Primavera con una esquina rota de Mario Benedetti e o exílio de cada um
Neiva Fernandes - UNIJUÍ[1]
A obra do escritor uruguaio Mario Benedetti se caracteriza por uma literatura voltada para a problemática do exílio. Esta é uma das marcas do autor que está presente na voz de suas personagens e quando não dele mesmo inserido no texto, como por exemplo, em Primavera con una esquina rota (2001). A presença marcante desse tema na literatura revela que, embora os regimes autoritários tenham acabado, a conseqüência de tais ditaduras, especialmente na América Hispânica, se manifesta através da palavra escrita até os dias de hoje. Poderia arriscar e afirmar que o exílio é, em suma, um dos destaques dessa produção e inegavelmente tema amplamente estudado pelos críticos, sociólogos e escritores, entre outros. Ela tem-se mostrado pródiga na representação do exílio como fenômeno social convulsivo que marcou profundamente o século XX .
O exílio é uma dor sem par. Não há para ele algo semelhante que se aproxime do terrível processo de separação do conhecido e tampouco o veja como um fator positivo na formação do ser humano, ao contrário, o afastamento produz a sensação de desarraigo e desapego involuntário, embora se reconheça a escolha de algumas pessoas pelo isolamento. No entanto, não é desse que me proponho a tratar. Prefiro falar do outro, o que leva o sujeito a sair de si próprio para tentar, na melhor das hipóteses, conviver com a nova realidade e torná-la menos traumática possível.
A primeira noção que se tem do exílio remonta à expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Originário do latim exilium, o termo corresponde a quem está fora, que foi banido, expulso e remete à descontinuidade, ao rompimento e às perdas inesperadas. Exílio é uma palavra cruel, incompreensível para quem não o vivencia, romântico para quem o lê na literatura universal, distante para quem não sofreu na carne a dor da separação. Suportável apenas no gasto de cada dia, na passagem da luz para a noite, no amanhecer prenúncio de uma esperança que não se concretiza, a cada sono dormido, a cada carta lida, a cada notícia da terra pátria. O exílio é desterro renovado a cada momento de solidão.
Edward Said, no seu ultimo livro, “Reflexões sobre o exílio” (2003),[2] aborda o tema sob o olhar da compaixão em relação ao exilado. Nele, o autor tece uma reflexão acusadora e indignada a respeito desse fenômeno social cujas conseqüências acabam jogando com o ser humano, impedindo-o de ter o domínio de si.
Said afirma que o exílio é “uma fratura incurável entre um ser humano e um lugar natal, entre o eu e seu verdadeiro lar” (p.46). A compaixão do comparatista refere-se a uma literatura cujo teor relaciona-se “a fatos heróicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação “(op. cit).
Não obstante esta aborde este tema de forma magistral e quase sempre decorrente da própria condição de exilado de quem a escreveu, Said nega que o exílio sirva ao humanismo como representação estética que possa ser admirada e encarada como apenas um outro tipo de literatura. Segundo ele, se ela não servir para a reflexão profunda a respeito do fenômeno em si, essa literatura deixa de alcançar o seu objetivo maior que é levar as pessoas a pensar sobre a questão de forma consciente e comprometida advindo daí, uma posição atuante dentro da sociedade.
Esse breve esboço serve para ilustrar as palavras de Mario Benedetti ao referir-se à necessidade de um dia pensar-se o exílio como olhar da reafirmação do homem enquanto sujeito: “Algún dia los especialistas tendrán que abordar en el marco de la sociología del exilio, el tema de la diáspora y su costo social. (...) a escala latinoamericana debería considerar los problemas que la diáspora ha generado y genera en el ámbito familiar, en la vida de la pareja, en la relación de padres e hijos”(p. 133)[3]. Nestas palavras encontra-se a justificativa para Primavera con una esquina rota escrito em Palma de Mallorca durante o exílio do autor nos anos 80. A história conta a vida de uma família classe média e intelectualizada que se vê obrigada a exilar-se porque o pai, Santiago, acaba envolvendo-se com a militância de esquerda e vai para a prisão cujo nome ironicamente, é Libertad.
O autor organizou os capítulos de forma que em cada um deles se ouça a voz das personagens envolvidas. Nesse sentido, a história se desenrola dentro do plano interior, sucedendo-se os estados de ânimo com predominância de melancolia originada no banimento e expressa através da linguagem do cotidiano, mas que não deixa de ser solitária. O autor exila as personagens dentro dos capítulos cabendo ao leitor aproximá-los entre si como uma forma possível de resgatá-los do desterro em que se encontram. Santiago, aprisionado e torturado, escreve cartas à sua família que foi viver em outro país caracterizando-se desse modo como o exilado de dentro pela ação do Estado repressor. Beatriz, filha de seis anos do casal, elabora através de monólogos com sua boneca o luto da separação do pai; Graciela, a esposa, reflete a respeito da solidão gerada pelo afastamento do marido; Orlando, o amigo da família vê em Graciela a oportunidade de refazer a vida a seu lado, e por fim, don Rafael pai de Santiago cuja experiência de vida o leva a considerar o exílio como uma experiência positiva da qual se deve tirar o máximo de proveito.
O texto de Said aponta para a vivência do exílio como um fato insuportável que “não é compreensível nem do ponto de vista estético, nem do ponto de vista humanístico”, cabendo ao exilado a árdua tarefa de nele viver no descompasso do cotidiano, tarefa esta que as personagens de Benedetti reafirmam dia após dia juntando os pedaços de si entre os destroços do lar desfeito.
Decididamente, o exílio visto sob o olhar romântico do leitor não se encaixa em nenhum dos autores mencionados e como conclui Said recorrendo ao texto de Wallace Stevens, “o exílio é uma mente de inverno em que o páthos do verão e do outono, assim como o potencial da primavera, estão por certo inatingíveis.”