Porto Alegre e Rio de Janeiro: Augusto Meyer abolindo fronteiras

 

               Paulo Bungart Neto[1]

 

 

                Em “A casa de Rubião”, presente em A forma secreta (1965), recorrendo ao que ele chama de “memória sentimental”, Augusto Meyer, ao evocar a enseada de Botafogo, extingue os limites entre a cidade que o acolheu (Rio de Janeiro) e aquela onde nasceu (Porto Alegre):

Na enseada imensa, a maior do mundo, escolhi uma pequena enseada, a mais graciosa, a mais redonda, a mais suave do mundo, entreaberta em forma de ferradura, entrefechada às brisas da baía, esse mar interior, na língua dos índios. E aqui, entre o Caminho Velho da Pedreira e o Caminho Novo de Botafogo, entre Senador Vergueiro e Marquês de Abrantes, comecei a criar musgo. Tanto musgo já criei, afinal, que hoje não posso admitir uma querência que não envolva no mesmo abraço as duas enseadas: Guaíba e Guanabara. Creio que a Geografia não impede essas transfusões da saudade, espécie de lição errada, mas muito certa no atlas da memória sentimental. Há de ser mais ou menos parecido aquele estar e não estar no seu chão, a que se referem tantos emigrantes: partir, para matar saudades, e logo, meio caminho andado, amargar saudades redobradas da pátria nova, regressando em pensamento. (1981, p. 45-6)

 

                A memória, portanto, através destas “transfusões da saudade”, cria um terceiro espaço, peculiar e idealizado, no qual, abolidas as fronteiras reais, as cidades evocadas se entrelaçam harmonicamente, permitindo, por exemplo, que se “envolva no mesmo abraço as duas enseadas”. Além disso, na obra de Augusto Meyer, a noção deste terceiro espaço ideal está bem clara quando ele recompõe, “noutra ordem de planos”, a lembrança do lugar onde passou a infância:

O meu Porto Alegre começa no fim dos planos de urbanização, com o imprevisto das vielas, o desaprumo dos muros limosos, um beiral emplumado de macega e os velhos nomes que as placas não conseguem abafar. O tempo e a memória dos homens impregnam quase sempre as coisas de uma névoa de passado e evocação que as transfigura com não sei que toques de magia. Torna-se transparente qualquer paisagem, aos olhos de quem recorda ou tenta reconstituir os seus aspectos anteriores, e uma cidade, uma rua, começam a desandar para as suas feições primitivas, a desmanchar-se, recompondo-se noutra ordem de planos, quando se projeta no seu passado a luz da fantasia evocativa. (1949, p. 74-5)

 

                O poder de transfigurar as lembranças envoltas em “uma névoa de passado” é capaz de remeter até mesmo a um lugar jamais visitado anteriormente, origem de seus antepassados e, portanto, de sua “memória coletiva”. Refiro-me ao comentário presente em “Impressões de Hamburgo” – passeando pela cidade alemã, Meyer percebe ressonâncias “nos corredores da memória”:

A presença do grande porto, nestes lados do Aussenalster, manifesta-se com as sereias de vapor; ecoam, com não sei que impressão de distância e saudade, nos corredores da memória. Daqui saiu meu avô Henrique Meyer, nos anos de cinqüenta [1850], engajado na Legião Alemã, para lutar contra Rosas. Manifesta-se igualmente essa presença com o incessante revoar das gaivotas, que andam em todos os relvados e se misturam a cisnes e marrecas. (1986, p. 633)

 

                O espaço idealizado, mescla de recordações conscientes e inconscientes, assume tal importância para o memorialista que faz com que este relute em aceitar as mudanças efetivas ocorridas em sua cidade, levando-o a negar a transformação evidente e definitiva em nome de uma nostálgica e melancólica recorrência ao que ele chama, na abertura do capítulo “Epílogo”, de No tempo da flor (1966), de “Mapa da Saudade”. Vejamos:

Mudou muito Porto Alegre. Em vão procuro reconstituir a fisionomia familiar e rústica de certos arrabaldes, reconhecer algumas ruas que agora só existem no traçado de uma planta subjetiva, dentro de mim mesmo. Quem não leva escondido o seu Mapa da Saudade, o seu Pays de Tendre? (MEYER, 1966, p. 135)

 

                A relutância do escritor em admitir a alteração inevitável pela qual passou a capital gaúcha, decorrente da passagem do tempo e do conseqüente processo de modernização, incide sobre o questionamento a respeito das próprias mudanças pessoais, criando uma espécie de contraponto entre os vários “eus” que o formam, ao longo de sua vida, e o seu lugar de origem, mutável também, fato que Meyer reconhece com resignação:

Vejo a Praça da Matriz, em Porto Alegre, desandar para as feições que ainda mostrava aos meus olhos de menino e moço. Mas é claro que estas praças vão mudando, enquanto a gente mudou. Nesse jogo vertiginoso, mudam as cousas por dentro e por fora, e, ao passo que as paisagens lentamente se desmancham, recompostas noutra forma, também o espectador vai trocando de alma e de pele, apesar de conservar o mesmo nome, confiado nas certidões do registro civil. O Eu da gente é um inquilino que se imagina dono de si mesmo, proprietário do nariz, e dentro dele moram não sei quantos locatários irresponsáveis, que acabam estragando a casa. De vez em quando, ao cair do último andar do seu devaneio, o dono de si mesmo descobre que foi logrado, vagamente se dá conta de um embuste... ‘Muda, muda, que eu também já mudei’, dizem-lhe as casas, as ruas, as posturas municipais. E de mudanças vamos vivendo, enquanto não vem a hora da grande mudança. (1966, p. 07)

 

                Através de todas estas citações, constatamos o quanto Augusto Meyer, que já havia antecipado alguns dos procedimentos comuns ao que viríamos a reconhecer como prática comparatista – em 1935, por exemplo, em “O homem subterrâneo[2], o autor já aproximara Machado de Assis e o protagonista das Memórias do subsolo de Dostoievski -, também percebeu, entre as décadas de 40 e 60, que a noção de espaço literário não é estanque, sobretudo em se tratando de um território neutro criado pela memória, noção que impele Meyer a privilegiar as referências geográficas e culturais que acompanham seu percurso como escritor, fundindo espaços e recordações.

 

Referências bibliográficas

 

MEYER, Augusto. A forma secreta. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981, 4ª ed.

 

 

_______________. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1952, 2ª ed.

 

 

_______________. No tempo da flor. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966.

 

 

_______________. Segredos da infância. Porto Alegre: Editora Globo, 1949.

 

 

_______________. Textos críticos. (Org. e Sel. João Alexandre Barbosa). São Paulo: Editora Perspectiva / INL, 1986.

 

 

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[1] Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Faculdade de Ciências e Letras de Assis – SP (UNESP). Doutorando em Literatura Comparada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

[2] Cf. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1952, 2ª edição, p. 11-20.