Stefan Zweig no exílio brasileiro: a visão de um país do futuro

 

Rosani U. Ketzer Umbach (UFSM)

 

A  literatura de exílio, também denominada literatura de emigrantes, consiste de obras literárias, cujos autores tiveram de abandonar seu país por motivos políticos ou religiosos, ou que o deixaram por decisão própria, por se sentirem ameaçados pelas circunstâncias opressoras. Algumas vezes, também são consideradas como literatura de exílio as obras de autores não exilados, as quais só puderam ser publicadas no exterior.

 

A literatura de exílio existe desde tempos remotos. Autoritarismo de Estado, censura, repressão à escrita ou expatriação levaram ao exílio escritores, artistas e cientistas desde a  Antigüidade (Ovídio), passando pela Idade Média (Dante), pelos séculos XVI e XVII devido às guerras religiosas, pelo século XVIII, em cujo final as perseguições políticas passaram a ser o principal motivo, até a atualidade. O século XX, aliás, pode ser considerado o século da literatura de exílio, pois o número de escritores e artistas, entre outros, que tiveram de abandonar seu país por motivos políticos, aumentou enormemente em todo o mundo.

 

No século XX, a literatura de exílio escrita por alemães ocupa uma posição especial e refere-se às obras de autores que fugiram da dominação nacional-socialista, que persistiu de 1933 a 1945. A emigração dos intelectuais de língua alemã ocorreu em dois momentos: o primeiro foi em 1933, depois da ascensão de Hitler ao poder e, sobretudo, depois do início da perseguição aos escritores alemães, simbolizado pela publicação, na imprensa, de uma „lista negra“ de 44 escritores de língua alemã, considerados indesejáveis pelo regime, e pela „Bücherverbrennung“, a queima de livros em cidades universitárias no dia 10 de maio de 1933; o segundo momento corresponde aos anos de 1938 e 1939, quando principalmente intelectuais austríacos emigraram devido à anexação da Áustria e Tchecoslováquia e ao início da II Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, muitos emigrantes que viviam em outros países europeus agora ameaçados pela Guerra empreenderam uma segunda fuga para além-mar. Surgiram, então, novas editoras, jornais e revistas de emigrantes, por exemplo em Amsterdam, Londres, Praga, Nova York e cidade do México. A literatura de exílio publicada nesses meios de divulgação tinha, nas suas diversas formas, uma coisa em comum: a oposição incontestável ao nacional-socialismo.

 

A oposição ao fanatismo ideológico existente na Alemanha nazista também caracteriza a obra de Stefan Zweig, nascido em Viena em 1881. Ele estudou em Berlim e Viena, viveu como escritor autônomo na maior parte do tempo em Viena, embora empreendesse longas viagens ao exterior. Durante a I Guerra Mundial, viveu na Suíça e, a partir de 1919 até 1935, em Salzburg, na Áustria. Stefan Zweig fez parte da „lista negra“ de autores de língua alemã, entre os quais também estavam Bertolt Brecht, Alfred Döblin e Heinrich Mann, por exemplo, cujos livros foram retirados das bibliotecas e livrarias e queimados em praça pública pelos nazistas em 1933. Em 1938, emigra para a Inglaterra, de lá para os Estados Unidos e finalmente, em 1941, para o Brasil. Deprimido com a situação de barbárie na Europa durante a II Guerra,  Zweig suicida-se juntamente com sua mulher em fevereiro de 1942 em Petrópolis, Rio de Janeiro.

 

O poliglota Stefan Zweig era, em seu tempo, um mediador entre as nações, sendo considerado o típico literato europeu. Apresentou-se desde sua juventude como tradutor de Verlaine, Baudelaire e sobretudo de Verhaeren, publicando em 1901 suas primeiras poesias sob o título “Cordas prateadas”. Tanto sua obra épica como suas miniaturas históricas e os trabalhos biográficos o tornaram famoso. Ele foi um dos autores mais lidos de sua época, certamente devido à sua prosa cheia de nuanças e extremamente cultivada, mas de fácil leitura. Seus livros foram traduzidos para todas as línguas culturalmente importantes. Seus ensaios sobre Hölderlin, Kleist, Nietzsche e Balzac, entre outros, evidenciam a complexidade e a abrangência do espírito europeu, além de pistas psicológicas dos perigos aos quais os gênios estão expostos. As biografias históricas, entre as quais “Fouché” e “Erasmus von Rotterdam” dão mostras de uma postura profundamente humanística do autor. Em 1944, surgem suas memórias, publicadas postumamente sob o título “Die Welt von gestern”, uma obra em prosa sobre uma época que já passou.

 

Stefan Zweig descreveu, já no exílio, o pesar com que deixou Viena, sua cidade natal, em um texto intitulado „Abschied von Wien“ (Despedida de Viena).[1] É uma narrativa que mostra o absurdo da perseguição de Hitler aos judeus, os quais foram obrigados a deixar suas casas, seus pertences, sua pátria, seus passaportes e, não raras vezes, seus familiares – o próprio Zweig não tornou a ver sua mãe de 84 anos de idade, que havia ficado em Viena e morreu pouco depois.

