Ronaldo Machado[1]
A pergunta pelo valor da obra de Cyro Martins (1908-1995) é respondida pela avaliação do lugar que ela ocupa na história da literatura sul-rio-grandense, pois o acento qualitativo da obra martiniana - postulo - se dá pelo projeto e no conjunto literário e ensaístico que se efetivou em mais de sessenta anos de produção intelectual. E do todo de sua obra, destaca-se a atenção que dispensou ao regionalismo, fazendo dele tanto ancoradouro para sua prosa de ficção, como objeto de análise crítica.
A opção pelo tema regional, desde os contos de Campo fora, livro de estréia de 1934, até a última publicação, Páginas soltas, coletânea de ensaios de 1994, levou Cyro Martins a estabelecer durante todo esse tempo uma lúcida e consistente reflexão acerca das questões de ordem literária, cultural, histórica e sociológica que perpassam a região da campanha sul-rio-grandense. Daí poder-se dizer que a obra martiniana se sustenta pelo seu conjunto, que reduzindo a distância entre ficção e ensaio, entre criação literária e análise socio-cultural, estabelece uma ampla reflexão sobre a dinâmica social sulina, tendo sempre o homem e suas circunstâncias como centro de atenção. Daí as constantes aproximações e comparações entre ficção e psicanálise que o autor empreendeu, como a seguir:
A grosso modo, pode-se dizer que o psicanalista trabalha na base do passado e do presente do paciente ajudando-o a acumular material para a construção do seu futuro. O escritor, por sua vez, opera gradualmente com o seu passado e o seu presente, assim como com a história do seu povo, com a qual se identifica, com a finalidade de extrair dessa tessitura efeitos estéticos e éticos, capazes de influir para novas concepções de vida, que elevem o existir humano a um plano de dignidade, próprio de seres racionais e inteligentes.[2]
Essa perspectiva humanista se efetivou, no trato com a história e a memória, individual e coletiva. O cuidado com o lembrar, trazendo as experiências coletivas e individuais para o centro mesmo de sua obra, tem para Cyro Martins lugar privilegiado, sendo o que realmente alicerça o percurso e o conjunto de sua criação, desde os primeiros contos até os últimos ensaios psicanalíticos de Caminhos, 1993, passando pela trilogia do gaúcho a pé (Sem rumo, 1937; Porteira Fechada, 1944; Estrada Nova, 1954). Nesse conjunto, o autor configura na ficção e no ensaio o discurso da memória, onde a dialética passado/presente é observada e examinada pela visão humanista do escritor e psicanalista.
Cyro Martins efetivou esse projeto crítico-ficcional, que sustenta o postulado humanista, dialogando com a ficção dos primeiros regionalistas. Isto é, escreveu não só a partir de um universo de referências históricas e culturais que têm por base sua experiência da campanha, como adolescente, ou depois como médico, mas também na (re)leitura da tradição literária sul-rio-grandense, com ênfase em Simões Lopes Neto e Alcides Maya. Esse cabedal de leituras regionalistas será redimensionado por Martins a partir da psicanálise, na medida em que esta lhe fornecerá um instrumental conceitual e analítico com o qual irá afinar seus pontos de vista críticos e sua obra de ficção, sendo que isso se revela de modo específico na novela O Príncipe da Vila, de 1982.
Assim, leitor entusiasta da tradição regionalista, Cyro Martins efetivou - como quero demonstrar - pelo conjunto ensaístico e ficcional de sua obra, a síntese crítica do regionalismo gaúcho, permitindo sua permanência e renovação nas letras da província.
Constante e consistente leitor da tradição regionalista, Cyro Martins a ela se vinculou afetiva e intelectualmente, ficando dessas leituras profundas e importantes marcas que se revelam explicitamente em seus ensaios críticos e de forma intertextual em sua obra ficcional.
