David Cronenberg – Identidade nacional ou gênero cinematográfico?

 

Autora: Rosângela Fachel de Medeiros
 (Mestre em Literatura Comparada – UFRGS)

 

A produção cinematográfica do canadense David Cronenberg encontra-se em um espaço intervalar no polissistema cinematográfico. Realizando a quase totalidade de suas produções no Canadá, ele não pertence nem ao sistema cinematográfico dos Estados Unidos nem ao europeu, mas sofre a interferência de ambos. E com certeza seu distanciamento desses dois pólos, bem como, sua decisão em manter-se sempre filmando no Canadá, impõe a sua obra uma perspectiva diferenciada e única. Apesar disso apenas recentemente a questão da identidade nacional em sua obra começou a ser investigada, tendo sido expatriado, durante muito tempo, dos estudos e discussões acerca da produção cinematográfica de seu país. As primeiras reações da crítica canadense frente a seus filmes foram de considerá-los ruins e decadentes. Contudo, sua reputação consolidou-se e cresceu em outros países e gradativamente sua obra vem recebendo o status de objeto de análise acadêmica.   

Aspecto de extrema importância em relação a Cronenberg é sua condição de autor[1], “um cineasta que se expressa, que expressa o que tem dentro dele”.[2] Freqüentemente o autor cinematográfico acumula as funções de argumentista-roteirista e realizador, havendo, contudo, uma predominância no último. O destaque à função de realizador parte do pressuposto de que é no momento da invenção das imagens que o filme nasce. Ou seja, de que a ação do autor revela-se mais notoriamente através de sua mise en scène.[3] No caso de Cronenberg, desde o início de sua carreira ele assina quase todos os roteiros de seus filmes ou divide essa autoria, como em A mosca e Gêmeos: mórbida semelhança. As únicas exceções são A hora da zona morta, M. Butterfly e Spider nos quais, todavia, os roteiros de outros autores, não impedem que a marca do realizador se faça presente. A essência autoral expressa-se em um filme principalmente através da matriz, uma espécie de “viga mestra”, de “idéia mãe” recorrente que é reconhecível no conjunto da obra de um cineasta.

O reconhecimento do interesse marcante e recorrente de Cronenberg pelo corpo humano, por seu desmembramento, por suas vísceras e órgãos (elementos fundamentais a sua produção) proporcionou à crítica delimitar sua obra em um espaço fechado e culturalmente subjacente, denominado cinema de terror ou de horror. Desta forma, a abordagem da obra de Cronenberg em estudos acadêmicos iniciou-se através de sua classificação nesse gênero de filmes, um sistema periférico dentro do polissistema cinematográfico, cujos modelos e repertórios convencionalmente absorvem as imagens extremas, tão freqüentes na produção do cineasta. Ele é então associado a vertente do cinema de horror inaugurada pelo filme A noite dos mortos vivos, 1968, de George Romero, que se fundamenta na destruição e na violação do corpo. As obras cinematográficas do horror contemporâneo especializaram-se em tornar visível o interior do corpo, puxando o espetáculo interior para fora até o limite como se ansiassem por descobrir qual é esse limite. Nesse aspecto a obra de Cronenberg tem sido associada e comparada a de realizadores como: George Romero, Wes Craven, John Carpenter, Larry Cohen e Dario Argento (produtores de filmes de terror de baixos custos). Mas é com certeza na obra de Cronenberg que se encontram os exemplos mais extremos. Em seus filmes o corpo humano está liberto de padrões biológicos e sociais e a representação grotesca[4] e abjeta[5] chega a estágios nunca dantes imaginados. Como na fusão completa entre o orgânico e o inorgânico apresentada em Videodrome e em eXistenZ. Ou na degradação do corpo humano, que vai se decompondo durante o processo de transformação em híbrido homem-mosca, em A mosca. No fascínio pela beleza interna do corpo, pelos órgãos e pela mulher “mutante”, que leva os irmãos Mantle, em Gêmeos: mórbida semelhança, à morte através da auto-evisceração. Ou ainda, nas inesquecíveis cabeças explodindo em Scanners: sua mente pode destruir.

