Ficção literária e ficção religiosa
O encontro inevitável
Rafael Camorlinga Alcaraz
A Civilização Ocidental é chamada também cristã por estar impregnada de elementos judaico-cristãos. Constatá-lo é fácil, seja na linguagem do dia-a-dia, seja nas criações artísticas que constituem a chamada Arte Sacra. A tentativa de aproximar o divino do humano deu como resultado criações de beleza extraordinária. Focalizando concretamente o campo da literatura, o protagonista do conto “El Evangelio según Marcos”, de Borges, aventa a idéia de que as histórias contadas ao longo do tempo sejam apenas variações daquelas duas: “la de un bajel perdido que busca por los mares mediterráneos una isla querida, y la de un dios que se hace crucificar en el Gólgota” (Borges 1989: 448). A síntese borgiana enfoca os dois filões que, paralelamente ou se imbricando, fornecem o material para as obras primas que alimentam nosso espírito.
Segundo o relato bíblico (Gn cap. 1) o universo existe graças à Palavra, ao fiat criador de Yahweh. Porém, quando chega a vez da criatura que será “imagem de Deus”, a solenidade do momento exige um faciamus. Esse ser especial será o único capaz de dialogar com o Criador, diálogo que, por sua vez, pressupõe a linguagem. A criação inteira, terminada é entregue ao ser humano, com exceção da linguagem; ele ganha um universo novo em folha, mas não uma língua já pronta e sim a capacidade de cria-la. Eis a grandeza e a miséria dos humanos: grandeza porque a língua os coloca acima dos outros seres criados, miséria porque a sua apreensão ou domínio das coisas será contido nas margens estreitas da linguagem, meio maravilhoso, porém limitado, de representar o conhecimento humano do mundo (Wahnón 1995: 17).
Pois bem, se a linguagem se mostra inadequada e insuficiente para dar conta das realidades visíveis, o que dizer em se tratando das invisíveis ou transcendentes? Todavia ela é o único instrumento ao nosso alcance para referir-nos também às realidades supra-sensíveis; o único veículo que o ser humano tem a seu dispor para elevar-se a Deus, e para o próprio Deus descer até os humanos. Mas até a experiência mística, “sendo experiência humana do divino, ganha inteligibilidade e visibilidade, quer no âmbito pessoal, que no sociocultural, ao ser plasmada numa linguagem” (Barcellos 1997: 19). A linguagem constitui uma mediação indispensável, seja para falar com Deus, seja para falar de Deus. É verdade que “nem tudo é linguagem na experiência religiosa, mas a experiência religiosa não existe sem linguagem” (Ricoeur, apud Barcellos, o. c. p. 20).
Dentre os videntes que foram capazes de articular na nossa linguagem experiências sobre-humanas, há alguns que conseguiram transmitir imagens de alto poder simbólico. O anjo Gabriel anunciou a Maria, que, mesmo sem ela “ser conhecida” por homem algum, isto é, sem perder a virgindade, conceberia por obra e graça do Espírito Santo, um menino que se chamaria Jesus, Filho do Altíssimo. Curiosamente, a biografia do fundador do Islã apresenta traços semelhantes. Quando Mahomé tinha três anos de idade, o mesmo anjo Gabriel deitou-o na terra, abriu-lhe o peito sem lhe causar dor, retirou o coração, limpou-o do pecado original, o encheu de fé, sabedoria e luz, e recolocou-o no peito, sem deixar cicatriz alguma.
Aproximando-nos agora do mundo ocidental lemos que Saturno feriu seu pai com uma foice de diamantes e da ferida jorrou o sangue que fecundou a alva espuma do mar, da qual nasceu Vênus, a deusa do amor. Já na nossa América, no universo asteca encontramos Coatlicue, deusa com saia de serpentes. Tendo ela encontrado um novelo de penas, guardou-o na faixa que lhe cingia a cintura. Engravidou então de Huitzilopochtli, sem intervenção de homem.
Os feitos desses seres sobre-humanos são tão admiráveis quanto seus nascimentos. Jesus Cristo ressuscitou Lázaro e o filho da viúva de Naim. Mahomé, na sua égua mágica, Alborak, visitou o céu, onde se reuniu com o pai Adão, com Azrael, o anjo da morte, e com o patriarca Abraham. Quetzalcóatl, divindade asteca, viajou ao inframundo para exigir de Mictlantecuhtli os ossos dos mortos. Orfeu desceu aos infernos para resgatar Eurídice. Jesus Cristo no monte, multiplicou o pão e os peixes; Mahomé alimentou mil homens com uma ovelha assada e um pão de cevada.
Á parte outras considerações, essas histórias maravilhosas mostram a prodigiosa capacidade do ser humano de criar cosmogonias, lendas, mitos, deuses e demônios, paraísos e infernos, reflexo dos opostos que se digladiam no íntimo do próprio ser humano: a vida e a morte, o tudo e o nada, o amor e o ódio, o dia e a noite, o instante e a eternidade. As criações que eles geraram são um verdadeiro “Patrimônio da Humanidade”.