A geração dos homens tristes de saudade[3], que em Alcides Maya, por exemplo, figura o espaço da campanha sulina pela retórica grandiloqüente das suas páginas barrocas, comparece de modo seminal na prosa martiniana. Dai que destacando o poder evocativo que a exuberância poética de Alcides Maya lhe suscita, Cyro Martins saberá recortar e transfigurar justamente o que esta latente nesta obra: a dramatização do início do processo de marginalização do gaúcho.[4]
Sem descer à enumeração das características e sem entrar no enredo propriamente dito de Ruínas Vivas, direi apenas que o argumento primordial do romance, como, de resto, de vários de seus contos, repousa no drama dos gaúchos desaclimatados. Não, por certo, de todos os gaúchos, mas dos inconformados, por incapacidade de aceitação, com a renúncia forçada às liberdades da “vastidão querida”, em face do avanço dos novos métodos de trabalho e de hábitos de existência que, pressentiam eles, imperariam num futuro próximo, transformando os outrora altaneiros monarcas das coxilhas em pobres gaúchos a pé da beira da cidade.[5]
Do clima de reminiscências que identifica na obra de Alcides Maya, dos painéis que geram efeitos nostálgicos, o constante retorno dos quadros de retirada, os derivados da saudade[6], Cyro Martins transfigurará a saudade em crítica social e concomitante reflexão sobre a condição humana.
A perspectiva ética de Martins, que transfigura a saudade contemplativa em denuncia social, se consubstancia pela ressimbolização da história e dos emblemas regionais - a campanha, a tapera, o cavalo, o trabalho campeiro,... - que de estampas enrijecidas e nostálgicas se tornam imagens vivas que esclarecem todo um processo histórico em curso: o processo de modernização do modo e das relações de produção na campanha sulina.
Essa perspectiva que dá a característica fundamental da obra martiniana, faz também a síntese das questões postas a toda uma geração de escritores, pela íntima junção que estabelece entre literatura e compromisso ético, entre escritor e sociedade. Com bem apontou Donaldo Schüler em relação ao romance de 30:
As contradições requeriam decisões. Já não se tolerava a serena contemplação de paisagens pitorescas como ainda se fazia no início do século ou o encanto com sonoras combinações verbais. embaladas em engenhosos arranjos rítmicos. O que se fazia e pensava, passava por atenta observação crítica. Não havia espaço para a inocência e a isenção.[7]
E será exatamente esse compromisso entre o artista e seu meio, entre o indivíduo e a sociedade, que dará a obra de Cyro Martins, a partir da memória e do imaginário do regionalismo, por um lado, o apego ao “terruño”, ao particular, expresso na escolha dos temas, na linguagem localizada, e por outro, a partir da psicanálise, a inclinação reflexiva sobre a condição humana, que pertence ao universal.[8] Ou, como o próprio autor declarou a respeito da importância da literatura regionalista em sua formação intelectual: - Afinou minha sensibilidade para a pesquisa da alma humana, sobretudo porque nunca fiz regionalismo no sentido pitoresco e sim para buscar o que havia de universal naquele homem singular que era o gaúcho a pé.[9]
Dessa forma, na obra martiniana o binômio local-universal, se localiza no ponto exato onde convergem as lembranças da infância e da juventude (as estampas e perfis, de Rodeio, de 1976; as histórias vividas e andadas do volume de contos A Dama do Saladeiro, de 1980), a leitura da tradição regionalista e a formação psicanalítica. Essas vertentes tomam corpo em uma obra onde se cruzam e intercruzam a ficção, o ensaio, a memorialística e a crítica, com o fim de atender às inquietações do intelectual que, percebendo todo um processo de transformações sócio-econômicas, busca entendê-lo no momento mesmo de seu desenrolar. Dai, percebendo o descompasso entre história e literatura - como demonstro a seguir - o autor de Quaraí buscará efetivar, pelo conjunto da obra, uma síntese crítica do regionalismo.
