Do real à ficção: representações literárias do episódio de Laguna pelo Visconde de Taunay
Norma WIMMER
IBILCE – UNESP –CSJRPRETO-SP
No final de 1864, o governo imperial declara guerra à República do Paraguai. As ofensivas militares brasileiras serão desenvolvidas em duas frentes: a oriental, na região fronteira de Mato Grosso e a ocidental, no Sul do Império. Em 1865 chega ao porto de Santos parte das forças com destino às operações no Mato Grosso; integrando a Comissão de Engenheiros, segue o Tenente Alfredo d’Escragnolle Taunay.
Em suas Memórias relata Taunay ter-se entusiasmado, por ocasião de sua partida, com o Brasil imenso que se abriria a seus passos e com a idéia de fazer “coleções de minerais preciosos, ou então de descobrir se não um gênero novo de planta, pelo menos uma espécie ainda não estudada – sonhos, enfim, de mocidade, em que havia bastante de pedantismo”.[1]
Se tal não ocorreu, a experiência de guerra acabou revelando Taunay como escritor; neste sentido, a campanha de Mato Grosso exerceu uma influência decisiva sobre sua carreira literária, remetendo àquele evento histórico várias narrativas de cunho militar, além de impressões de viagem, La Retraite de Laguna e alguns contos, entre eles Juca, o Tropeiro.
Durante a campanha de Mato Grosso, entre 1865 e 1867, Taunay foi designado redator do Relatório Geral da Comissão de Engenheiros, que deveria ser enviado mensalmente à Corte. A responsabilidade desta Comissão era a de “estudar o rumo das estradas a percorrer, a direção das montanhas (...), fazer observações mineralógicas e botânicas (...) oferecer indicações sobre a corrente das águas”. [2]
A experiência da campanha na frente oriental é narrada por Taunay em discursos diversos: o referencial e pragmático dos relatórios oficiais reunidos sob forma de diário em A Marcha das forças (do Rio de Janeiro ao Coxim); o épico de La Retraite de Laguna; o poético da obra de ficção, de Juca, o tropeiro, por exemplo, e o emotivo, das Memórias.
Em A Marcha das forças destaca-se o estilo preciso e conciso do “secretário-engenheiro-militar” em suas informações acerca da topografia, flora e fauna, riquezas, minerais, culturais e da movimentação para a frente de batalha. São freqüentes, neste texto, alusões aos viajantes Spix, Martius, Agassiz, Phol, Léry, Saint-Hilaire – e considerações acerca de seu trabalho. Grande admirador de suas pesquisas, Taunay exalta-lhes a existência “tão bem preenchida, tão plácida em suas honestas agitações, tão proveitosa e singela”[3] .Seguindo seu exemplo informa ter, por ocasião da permanência em Mato Grosso, herborizado sem método nem programa, desenhado e imprensado flores, ocupando, “de modo agradável muitas horas lentas”.[4] As observações redigidas diariamente refletem rigor científico. Exemplares são as descrições de buritis, espécie de palmeiras muito apreciadas por Taunay:
“A folhagem verde-escura da “mauritia” abre-se como um leque, sustentado por longos pecíolos alveolados e no topo de um estípite tão liso e pardacento claro no qual se notam os traços paralelos formados pela queda das voltas semi-amplexicaules da base dos pecíolos. Ao lado daquela formosa monocotiledônea, a macaubeira (acromia sclerocarpa) parece acanhada e fica completamente ofuscada ... [5]
Muito precisas também são as informações acerca do movimento da força expedicionária, das localidades percorridas e das atividades exercidas. Neste sentido, os relatórios fornecerão subsídios aos demais textos referentes à campanha do Mato Grosso podendo ser considerados como subsídios para a sua escrita.
La Retraite de Laguna representa uma segunda fase da escrita dos episódios da campanha. Redigida por ocasião do retorno do autor ao Rio de Janeiro, constitui a retomada, em francês, de partes dos relatórios, com o objetivo de exaltar o soldado, o exército, a monarquia, finalmente, a nação brasileira. Dirigida ao público europeu e às elites brasileiras a obra apresenta uma espécie de quadro de episódios da guerra contra o Paraguai, à maneira da “pintura de história” objetivando enfatizar a “gesta bellica”. São, portanto, ali retratados e épica e impessoalmente exaltados, os comandantes, generais, grandes feitos e grandes perdas, sob a perspectiva e patrocínio do Poder. O destino do herói coletivo – os três mil soldados “voluntários da pátria” é equiparado pelo Secretário-Oficial do Comando Superior àquele dos militares dos grandes acontecimentos bélicos da história ocidental (a Retirada dos Dez Mil, a de Moscou e outras); e o destino coletivo trágico é evocado como modelo de virtude patriótica.