Literatura e Religião
As tentativas de nomear o Inominável e visualizar o Invisível fizeram com que o ser humano se expressasse em linguagens que nos transportam a outros mundos. Por outro lado, os artistas da palavra, mesmo sem preocupações metafísicas a priori, têm revelado belezas que “não são deste mundo”. Poderíamos viver sem ficções? – pergunta um escritor espanhol no exílio. Só se fossemos seres de cimento e pedra, responde ele mesmo (Blanco-White, apud Ruiz Casanova 2000: 394).
Com efeito, o ser humano sempre tentou explorar e “povoar” com criações da fantasia o que está além das fronteiras do conhecido. O círculo da “realidade” sempre esteve imerso em outro mais amplo que o envolve totalmente e cujos limites marcam o do “imaginário” (Becerra 1996: 17). Nessa “suprarrealidade” que o escritor adentra viceja uma variedade de seres maior da que habita o mundo visível. É desse universo multifacetado que o ficcionista escolhe, ou antes, é escolhido pelas suas ficções (Vargas Llosa 1997: 28). Efetivamente, o escritor só pode falar (escrever) do que ele, de alguma maneira, tenha vivenciado, aliás, tenha concebido e cujo nascimento se imponha com a urgência de um parto. Em outras palavras, falar de Deus, dos deuses ou dos demônios que tomam conta do próprio escritor, torna-se uma necessidade. “Raro es el autor que no aborda, en una u outra ocasión, la trascendencia del hombre y su revelación con la divinidad, bien sea a través del diálogo del creyente, de la búsqueda, de la protesta o, incluso, de la negación” (González de Mendoza 1990: 57).
Em vista desses fatos cabe indagar por que tantos homens e mulheres, mesmo sem ser profissionais de religião nenhuma, dedicam grande parte do seu tempo a elucidar o mistério da vida, do amor, da morte, da solidão, bem como a bondade e a crueldade do ser humano. Às anteriores podem agregar-se questões de cunho mais estritamente religioso: origem e fim do ser humano, culpa e culpabilidade, aquém e além, salvação e condenação eternas.
A ausência e o silêncio de Deus e a onipresença do mal, ou do Maligno, tem intrigado muitos escritores, crentes e incrédulos. “Silencio de Dios: outra expresión para significar la absurdez del universo. ¿Será el hombre una pasión inútil? (grifado no original) (Moeller 1958: 24). A figura de Jesus Cristo merece especial menção. Poucos anos após a Ascensão, o apóstolo João afirmava que se fosse escrito tudo o que Jesus fez, “o mundo não poderia conter os livros que se escreveriam” (Jn 21, 25). O que diria o evangelista das obras sobre o seu Mestre produzidas em vinte séculos de Cristianismo? È verdade que o cânone literário nem sempre coincide com o teológico. No entanto, graças à arte em geral e à literatura em particular a figura de Cristo não permaneceu um simples monumento do passado, mas continua cativando novas gerações ( Küng 1976: 132).
Em suma, o tema religioso inspirou inúmeras peças, poemas, romances e filmes; e continua sendo fonte de inspiração para as novas gerações. O teólogo por obrigação, o escritor por opção, continuarão haurindo desse garimpo inesgotável o material para suas criações. Tendo ambas como ponto de encontro a Palavra, a convivência, ou pelo menos, o encontro é inevitável. O convívio nem sempre foi pacífico ao longo da história. Atitudes fundamentalistas, principalmente por parte dos detentores do poder sacro, foram responsáveis de acontecimentos deploráveis, no passado. Na atualidade, época de iconoclastia, transgressão, desconstrução e até derrubada de sistemas e verdades “absolutas”, o quesito religião não podia ficar incólume: foi redimensionado, mas não abandonado. Mesmo os estudiosos da literatura se indagam
Por que é tão difícil pensar esse fenômeno, apressadamente denominado retorno das religiões? Por que deixa atônitos em particular aqueles que acreditavam, ingenuamente, que uma alternativa opunha, de um lado, a Religião e, do outro, a Razão, as Luzes, a Ciência, a Crítica (...) como se a existência de uma estivesse condicionada ao desaparecimento da outra? (Derrida – Vattimo 2000: 15).
Só uma concepção muito estreita de religião a isolaria num dogmatismo fundamentalista, afastando-a do convívio com as outras ciências humanas; e só uma concepção extremamente pobre de literatura optaria por mantê-la incólume dos grandes temas religiosos acima elencados. Felizmente coube à nossa época a superação das dicotomias reducionistas. Efetivamente, o que seria da religião se não falasse também das belezas inenarráveis que Deus tem em estoque para seus amigos? (1Cor 2, 9); e o que seria da literatura se congelada num discurso imanentista, fechada, por tanto, à transcendência?, Ambas, em última análise, apontam para a Beleza e, cada uma à sua maneira, nos enleva com magníficas cintilações, prenúncio de um Sol sem ocaso.
Bibliografia consultada
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