Como nossa estratificação social era frágil, desmanchou-se quase que completamente ao influxo desses elementos novos e estranhos. Atravessamos agora uma fase de apressada incorporação do que se diz e se pensa por lá, “na cidade”, lá onde se constróem as máquinas e as teorias, ao nosso apagado lastro de tradições. Não nos sobram mesmo vagares para nos demorarmos na contemplação da nossa silhueta histórica. Todos os nossos minutos são escassos para a tirânica presença do instante. Não obstante, firmemos o olhar por uns momentos na mutilada imagem da nossa literatura regionalista. Com efeito o regionalismo rio-grandense não se completou, não fechou o seu ciclo, nem atingiu o estágio propício à obra-prima, ao grande livro-síntese. E nem faremos mais esse livro. Ficaremos para sempre sem o nosso Dom Segundo Sombra.[10]
Assim, o desejo subjetivo e o compromisso ético com a cultura local levam Cyro Martins a indicar e formular o problema que irá enfrentar: a necessidade de levar adiante a matriz literária regionalista, renovando-a a partir das novas questões suscitadas nas décadas de trinta e quarenta.
A perspectiva crítica de Cyro Martins se esboça já em 1935, ano do centenário farroupilha, quando, na Semana do Cobertor de Quaraí, utiliza primeira vez a expressão gaúcho a pé, para se referir ao tipo social em formação desde a década de vinte na campanha gaúcha, ou seja, o trabalhador rural (peão, arrendatário, agregado, ...) descartado do processo de modernização da pecuária extensiva. E será essa metáfora, a do gaúcho a pé, que vira a caracterizar as personagens dos seus romances seguintes: Chiru de Sem rumo (1937), João Guedes de Porteira Fechada (1944) e Janguta de Estrada Nova (1954).
Mas é em 1944 que apresenta de forma precisa e clara a consciência desse problema para o projeto literário que efetivava, quando na então Faculdade de Direito de Porto Alegre, Cyro Martins profere a conferência Visão Crítica do Regionalismo[11].
Nessa oportunidade, pouco depois do lançamento de Porteira Fechada, segundo romance da que viria a ser chamada de trilogia do gaúcho a pé, Cyro Martins discute de forma crítica, e com bastante propriedade, o tema do regional na literatura sul-rio-grandense. Diferentemente de obras de fôlego e repercussão lançadas no mesmo período, Prosa dos Pagos (1943), de Augusto Meyer, e Letras da Província (1944), de Moysés Vellinho, o regionalismo se coloca na conferência de Cyro Martins não apenas como tema literário, mas como ponto de convergência de questões mais amplas, de ordem sociológica, política e humanista.
Apresentando e discutindo o regionalismo sul-rio-grandense, Cyro Martins busca formular uma síntese, pois ao cotejar a dura consciência da realidade dos escritores da sua geração e o ufanismo dos regionalistas de antigamente[12], discutindo as especificidades de cada contexto, elenca os elementos de ordem estrutural que sustentam uma ambivalente oposição e interdependência.
Não pretendo nem de leve negar o mérito dos escritores que me antecederam na exploração do veio gauchesco e que são, sob muitos aspectos, pioneiros e mestres. E não o posso fazer porque essa fase narcisista do regionalismo apresenta culminâncias incontestáveis. Nem o enfeite excessivo da frase, nem a superstição do elemento decorativo no detalhe lhe tiram, nas suas mais incisivas expressões, os atributos de autenticidade substancial e a intensa potencialidade criadora. Algumas dessas obras permanecerão como mananciais de sugestão sociológica e poética. Teve ainda o regionalismo o merecimento de resgatar, em parte pelo menos, o que devíamos em culto consagrador aos homens rudes e bravos que fixaram, pela atuação centáurica, as características que nos individualizariam no seio da nação brasileira.[13]
Postulando a noção de localismo como mais adequada para categorizar a ficção da geração de 30 (Ivan Pedro de Martins, Aureliano de Figueiredo Pinto, Reynaldo Moura, Pedro Wayne), Cyro Martins irá diferenciar a produção literária da sua geração da série regionalista anterior, sem entretanto estabelecer uma ruptura. Dai o efetivo diálogo que se propõe entabular entre a geração de 30 e os primeiros regionalistas - Alcides Maya e Simões Lopes Neto - o que de fato se confirmou nos seus ensaios e de forma intertextual na sua ficção, como demonstrado.