Juca, o tropeiro compõe, com Ierecê a guaná, Camiran, a quiniquinao, O vigário das Dores, as Histórias Brasileiras, publicadas em 1874. Os quatro contos remetem à experiência do Mato Grosso, notadamente ao convívio do autor com a natureza e com o homem do sertão. Em Juca, o tropeiro, Taunay retoma o episódio da Laguna dele apresentando a versão do soldado. Esclarece, na introdução ao conto, pertencer a narrativa antes a um ex-sargento de voluntários de Minas que teria conhecido de perto, do que à sua autoria e informa ter retirado da história incidentes por demais longos, inúmeros termos familiares, sobretudo locuções chulas e sertanejas, tentando manter, no entanto, a originalidade, a ingenuidade e a poesia de sua linguagem. Como em Inocência, o autor introduz no texto alguns vocábulos, escolhidos, do falar regional. O conto é dividido em quatro partes: as duas primeiras referem-se à paixão de Juca por Babita e à convocação para a guerra; a terceira trata do episódio da Laguna e a quarta constitui o epílogo.
Ao tratar do episódio da Laguna, o narrador resume a épica “retraite” e reconta os tormentos inflingidos aos expedicionários desde a partida de Miranda até a chegada à Invernada de Laguna; depois, os horrores da retirada: a fome, a cólera e a morte de soldados, oficiais, do guia Lopes e de seu filho, o abandono dos doentes, o fogo ateado pelo inimigo. O narrador modaliza seu discurso e a fala das personagens, sem, no entanto modificar a perspectiva do discurso oficial. Assim, por exemplo, a ordem do dia dando por encerrada a campanha, e que solenemente finaliza a Retraite de Laguna é redita, em outro tom, pelo narrador de Juca, o tropeiro:
O Major José Thomaz, que tinha tomado o comando, disse numa ordem do dia que os inimigos estavam anarquizados com a nossa retirada, que os batalhões tinham feito maravilha e que a história havia de falar nos soldados de Mato Grosso e um bando mais de cousas”.[6]
O próprio Juca, o herói individual, terminada a campanha, interpreta também o pensamento oficial: - Olhe, gente custou caro este recado, mas afinal chegou”.[7]
Trata-se, portanto, de uma perspectiva semelhante a da Retirada de Laguna em relação à história, modalizada, porém, por uma variação do discurso.
Proclamada a República em 1899, Taunay passa a dedicar-se apenas à literatura e à redação de suas memórias. Estas foram confiadas à Arca do Sigilo do Instituto Histórico e Geográfico com a condição de não serem entregues à publicidade antes de 1943, completos cem anos da data de nascimento do autor e cinqüenta de 1893, ano em que foram guardadas. A razão para tal procedimento parece ter sido o desejo de garantir, através do distanciamento no tempo, que as pessoas citadas no texto não mais pudessem ser atingidas. Nas Memórias o autor procura resgatar o passado na qualidade de testemunha de uma fase da história do Brasil, numa espécie de apelo nostálgico por um tempo definitivamente encerrado.
Rememorando a Campanha do Mato Grosso, o autor narra os acontecimentos passados de uma maneira muito pessoal: a melancolia decorrente da nova ordem de valores, a grande redução da fortuna pessoal no final da vida devido aos golpes do Encilhamento – parecem ter contribuído para que, nas Memórias fossem insinuadas ou mesmo expressas “verdades” e julgamentos inexistentes na Retraite de Laguna. Os heróis épicos são agora “pobres expedicionários”, “infelizes vítimas”; as estratégias militares comparadas aos grandes feitos da história ocidental, apresentadas como “planos mal concebidos” e a ação de guerra julgada “pessimamente executada”. As Memórias retomam, assim, o episódio da Laguna revestindo-o de forte carga emotiva, e remetendo-o a reflexões acerca do entrecruzamento da História do Brasil e da vida do autor, no momento em que se encerrava o longo período da monarquia.
Neste sentido seria possível afirmar que não ocorrem, nos textos referentes ao episódio da Laguna de autoria de Taunay, deslocamentos de perspectiva, mas sim uma mudança de linguagem e de estilo, enfatizando, todos, os valores da monarquia e de seu exército enquanto legítimas instituições nacionais.
TAUNAY, A. d’Escragnolle. A Marcha das Forças. São Paulo: Melhoramentos, s/d.
______. Histórias brasileiras. Rio de Janeiro: Garnier, 1874
______. Memórias. São Paulo: Melhoramentos, s/d