Blurring Frontiers: a politíca dos espaços na ficção chicana
Paulo Henrique de Sá Júnior
FIS/CNPq 5.0
A introdução de Mark Currie em Postmodern Narrative Theory (1998) argumenta que “diversificação, desconstrução e politização” são as palavras chaves para a teoria e o estudo sistemático da narrativa. Assim sendo, questões de identidade se alocam nas fronteiras problemáticas da pós-modernidade, principalmente na dicotomia nação/espaço e na pluralidade da existência, ou seja, tais questões são trazidas à tona quando Homi Bhabha, em Nation and Narration (1995), discute os conceitos de seres transnacionais e translacionais. Este presente trabalho sublinha temas diretamente associados aos conflitos de identidade, os quais estão também conectados à questões de raça, etnia e acima de tudo, às fronteiras geográficas e sua problemática semiótica na ficção de Sandra Cisneros.
The House on Mango Street e “Mericans” subvertem e transcendem os limites que determinam a natureza do “eu” e evocam o “outro” como sujeito, transgredindo as fronteiras de classe e etnia impostas nos espaços feminino da casa e geográfico -subentendido como nação.
Dando voz a uma adolescente que questiona sua comunidade, Cisneros critica a lógica patriarcal de identidade. A protagonista, Esperanza, não está conformada com sua mestizaje e com o fato de que ela será sempre Esperanza, mesmo que saia ou escape de Mango Street. Ela também sabe que sempre estará vivendo entre as fronteiras do aqui e lá, ou ainda, “Esperanza deixará Mango Street mas a levará consigo para sempre, porque [Mango Street] está inscrito nela” (Olivares, 1996, 243).
Quando a pluralidade da existência é trazida à tona, o dilema do nome e da origem de Esperanza é questionável. Em um vignette intitulado “Meu Nome”, Esperanza afirma que “Em inglês [seu] nome significa esperança. Em espanhol, significa muitas letras. Significa tristeza. Significa espera” (10). Esperança é o que Esperanza almeja em toda sua jornada de maturidade, uma vez que ela quer uma casa decente e, infelizmente, conclui que somente conseguirá alívio e tranqüilidade em seu confinamento através da escrita. Gloria Anzaldúa (1983, 163) argumenta que “O que nós temos em comum é o nosso amor pela escrita e um amor pela literatura das mulheres de cor. Em nossa comum batalha e em nossa escrita, nós reclamamos nossas línguas”. De fato, o processo de reclamar línguas significa reclamar identidade e isto é o que Esperanza faz durante toda sua história.
Os conceitos de seres transnacionais e translacionais de Homi Bhabha concebem a discussão da idéia do “outro” em The House on Mango Street. No último capítulo, “Mango diz adeus às vezes”, Esperanza atinge verossimilhança por meio de mimeses. A protagonista, que é o próprio narrador, diz que gosta de contar histórias e faz uma história para ela própria. Ela diz ao leitor que irá contar “uma história de uma menina que não queria pertencer” (109). Quando o narrador faz isto, a mimeses é quebrada e reforça o que já foi mencionado até então, a força das palavras e o senso de escape encontrado na arte das letras. Literatura é um dos meios pelos quais as chicanas podem lutar por uma identidade cultural e sua individualidade.
Identidade cultural define uma das mais recorrentes metáforas que permeia toda a obra, ou seja, a metáfora aqui representada pela palavra casa/house. Alvina Quintana (1996, 65) defende a idéia de que “O símbolo que Cisneros escolhe para representar os limites ideológico, cultural e econômico impostos no espaço marginalizado da mulher é a casa.” Para a protagonista, Esperanza, a casa é o seu principal objetivo. Tal casa é o espaço ideal no qual ela será capaz de encontrar sua identidade e transgredir todas as limitações de uma mulher transnacional e translacional.
As definições de casa feitas por Esperanza não têm fronteiras definidas, uma vez que a mesma não delimita a diferença semântica entre casa e lar, house/home. Em toda a narrativa, significante e significado não são capazes de serem decodificados propriamente, pois Esperanza está procurando por uma casa/lar, ou um lugar a qual ela pertença e sinta-se confortável. Escapismo das limitações de raça e origens étnicas são o tempo todo rejeitadas pela metáfora da casa. Ela sabe que sua identidade e a casa que pertence são uma única entidade, indicando uma perspectiva de pobreza e vergonha. Mango Street e suas casas são os símbolos do universo do narrador e da representação de seu “eu”. De fato, Esperanza critica sua casa dilapidada e seu “eu”, apontando para os dilemas de sua existência como um ser híbrido e globalizado.
Em “Mericans”, Cisneros articula o binômio nação/espaço pelo apagamento evidente das fronteiras e a não determinação do lugar do Outro. Protagonizando o conto, encontramos um casal de irmãos com funções bem determinadas pela sociedade patriarcal na qual estão imersos. Tarefas e costumes são bem determinados e a ex-centricidade é trazida à tona pelo simples fato do narrador delimitar seu espaço de exclusão. Brincadeiras inocentes de criança são determinadas pelo sexo e não pela idade, pelo fato de que a carga semântica atribuída ao vocábulo “girl” ser totalmente negativa. Ser uma “girl” é sinônimo de inferioridade e de ocupar um lugar ex-cêntrico. No final do conto, a autora ironiza o fato de que seus protagonistas falam não só sua língua de identidade, como também, o inglês, rotulando-se Mericans. Fica evidente o processo de apagamento das fronteiras geográficas e a própria politização destas através das questões étnicas e nacionais colocadas em xeque por Cisneros.
Questões de raça e etnia estão diretamente relacionadas à politização das fronteiras geográficas. Viver em um mundo politizado é o que determina nossa identidade, raça e origem étnica. É fácil criar e estabelecer rótulos para classificar o “outro”. O que não é fácil, politicamente falando, é aceitar a diversidade e a diferença. Sandra Cisneros em The House on Mango Street e “Mericans” subverte os paradigmas dos conceitos aqui apresentados e trabalha coerentemente com os dilemas de existência do “outro” como sujeito, porque o “eu” só existe em oposição ao “outro”.
Referência bibliográfica:
ANZALDÚA, G., ed. Making Faces, Making Soul/Haciendo Caras. San Francisco, Aunt Lute Books, 1990.
BHABHA, H. K., ed. Nation and Narration. London, Routledge, 1995.
CISNEROS, S. The House on Mango Street. New York, Vintage, 1994.
_____. “Mericans”. In: Woman Hollering Creek. New York, Vintage, 1994.
CURRIE, M. Postmodern Narrative Theory. New York, St. Martin’s Press, INC., 1998.
OLIVARES, J. “Sandra Cisneros’ The House on Mango Street, and the Poetics of Space”. In: HERRERA-SOBEK, M. and VIRAMONTES, H. M., eds. Chicana Creativity and Criticism. Albuquerque, Univesity of New Mexico Press, 1996.
QUINTANA, A. E., Home Girls: Chicana Literary Voices. Philadelphia, Temple University Press, 1996.