Bem diferente é o espírito que anima a literatura localista, mais prosaica, mais inclinada aos temas do cotidiano e ao estudo das depressões coletivas. Enquanto o regionalismo sublima as suas virtudes na glorificação do indivíduo, do tipo, do arquétipo e, no nosso caso, do “monarca das coxilhas” - o localismo evidencia os defeitos e as crises do grupo social em foco, sugerindo a reparação dos danos. É do conhecimento de todos que a literatura rio-grandense atual, a que se refere à campanha e ao gaúcho, está sofrendo uma transição. Já não somos os regionalistas ufanos de antigamente. Pesa-nos a dura consciência da realidade. Somos localistas, se quiserem.[14]
Assumindo o papel de porta-voz de sua geração, Cyro Martins ancora sua análise na oposição entre o idealismo regionalista e o realismo localista, o que o faz sintonizar com as formulações posteriores de Antonio Candido em Literatura e Subdesenvolvimento:
A consciência do subdesenvolvimento é posterior à Segunda Guerra Mundial e se manifestou claramente a partir dos nos de 1950. Mas desde o decênio de 1930 tinha havido mudança de orientação, sobretudo, na ficção regionalista, que pode ser tomada como termômetro, dadas a sua generalidade e persistência. Ela abandona, então, a amenidade e curiosidade, pressentindo ou percebendo o que havia de mascaramento no encanto pitoresco, ou no cavalheirismo ornamental, com que antes se abordava o homem rústico. Não é falso dizer que, sob este aspecto, o romance adquiriu uma força desmistificadora que precede a tomada de consciência dos economistas e políticos.[15]
A análise que Candido estabelece da consciência catastrófica de atraso, em oposição à consciência amena de atraso, pode adequadamente caracterizar o que Cyro Martins chamou de localismo, pois desprovido de euforia, ele é agônico e leva à decisão de lutar, pois o traumatismo causado na consciência pela verificação de quanto o atraso é catastrófico suscita reformulações políticas.[16] E a opção política da literatura localista não falta na análise de Martins.
Fazemos a defesa da gente crioula, não no sentido comum da palavra, mas no sentido de mostrar os erros em que incidimos e no reivindicar o amparo educacional a que ela tem direito.(...) Se há vinte anos, quando a campanha começou a adquirir condições adversas à subsistência do gaúcho sem bens de raiz, se os responsáveis pelos destinos coletivos se houvessem lembrado de realizar o que tanto se preconiza agora, colônias agrícolas e escolas de arte e ofícios em todos os municípios, teríamos quiçá atenuado o assoberbante marginalismo que atualmente asfixia muitas das nossas cidades.[17]
Reivindicando a reparação localista como compensação à sublimação regionalista (o que demonstra, ainda que de modo esquemático, sua aproximação à psicanálise, cuja formação iria realizar na década de cinqüenta em Buenos Aires) a ficção localista assume a defesa da gente crioula, reivindicando políticas de amparo educacional, o que é formulado de modo simétrico - mas em sentido contrário - ao culto consagrador que os regionalistas da fase narcisista outorgavam às populações rurais. Mas, o que Cyro Martins enfatiza constantemente são as diferenças dos postulados éticos, determinados pelas circunstâncias históricas, entre o regionalismo e o localismo.
