Haroldo de Campos: discussão teórica acerca de

dependência cultural e prática comparatista

 

 

Mitizi Gomes*

 

 

Desenraizada e cosmopolita, a literatura hispano-americana é regresso à procura de uma tradição. Ao procurá-la, a inventa.

Octavio Paz (Puertas al Campo)

 

Refletir criticamente acerca da produção de Haroldo de Campos requer estudo aprofundado sobre literatura comparada, pois a postura que teórico assume em relação a questões que envolvem a trajetória da crítica literária brasileira está calcada em teorias comparatistas. Dessa forma, ao discutir aspectos importantes, como os conceitos de fonte e influência (já tratados por Antonio Candido), Haroldo de Campos aborda a situação da literatura brasileira frente à literatura de outros países. Nessa discussão, muito se fala sobre dependência cultural e econômica, sendo que, para dialogar com ele, somam-se outros críticos como Silviano Santiago e Roberto Schwarz.

Evidentemente que ao resgatar tal discussão não podemos deixar de falar sobre a relação existente entre o pensamento de Antonio Candido e a polêmica aludida, pois, para Sandra Nitrini, este é o ponto de referência comum a todos […], seja para contestá-lo, seja para concordar em parte, seja para inserir-se na sua tradição, de modo que ele se encontra no centro desse diálogo[1].

Em tal contexto, Haroldo de Campos está na posição de contestador das idéias de Antonio Candido, que, ao executar o projeto de Formação  da Literatura Brasileira, exclui o estudo do Barroco e inicia a história literária brasileira a partir do Arcadismo. A explicação dada por Candido está embasada no conceito de literatura como sistema, no qual os escritores têm consciência de sua atividade e da tradição que é formada por esse conjunto de elementos, os quais se somam a um público e a um veículo transmissor (tríade: autor-obra-público). O sistema[2] pressupõe uma interação entre os elementos, sendo que, a inexistência de um o invalida, e, mesmo existindo obras de valor, a falta as transforma em manifestações isoladas (é o caso de alguns escritores importantes do Barroco que não contribuíram literariamente para o sistema).

Haroldo de Campos acredita que esse projeto de composição da literatura nacional é falho, bem como a rotulação da literatura brasileira como braço da portuguesa é problemático[3]. Ao caracterizar a produção nacional dessa forma, os antigos conceitos usados na literatura comparada de fonte e influência se fazem presentes e estabelecem uma relação hierárquica entre as culturas. Porém, se a relação entre as culturas é inevitável, as novas vertentes da literatura comparada afirmam que pode a cultura considerada inferior utilizar-se da outra para a reescritura.

Silviano Santiago[4] argumenta que a cultura inferiorizada pode extrapolar àquela que é seu modelo e construir, a partir dela, algo original; e a que serviu de modelo pode rever-se em contraste com a outra. Dessa forma, os princípios derridianos ditam as regras para a desierarquização das produções culturais, e a literatura comparada encarrega-se de mostrar as relações existentes entre elas e como a reescritura propicia o surgimento do novo. Corroborando este pensamento, Haroldo de Campos discute em Original e revolucionário[5] o conceito de intertextualidade, o qual exclui, definitivamente, os de fonte e influência (empréstimo e imitação) usados por Paul Van Tieghem[6]. Tais conceitos são taxados de preconceituosos à medida que buscam verdades e elementos hierarquizadores.

Ainda para Silviano[7], o discurso latino-americano é contaminado pelo discurso europeu e, portanto, não pode ser considerado uma escrita pura; porém, não devemos encarar a cultura americana como uma simples cópia, uma vez que a assimilação feita pelo escritor é consciente e questionadora da verdade instituída. E vai além, porque também questiona a dependência cultural da América, afirmando que a dominação deu-se de forma violenta e arbitrária. Para o crítico, a conquista de um espaço da cultura ocidental pela América Latina deve-se ao fato de ela ter desviado-se da norma, destruindo conceitos importados.

