temas abordados para expor a desreferencialização do real  conhecido e a dessubstancialização pós-moderna do sujeito , cujo ícone maior no poema é a laranjada.

 

“laranja laranjeiras laranjais” remete também ao clássico drummoniano "Nova canção do exílio" . Este último  concentra as reflexões do poeta em dois elementos básicos, o sabiá, representando o espaço do bom, e o longe, o tempo mais feliz: "um sabiá/ na palmeira, longe/ estas aves cantam /um outro canto”.  Neste intenso diálogo do imaginário, podemos dizer  que o sabiá e a  fotografia de AL-Chaer e de Drummond apontam para uma mesma significância concentrada na lúcida nostalgia do "longe": o passado tempo das avós.

 

Nesta sua “canção de exílio” do Terceiro Milênio, o  poeta AL-Chaer realiza o que Habermas chamou de “crítica emancipatória”, pela via do simbólico .Uma forma particular de racionalidade interessada,  na  identificação de suas dificuldades; racionalidade esta só conseguida pelo confronto do eu com sua alteridade coletiva. Nesse momento o sujeito sai do lugar da vítima lamentosa, num processo de estranhamento  que “começa” a libertar (... começam a causar acidez em mim ).

 

Uma leitura ideológica lembraria Marx em sua visão de temporalidade, para quem todo valor é uma questão de tempo. A importância desse poema, com a retomada de um dos mais fortes mitos identificatórios da nação Brasil se concentra no verso “e daí?” , quando a consciência em expansão (e , de novo, o eu no presente imediato ,“não planto...” ), re-unida à realidade, dá  força e legitimidade à voz do sujeito capaz , não só de “ver-se”, mas, sobretudo, de “ falar-se”, “falando para” . A confirmação de sua auto- afirmação progressiva  se dá no verso final – compreendo “cada vez mais”. E ...quem compreende  transforma; abre-se a possibilidades, por mais que a nota nostálgica e algo triste ainda permaneça por algum tempo.“laranjas laranjeiras laranjais” integra, portanto, a linhagem  ideológica e instigadora dos poemas sobre a identidade do ser cultural brasileiro mitopoetizado.

 

A “Canção de exílio” matriz mitificou-se através dos tempos e podemos percebê-lo pelas  inúmeras composições que revigoraram os mitos espacializados de identidade cultural por ela propostos, das quais destacaramos as presentes três. Há que se refletir muito sobre este fato. Não somos os primeiros a fazê-lo, nem seremos os últimos. O tema desdobra-se  enquanto o estar existencial for a fundação inexorável do ser que busca  identificar-se e reconhecer-se  no tempo e no espaço.

 

 

 

Referências bibliográficas

 

BAKHTIN, Mikhail.  Marxismo e filosofia da linguagem.  São Paulo: Hucitec, 1997.

 

BOSI, Alfredo. Dialética da colonização.  São
Paulo: Companhia das Letras,   1992

 

CYNTRÃO, Sylvia Helena, CHAVES, Xico.  Da Paulicéia à centopéia desvairada (As vanguardas e a MPB).  Rio de Janeiro:  Elo Editora, 1999.

 

DURAND, Gilbert.  O imaginário.  Rio de Janeiro: Difel, 1998.

 

EAGLETON, Terry, et alli.  Nationalism, colonization and literature.  Minneapolis: University of Minesota Press, 1992.

 

HABERMAS, Jurgen. Conhecimento e interesse. Riode Janeiro: Editora Guanabara, 1987

 

HALL, Stuart.  A Identidade cultural na pós-modernidade.  Rio de Janeiro: DPeA, 1998.



[1] Sylvia Helena Cyntrão é doutora em Literatura brasileira. Professora adjunta da  Universidade de Brasília. Editora da Revista Cerrados do Programa de Pós – graduação em Literatura da UnB. Poeta.

 

[2] Do poema “ laranjas laranjeiras laranjais” , de AL-Chaer, no item 3 deste texto.