O regionalismo retrata uma “realidade” eufórica. O localismo, quem sabe, se até mais pretensioso literariamente, procura construir a sua ficção na base da realidade, sem adjetivos. No Rio Grande do Sul passou a era da literatura regionalista. E não é sem amargura que ponho em evidência esta constatação, a qual implica reconhecer e aceitar, na esfera social, uma ordem de fenômenos por enquanto nada confortadora. Quando descrevemos a degradação do nosso camponês marginalizado já não estamos fazendo literatura regionalista, no estilo dos velhos tempos, porque a essência deste gênero, conforme acentuei, consiste no toque de sobranceria romanesca. Estamos fazendo literatura localista. O regionalismo pretendia ser aceito sem nenhum prejuízo do exotismo que lhe dava cor e forma. O localismo apara os excessos particularistas e aspira à integração na literatura nacional, através da corrente de comunicabilidade de que participam os homens comuns. O localismo não experimenta nenhuma repugnância pelo feio e o vulgar, anseia por aproximar as diferentes províncias do país, sendo, portanto, fator de unidade nacional.[18]
Dessa perspectiva é que a obra martiniana, efetivará a síntese crítica do regionalismo sul-rio-grandense, estabelecendo uma transformação, sem ruptura, entre uma geração e outra. Essa solução intermediária é semelhante àquela identificada por Ángel Rama na narrativa latino-americano do mesmo período: lançar mão das contribuições da modernidade, revisar à luz delas os conteúdos culturais regionais e com ambas as fontes compor um híbrido que seja capaz de continuar transmitindo a herança recebida.[19] E assim é que Cyro Martins aponta a forma de efetivação do que se propunha:
Pois bem, qual o método a empregar na revitalização da literatura gaúcha? Apoiemo-nos mais uma vez no autor de Casa Grande & Senzala: “Simplicidade de expressão, simpatia humana pelos assuntos cotidianos e pelo mais próximo de todos nós - o nosso passado íntimo”. Isto significa que devíamos substituir a romântica perspectiva do conjunto da história, do lendário, dos costumes e da paisagem, pelo enfoque realista, no sentido do aproveitamento crítico, com finalidade criadora, das próprias vivências e da dramática social.[20]
Indicando o processo de modernização do espaço rural como fator de deslocamento do foco de atenção da literatura, Cyro Martins talvez seja o primeiro que perceba e formule lucidamente a explicação das causas que levaram a essa transformação da literatura gaúcha, isto ainda em 1944.
Hoje, porém, já este âmbito não basta. O regionalismo que se nutria apenas da estância entrou em crise. Com efeito, a estância deixou de ser aquele espetáculo permanente, brioso e bárbaro, de risco, de coragem, de emulação. Tudo que a cerca, agora, é monótono. Os rebanhos são dóceis, os peões passaram a chamar-se operários rurais, o patrão acompanha pelo rádio, com o mapa diante dos olhos, as manobras do “front” europeu, e a sua família raramente agüenta mais de um mês ou dois o tédio da fazenda. Como se vê, não persistem mais as condições humanas que faziam da campanha rio-grandense uma existência à parte, original, pitoresca. Além disso e em conseqüência disso, é fato conhecido por todos que a nossa campanha dia a dia se despovoa, não em benefício da cidade, mas para sobrecarga da cidade. O marginalismo é a expressão mais dramática dessa migração caótica, que por vezes assume as características abomináveis do enxotamento.[21]
Mas a denúncia de Cyro Martins, mais do que palavras de ordem, é, de fato, um protesto humanista que aludindo aos efeitos das transformações sofridas na campanha sul-rio-grandense, devida ao forçado processo de alteração do modus vivendi rural, se desenvolveu sob a metáfora expressiva do “gaúcho a pé”. E dessa maneira percebeu Moysés Vellinho:
[Cyro Martins] Não descrê da legenda que recobre a nossa herança guerreiro-pastoril. Pelo contrário, em nome dessa mesma legenda, que tanto lhe fala à imaginação, é que ele se insurge contra os fatores que a deprimem. Sua denúncia é um ato de revolta, mas o é também de fé e de compreensão. Dela não transparece aquele escuro pessimismo de que se deixaram tomar os que viram em tudo o extravio irremediável de uma “raça” que se tivesse perdido de si mesma por lhe haverem escasseado as condições históricas e políticas supostamente necessárias à sua sobrevivência. Cyro Martins transmontou este capítulo de sociologia romântica.[22]
A lúcida correlação entre a história e a série literária possibilita identificar a conferência Visão Crítica do Regionalismo como um importante documento da crítica literária gaúcha. A análise desenvolvida por Martins não só traça o percurso da literatura gaúcha anterior à década de quarenta, como faz o balanço do que se estava produzindo então, e especificamente apontando para a síntese que sua obra vai elaborar - a síntese de toda a literatura da geração de 30 - entre a tradição regionalista e os influxos do modernismo de vinte. E de fato tal projeto se efetivou. E o balanço crítico do conjunto de sua obra - ainda a ser realizado - demonstrará positivamente seu valor na história da literatura do Rio Grande do Sul.