Baseado em teorias filosóficas de Engels, Haroldo de Campos afirma haver a possibilidade de uma literatura de vanguarda em um país subdesenvolvido economicamente, pois sustenta a hipótese de que a literatura passa por um processo complexo de transmissão do legado cultural, e que, portanto, não deve ser analisada de forma simplista. Diante disso, conclui que não há literatura subdesenvolvida; subdesenvolvimento pertence à economia. Tal idéia nasce de Octávio Paz, que analisa a visão tradicional e academicista de subdesenvolvimento literário[8].

O fato de uma literatura apropriar-se de outras para existir é tratado como um movimento natural, visto que o cruzamento de discursos é inevitável e salutar. Para tanto, Haroldo de Campos traz à discussão a Antropofagia oswaldiana, que faz pensar o nacional relacionado dialógica e dialeticamente com o universal. Nessa relação, não há um processo de submissão, mas de transvaloração.

 

A “Antropofagia” oswaldiana […] é o pensamento da devoração crítica do legado cultural universal, elaborado não a partir da perspectiva submissa e reconciliada do “bom selvagem” […], mas segundo o ponto de vista desabusado do “mau selvagem”, devorador de brancos, antropófago. Ela não envolve uma submissão (uma catequese), mas uma transculturação: melhor ainda, uma “transvaloração” […][9]

 

A transvaloração propicia o aparecimento do novo e transgride a literatura monológica. Para Campos, escrever só é possível através da reescritura, pois a literatura não pode fechar-se em si mesma. Nesse contexto, a literatura latino-americana nunca será tributária à européia, visto que o movimento de apropriação (transvaloração) é algo natural a qualquer produção. Transpondo para conceitos de literatura comparada, o autor apropria-se do discurso do outro e reescreve-o, criando um novo. Este novo só é possível porque o diálogo com o mundo que o cerca é inevitável, considerando-se que a obra está inserida em um contexto cultural que a constitui e que também é constituído por ela. É na percepção desses elementos que vamos construir a intertextualidade, tão cara à prática comparatista.

Muitos são os pontos discutidos por Haroldo de Campos acerca da problemática das literaturas brasileira e latino-americana, porém, um aspecto referente ao objeto literário defendido por ele é a capacidade de recriação - característica de produções pertencentes a sociedades economicamente dependentes -, muitas vezes a partir da própria tradição. Grosso modo, do ponto de vista comparatista, qualquer literatura nacional é composta por diferentes leituras realizadas, o que parece uma assertiva por demais óbvia para se discutir uma produção cultural dependente.



* Doutoranda em Literatura Comparada / UFRGS

[1] NITRINI, Sandra, Literatura comparada: história, teoria e crítica. São Paulo: EDUSP, 2000, p. 211.

[2] CANDIDO, Antonio. “Literatura como sistema”. In: _______. Formação da Literatura Brasileira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1981, p. 24.

[3] CAMPOS, Haroldo de. O seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o caso Gregório de Mattos. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1989.

[4] SANTIAGO, Silviano. “Apesar de dependente, universal”. In: _______. Vale quanto pesa. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 13-24.

[5] CAMPOS, Haroldo de. Original e revolucionário. <www.secrel.com.br/jpoesia/har01.html> Acessado em 26/12/2002.

[6] TIEGHEM, Paul Van. “Crítica literária, história literária, literatura comparada”. In: COUTINHO, Eduardo e CARVALHAL, Tania Franco. Literatura comparada: textos fundadores. Rio de Janeiro: Rocco, 1994, p. 93.

[7] SANTIAGO, Silviano. “O entre-lugar do discurso latino-americano”. In: _____. Uma literatura nos trópicos. São Paulo: Perspectiva, 1978, p. 11-28.

[8] CAMPOS, Haroldo. “Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira”. Boletim bibliográfico. São Paulo, jan.-dez. 1983, v.44, n. 1/4, p. 108.

[9] Idem, p. 109.