 Em artigo publicado acerca da produção cinematográfica do gênero, Jorge Coli[6] pergunta-se: “Quais as fontes novas para os filmes de terror?” Ao que ele mesmo abre uma exceção: “É preciso tirar fora o caso muito particular da obra de David Cronenberg, original e poderosa, com sua mistura de sexualidade visceral e de desventramentos abomináveis”. A importância de Cronenberg, bem como, seu diferencial em relação aos demais produtores do gênero é destacada pelo diretor John Carpenter: “Cronenberg é melhor que o resto de nós combinados”.[7] A obra de Cronenberg é então considerada como uma renovadora do gênero de horror, que vem revigorar essa tradição. Apesar dessa aparente facilidade em enquadrar as produções de Cronenberg no gênero de horror, Bart Testa[8] contesta essa classificação, pretendendo demonstrar que a origem dos modelos (repertórios) presentes em seus filmes vem realmente da ficção científica, encontrando-se então no limiar do gênero de horror, pois utiliza o corpo humano como cenário de seu espetáculo, o que é um domínio usual do gênero.

Como se vê, a impossibilidade de situar os filmes de Cronenberg em um gênero (sistema) cinematográfico específico é uma das grandes dificuldades imposta por sua obra a audiência e a crítica. O amálgama de repertórios pertencentes a diversos gêneros e a transgressão desses modelos resulta em filmes que perturbam a lógica construída pelo mainstream hollywoodiano. Mas é precisamente essa inquietação gerada por suas obras o que as tornam tão instigantes e fascinantes. E talvez o mais elucidativo não seja tentar demarcar limites de passagens em que suas obras possam ser reconhecidas e enquadradas, mas efetivamente reconhece-las enquanto espaços reconstruídos, fragmentados e multifacetados nos quais se manifesta a real identidade canadense do cineasta. E a classificação de seus filmes, por parte dos críticos, como pertencente ao gênero de horror pode ser uma maneira de burlar a impossibilidade em situa-los em termos de sua nacionalidade canadense. Apesar de ser internacionalmente conhecido e cultuado como diretor de filmes de horror, David Cronenberg é também um cineasta canadense: “Eu sou um diretor canadense e, de fato, eu penso que nós temos aqui alguns cineastas realmente talentos, entre os melhores do mundo”.[9] Desta forma, investigar as ramificações de nacionalidade em sua obra é penetrar mais profundamente em territórios como autoria, gênero cinematográfico e identidade nacional.



[1] A idéia de uma política de autor cinematográfico está diretamente ligada ao universo literário, o cineasta sendo considerado semelhante a um escritor e seu filme, a um romance. Tal política foi propagada pela revista francesa Cahiers du Cinéma na década de cinqüenta. A idéia de filme de autor está ligada também à multiplicidade de funções, dentro da produção, assumida pelo diretor, que pode ser ao mesmo tempo (e não necessariamente tudo ao mesmo tempo) argumentista, roteirista, encenador, montador e ainda responsável pela decupagem e por orientar a fotografia.

[2] BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema: a política dos autores: França, Brasil anos 50 e 60. São Paulo: Brasiliense: Editora da Universidade de São Paulo, 1994, p. 22.

[3] A mise en scène é “mais que uma colocação em cena, uma encenação, trata-se de uma colocação em imagem; (...) ela envolve os elementos que contribuem para a elaboração dos planos (quadros, movimentos de câmera, iluminação, marcação e direção dos atores, aproveitamento cenográfico e dos objetos de cena, etc.), mais do que, embora sem excluir, a montagem, a música, ruídos e diálogos”. BERNARDET, op. cit., p.57

[4] Utiliza-se o termo grotesco a partir das colocações de Bakhtin. BAKHTIN, Mikhail. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1999.  

[5] O termo abjeto aqui referido alude a teoria da abjeção proposta por Julia Kristeva.

[6] COLI, Jorge. Túmulo aberto: corpo e espírito no cinema de terror. Caderno mais, Folha de São Paulo,  São Paulo, 09/10/2000.

[7] John Carpenter, citado em: RODLEY, Chris. Cronenberg on Cronenberg, London: Faber and Faber, 1997. p. xvii

[8] TESTA, Bart. “Technology’s Body: Cronenberg, Genre, and the Canadian Ethos”, Post Script 15:1 (autumn 1995). Disponível em: <www.cronenberg.freserve.com.uk>.

[9] MENDIK, Xavier. “Logic, creativity and (critical) misinterpretations: an interview whit David Cronenberg”. In: GRANT, Michael (editor). The Modern Fantastic: the Films of David Cronenberg. United States: Praeger Publishers, 2000, p. 182.