A Literatura Comparada e os Estudos Culturais

Ricardo Araújo Barberena

(Doutorando – UFRGS)

                                                                                 

            O processo de desierarquização das produções culturais possibilitou a relativização da especificidade disciplinar e a intersecção entre linguagens distintas, ou seja, os valores, conceitos, formas e gêneros são repensados por uma ótica que admite o trânsito entre saberes. Com efeito, torna-se evidente a emergência de uma crítica literária que procura os aspectos de uma produtividade marcada por uma tensão entre a continuidade e a descontinuidade: a necessidade de comparar realidades geográficas, culturais, lingüísticas. Assim, esta nova epistemologia crítica está balizada por certas metodologias de leitura articuladas num trânsito através de espaços: interdisciplinaridade, intertextualidade, intersemiose. Neste flanco aberto pela Literatura Comparada, os diferentes saberes se apresentam situados num (não) lugar onde é possível estabelecer idas e vindas epistemológicas através do deslocamento de uma identidade negociada a partir de um feixe de significados conjugados numa política simbólica que reconhece o “múltiplo”, o “outro”, a “diferença”.

 

No interior desse discurso de transgressão, percebemos o ponto de ultrapassagem entre o indiferenciado e o diferenciado, o dentro e o fora, a junção e a separação de espaços do saber. Nesse sentido, a crítica pós-estruturalista demonstra como os valores ocidentais se encontravam atravessados por uma fragmentação de continuidades e por uma constante diluição de fronteiras que demarcavam certos pressupostos etnocêntricos. Esses conceitos parecem demonstrar um ponto de abertura tanto para a pluralidade e a outridade, quanto para o reconhecimento das singularidades e particularidades. Ao proceder esta mobilidade de conceitos, instaura-se um campo de discussão teórica descentrada e consciente das diferenças que integram cada cânone literário nacional. Esta abertura crítica possibilita um diálogo transcultural sustentado pela aceitação das diferenças e pela desconfiança perante um discurso totalizador calcado nas categorias de centro e periferia: um movimento de desterritorializar/reterritorializar linguagens, histórias, culturas, literaturas diaspóricas. Como se sabe, essa tensão entre limite e transgressão disciplinar acarretou para o reconhecimento das práticas de investigação de natureza interdisciplinar, pois a atividade crítica não pode ser entendida como um processo desassociado da sua função de mediador perante, pelo menos, dois meios de expressão. Afinal, o estabelecimento de uma nova era cognitiva pode consistir em sua capacidade de “articular elementos prévios”[1] originalmente estranhos entre si.

 

A transdisciplinaridade parece apontar para uma perspectiva teórica e interpretativa que desloca os limites disciplinares nas diferentes áreas do saber. No entanto, por outro lado, certos pensadores têm advogado a existência de uma certa falência epistemológica que se inicia, principalmente, na década de setenta, por intermédio dos postulados pós-estruturalistas. Não podemos esquecer que o legado de Jacques Derrida, Michel Focault, Gilles Deleuze propicia o desenvolvimento de teorias que viabilizam uma releitura das questões culturais através do viés da descontinuidade, do pensamento rizomático, da reversão de valores, da desconstrução. Assim, no interior desses discursos, articula-se uma suposta ausência de rigor metodológico devido à inexistência daquele rigor na sistematização interpretativa que havia pautado os estudos nas ciências humanas no século XIX. Este sentimento de desconfiança é resultante do evidente deslocamento de fronteiras disciplinares que acaba delineando uma diluição dos limites da especificidade do próprio objeto a ser analisado: para alguns, mais apocalípticos, estaríamos sob a instabilidade de uma crise no que se refere às especificidades de um estatuto cultural. Se existe uma falência em curso, esta crise está se desenrolando no bojo daquela tradicional concepção crítica que demarcava a literatura a partir de uma singularidade e de uma particularidade em relação aos demais discursos produzidos em uma cultura. No interior dessa suposta crise, parece que certos domínios disciplinares estão abalados por um entrecruzamento epistemológico que acaba introduzindo uma releitura de um corpus cultural atravessado por uma mobilidade discursiva.

 

Para elucidarmos este caráter transdisciplinar de uma crítica voltada ao estudo de um objeto cultural, talvez seja propício relembrarmos que o próprio texto filosófico, no seu gesto inaugural, tematiza o fazer poético – aqui, basta recorrer a “Poética”, de Aristóteles – articulado numa interpretação da literatura como uma instituição nômade e desterritorializada. Ao retomar-se um período histórico tão distante, percebemos que o estudo sobre a literatura não ficou alienado dos constantes trânsitos que permeiam os espaços de múltiplos saberes. Assim sendo, quando se decreta a falência da crítica literária é preciso que se saiba qual o modelo sistemático está sendo desestabilizado, afinal, muitas outras crises já perturbaram os pressupostos metodológicos tidos como legitimados: literatura [arte] versus ciência determinista, literatura versus não-literatura, literatura cêntrica versus literatura periférica. Aquela herança de cientificidade positivista, cristalizada no século XIX, começa a dar lugar a outras formas de conhecimento que não se apresentam temerosas perante a intersecção de uma malha de discursos acerca de um objeto cultural. É nesse desdobramento de discursos que, neste final do século XX, se constitui a problemática de uma reflexão crítica organizada na sua função de mediadora dos múltiplos conhecimentos. O que interessa ressaltar é o distanciamento perante aquele desejo de formalização lógica - presente na década de sessenta - que buscava manipular e neutralizar as forças que se encontravam negociadas na crítica literária. Balizado por uma suposta neutralidade e objetividade, o estruturalismo se apresenta marcado por um desejo de totalização do objeto, pois, enquanto totalidade, a sua estrutura epistemológica pode se sujeitar aos mecanismos de reagenciamento das partes que se organizam através de operações binárias (originárias do estruturalismo lingüístico).

 

Em visível contraposição ao pensamento estruturalista, a literatura - impulsionada pela crítica da década de setenta – começa a ampliar suas fronteiras lingüísticas através de um constante descentramento para outros conhecimentos como a psicanálise, a sociologia, a antropologia, a filosofia. Como resultado deste deslocamento, surge um certo sentimento de desconforto calcado na seguinte premissa: se aquela crítica literária tida como natural é tão somente uma construção de linguagem, então, estamos tratando com um produto cultural e histórico que se encontra atrelado às forças e aos saberes negociados num contexto histórico e cultural. Novamente, se conveniente fosse, poderíamos decretar a falência dos paradigmas disciplinares que se haviam configurado pela utilização de certos valores hierárquicos situados no projeto de implantação de um saber, de uma ordem, de uma verdade, de um poder. 

 



[1] HOISEL, Evelina. “Os discursos sobre a literatura: algumas questões contemporâneas”. IN: COUTINHO, Eduardo (org), Fronteiras Imaginadas. Rio de Janeiro: Aeroplano Editora, 2001.