Errância e literatura: qual o lugar do sujeito na literatura contemporânea?

(Breve comentário sobre três autores contemporâneos)

 

Paulo César Silva de Oliveira

 

 

Em dado momento, o protagonista de Berkeley em Bellagio, o mais recente romance de João Gilberto Noll (2002), declara: “eles cheiram à fuga, hindus agora chegam, são todos fugitivos?, penso eu, o que aconteceu no mundo nesse tempo em que vivi na Fundação americana sem TV disponível, sem procurar saber das circunstâncias momentâneas do resto do planeta, o que houve que não param de chegar aos montes esses peregrinos do além-fronteiras?” (Noll, 2002: 78). Trata-se de um mundo pós-11 de setembro, em que os efeitos do desastre multiplicam, amplificam a reflexão em torno dos movimentos diaspóricos contemporâneos, representados na tematização do nomadismo, da migração, globalização e multiculturalismo. É um mundo em que as configurações discursivas representadas há mais de duas décadas como, por exemplo, o movimento de reterritorialização encontram seu ponto culminante: uma nova ordem, em que até mesmo o terror se globaliza e perde o caráter nacional, fronteiriço. Neste universo de dispersão, mais uma vez caminha um personagem de Noll. Berkeley em Bellagio confirma sua obsessão pelo tema da errância, do desenraizamento. Mais uma vez, deparamos com um personagem em trânsito, vivendo os conflitos históricos, sociais, econômicos, psicológicos em um mundo que perdeu suas referências, muito embora a questão local – a volta a Porto Alegre – sempre se mostre presente, ainda que não haja, neste retorno, solução para os conflitos por que passa o protagonista.

Neste processo de busca, até mesmo a língua portuguesa se apaga. O retorno do protagonista-narrador a Porto Alegre depende também de um processo de recuperação da língua portuguesa:  “...importa, sim, que comeces a rever cada canto da cidade, tentando nesse método recuperar o português que com o calor úmido que faz deve estar escorrendo pelas paredes, muros, a sua língua-mãe padece com o seu extravio, vai em frente, não pensa tanto, pega um táxi (...) e ao indicar o rumo pro motorista a língua de Drummond lhe volte à cabeça, assim, num verdadeiro blow up...” (Noll, 2002: 84).

No romance, tempo e espaço estão dissolvidos no caos discursivo da matéria literária. A tentativa do personagem de resgatar a língua materna equivale à própria tentativa da narrativa de encontrar um fio discursivo que organize (em vão) a caótica realidade.

De certa forma, o livro de Noll dialoga com duas outras produções contemporâneas, em que os temas da errância e do desenraizamento se colocam no centro das narrativas. Em uma delas, Estranhos estrangeiros, de Caio Fernando Abreu (1996), os três contos (dois novos e um da década de 70) que abrem a obra chamam a atenção pela tematização do “outro” como um estranho estrangeiro, ou seja: aqueles seres são estrangeiros porque estranhos; são estranhos porque estrangeiros, são o “outro” porque diferentes. É na diferença – sexual, política, geográfica, social – em um mundo cada vez mais propenso à massificação e anulação das identidades em nome de um projeto globalizante, que reside a possibilidade de se pensar o impasse do sujeito na contemporaneidade. É um espaço de liberdade possível, em que, se felicidade já não há, existe, ao menos, uma possibilidade de redenção, redescoberta. Misto de procura e desencanto, a narrativa errante de Caio Fernando Abreu também pode ser definida através de seu protagonista, cambiante, sempre à procura de algo que quase sempre está alhures: “Sinais, procuro. Rastros, manchas, pistas. Não encontro nada.” (Abreu, 1996: 32).

O conto que talvez sintetize o movimento da errância em Abreu seja “London, London, ou Ajax, Brush and Rubbish”, escrito na década de 70 e, uma vez incluído na obra Estranhos estrangeiros, soa como o mais atual de todos. Já na abertura do conto, diz seu narrador-protagonista: “Meu coração está perdido, mas tenho um mapa de Babylon City entre as mãos. Primeiro dia de fog autêntico. Há um fantasma em cada esquina de Hammersmith W14. Vou navegando nas waves de meu próprio assobio até a porta escura da casa vitoriana” (Abreu, 1996: 43). No título do conto, na introdução do mesmo, a confusão, a mistura, errância, atordoamento, diáspora, estranheza e solidão, confluem para um universo em que expatriamento voluntário, nomadismo, exílio, configuram a personagem pós-moderna e seu desejo incessante de algo que, como os fantasmas em cada esquina de Hammersmith, são aparições do inaparente. O inaparente, aquilo que seria o cerne da procura do sujeito errante, é apenas matéria da língua no questionamento da linguagem, a qual procura rastrear um mundo em que o fenômeno do sujeito, ou melhor, o sujeito como fenômeno é anulado.

Em A maldição do macho, Nélson de Oliveira, um dos novíssimos autores da contemporaneidade, também a diluição das fronteiras é tematizada, em uma narrativa supostamente linear, na qual o tema da errância e do auto-exílio é conduzido a patamares diversos, onde o sexo é a tônica. As fronteiras geográficas se diluem. O corte narrativo é profundo e veloz: “No sábado: Londres, Paris e Toulouse. No domingo: Madri e Lisboa. Na segunda-feira: Belo Horizonte” (Oliveira, 2002: 55). Na trama, um personagem, ao perder os pais, é adotado pela melhor amiga de sua mãe, pois o desejo daquela era ter um filho homem. Preferido entre todos os filhos, ele, ainda adolescente, opta pelo auto-exílio, primeiramente na Argentina e, depois em outras partes do mundo. O sexo surge como único elemento de identificação deste sujeito com o mundo e com o outro. Mas é um sexo esvaziado, perdido na mecanicidade de suas práticas. O indivíduo errante, no entanto, centro da narrativa, se move em espaços definidos, no mundo cada vez mais globalizado em que, paradoxalmente, já não há lugar para a subjetividade.

Em todas as três obras aqui questionadas, o sexo surge como elemento-chave: em Noll, o sexo reflete a queda interior, a angústia, a tentativa vã do encontro com o outro; em Abreu, surge como a tematização da diferença, necessária para que se encontre um espaço de reflexão que vislumbre um caminho possível para a liberdade e felicidade humanas; em Nélson de Oliveira, o sexo expressa a crítica ao senso comum e aos clichês que envolvem o papel do homem contemporâneo na relação com a mulher: a maldição do macho é o próprio destino do sujeito como um ser mecanizado no mundo de fronteiras diluídas.

As três obras nos fornecem material substancial para uma análise aprofundada da nova geografia literária brasileira contemporânea. Estabelecem espaços de discussão essenciais para que pensemos o lugar do homem como sujeito errante, mas que, ainda assim, impõe-se no/como centro do questionamento existencial, social, econômico, político e filosófico do mundo globalizado em que vivemos.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABREU, Caio Fernando. Estranhos estrangeiros. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

NOLL, João Gilberto. Berkeley em Bellagio. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

OLIVEIRA, Nelson. A maldição do macho. Rio de Janeiro: Record, 2002.