[1] Doutorando em Literatura Comparada (PPGLetras/UFRGS). Mestre em Letras, na área de Teoria Literária (UNICAMP/2000). Professor substituto do Setor de Teoria Literária do Instituto de Letras-UFRGS.
[2] MARTINS, Cyro. “Prefácio”. In: MARTINS, Cyro. A Mulher na Sociedade Atual . Porto Alegre: Movimento, 1984, p.7
[3] FAORO, Raymundo. “Introdução ao estudo de Simões Lopes Neto”. In: TARGA, Luiz R. Pecoits (org.). Breve inventários de termas do sul. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, FEE; Lajeado: UNIVATES, 1998, p. 23. Este artigo foi originalmente publicado na revista Quixote, 1949.
[4] MARTINS, Cyro. “Alcides Maya”. In: MARTINS, Cyro. Rodeios: estampas e perfis. Porto Alegre: Movimento, 1976, p. 64
[5] Idem, p. 63
[6] Idem, p. 61
[7], SCHÜLER, Donaldo. “O conflito do homem com a terra no romance de Cornélio Pena”. In: APPEL, Carlos Jorge et al. Porto Alegre: Movimento, SMEC, 1983, p. 23
[8] CARVALHAL, Tania Franco. Cyro Martins: o local e a infância. Revista de Psicanálise, Porto Alegre, v.3, n.3, dez.1996, p. 358
[9] Autores Gaúchos: Cyro Martins. 6.ed. Porto Alegre: IEL/ULBRA/AGE, 1995, p. 6
[10] MARTINS, Cyro. Regionalismo. In: MARTINS, Cyro. Escritores Gaúchos (ensaios). Porto Alegre: Movimento, 1981, p.94. Este artigo foi originalmente publicado no C.A.M. Órgão do Centro Acadêmico de Medicina Sarmento Leite, Porto Alegre, n.13, p.129-131, 1947.
[11] MARTINS, Cyro. “Visão Crítica do Regionalismo”. In: MARTINS, Cyro. Sem rumo. 5.ed. Porto Alegre: Movimento, 1997, p. 14-30
[12] Idem, p. 25
[13] Idem, p. 15
[14] Idem, p. 25
[15] CANDIDO, Antonio. “Literatura e Subdesenvolvimento”. In: CANDIDO, Antonio. A educação pela noite e outros ensaios. São Paulo: Ática, 1991, p.142
[16] Idem, p. 142.
[17] MARTINS, Cyro. “Visão Crítica do Regionalismo”., p. 25-27
[18] Idem, p.26
[19] RAMA, Ángel. “Literatura e Cultura”. In: AGUIAR, Flávio, VASCONCELOS, Sandra Guardini T. (orgs.) Ángel Rama: literatura e cultura na América Latina. São Paulo: Edusp, 2001, p. 255
[20] MARTINS, Cyro. “Visão Crítica do Regionalismo”., p. 23
[21] MARTINS, Cyro. “Visão Crítica do Regionalismo”., p. 24
[22] VELLINHO, Moysés. “Itinerário de um romancista”. In: VELLINHO, Moysés. Letras da Província. 2.ed. rev. e aum. Porto Alegre: Globo, 1960, p.166