 

No exílio brasileiro, em Petrópolis, Stefan Zweig escreveu „Brasilien – Ein Land der Zukunft“ (Brasil – Um país do futuro, 1941), em que aborda aspectos da história, economia e cultura do país. Seu objetivo não é apenas tentar explicar o presente a partir do passado, é sobretudo mostrar o Brasil como um modelo que se opõe à autodestruição resultante do fanatismo ideológico dominante na Europa durante o nazismo. Em meio à II Guerra Mundial, Zweig vê no Brasil possibilidades alternativas, direcionadas para o futuro. A Europa, ao contrário, mesmo tendo infinitamente mais tradição, teria menos futuro[2], pois lá haveria um dinamismo exagerado, que levaria à concorrência e finalmente à guerra entre uma nação e outra. Entre as características tragicamente superestimadas, na época, como valores morais de um povo, o autor aponta a energia, a veemência e o dinamismo.[3] Tendo sofrido pessoalmente as conseqüências dessas exaltadas tensões psíquicas, dessa avidez e fúria do poder” sob o Nazismo europeu, Zweig aprecia, no Brasil, justamente “essa forma de vida mais suave e serena”, que considera como alívio e felicidade.[4]

 

Sua imagem positiva do Brasil não o impede, entretanto, de ver o baixo nível de vida da maioria da população, o ainda incipiente desempenho industrial, o atraso tecnológico e a burocracia administrativa do país. Mesmo assim, Stefan Zweig aposta no Brasil como modelo de um novo futuro para a civilização com base em duas características que seu povo apresentaria: o caráter pacífico e a postura humanista.[5] Da mesma forma que Theodor Adorno[6], filósofo da Escola de Frankfurt, Zweig denuncia a primazia do conhecimento tecnológico em detrimento de valores humanistas, afirmando, ainda, que a organização e o conforto material de um povo não são sinônimos de „civilização“ e „cultura“:

 

Nós vimos que um alto grau de organização não impediu que povos utilizassem essa organização unicamente no sentido da bestialidade ao invés de no sentido da humanidade, e que nossa civilização européia abandonou a si própria por duas vezes no decorrer de um quarto de século. Assim, não estamos mais dispostos a reconhecer uma hierarquia que leve em conta a potência industrial, financeira, militar de um povo, mas, sim, de estabelecer, como medida da exemplaridade de um país, o seu caráter pacífico e sua postura humanista.[7]

 

 

O autor vê o Brasil como um país “que odeia a guerra”, apontando para o fato de que, com exceção “daquele Episódio do Paraguai” provocado por um “ditador enlouquecido”, o Brasil teria resolvido todos os seus conflitos de fronteira com os vizinhos, valendo-se de acordos amigáveis e apelos a tribunais internacionais.[8] Além disso, salienta Zweig, “[n]unca a paz do mundo esteve ameaçada por sua política e, mesmo em um tempo incerto como o nosso, não se consegue imaginar que esse princípio fundamental de seu pensamento nacional, essa predisposição para o entendimento e a compatibilidade, pudesse se alterar algum dia”.[9] Do ponto de vista do autor, a postura do Brasil no contexto internacional, essa predisposição para a conciliação, essa atitude humana não se deve apenas aos seus governantes. Seria muito mais o “produto natural do caráter de um povo, da tolerância inata do brasileiro”.[10]

 

É com base nesses pressupostos que, em meio à II Guerra Mundial, Stefan Zweig acredita no Brasil como “um país do futuro”. Transtornado com o rumo dos acontecimentos na Europa, onde o nazismo se alastrava, tentando subjugar o maior número possível de países, o autor afirma que, se a civilização no velho mundo realmente se autodestruir, saberá que “aqui [no Brasil] uma nova está em formação, preparada para tornar realidade, mais uma vez, tudo aquilo que as gerações intelectuais mais nobres na Europa em vão desejaram e sonharam: uma cultura pacífica e humana”.[11]

 

Passados mais de sessenta anos, os ideais humanistas de escritores como Stefan Zweig continuam atuais, e sua divulgação se torna necessária em um mundo cada vez mais egoísta, explorador, conflituoso e cheio de preconceitos, em que países tentam impor seus padrões e valores sobre os outros, desenvolvendo uma predisposição para a guerra e a violência, ao invés de uma “predisposição para o entendimento e a compatibilidade”.[12]

 

Bibliografia

ADORNO, Theodor: Educação após Auschwitz. In: ____. Sociologia. São Paulo: Ática, 1986,

      p.33-45.

SCHWARZ, Egon; WEGNER, Matthias (Hg.): Verbannung. Aufzeichnungen deutscher

     Schriftsteller im Exil. Hamburg: Christian Wegner, 1964.

ZWEIG, Stefan: Schachnovelle. Frankfurt a.M.: Fischer, 1990.

______. Brasilien – Ein Land der Zukunft. Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1984.



[1] Publicado em Schwarz, E.; Wegner, M. (Hg.): „Verbannung. Aufzeichnungen deutscher Schriftsteller im Exil“. Hamburg: Christian Wegner, 1964, p. 39-45. Agradeço a Elcio Loureiro Cornelsen a indicação desse texto.

[2] Stefan Zweig, „Brasilien – Ein Land der Zukunft“. Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1984, p. 169 (Tradução minha).

[3] Idem, p. 16.

[4] Idem, ibidem.

[5] Idem, p. 16-7.

[6] Por exemplo em „Educação após Auschwitz“. In: „Sociologia“. São Paulo: Ática, 1986, p. 33-45.

[7] Stefan Zweig, „Brasilien – Ein Land der Zukunft“. Frankfurt a.M.: Suhrkamp, 1984, p. 17.

[8] Idem, p. 17-8.

[9] Idem, p. 18.

[10] Idem, ibidem.

[11] Idem, p. 70-71.

[12] Idem, p. 18.